Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de dezembro 2007

Retrô

30 de dezembro de 2007 2

Minha idéia era fazer como os meus amigos do blog Primeira Fila, que pediram aos colegas umas listas dos 10 filmes do ano com uma breve justificativa e as publicaram do jeito que as receberam, como vocês podem ver no blog deles, endereço ao lado.

Mas como meu cacife é menor que o de meus companheiros, recebi de volta só UMA resposta a contento, e duas outras que… uma não era definitiva e outra só tinha oito livros. Como a resposta do Gabriel Brust é o único texto autônomo, vou publicá-la aqui. Mais tarde, coloco no ar a minha retrospectiva-monstro com os 50 livros de 2007. Abraços.

Retrospectiva, por Gabriel Brust
Quando o Moreira pediu ao pessoal aqui do Segundo Caderno que indicasse os 10 livros de 2007 que a gente mais gostou, minha resposta imediata – e de outros colegas também – foi de que possivelmente nenhum de nós tivesse lido 10 lançamentos. Quem não é setorista de livros – como o Moreira – acaba priorizando a %22lição de casa%22, os clássicos ou coisas não tão clássicas mas que devem ser lidas antes. Apesar disso, dei uma mexida nos arquivos cerebrais e me dei conta de que li mais coisas novas do que eu imaginava. Seguem aí 10 leituras que me chamaram a atenção neste ano e que foram além da %22lição de casa%22. Alerto de antemão que foi um ano em que me dediquei a textos curtos, contos, ensaios, mas, principalmente, crônicas _ esse gênero vagabundo que cada vez menos gente se interessa, mas que eu gosto muito.

De Veludo Cotelê e Jeans, de David Sedaris
Conjunto de crônicas autobiográficas do humorista norte-americano. Mostra um aspecto bastante humano da vida familiar na América, além da visão peculiar de um homossexual sobre o mundo. É para ser engraçado, mas às vezes soa extremamente melancólico.

Cartas a um Jovem Contestador, de Christopher Hitchens
Acho que a idéia do Moreira era priorizar a ficção [resposta do Moreira: não era, valia tudo], mas eu seria injusto se deixasse Hitchens de fora da lista. Foi o autor que mais me impressionou em 2007, embora a entrevista que fiz com ele não tenha rendido tanto. O livro traz conselhos, em forma de cartas a um aluno imaginário, para quem pretende ser um pensador livre.

Amor, Pobreza e Guerra, de Christopher Hitchens
Eu disse que foi o meu autor preferido de 2007, então aí vai um segundo. O livro é uma compilação de ensaios e artigos do britânico, muito bem escritos, mesmo que não se concorde com suas posições um tanto radicais sobre política e  literatura.

Cuca Fundida, de Woody Allen
Sei que esse não tem nada de novo, mas desde o Que Loucura!, que li há alguns anos, eu queria ler mais Woody Allen. E esse ano caiu outro dele no meu colo. Além de fazer rir muito, o que mais chama a atenção é um personagem IDÊNTICO ao Ed Mort, de Luis Fernando Verissimo. Inclusive fazendo as mesmas piadas. Ok, eu sei que todo mundo já sabia que o Verissimo bebia ali na fonte, mas eu confesso que não esperava algo tão parecido.

Antes do Túnel (Uma História Pessoal do Bom Fim), de Juremir Machado da Silva
Comprei este na Feira do Livro. Fui aluno e orientando do Juremir Machado da Silva e gosto muito do estilo dele, seja como cronista, seja como romancista. Neste caso, ele fundiu dois formatos: romance com tes acadêmica. A tese é A Miséria do Cotidiano, antropológica, sobre o Bom Fim, publicada nos anos 1990. Neste livro, ele agrega ao trabalho acadêmico as suas memórias sobre o bairro e o amigo Ricardo Carle.

Em Busca do Borogodó Perdido, de Joaquim Ferreira dos Santos
Pouca gente conhece ele aqui no Estado, mas trata-se do maior cronista brasileiro da atualidade. Sempre gostei da coluna Gente Boa, que ele assina no O Globo, que traz notinhas sobre o cotidiano do Rio. Mas não costumava ler as crônicas mais longas, semanais. Em julho, participei de uma oficina ministrada por ele na Festa Literária Internacional de Paraty e pude conhecer melhor Joaquim e seu texto. O estilo do cara é impressionante, algo muito diferente da sobriedade que marca a crônica no Brasil. Joaquim experimenta o tempo todo, pensando sempre na forma. O resultado é uma crônica sonora, quase cantada ou rimada. A contrário da maioria dos cronistas, Joaquim com freqüência vai a campo. No Em Busca do Borogodó Perdido é possível ler, por exemplo, uma hilária descrição da festa de aniversário de Vera Fischer ou da uma entrevista a Marília Gabriela. Imperdível.

A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues
Outra coisa que eu fui descobrir imperdoavelmente apenas em 2007. Não Nelson Rodrigues, mas as crônicas dele. Chama a atenção o tamanho longo dos textos, contrariando a tese de que crônica deve ser curta. De resto, não há muito o que dizer. São geniais.

O Segundo Tempo, de Michel Laub
Outro sobre o qual não falarei muito, já que está na lista dos melhores do ano de todo mundo. Muito bem escrito.

De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo, Arthur Dapieve
Os méritos do romance não estão na técnica ou no estilo. É uma escrita convencional. Nem na história, mais convencional ainda, sobre um quarentão que se apaixona por uma adolescente. As referências ao mundo pop de então – citando REM o tempo todo – completariam a fórmula para um péssimo livro. O desafio é descobrir porque o livro é tão bom, apesar disso tudo. Provavelmente a contemporaneidade e a verossimilhança são elementos importantes, mas ainda não consegui descobrir exatamente porque gostei tanto.

Gran Cabaret Demenzial, de Veronica Stigger
Em princípio, o livro parece uma besteira completa. Aos poucos, revela que realmente é. Mas apenas se você encará-lo sob uma perspectiva tradicional. O livro é uma colagem de experimentos. Difícil dizer se é literatura. Mas é arte, sem dúvida.

Postado por Carlos André Moreira

A Cinza das Horas

28 de dezembro de 2007 0


Essa eu estava devendo havia algum tempo, e devido à correria de fim de ano eu vou continuar devendo. Mais ou menos. Lá por outubro foi publicado As Horas Podres, na verdade um relançamento da novela de mesmo nome publicada 10 anos atrás pelo jornalista e crítico literário de Veja Jerônimo Teixeira. Na sua primeira encarnação, na década passada, pela Artes & Ofícios, o livro teve mais repercussão aqui do que além-Mampituba. Com a novela, Jerônimo chegou a receber o Açorianos de Revelação Literária.

Agora o livro foi relançado pela Bertrand Brasil, e Jerônimo veio a Porto Alegre para relançá-lo na Feira. E como hoje Jerônimo não é mais apenas a polêmica figura regional que escrevia sobre literatura em Zero Hora em 1997 e sim um polêmico crítico de abrangência nacional, talvez esta segunda encarnação de sua obra tenha maior ressonância. Portanto, divido com vocês, abaixo, o texto publicado na época do lançamento original do livro. Saiu em 23 de outubro de 1997, assinado pelo à época editor do caderno de Cultura, Luiz Antônio Araújo, hoje editor de Política em ZH. Eu, embora vocês não tenham perguntado, já trabalhava aqui na Zero Hora havia um ano, e justamente nessa época estava saindo da equipe do Caderno Vestibular para ingressar na reportagem policial, e falo isso apenas para dar um exemplo da dança das cadeiras que costuma reger as redações. Vai lá:

Sobre a arte de apagar lâmpadas
Jerônimo Teixeira lança %22As Horas Podres%22
LUIZ ANTÔNIO ARAUJO

 Qualquer semelhança entre a Estância Velha de As Horas Podres, novela de Jerônimo Teixeira, e o município situado a 50 quilômetros de Porto Alegre não é mera coincidência. O chavão pode ajudar a evitar mal-entendidos. O autor esteve lá. A cidade foi cenário de uma parte de sua infância. Quando discorre sobre o cheiro nauseabundo da indústria coureira, as marchas das bandinhas de kerb, os bares e os cemitérios, Teixeira está escrevendo sobre o que conhece, como aconselhava Ernest Hemingway. De resto, As Horas Podres é uma novela sobre Estância Velha na mesma medida em que O Sol Também se Levanta é um romance sobre Paris, Pamplona e Madri – a medida do espírito do leitor.
A novela é a história de dois crimes. Numa sala, sobrinho e tio confrontam-se num duelo de culpas. Um narrador anônimo faz um inventário de seu passado por meio de recordações que se revelarão terríveis. Os personagens agem e se dissolvem na neblina e nas trevas. A escuridão avança no compasso da narrativa e ajuda a delinear a verdade escondida pelas luminárias e pelo dia. %22O mundo vive sob a brutalidade do sol. O dever do escritor é apagar lâmpadas%22, diz uma das criaturas. A falência da visão é corroborada pela prontidão do olfato – o odor fétido, %22entre o ovo estragado e a carniça%22, lembra a existência das coisas que a vista não alcança.
Um diálogo e um monólogo, entretecidos pelo pano de fundo comum da cidade e das sombras, compõem a estrutura da obra. A conversa na sala escura alterna momentos de alto teor dramático com ironias e citações. O diálogo coloquial é considerado por escritores como Gabriel García Márquez uma forma narrativa difícil e perigosa fora da língua inglesa. Em As Horas Podres, o recurso aparece como ponto forte, sem cair na afetação ou no prosaico.
As Horas Podres é o primeiro livro individual de Teixeira no terreno da ficção. Antes, ele havia publicado contos no oitavo volume da coletânea da Oficina Literária do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil e na seleção Amigos Secretos (1995), da Artes e Ofícios. Sua monografia de conclusão do curso de Jornalismo na UFRGS, O Liquidificador de Acarajés, também foi publicada em coletânea pela Editora da Universidade.
Gaúcho de Montenegro, 28 anos, jornalista e mestrando do Curso de Pós-graduação em Letras da PUCRS, Teixeira fez da novela que lança hoje pela Artes e Ofícios um primeiro acerto de contas com suas origens e com a própria literatura. Ao longo da obra, ele se assume como tributário de James Joyce, Julio Cortázar, Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Dyonelio Machado. As 112 páginas de As Horas Podres provam que, para além da angústia da influência, Jerônimo Teixeira tem luz própria.

Postado por Carlos André Moreira

Tradução e Reação - 6

28 de dezembro de 2007 1

Como não tivemos semana passada nossa atrasada brincadeira comparativa entre traduções de uma mesma obra, vou compensar esta semana com uma edição especial de ano novo abordando duas obras em vez de uma. Na primeira, hoje, voltamos agora a um idioma com o qual já trabalhamos, mas em uma forma na qual ainda não havíamos nos detido: o texto teatral. Na segunda, que devo atualizar hoje, senão domingo, sigo aproveitando o mote da literatura policial que iniciei alguns posts atrás. Mas não nos apressemos.

Quando Edmond Rostand encenou Cyrano de Bergerac pela primeira vez, em 1897, obteve sucesso imediato com a história, e o segredo pode ser resumido em apenas duas palavras: romantismo e fantasia. Na contramão do drama francês do período ou da tradição trágica do país, a obra se amparava em um personagem carismático e romântico. Em lugar da lama das grandes paixões, um romantismo amoroso que via na poesia a expressão máxima – e ao mesmo tempo o artifício mais enganador, já que a bela persoangem Roxanne se apaixona pelas palavras do feio e narigudo Cyrano, mas adequadas ao belo aspecto do colega de regimento estúpido. Há também o aspecto histórico. A França ainda se recuperava da Guerra Franco-Prussiana de 1870, que resultou na perda da região de Alsácia-Lorena. Cyrano era, portanto, um personagem que, mesmo na pobreza, acossado por dívidas, desaprovado pela chamada boa sociedade, ainda tinha a sagacidade de um satirista e a espada de um herói, “mantinha o seu penacho”, como o próprio diz. Uma atitude que obviamente cairia no gosto das platéias, sendo até hoje uma das peças mais montadas na França e fora dela — a última adaptação cinematográfica de vulto foi a estrelada por Gerard Depardieu nos anos 1990 (e cujo pôster ilustar esta página), mas até uma versão modernizada com Steve Martin e Daryl Hannah foi feita nos anos 1980. Ah, sim, e provavelmente também o sucesso se deva ao fato de a peça ser ótima tanto em termos de enredo quanto de qualidade literária. Imagino que a essa altura vocês estejam familiarizados com a história: O bravo Cyrano, dotado de um nariz descomunal, é apaixonado pela prima, Roxana, que, por sua vez, sem saber, pede ao próprio Cyrano que a aproxime do cadete Cristiano, recém-chegado colega de regimento do protagonista. Cyrano, embora desolado, assume a incumbência de aproximar os dois. Mas como Cristiano é um sujeito bonito porém imbecil, é Cyrano quem escreve para Roxana as cartas que ela pensa ser do jovem oficial.

A peça foi composta em versos que rimam em parelhas, com métrica dodecassílaba. Cyrano sempre foi considerado um dos papéis mais difíceis da dramaturgia francesa devido à grande extensão de suas falas. Ele está em cena em 90% do tempo e tem para si 1600 versos, um recorde. É inevitável pensar em todas essas especificidades ao examinar as duas traduções que veremos agora – e que são tão dessemelhantes que em vários momentos parecem duas peças diferentes. A primeira, de 1985, é da José Olympio Editora, com tradução livre de Ferreira Gullar, feita a pedido do diretor teatral Flávio Rangel para uma montagem específica – a imagem da capa é o Antônio Fagundes caracterizado como o personagem. Esse exemplar foi comprado em 1996, por aí, no sebo Beco dos Livros. E conta com a vantagem, que não tivemos até agora na série Tradução e Reação, de trazer um breve texto do tradutor sobre seu trabalho. Gullar escreve, por exemplo:

…Tudo isso decorre da atitude básica que tomei diante da tarefa que me foi solicitada por Flávio Rangel: realizar uma tradução que funcione teatralmente. Seria impossível conseguir esse resultado se me dispusesse a traduzir ipsis literis o texto de Rostand. De fato, a leitura atenta do original francês revela que muitas das falas surgiram, na forma em que estão, por necessidade de adequar-se o autor ao sistema de métrica e rima que escolhera. A peça escrita em prosa teria certamente diálogos bem diversos na maioria das situações vidias pelos personagens. Não seria, portanto, aconselhável, ao fazer a tradução – tendo que enfrentar em português dificuldades semelhantes às que o autor enfrentou em francês – que me submetesse à forma estrita do original.

Depois dessa defesa do autor ao seu trabalho, resta-nos passar ao trecho, retirado da oitava cena do segundo ato, passada na mesa de uma taberna com Cyrano conversando com seu amigo Le Bret:

CYRANO
É uma questão de gosto e de princípio:
acho bonito exagerar assim!
LE BRET
Precisavas ser menos mosqueteiro!
CYRANO
Pois serei mosqueteiro até o fim!
LE BRET
E desprezar a glória e o dinheiro?!
CYRANO
Para manter-me independente, sim!
Ou queres que eu me arranje um protetor
para subir por ele como faz
a parasita, e sem nenhum valor
vencer na vida? Que vitória é essa?
Fazer cada poema dedicado
a um rico burguês, a um grã-senhor?
Não é isso o que eu quero… Obrigado!
Ou devo bajular cada ministro,
transformar-me em bufão condecorado?
Ou, diante de cada olhar sinistro
dos poderosos me prostrar curvado
e submisso? Gostarias disso?

Esse monólogo é maior, mais extenso, ele segue, mas como este post já está ficando imenso, vamos adiante. Como ficará mais claro ao comparar com a segunda tradução, Gullar opta por um esquema de rimas mais solto, não respeitando as parelhas do original, optando por às vezes rimas internas no próprio verso, como /submisso/ e /isso/, na última linha, ou, o mais comum, rimas alternadas, como /obrigado/, /condecorado/ e /curvado/, que rimam verso sim, verso não. Já a segunda edição é de 2003, publicada na encarnação mais recente da coleção de clássicos da literatura da Nova Cultural, com tradução de Fábio M. Alberti (Na verdade, conforme já apontou a tradutora Denise Bottmann nos comentários, o decano Ivo Barroso já denunciou esta versão como uma cópia da consagrada tradução de Carlos Porto Carreiro). Esta versão respeita o esquema de rimas parelhas do original, como podemos ver na transcrição abaixo, do mesmo trecho:

CYRANO
Mas – como princípio e como exemplo – enfim
Considero excelente exagerar assim.
LE BRET
Se amainasses um pouco essa altivez de raça.
A glória, as posições…
CYRANO (interrompendo-o)
Que queres que eu te faça?
Que vá ver um patrono em voga, um protetor
E – como hera servil que em busca de tutor
Lambe a casca do tronco em roda ao qual se torça –
Cresça por manha, em vez de me elevar por força?
Obrigado. Ofertar meus versos a um banqueiro,
Como é vulgar? Fazer do vil patomimeiro
na esperança de ver nos lábios de um ministro,
sorriso que não tenha uns longes de sinistro?
Almoçar cada dia um sapo – e não ter nojo,
Gastar o próprio ventre a caminhar de rojo?
Obrigado…

Como vocês podem ver, o segundo trecho é mais subordinado à necessidade formal e tem até uma pontuação diferente. Os pontos de exclamação que Gullar preserva somem no texto de Fabio Alberti. Gullar também, como já anuncia no texto prévio de que selecionei um texto, inventa versos de sua própria lavra para obter um ritmo adequado, como o caso do “mosqueteiro”, que também some na segunda versão. Logo na primeira linha vemos que Alberti precisou usar o “enfim” para rimar com o seguinte assim, mais ou menos igual ao que está no texto de Gullar. E, além de a maioria das idéias presentes em cada verso ser a mesma, estamos diante de duas composições completamente diversas, como se pode notar ao olhar o original, que transcrevo abaixo:

CYRANO
Mais pour le principe, et pour l’exemple aussi,
Je trouve qu’il est bon d’exagérer ainsi.
LE BRET
Si tu laissais un peu ton âme mousquetaire
La fortune et la gloire…
CYRANO
Et que faudrait-il faire ?
Chercher un protecteur puissant, prendre un patron,
Et comme un lierre obscur qui circonvient un tronc
Et s’en fait un tuteur en lui léchant l’écorce,
Grimper par ruse au lieu de s’élever par force ?
Non, merci. Dédier, comme tous ils le font,
Des vers aux financiers ? se changer en bouffon
Dans l’espoir vil de voir, aux lèvres d’un ministre,
Naître un sourire, enfin, qui ne soit pas sinistre ?
Non, merci. Déjeuner, chaque jour, d’un crapaud ?
Avoir un ventre usé par la marche ? une peau
Qui plus vite, à l’endroit des genoux, devient sale ?
Exécuter des tours de souplesse dorsale ?…
Non, merci. !

Ah, sim, um último e curioso detalhe: o personagem: Savinien Cyrano de Bergerac existiu de verdade (1619 – 1655), foi contemporâneo de Molière, e escreveu um livro intitulado Viagem à Lua, que é citado na peça de Rostand quando o herói precisa atrasar os planos do vilão De Guiche para permitir a Roxana casar-se com o cadete Cristiano. E Viagem à Lua foi publicado este ano aqui no Brasil pela Globo, como vocês podem ver na imagem de capa aí do lado.

Três vidas de Allan Poe

27 de dezembro de 2007 0

Caricatura de Edgar Allan Poe por Gilmar Fraga

Graças aos céus! A crise…
O perigo passou,
E a prolongada doença
Por fim se acabou
E essa febre chamada vida
Por fim foi subjugada.

Os versos acima saíram do romance O Poeta, de Michael Connelly, do qual tratamos no post anterior, e são de Edgar Allan Poe, cujos versos são a marca do assassino serial retratado na história, especializado em matar policiais assombrados por crimes não resolvidos. Poe é provavelmente o maior escritor a ter associado seu nome e sua obra com o chamado período “gótico” – que incluiria também gente como o inglês fundador do gênero, Horace Walpole, o francês Prosper Merimée e o alemão E.T.A. Hoffmann. Poe é também, e já falei disso aqui mesmo no blog, o pioneiro da literatura policial. Atuou como poeta, crítico e contista e foi genial em quase todas as atividades. Logo, não é de se admirar que seja de quando em quando revisitado por escritores de diferentes gêneros, inclusive aqueles que ajudou a criar – e suas novas vertentes.

Como eu também mencionei abaixo, o romance policial é um gênero de cartas marcadas, o que faz com que de tempos em tempos apareçam autores dispostos a tentar novos truques para insuflar novidade nesse tipo de romance tão característico. Um desses recursos que têm ganhado força é o uso de personagens reais como protagonistas – e mais de um lançamento recente apresenta tramas de crime nos quais escritores de verdade têm papel de destaque. Vão de Os Crimes do Mosaico e Os Crimes da Luz, do italiano Giulio Leoni, protagonizados por Dante Alighieri, a Crítica da Razão Criminosa, de Michael Gregorio, no qual as páginas de um suposto estudo secreto de Immanuel Kant sobre o funcionamento da mente criminosa são fundamentais para a resolução de apavorantes assassinatos na pacata Königsberg onde morou o filósofo. Com espaço ainda para a obra de um mestre das letras inglesas como Julian Barnes, que em Arthur & George transforma em um emocionante romance uma história real vivida por Arthur Conan Doyle, o criador do Sherlock Holmes.

Esse tipo de narrativa de mistério, já praticada o bastante para ser considerado um subgênero, tem, como seria de se esperar, Poe como um de seus temas recorrentes. Só este ano já saíram no Brasil três – sim, você leu certo, três – romances que colocam Poe como personagem, principal ou não, em diferentes fases de sua vida. São eles O pálido olho azul, do americano Louis Bayard, entre outras coisas colaborador do blog Salon.com; O menino americano, de Andrew Taylor; e A sombra de Allan Poe, de Mathew Pearl, de quem já foi publicado no Brasil O clube Dante, cujo tema é a obra de outro escritor: o já citado Dante Allighieri.

Parte desse fascínio exercido por Poe pode-se explicar pelo fato de que em sua breve e produtiva vida ele cumpriu a trajetória dos grandes outsiders românticos: existência errática, conflitos familiares, pobreza e morte prematura, com apenas 40 anos, em virtude do alcoolismo. Apesar de sua importância, já comentada, algumas das passagens dessa vida são escassamente documentadas e têm cronologia incerta, o que é um convite para que autores fãs do poeta ficcionalizem essas lacunas completando pesquisa com imaginação.

É o caso de O menino americano (Suma de Letras, 499 páginas, R$ 54,90), de Andrew Taylor, que reconstitui o período em que Poe morou com o padrasto em Londres, em 1819. Com apenas 10 anos de idade, o menino Poe é o coadjuvante da trama. Quem narra a ação é Thomas Shield, um jovem professor de uma escola para rapazes nos arredores da capital, na qual estudam Poe e um menino muito parecido com ele, o sensível e atormentado Charles Frant – a referência ao conto William Wilson, do próprio Poe, é clara, e é apenas uma dentre uma série de homenagens sutis ou declaradas: O corvo, por exemplo, teria sido inspirado por essa visão em um papagaio que falava francês, animal de estimação da mãe adotiva de Poe.

Shield se torna preceptor do jovem Frant e apaixona-se pela mãe deste. A amizade de Poe e Frant e as misteriosas ligações das famílias de ambos levam o professor a uma série de crimes cruéis, temperados com sexo e mortes horríveis no melhor estilo da imaginação gótica e atormentada de Poe. Curiosamente, à primeira vista o Poe de Taylor provoca estranheza aos que se recordam mais dos períodos doentios da vida adulta do autor. O jovem Poe do romance é inteligente, decidido, brigão e encrenqueiro, servindo muitas vezes como protetor do mais sensível Frant. O desenrolar dessa subtrama é um dos pontos de interesse do livro.

A personalidade de Poe também será explorada, ainda que num período posterior, em O pálido olho azul (Planeta, 432 páginas, R$ 39,90), que toma como mote e cenário outro ponto da obscura biografia do escritor: sua
passagem fugaz como cadete pela Academia Militar de West Point – da qual foi dispensado por “problemas disciplinares” com pouco mais de um ano de estudos.

Louis Bayard retrata a West Point de 1830. Hoje, a Academia Militar é a escola na qual se forma a elite política e econômica americana, mas, na época, pouco mais de 50 anos após a Independência dos Estados Unidos, West Point é uma iniciativa contestada, ainda alvo de muitas críticas quanto à sua própria necessidade. Para piorar, no romance de Bayard a instituição é aterrorizada por crimes macabros envolvendo estudantes do local. No primeiro deles, um jovem é encontrado enforcado, seu corpo é roubado e, depois, aparece mutilado, com o coração removido.

Um detetive aposentado chamado Augustus Landor é chamado pela direção da academia para investigar discretamente o caso, fazendo o possível para que o estrago à imagem do estabelecimento seja mínimo. Landor escolhe como seu assistente e espião na comunidade fechada dos cadetes o jovem estudante Poe. Este Poe que se encontra em O Pálido Olho Azul é alguém mais parecido com a figura com que seus fãs e leitores estão acostumados: atormentado, romântico, dramático, obcecado pelo sobrenatural e pela mãe, morta quando o garoto ainda era criança. A relação de Poe com o padrasto no livro também não é das melhores, já que o garoto está sendo enviado para a escola como uma última tentativa de ser “endireitado”. Embora seja um romance bem urdido, não deixa de ser um defeito da narrativa que as aparições de Poe roubem o interesse da trama, que começa bem e termina com um certo artificialismo histérico que também tenta emular temas recorrentes a Poe: criptas, cavernas subterrâneas e experiências macabras com o sobrenatural.

A Sombra de Allan Poe é um romance sobre o último e mais persistente mistério envolvendo o escritor: sua morte. Poe foi encontrado em 3 de outubro de 1849 em uma sarjeta em Baltimore, debilitado, delirando e vestindo roupas que não eram as suas. Levado para o hospital, morreu quatro dias depois. Até hoje se discute quais teriam sido as causas de sua morte e os antecedentes que o levaram à situação em que foi encontrado. Já se deram razões várias além do alcoolismo, como diabetes, sífilis, raiva e alguma doença cerebral desconhecida. Pelo que li a respeito, é em busca dessa narrativa perdida dos últimos dias do escritor que Matthew Pearl parte em A Sombra de Allan Poe, mas não posso dizer mais porque, diferentemente dos outros dois, este eu ainda não li. Mas ando curioso e vou atrás assim que tiver tempo.

Blog de Verão

26 de dezembro de 2007 0

Carol Bensimon/Adriana Franciosi / ZH
Já está no ar o blog mantido pela equipe de reportagem e edição da Revista de Verão, que começou a circular no último dia 21 e que virá encartada em sua Zero Hora todas as sextas-feiras.

A novidade legal sobre o Histórias da Estação (zerohora.com/historiasdaestacao) é que a cada semana que o caderno vai para o ar, o blog publicará um conto exclusivo escrito por algum jovem promissor autor local. O primeiro foi ao ar no dia 21, escrito pela Carol Bensimon, a jovem aí do lado, autora que foi anunciada na semana passada como um dos contemplados da Região Sul com uma Bolsa Funarte de Criação Literária, um financiamento de R$ 30 mil para desenvolver o projeto. No caso de Carol, o dela, selecionado dentre 495 enviados no total, é a narrativa ficcional Sinuca embaixo d%27água. André Dick foi o outro contemplado do Sul, com o livro de poemas O Equilíbrio do Dia.

Pintem lá e tenham uma palhinha do trabalho de Carol Bensimon, bem como de outros jovens autores que, a gente aposta, devem despontar nos próximos anos.

Postado por Carlos André Moreira

De duplos e duplicatas

26 de dezembro de 2007 1

Sempre que eu falo isso as pessoas tendem a me olhar com o ar compungido que dirigem a quem perdeu o controle pleno de suas faculdades mentais, mas acredito que os únicos grandes gêneros literários do século 20 que ainda apontam caminhos viáveis para o século 21 são justamente aqueles tratados com mais desdém: a Ficção Científica e o Romance Policial. A grande ficção científica é uma indagação sobre os destinos do homem em uma época em que a tecnologia parece oferecer respostas para tudo, menos para as mais velhas das perguntas: “de onde viemos”, “para onde vamos”, “quem somos nós” e “é bonito aqui” – ops, errei, esta última é do Didi Mocó. Já o Romance Policial é uma representação altamente estilizada da eterna busca do homem por um sentido que ordene o mundo ao seu redor. E talvez o fato de o herói do romance policial ser alguém que consegue estabelecer esse sentido seja um dos grandes segredos da popularidade do gênero – só para ficar em um exemplo, aqui no Brasil duas das principais editoras do país mantém coleções dedicadas aos romances de crime e mistério.

Especificamente no que diz respeito ao Policial, ele ainda agrega o fato de ser um gênero fácil e extremamente difícil. Fácil porque há uma fórmula bastante clara a ser seguida por quem deseja escrever um. E difícil porque há uma  fórmula bastante clara a ser contornada, sem descaracterização, por quem deseja escrever um realmente bom. O policial é, no fim, sempre um romance com normas estabelecidas. E se elas forem implodidas por completo, o livro, embora de qualidade literária, pode se tornar outra coisa. Mesmo um clássico moderno como O nome da rosa utiliza os parâmetros do gênero e os segue em alguma medida. Embora o próprio Umberto Eco definisse seu romance como um “antipolicial”, já que o detetive ia sempre na direção errada e no fim não solucionava nada, a solução ainda assim se apresenta: o autor dos crimes é descoberto e o método pelo qual eles são cometidos é elucidado. Assim como Eco, outros grandes escritores já se achegaram à estrutura do gênero reinventando-a com seu talento, como Mia Couto, Rubem Fonseca, Mario Vargas Llosa.

Já entre os autores de policiais propriamente ditos, os melhores da atualidade são aqueles que subvertem a fórmula torcendo-a ao limite: James Ellroy criou policiais impecáveis que na verdade são a história da urbanização de Los Angeles. Denis Lehane já definiu o gênero como “a tragédia da classe operária”. Mesmo no Brasil, a série do consagrado detetive Espinosa, de Luiz Alfredo García-Roza, é um mergulho na psique de seu personagem principal, livro a livro, mais do que nos crimes que ele investiga.

Como metáfora da própria busca do homem por conhecimento, não admira que não demorassem a surgir policiais que dialogam não apenas com o mundo, mas com a própria literatura, como O campeonato, do brasileiro Flávio Carneiro, Colóquio mortal, de Lev Raphael, e O Clube Dumas, de Arturo Pérez-Reverte. É a esse tipo de livro que podemos filiar um dos mais recentes lançamentos do gênero por aqui, O poeta, de Michael Connelly, nome de destaque na ficção policial contemporânea. Um livro que já em seu mote e em suas primeiras cenas anuncia que está construindo sua trama sobre um intrincado jogo de citações e referências.

O poeta não é estrelado pela mais famosa criação de Connelly, o detetive Harry Bosch. O protagonista da história é um repórter, Jack McEvoy, residente em Denver, onde escrever periodicamente em um dos jornais locais grandes reportagens literárias sobre crimes de morte que normalmente ocupam poucas linhas do noticiário diário (já aí vemos a presença de Truman Capote e sua obra-prima A sangue frio). Depois que seu irmão gêmeo, o policial Sean, se suicida misteriosamente com um tiro na cabeça à beira de um lago, Jack resolve que escrever uma reportagem sobre o caso será seu modo de lidar com o luto. O suicídio de Sean em um primeiro momento é atribuído à dificuldade em lidar com um caso não resolvido, o assassinato de uma bela estudante da universidade local, cujo corpo foi encontrado serrado no meio. A referência ao caso real Dália Negra – e à obra-prima de James Elroy que ficcionaliza o caso – é tão explícito que a imprensa passa a chamar a morta de A Dália Branca.

A investigação do suicídio do policial é rápida. A conclusão é que, frustrado com o beco sem saída do caso em que trabalhava, Sean estourou os miolos deixando apenas uma mensagem escrita a mão no vidro embaçado de seu carro: “Além do espaço – além do tempo”. Uma versão que o próprio Jack, embora com alguma relutância, aceita em um primeiro momento. Até que, ao pesquisar outros casos de suicídio policial para complementar sua reportagem sobre o irmão, Jack esbarra na notícia de um investigador de Chicago que, obcecado com o crime não-solucionado cometido contra um menino, também teria se suicidado deixando apenas uma frase escrita em um bloco: “pela porta pálida”, trecho de um poema de Edgar Allan Poe. Ao descobrir que a frase supostamente escrita por seu irmão também é de um poema de Poe, Jack McEvoy faz a conexão e começa a caçada a um assassino serial bastante peculiar: um maníaco especializado em matar policiais que trabalharam em casos brutais não resolvidos.

A conexão com a própria história do gênero ao qual se filia é evidente. Os poemas deixados pelo assassino – que ganha o apelido de “o poeta” assim que a história vai parar nos jornais – são de ninguém menos que o fundador do policial como gênero, Poe, autor de Os crimes da Rua Morgue. Também a conexão com A Dália Negra não se restringe apenas ao estado em que o cadáver da jovem é encontrado. Quem viu só o filme terrível que saiu ano passado ficou boiando, mas no romance de Elroy a mulher com quem um dos investigadores do caso Dalia Negra termina por se envolver é quase sósia da jovem assassinada – enquanto no cinema Hillary Swank não tem nada a ver com Mia Kirschner. O tema do duplo se repete em O poeta, com a circunstância de que Jack e Sean são gêmeos – e, portanto, para o repórter, ver as fotos do local do crime provoca a angustiante sensação de estar vendo a si mesmo morto no local. Outro “duplo” é a esposa do policial Sean, uma versão algo mais velha mas muito semelhante à moça assassinada, mais um motivo para a obsessão de Sean pelo caso. Um tema que outra vez nos remete ao Poe dos trechos encontrados no crime, já que o escritor escreveu um magistral conto sobre a questão da “mórbida semelhança”: William Wilson.

Ho - Ho - Ho

26 de dezembro de 2007 3

E aí, nossos camaradas leitores? Feliz Natal pra todo mundo. O breve intervalo em nossas comunicações se deu porque o editor e colaborador mais freqüetne deste espaço – eu – foi esconder sua carcaça decadente em sua cidade natal, no interior do Estado, para passar o 25 de dezembro com a família. Estou de volta, e em conseqüência o blog também. Atualizações ainda hoje.

Postado por Carlos André Moreira

O futuro do Leitor

18 de dezembro de 2007 3

Na sua mais recente edição, a revista New Yorker, uma das mais tradicionais publicações norte-americanas, publicou um artigo sobre o futuro do planeta se as pessoas pararem de ler.

No artigo, que vocês podem ler aqui, em inglês, obviamente, assinado por Caleb Crain, temos acesso a estatísticas de pesquisas feitas por algumas entidades norte-americanas. Que, como vocês sabem, são vidrados em estatísticas e fazem pesquisas com muito critério. O departamento de pesquisa do National Endowment for the Arts faz, desde 1982, perguntas a milhares de americanos não apenas sobre sua freqüência de leitura, mas sobre as motivações e os critérios que os levam a escolher essas leituras:

Os resultados, divulgados pela N.E.A. em 2004, são desesperadores. Em 1982, 56,9% dos americanos haviam lido uma obra de literatura criativa nos 12 meses precedentes. A proporção caiu para 54% em 1992, e para 46,7% em 2002. Mês passado, a N.E.A. divulgou um relatório de atualização , “Ler ou não ler,” que mostrava correlações entre o declínio da leitura e fenômenos sociais tão diversos quanto disparidade de renda, freqüência de prática de exercícios e voto. Na apresentação, o diretor-executivo da N.E.A, Dana Gioia, escreveu, “As deficiência de leitura se relacionam fortemente com a falta de empregos, baixos salários e poucas oportunidades de aperfeiçoamento (tradução minha)

O artigo prossegue informando os dados de outros centros de pequisa ligados à imprensa e à industria do livro. A venda de livros estagnou por lá. Por uma estimativa do Grupo de Estudos da Indústria do Livro, que o artigo não diz o que é e eu particularmente não sei também, caiu o índice de compra de livos de 8,27 por pessoa em 2001 para 7,93 in 2006. Também houve um declínio do público leitor de jornais, mesmo se for contado o leitor online.

Todos esses números não prejudicam o artigo, claro, consistente e bem escrito, eu só os empilho qui para dar uma idéia da grande discussão que predomina atualmente na discussão sobre literatura. Já se decretou a morte do romance, a morte do livro (sempre tem algum moderninho disposto a defender o ainda claudicante livro online como a maravilha do milênio), a morte da literatura. Agora, pensando melhor, dado que cada vez mais gente escreve e escreve e escreve e publica, mudou-se o foco, aventando, acertadamente, que talvez não seja a literatura como arte que esteja a perigo, e sim o leitor. Se a discussão é candente nos Estados Unidos e na Europa, países com uma estrutura de ensino sólida, aqui a coisa beira a treva absoluta, como lembra Rubem Fonseca em um artigo que está em seu novo livro de crônicas, O Romance Acabou, e que você, leitor de blogue, pode achar também no Portal Literal (http://www.portalliteral.terra.com.br) na página pessoal do autor:

Na verdade o brasileiro, em geral, não gosta de ler. Nós preferimos a imagem e a música. (Era mais comum o sujeito comprar CDs regularmente e jamais comprar um livro. Muitas vezes a alegação seria de que o livro é caro, mas na verdade é possível comprar um livro pelo preço de um CD ou mais barato, num sebo. E sebo é o que não falta no Brasil, inclusive um sebo virtual excelente, onde podem ser comprados livros usados em ótimo estado, entregues a domicílio por um baixo preço: www.estantevirtual.com.br.)

        

Então o nosso problema não é o leitor ter morrido. É o leitor não ter nascido.

O que sempre levanta a pergunta que todo autor se faz no momento em que termina um livro: %22quem vai ler?%22 Sim, quando termina. Porque o impulso que leva à criação literária é individual e ditado pela pressão do próprio artista sobre si mesmo, e isso é um fato. Mas outro fato tão verídico quanto é que, quem escreve, quer ser lido. Não que alguám vá escrever o que atria leitores, não é assim. O autor verdadeiro quer atrair leitores que queiram ler o livro que ele escreveu, não amoldar sua obra ao gosto do público.

Uma discussão que vai render ainda.

Postado por Carlos André Moreira

Estrada para a Perdição

18 de dezembro de 2007 2


Atravessaram a cidade ao meio-dia do dia seguinte. O revólver estava à mão na lona dobrada por cima do carrinho. Mantinha o menino bem perto, ao seu lado. A cidade estava quase toda queimada. Nenhum sinal de vida. Carros na rua incrustada de cinzas, tudo coberto de cinza e poeira. Rastros fósseis na lama seca. Um cadáver na soleira de uma porta seco feito couro. Arreganhando os dentes para o dia. Ele puxou o menino mais para perto. Apenas se lembre que as coisas que você põe na cabeça ficam lá para sempre, falou. Você talvez queira pensar sobre isso.
Você se esquece de algumas coisas, não se esquece?
Sim. Você se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer.

Ao elaborar a retrospectiva dos livros do ano que vocês devem ou não ter lido hoje no Segundo Caderno, não hesitei em incluir A Estrada, de Cormack McCarthy. Americano, McCarthy é um dos principais autores vivos dos Estados Unidos, embora sua obra não seja conhecida por aqui como é a de um Philip Roth ou a de John Updike, por exemplo. McCarthy, como vocês viram ali em cima, é, no meu entender, para a literatura americana o que Graciliano Ramos é para a nossa. Sua prosa é direta, telegráfica, árida, e transparece nessa total ausência de pieguice um tom melancólico, a emoção abordada de viés, e por isso mais impactante quando surge.

A Estrada (Alfaguara, 250 páginas, R$ 33,90), o mais recente romance de McCarthy, é a história de um pai que vaga com seu filho por uma estrada de uma paisagem apocalíptica na qual os Estados Unidos foram devastados por alguma catástrofe pouco explicada. Pela estrada, dormindo à beira do caminho, empurrando um carrinho de supremercado com seus parcos mantimentos e com óleo racionado para a lamparina que garante uma luz precária, o pai e seu filho vagam à deriva, tentando sobreviver um dia após o outro, escondendo-se dos bandos de salteadores, vencendo obstáculos pelo caminho, sempre em busca da costa, de uma esperança vaga de resistir ao inverno iminente ao chegar no mar.

Com esse fiapo de história, McCarthy faz o que faz melhor: conduz o livro com um ritmo impactante, adequado à narrativa que está contando e com excelentes diálogos. McCarthy conta histórias secas e violentas, de ação trepidante, verdadeiros poemas de destruição.

Postado por Carlos André Moreira

Momento Sebo

18 de dezembro de 2007 2

Truffaut como o diretor em A Noite Americana/Banco de Dados / ZH
Estava há tempo devendo um post pro meu camarada Carlos André, que muito qualifica nosso modesto blog de cinema vizinho. Tinha planejado fazer um comentário do prazeroso aprendizado que é a assistir ao filmes de Alfred Hitchcock tendo como guia o fundamental livro Hitchcock – Truffaut Entrevistas, que foi reeditado no Brasil tempos atrás pela Companhia das Letras. Agora que quase toda a obra do mestre britânico está disponível em DVD, o exercício, mais que recomendável, vale o clichê, é um curso de cinema completo e de alto nível.

Bom, mas enquanto estou na metade da filmografia do Hitchcock, mais ou menos na metade do livro, decidi escrever sobre outros escritos do cineasta francês François Truffaut (1932-1984) que pesquei na estante. Em Filmes de Minha Vida, como indica o título, ele passa em revista clássicos e grandes nomes do ofício em resenhas feitas nos seus tempos de crítico de cinema. Os Filmes de Minha Vida, de 1975, lançado aqui pela Nova Fronteira em 1989, está fora de catálogo, mas garimpando se acha nos bons sebos. Selecionei aqui trechos em que o autor comenta sobre o papel da crítico e da crítica:

* Em Hollywood ouve-se muito esta fórmula: %22Cada um tem suas profissões, a sua e a de crítico de cinema%22.
Qualquer pessoa pode se tornar crítico de cinema; não será exigido do postulante nem um décimo do conhecimento que se exige de um crítico literário, de música ou de arte. Um diretor de hoje deve aceitar o fato de que seu trabalho será eventualmente julgado por alguém que nunca tenha assistido a um filme de Murnau.
A contrapartida dessa tolerância está em que cada um, em uma redação de jornal, sentir-se-á autorizado a contestar a opinião do titular da coluna de cinema. O chefe da redação manifesta o mais profundo respeito por seu crítico de música mas interpela o crítico de cinema no corredor: %22Sabe, meu velho, você desancou o último Louis Malle, mas minha mulher não é da sua opinião, ela adorou o filme.%22
Ao contrário do americano, o crítico francês se quer um justiceiro; como Deus ou como Zorro, se for laico, rebaixará o poderoso e elevará o fraco. Em primeiro lugar, há o fenômeno bem europeu da desconfiança diante do sucesso.
Nenhum artista consegue no fundo, aceitar a função do crítico (…), provavelmente porque a crítica é ao mesmo tempo mais útil e mais indulgente para com os iniciantes.
Uma vez reconhecido como tal, o artista recusa-se secretamente a admitir que a crítica tenha um papel a cumprir.

* A única pergunta possível de formular a todos que se revoltam contra críticas desfavoráveis é a seguinte: você prefere arriscar-se a ver a crítica jamais falar de você, e o seu trabalho nunca ser tema de uma linha impressa, sim ou não?
Não devemos exigir demais da crítica e, principalmente, que ela funcione como uma ciência exata; uma vez que a arte não é científica, por que a crítica deveria sê-lo?

* A prática do cinema nos ensinou um certo número de coisas:
Sofre-se tanto para fazer um mau filme quanto um bom.
Nosso filme mais sincero pode parecer uma mistificação.
Aquele que fazemos com mais descaso pode vir a dar ao volta ao mundo.
Um filme idiota mas enérgico pode ser melhor cinema que um filme inteligente e frouxo.
O resultado é raramente proporcional ao esforço despendido
O sucesso na tela não será forçosamente o resultado do bom funcionamento do nosso cérebro mas sim da harmonia entre elementos preexistentes dos quais nem mesmo tínhamos consciência: a feliz fusão do tema escolhido com a nossa consciência profunda, a imprevisível coincidência entre nossas preocupações naquele momento de nossa ida e as do público naquele momento da atualidade.

* A vontade das pessoas em ver ou não um filme – chamamos a isso valor de atração – é mais forte que o poder de incitação da crtica

* O cineasta está enganado quando pensa que seu inimigo é o produtor, o dono do cinema ou o crítico (…) o verdadeiro inimigo do filme seria o público, cuja passividade é tão difícil de vencer.

* Sempre me perguntaram em que momento da minha cinefilia desejei tornar-me diretor ou crítico e para falar a verdade não sei; sei apenas que queria aproximar-me cada vez mais do cinema.
Um primeiro estágio consistiu em ver muitos filmes, um segundo em anotar o nome do diretor ao sair do cinema, um terceiro em rever freqüentemente os mesmo filmes e em determinar minhas escolhas em função do diretor. Acontecia-me assistir ao mesmo filme cinco ou seis vezes no mesmo mês e ser incapaz de contar corretamente o roteiro porque, nesse ou naquele momento, um música que se elevava, uma perseguição na noite, o coro de uma atriz me entusiasmavam, me faziam decolar e me levavam para mais longe que o próprio filme.

* Continuo considerando absurda e execrável a hierarquia de gêneros. Quando Hitchcock filma Psicose – a história de uma ladra ocasional, em fuga, morta a facadas no chuveiro pelo proprietário do motel que empalhara o cadáver da mãe morta – quase todos os críticos (na época) concordaram em julgar o tema trivial. No mesmo ano, influenciado por Kurosawa, Ingmar Bergman filma exatamente o mesmo tema (A Fonte da Donzela), mas situado na Suécia do século XIV; todos ficam extasiados e lhe concedem o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Postado por Marcelo Perrone