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Certas distopias - 1

14 de janeiro de 2008 4

Ou "a arte de prever o futuro descrevendo o presente"

Querem que eu cite dois caras que sabiam o que escreviam? Aldous Huxley e George Orwell. São eles os autores das melhores distopias literárias que conhecemos: respectivamente, Admirável Mundo Novo e 1984.

Para poupar o leitor de uma consulta ao dicionário, posso dizer que distopia é a descrição pessimista de uma sociedade inexistente ou mesmo existente, uma sociedade na qual a gente não quer viver, mais ou menos como a criada por George Miller em Mad Max. O termo surgiu como contraposição a Utopia, título da famosa obra de Thomas Morus, em que o nosso bom santo (ele foi canonizado) fala de uma sociedade perfeita situada em uma ilha imaginária. Pensando bem, acho mais seguro consultar o dicionário assim mesmo.

Voltando às nossas distopias, é possível estabelecermos algumas relações entre elas.

1984 (Nineteen Eighty-Four) foi escrito por Orwell em 1948 e trata da divisão do mundo em três grandes estados totalitários: Oceania, Eurásia e Lestásia, que estão em permanente guerra uns contra os outros. Huxley lançou Admirável Mundo Novo (Brave New World) em 1932, tratando de  um mundo dominado por um único estado: o Estado Mundial. Ambos os autores procuraram, mais que prever o futuro, descrever e hiperbolizar as tendências de organização social já existentes no seu tempo: Orwell criticando os fascismos de esquerda e de direita, Huxley denunciando os malefícios da adoção do fordismo como filosofia de vida.

A história de 1984 (a edição mais recente é da Companhia Editora Nacional, de 2004) se passa na Oceania, dividida em três classes sociais: os membros do Partido Interno, os membros do Partido Externo e os Proles (a choldra ignóbil). É uma ditadura, do pior tipo. A força (física) é a ferramenta de controle do Estado, personificado pela figura do onipresente Big Brother, o Grande Irmão, o líder divinizado, que aparece em toda parte, em cartazes que dizem: Big Brother Is Watching You. Sim, as pessoas são constantemente observadas, dentro de suas próprias casas, pela teletela: uma espécie de TV que transmite imagens ao mesmo tempo em que filma e escuta tudo que acontece ao seu redor. Além disso, os filhos são estimulados pelo governo a delatar os deslizes dos pais. A união familiar é desencorajada, assim como o sexo. Só o Big Brother pode ser amado. Por sinal, o nome do órgão de repressão à oposição é Ministério do Amor. Para lá são levados os dissidentes presos pela Polícia do Pensamento, e lá eles passam por uma série de torturas físicas e psicológicas, até se transformarem por completo. O governo altera constantemente o passado a seu favor, através da manipulação da mídia, e ousa criar uma língua, a Novilíngua, feita para restringir a capacidade de reflexão das pessoas. O herói da obra, como não poderia deixar de ser, é o Indivíduo, representado por dois membros do Partido Externo, Winston e Julia, que ousam amar um ao outro. Sigamos adiante no próximo post

Texto de Eduardo Nunes

Comentários (4)

  • Marcelo Xavier diz: 14 de janeiro de 2008

    Esse livro é dupliplusbom!

  • João Laner diz: 16 de janeiro de 2008

    Este livro é demais! Vale a pena!! Muito bom mesmo!

  • Baú do Roque » Arquivo » All that we can do is just survive… diz: 10 de agosto de 2010

    [...] O disco foi lançado em 1984, um ano carregado de significado, em que não vivíamos na Oceania orwelliana mas o temor de uma guerra nuclear entre americanos e soviéticos era uma poderosa pressão [...]

  • A China de ontem e a de amanhã | Mundo Livro diz: 24 de janeiro de 2012

    [...] paralelo com 1984 e Admirável Mundo Novo, duas das distopias fundamentais da literatura, não é gratuito. Num mundo [...]

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