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Certas distopias - 2

14 de janeiro de 2008 4

O enredo de Admirável Mundo Novo (AMN – edição recente e ainda encontrável pela Globo) situa a ação em um futuro mais distante, dominado pelo Estado Mundial, quando Ford é adorado como um deus (literalmente) e as pessoas não nascem mais do ventre materno, e sim de linhas de montagem em que são manipuladas e condicionadas para se ajustarem fisicamente à classe social a que pertencerão: elas podem ser Alfa, Beta, Gama ou Ípsilon. Depois de tirados dos úteros artificiais, os bebês são levados para escolas estatais onde o condicionamento terá continuidade. Lá, por meio de técnicas pavlovianas, elas são preparadas para reagir aos mais variados estímulos de acordo com o requerido de cada classe social: os Alfas terão menos condicionamentos, pois deles se espera a capacidade de liderança (limitada, é claro); os Ípsilons Semi-Aleijões serão muito condicionados, pois foram feitos para trabalhar muito e pensar muito pouco. Dois pontos comuns no treinamento de todas as classes são a preparação para o consumo, cerne da sociedade fordista, e para a felicidade: todos se sentem felizes do jeito que são. E quando bate a depressão, basta tomar um comprimido de soma, a droga do bem-estar, distribuída pelo governo. O herói da história, Bernard Marx, é um Alfa Mais que, segundo rumores, recebeu álcool demais no processo de gestação e, por isso, tem um corpo que não se encaixa nos ideais de beleza da sua classe, razão da sua insatisfação frente ao estar-no-mundo.

Talvez a grande vantagem de AMN sobre 1984, em termos de sucesso na realização da "profecia", seja o fato de a ditadura de Huxley ser muito mais sutil e eficiente que a Orwell no que diz respeito à manutenção do status quo. Se na Oceania o carrasco O'Brien diz a Winston que a imagem do futuro é uma bota esmagando um rosto humano indefinidamente, no Estado Mundial todos se sentem realizados e satisfeitos com a própria vida, graças aos condicionamentos. Se em 1984 o governo desencoraja o sexo para evitar o amor, em AMN os administradores estimulam o sexo inconseqüente, pelos mesmos motivos. Se no livro de Orwell o motor econômico e social é o Estado militarizado em permanente guerra contra um dos vizinhos, a obra de Huxley apresenta a busca individual de satisfação e prazer como via de obtenção da estabilidade social e da prosperidade do Estado. Huxley é que foi um profeta: já em 1932 ele "previu" a Globalização, a progressiva precocidade sexual, a vitória dos desejos do indivíduo sobre a devoção ao Estado (e isso numa época em que o sucesso do Fascismo apontava na direção inversa).

A principal vantagem do livro de Orwell sobre o de Huxley está no prazer que proporciona ao leitor, pelo menos na opinião deste colunista. A história de 1984 é cada vez mais instigante e prazerosa na medida em que as páginas vão sendo viradas, enquanto AMN está dividido em duas partes: a primeira metade, magnífica, estupendamente fantástica, em que o autor descreve a sociedade que concebeu; e a segunda metade, mais enfadonha e arrastada que uma novela mexicana, onde um "selvagem" descoberto por Bernard fica citando Shakespeare e se perguntando se deve ou não traçar a gostosa da história, que está interessada apenas no corpo dele e não no seu coraçãozinho inquieto.

Enfim, essas duas obras, que entraram para a História como sinônimos de distopia, devem ser lidas e apreciadas não apenas pelas "previsões" que apresentam, mas também porque estão entre os mais belos exemplos de criação literária.

Texto de Eduardo Nunes

Comentários (4)

  • Luana Amaral diz: 18 de janeiro de 2008

    Adoro os dois livros!

    Acho que o Orwell também acertou nas previsões: não temos mais vida privada, tudo que fazemos está ao alcance dos clics dos celulares e câmeras de circuito fechado, e a grande maioria da população é de proles!

  • André Lima diz: 16 de janeiro de 2008

    Excelente resenha! Consegue ser clara e completa sem ser chata, e instiga a leitura. Eu ainda não li o Admirável Mundo novo, mas estou louco para ler!

  • Jones Moraes diz: 17 de janeiro de 2008

    Li AMN na adolescência e a medida em que passavam os anos me parecia que o mundo cada vez mais se parece com o livro. Não somos \"condicionados\", sutilmente, para agirmos de acordo com o nosso status social? Não usamos \"remédios\" para compensar nossas frustações (vide Prozac)? O individualismo desenfrado não é a norma? O consumo não é visto como fundamento da sociedade? Quem pensa diferente não é considerado doente? A velhice não é motivo de horror? Vivemos no AMN.

  • A China de ontem e a de amanhã | Mundo Livro diz: 24 de janeiro de 2012

    [...] paralelo com 1984 e Admirável Mundo Novo, duas das distopias fundamentais da literatura, não é gratuito. Num mundo em que todos parecem [...]

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