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O caçador de emoções baratas

16 de janeiro de 2008 2

Amir e Hassan em cena de O caçador de pipas/Divulgação
O Afeganistão se tornou o país da vez neste início de novo século. Já estava claro desde que, na esteira do atentado de 11 de setembro, os olhos do mundo voltaram-se para a nação, uma das mais pobres do Oriente e governada por um dos mais assustadores regimes autoritários que já tomaram o poder em qualquer território nacional. Ainda quando a invasão ao Afeganistão estava em progresso, o filme Caminho para Kandahar obteve uma bilheteria além da que seria de se esperar de um filme com essa temática uns cinco anos antes, por exemplo.

Na literatura, o marco deflagrador desse interesse tem nome: Khaled Hosseini, um médico afegão residente na Califórnia e autor do best-seller de absoluto de 2006: O Caçador de Pipas (Nova Fronteira 365 páginas), cuja adaptação cinematográfica deve estreiar aqui esta semana. Lançado em 2003, tornou-se um imediato sucesso editorial. Repetiu o fenômeno por aqui e, ao menos no Brasil, foi o responsável por uma irritante %22avalanche Cabul%22 que dominou as livrarias no ano passado, com coisas tão díspares quanto a boa reportagem de Äsne Seierstad O Livreiro de Cabul quanto coisas inomináveis como O Salão de Beleza de Cabul.

Quanto ao Caçador… propriamente dito, uma das pedras angulares do romance, apesar de seu apelo universalista centra-se em uma questão muito específica do Afeganistão em particular: antipatias étnicas. O Afeganistão, cenário da primeira das três partes muito bem delimitadas da trama, tem uma população formada por uma colcha de retalhos de povos. A etnia predominante é a dos Patanes, ou Pashtuns – daí saíram a elite dominante, os talibãs e a antiga família real. Há também uzbeques, tajiques, turcomanos e a etnia minoritária e discriminada dos hazaras, vítimas de um massacre étnico durante o governo do Talibã.

Nessa rede demográfica, é possível compreender esse primeiro nó dramático da história contada por Hosseini, e como essa especificidade se conecta com um cenário mais amplo. O caçador de pipas é narrado em primeira pessoa por Amir, um garoto pashtun órfão de mãe, filho de um audacioso e rico comerciante – homem de uma generosidade peculiar e de posições políticas independentes. A primeira parte do livro retrata a infância de Amir, nos anos 70, na mansão de seu pai, em Cabul, então uma capital colorida e aberta às influências do ocidente. Em um casebre nos fundos da mesma casa, vive outro menino, também sem mãe: Hassan,um garoto hazara, filho do empregado Ali.

Embora Amir e Hassan brinquem juntos como melhores amigos, essa amizade é ilusória, embora as próprias crianças não pareçam perceber a fratura que se instala na relação. Quando Amir, o filho do dono da casa, acorda, Hassan já está em pé há tempos para servir-lhe o café e passar sua roupa. Enquanto Amir vai à escola, Hassan trabalha e não sabe ler. Mesmo a orfandade que os une assume feições diferentes. A mãe de Amir morreu no parto. A de Hassan abaondou o pai e saiu pelo mundo, algo muito malvisto em uma sociedade árabe e motivo para falatórios. Mesmo com esse aparente abismo, é o leal Hassan quem, com fidelidade quase canina, defende seu companheiro de infância contra as crueldades dos garotos da vizinhança, com uma coragem que o ambíguo Amir mais inveja do que admira. A valentia de Hassan eleva o garoto a um status perante os olhos do pai de Amir do qual este último se ressente.

Amir e Hassan são também uma ótima dupla quando se trata de empinar
pipas, uma tradição afegã e um símbolo muito claro na trama do livro: as pipas são um emblema da inocência: de Amir e de Hassan, que será perdida irreparavelmente após um ato de violência a covardia ao fim de um festival de pipas tradicional em Cabul; do país, já que o colorido das pipas no céu será substituído pelo vazio arenoso do regime Talibã na terceira parte do livro. E ao fim da história a pipa é uma forma encontrada pelo Amir já adulto para devolver a uma criança que sofreu no Talibã. Uma tentativa de resgatar a infância violada.

Mas voltando ao livro. Ainda na infância de Amir, no inverno de 1975, no torneio de pipas já mencionado, o personagem saboreia seu maior triunfo, e também sua derrota mais torpe para si mesmo. Posto em situação de defender seu amigo de uma brutalidade praticada por Assef, um cruel garoto da vizinhança, Amir prefere fingir que não vê o amigo em apuros. Depois, silencia para ocultar sua vergonha. O remorso pela falta de coragem vai envenenar de tal forma o relacionamento de ambos que Amir vai tramar a demissão do empregado e de seu filho. Encerra-se nesse ponto a primeira parte do romance

Só muitos anos depois, já casado e exilado nos Estados Unidos, Amir vai ter a oportunidade de buscar a redenção para sua covardia. A maneira como Hosseini delineia o caráter ambíguo, ciumento e amedrontado de Amir em comparação com o bravo e servil Hassan quando ambos são crianças garante ao livro seus melhores momentos. Hassan, rebaixado a uma condição inferior por causa de sua etnia, não guarda rancor do status privilegiado de seu amo e amigo, e o defende em mais de uma ocasião. Já Amir, ressentido por Hassan ter muitas das qualidades que ele gostaria de possuir para ganhar a afeição do pai, muitas vezes humilha intelectualmente o amigo, lembrando- de sua condição de analfabeto ou explicando erradamente o significado de palavras
difíceis que o garoto ignora, por exemplo.

Também são preciosas as descrições dos costumes e tradições afegãos e as sutis pinceladas que ambientam a complexa situação política do país ao longo das quase três décadas de história (nesse ponto, contudo, é curioso notar que a tradução de Maria Helena Rouanet, feita do original inglês, opta por transliterar algumas palavras do árabe e do persa que Hosseini espalha pelo livro usando a pronúncia da língua inglesa, caso de noor em vez de nur, por exemplo, para a palavra %22luz%22).

Então eu amei O caçador de pipas, você vai me perguntar. Não. Na verdade cheguei bem perto de grudar o exemplar na parede ao longo do terceiro ato, que flagra o retorno do Amir adulto ao seu país, agora governado pela mão de ferro radical do Talibã. A narrativa aí se acelera – e os problemas se avolumam. Hosseini reserva para o fim uma série de reviravoltas e coincidências que tornam a narrativa quase um vaudeville árabe e mudam os rumos da busca de Amir por redenção. O problema é que esses giros da trama, demarcados páginas ou capítulos antes por sinais nada sutis, são clichês previsíveis, melodramáticos e sentimentalóides. A exuberância emotiva que o livro havia construído com muita sutileza até aí se perde em nome dessa necessidade de %22redimir%22 a culpa de Amir – anulando a chance de fazer dele um dos personagens mais complexos e únicos da literatura recente.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (2)

  • André Lima diz: 18 de janeiro de 2008

    Gostei do Caçador de Pipas (livro). Li resenhas do filme em duas revistas de grande circulação. Uma delas diz que o filme é bem feito mas não tem emoção nenhuma, e a outra que o forte do filme são as emoções…. E agora, José?

  • Carlos André Moreira diz: 19 de janeiro de 2008

    Pois é, André. Isso mostra que a crítica é, por mais critérios que se tenha, uma tarefa subjetiva, e a apreciação de qualquer obra estética vai sempre estar subordinada a uma manifestação de empatia ou antipatia. O que acho que se deve fazer é deixar claro que critérios foram usados na apreciação. Como eu disse no texto, O Caçador de Pipas esteve a ponto de ser o meu livro de 2006, mas pôs minha apreciação a perder com soluções fáceis.

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