Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Mais do mesmo

17 de janeiro de 2008 1

Bom, já que ninguém se manifestou contra e teve até um inconseqüente (brincadeirinha, Rafael) que se manifestou a favor, publico aqui mais um dos textos ficcionais que tenho escrito para a revista de Verão da Zero Hora, que é publicada todas as sextas-feiras. Obviamente, não é o da próxima sexta-feira, é um dos textos antigos. Este foi publicado no segundo número da revista, no dia 28 de dezembro, e me lembro que eu cortei bastante. Vai aqui, então, a versão original. Críticas, reclamações, vitupérios e interjeições desairosas, a janela de comentários é de vocês:

Conforme a Música

Quando a gente planejou, haveria argentinas entediadas, pernas esguias de um branco doentio como pilares de gesso. E catarinenses douradas de longos cabelos solares. E até uma ou outra gaúcha de óculos escuros para despistar o olhar triste – algumas delas com um maiô disfarçando o corpo idem. Mas eu tinha de saber que dois cabeludos pálidos, fãs de rock pesado e criados no interior, não captariam todas as nuanças envolvidas nesse processo misterioso que é ir à praia – principalmente se a atividade-fim é se dar bem. O resultado é que estamos ambos sentados numa sexta-feira à noite na sala vazia de uma pousada vagabunda na Praia do Rosa comendo, em cima dos joelhos, dois pratos enormes de um miojo grudento temperado com um molho composto dos restos de coisas que nem quero saber o que são. E ouvindo Rage. E a prova da situação tenebrosa em que a gente se encontra é que o som está quase no último volume e não aparece ninguém nem pra reclamar.

Sentados no bar da faculdade a coisa parecia barbada: uma semana na Praia do Rosa. Sempre enchia de mulher, um colega comentara. Sem perspectiva que não a de amargar o calorão de Porto Alegre ou de ir cada um pra sua cidade, combinamos de passar uma semana por lá. Viagem no Uno do Muniz, o meu camarada. A gente dividiria a gasolina. Eu levaria uns CDs (Kreator, Black Sabbath, Pantera e a minha arma secreta, escondida para as horas de emergência). Ele, outros (Iron, Metalica, Megadeth e Rage). E as gurias, cada um que procurasse a sua.
E quando não tivemos problema na viagem já achamos que era um presságio. E que outros viriam. E vieram, mas não do jeito que imaginávamos. Estávamos no trecho final quando um carro com quatro argentinas maravilhosas parou do nosso lado no sinal, na entrada de Garopaba. Uma, loira, os cabelos caindo na cara, ouviu o som que saía do nosso Uno, desfez o ar de enfado, característica nacional, e perguntou:
– Megadêf?
E nós, entusiasmados, já começamos a dizer que sim, era, a gente curtia, e perguntamos se também estavam indo para o Rosa, se iam ficar muito tempo, de onde tinham vindo. E ao ouvirem nossas brasileiras palavras, elas fizeram aquela cara de quem revista sapato à procura da substância na qual pisou de manhã cedo. Não falaram mais até o sinal abrir e elas sumirem. Belo prenúncio.
A semana toda assim: argentinas entediadas nos virando a cara quando descobriam que éramos brasileiros, gaúchas tristes nos virando a cara quando descobriam que éramos gaúchos e catarinenses solares que nem olhavam pra gente, já que naquela praia repleta de surfistas – o que, em nossa ignorância, não sabíamos – nossas míseras carcaças branquelas faziam triste figura. Teve também a insolação do Muniz, minhas queimaduras de sol, e os dois quase apanhando ontem quando chegamos em duas gurias na beira da praia. Como é que a gente ia saber que os felizes proprietários estavam no mar, dando banho na prancha em vez de ficarem com as minas na areia?

E é ao olhar em volta para as ruínas de nossas belas férias que eu fico pensando: cara, a gente estava sendo otário, o problema foi que esta viagem já nasceu com vício de origem. Uma semana no sol, numa baita praia em Santa Catarina, e tudo o que a gente havia feito nesses sete dias fora correr atrás de mulher, pagar mico, se incomodar, quase apanhar, que diabo, verão não pode ser só isso. Deu, vou ficar aqui, curtindo meu som, e não me mexo nem que entre agora nessa pousada a melhor mulher do planeta.
Um clarão de faróis ilumina a janela da pensão. O Muniz levanta e vai ver o que é. Vira com os olhos arregalados:
– Jorge, troca o disco, cara. Tem um carro cheio de mulher estacionando aí na frente.

Hum. Situação de emergência
Beatles.
Não tem erro.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (1)

  • Rafael Pimentel Müller diz: 17 de janeiro de 2008

    “Inconseqüente” foi boa ^^
    Parabéns, bem bom seu texto, Carlos. O pior que isso não acontece só no litoral, muita gente não aproveita certas ocasiões por ficar se preocupando com a quantidade de pessoas com as quais terão algum tipo de relacionamento, mesmo que rasteiro. Normal.

    Abraçossssssss

Envie seu Comentário