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Tradução e reação - 8

19 de janeiro de 2008 1

James Joyce em foto de Bernice Abbott, em 1926

Entre as características que o autor e malucão James Joyce tornou praticamente sinônimos de sua obra está o recurso chamado Stream of Conciousness (fluxo de consciência), uma torrente narrativa que, para dar conta da complexidade e da celeridade do pensamento, vale-se do monólogo interior do personagem, progredindo não de forma estruturada como um discurso aristotélico, e sim pulando de associação em associação, em conexões sutis e não lógicas – exatamente como fazemos quando pensamos. A maestria de Joyce em lidar com esse recurso narrativo fez com que ele até hoje seja apontado como o criador desse tipo de procedimento literário _ uma afirmação discutível, já que essa primazia poderia ser atribuída a Edouard Dujardin, que lançou Os loureiros estão cortados em 1888, bem antes de Joyce começar sua carreira literária.

Mas Joyce realmente foi o mestre indiscutível desse recurso narrativo – hoje corriqueiro mas um escândalo e um assombro em sua época. Embora vá atingir o ponto ótimo desse tipo de escrita com o monólogo da esposa de Leopold Bloom, Molly, em Ulisses, ele já está presente em graus menos radicais em alguns contos de Dublinenses e no “romance de formação artística”Retrato do artista quando jovem, publicado em 1916.

A origem do Retrato… foi um ensaio escrito por Joyce sobre sua formação como artista e suas idéias sobre estética. Enviado a uma revista literária e recusado, o ensaio foi sendo retrabalhado até se tornar um romance que Joyce planejou chamar Stephen Hero. Depois de anos de reescrituras, o Retrato… ganhou a forma pela qual o conhecemos hoje: um romance de formação que não apenas narra o desenvolvimento psicológico e emocional de seu herói mas também a própria evolução artística do romance. Seus cinco capítulos têm uma linguagem que vai se tornando mais complexa e literária à medida que a história se desenvolve, como se a narrativa não apenas mostrasse as mudanças físicas e sentimentais de Stephen, um alter-ego do próprio Joyce, mas as transformações que ele enquanto narrador vai sofrendo até ser capaz de narrar-se artisticamente.

Logo, é um trabalho não apenas de ficção, mas uma aventura na linguagem, e por isso nos interessa particularmente saber que contornos assumiu essa aventura ao ser transportada para o português por tradutores diferentes. É com Joyce que faremos nossa comparação de traduções de hoje, usando duas edições diferentes do Retrato do Artista Quando Jovem. A primeira é um livro de bolso da Ediouro, comprado em 1995, na livraria da Casa de Cultura Mario Quintana, com tradução de José Geraldo Vieira. A segunda é a edição recente do mesmo romance publicada em 2006 pela Alfaguara, selo da Objetiva, com tradução da mesma Bernardina da Silveira Pinheiro que lançou faz um tempo a segunda versão para o português de Ulisses também de Joyce. Essa versão traz o artigo “um” antes de “retrato”.

Como eu mesmo comentei com vocês que os capítulos vão se fazendo mais estruturados à medida que a narrativa avança, achei melhor pegar um trecho do início do terceiro capítulo, situado exatamente no meio da evolução tanto do narrador quanto da prosa. Vai primeiro a versão de José Geraldo Vieira:

O crepúsculo, que em dezembro sempre vem cedo, chegara, caindo grotescamente, depois desse dia monótono. E, como olhasse através do quadrado escuro da janela da sala da escola, Stephen sentiu o estômago reclamar alimento. Desejou que houvesse guisado ao jantar, nabos, cenouras e batatas esmagadas, gordos pedaços de carneiro coberto com colheradas de molho apimentado engrossado com trigo. Atulha-te com isso, aconselhava o estômago.
Ia ser uma noite sinistra e misteriosa. Depois da queda prematura da noite iam acender-se as lâmpadas amarelentas, aqui e acolá, pelo esquálido bairro dos bordéis. E ele seguiria em direção errante, para cima e para baixo, em círculos cada vez mais fechados até se aproximar, num tremor de medo e prazer, levado pelos pés inadvertidamente, dum canto escuro. As prostitutas já estariam deixando suas casas, prontas para a noite, bocejando preguiçosamente depois de haverem dormido, e enfiando seus grampos nos cabelos encacheados.

Vamos agora comparar esse trecho, por si só já pleno de alguns achados de grande valor na prosa de Joyce, aproximada da poesia, com o de Bernardina, que, assumidamente no Ulisses, se dispôs a recuperar um pouco do humor e de uma certa coloquialidade de Joyce. Vamos ver como ela se saiu no Retrato…

A penumbra  repentina de dezembro chegara tropeçando ridiculamente depois de um dia sem graça e, quanto olhava fixamente através do quadrado inexpressivo da janela da sala de aula, ele sentia seu estômago implorar comida. . Esperava que houvesse ensopado para o jantar, nabos e cenouras e batatas amassadas e fatias gordas de carneiro para serem servidas em grande quantidade com um molho apimentado consistente, engrossado com farinha de trigo. Empanturre-se com isso, aconselhava o estômago.
Seria uma sombria noite secreta. Depois do anoitecer prematuro as lâmpadas amarelas iluminariam, aqui e ali, o quarteirão miserável dos bordéis. Ele faria um trajeto tortuoso, ruas acima e abaixo, descrevendo sempre círculos cada vez mais próximos com um tremor de medo e de alegria, até que seus pés o conduzissem subitamente em torno de uma esquina escura. As prostitutas estariam justo naquele momento saindo de suas casas e se aprontando para a noite,  bocejando preguiçosamente depois de seu sono reparador e enfiando grampos nos cachos de seus cabelos.

Sim, para mim, ao menos, a versão de Bernardina tem um algo mais de coloquialidade, mas perde alguns dos melhores momentos poéticos da outra tradução, como a “queda prematura da noite” e o “esquálido bairro dos bordéis”, vertidos para formas mais simples na segunda tradução. Há também pequenas aparições de um bloco de tradução para o outro, principalmente de adjetivos. O quadrado da janela no primeiro parágrafo é “escuro” no primeiro trecho, e “inexpressivo” no segundo. Assim como o sono das prostitutas de uma versão para outra torna-se “reparador”. E o molho de um trecho para outro torna-se “consistente” – vai ver derramaram farinha demais. Ah, sim, e a escolha de palavras que delimitam coisas concretas também continuam, como em outros exemplos que vimos, esbarrando em termos que expressam idéias diferentes. Basta ver que o guisado de um trecho tornou-se ensopado no outro. Ou eu é que sou uma nulidade na cozinha?

Vamos conferir, então, com o original:

The swift December dusk had come tumbling clownishly after its dull day and, as he stared through the dull square of the window of the schoolroom, he felt his belly crave for its food. He hoped there would be stew for dinner, turnips and carrots and bruised potatoes and fat mutton pieces to be ladled out in thick peppered flour-fattened sauce. Stuff it into you, his belly counselled him.
It would be a gloomy secret night. After early nightfall the yellow lamps would light up, here and there, the squalid quarter of the brothels. He would follow a devious course up and down the streets, circling always nearer and nearer in a tremor of fear and joy, until his feet led him suddenly round a dark corner. The whores would be just coming out of their houses making ready for the night, yawning lazily after their sleep and settling the hairpins in their clusters of hair.

Comentários (1)

  • Rafael Pimentel Müller diz: 20 de janeiro de 2008

    Fico com a primeira tradução. A segunda pode-se notar uma tentativa meio que forçada de simplificar o texto.

    Abraçosssssss

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