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Freud complica

24 de janeiro de 2008 2


Como eu escrevi há um tempo atrás aqui mesmo neste espaço, têm aparecido com freqüência nos últimos tempos romances que, na tentativa de renovar as por vezes pétreas regras do gênero policial partem para alguma novidade de superfície ainda que não de forma – dotar seus personagens de esquisitices que, bem trabalhadas, podem servir como elementos de formação consistente de um personagem, ou dar uma função importante na trama à figura e, menos freqüentemente, às idéias de um personagem. Exemplos não faltam, dos livros protagonizados por Poe que citei há alguns posts atrás a uma trilogia italiana na qual o detetive é Dante Alighieri, passando por um recente lançamento no qual um assassino perturbado é caçado na Londres do início do século 20 por Guglielmo Marconi – e do qual falarei mais adiante. Teve outro uns anos atrás no qual Theodore Roosevelt, ainda chefe de Polícia de Nova Iorque, se via em uma caçada humana contra um assassino mutilador de crianças. A lista é grande.

Como minhas leituras de férias – e, imagino, as de todo mundo, invariavelmente incluem alguns romances policiais (ao contrário de muitos de meus parceiros literatos eu sou fascinado pelo gênero e não o considero um atestado de má qualidade) me caiu às mãos um exemplar recente do gênero – com outros personagens reais como centro da intriga.

A Interpretação do Assassinato (Companhia das Letras, 480 páginas, R$ 53), de um tal Jed Rubenfeld, do qual nunca havia ouvido falar, é uma história ambientada na Nova Iorque de 1909, durante a breve e traumática visita que o pai da psicanálise, Sigmund Freud, fez à América, acompanhado de seus lugares-tenentes Sandor Ferenczi e o herdeiro presumido do médico austríaco, Carl Jung, que alguns anos mais tarde romperia definitiva, ruidosa e dolorosamente com seu mestre.

No exato dia da chegada de Freud aos Estados Unidos, uma jovem da alta-sociedade americana é estrangulada depois de ser amarrada, chicoteada e ter as coxas rasgadas a navalha. E isso no hotel no qual estava hospedada. No dia seguinte, outra jovem de família tradicional passa pelo mesmo processo, mas sobrevive. Apaga, entretanto, da memória, todo e qualquer vestígio da agressão, o que leva a polícia, em desespero de causa e tentando abafar o caso da imprensa o quanto antes, a recorrer à ajuda de Freud – que orienta o narrador, um jovem psicanalista americano, na psicoterapia da qual terá de desencavar as memórias reprimidas. Paralelamente, os esforços de outro vértice da narrativa, um jovem e atabalhoado investigador de polícia, podem aponta para pessoas da própria comitiva freudiana. 

O livro tem uma trama que, se não prima pela originalidade (já vi uns dois ou três filmes assim, o último era com o Bruce Willis, acho, ou com o Michael Douglas, Refém do Silêncio) pelo menos é conduzida em sua maior parte com uma leveza e um interesse constantes. Amparado em ampla pesquisa, Rubenfeld reconstrói aos olhos do leitor a sociedade americana do início do século 20, revê discussões do nascedouro da psicanálise, e é aí que, em alguns momentos, ele derrapa, porque muitas vezes essa ampla massa de dados é intercalada com a trama prejudicando um pouco de sua fluidez. Mas nada que me faça não recomendar a leitura a quem tiver oportunidade. Abraço a todos.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (2)

  • Oscar Bessi Filho diz: 4 de fevereiro de 2008

    André! Sou teu leitor assíduo e tive o prazer de assitir tua palestra em Caxias, durante o encontro da AGES (cuja vice-presidência assumi no último mês, substituindo o Spalding). Mas, cortando a fase puxa-saco, vou ao assunto que me entusiasmou em teu blog: a leitura de alguns romances policiais – e a alusão aos literatos e seu preconceito. Maravilha! Longe de mim ser um literato, ainda mais se comparando ao teu calibre de leituras e análises, mas também sou leitor do gênero (continua…)

  • Oscar Bessi Filho diz: 4 de fevereiro de 2008

    (continuação)… E, dentre os autores nacionais, gosto principalmente de Garcia-Roza e alguma coisa do Fonseca (nem tudo, nem tudo). Enfim, minha mensagem foi mais aplauso à indicação deste livro, e pelo teu trabalho em geral. Vou deixar a preguiça de lado e comandetar mais, quando leio. Ah! O e-mail é da BM porque sou Capitão nessa ainda engatinhante (e nem sei se um dia levanta) polícia de nossa terra. Abraços!

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