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Coisas da Vida

28 de janeiro de 2008 2


Abri Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, pensando ter em mãos um livro sobre o bombardeio de Dresden. Tendo lido outras obras do autor, eu esperava uma descrição tipicamente vonnegutiana dos horrores da guerra, em especial a destruição da cidade aberta alemã por bombas incendiárias, já no fim da Segunda Guerra Mundial, mas o que encontrei, ao invés disso, foi uma reflexão tipicamente vonnegutiana sobre a vida, a morte, o tempo e também a guerra.

A história de Matadouro 5 (L&PM, 226 páginas, R$ 15, tradução de Cássia Zanon) é a história de Billy Pilgrim, um ex-quase-assistente-de-capelão-militar que, depois de sobreviver ao inferno da “tempestade ígnea” (um brinde aos puristas!) em Dresden, volta para os EUA e enriquece como optometrista e golpista do baú, sendo de quebra abduzido por sábios e depravados alienígenas do planeta Tralfamador. A história da vida de Billy é contada de um modo inusitado: todos os momentos são narrados ao mesmo tempo, pois ele “soltou-se no tempo,” adquirindo o maravilhoso dom de viajar pela escala temporal num piscar de olhos.

Vonnegut se usa dos tralfamadorianos para mostrar a Billy (e ao leitor) o seu modo de ver a vida: um mosaico de momentos únicos e infinitos. Para o povo de Tralfamador, cada vivência é eterna como eterno é um inseto aprisionado no âmbar. Nesse sentido, a morte não é uma tragédia, mas uma etapa da vida, incapaz de denegrir os bons momentos vividos.

Billy Pilgrim pode parecer à primeira vista um dos personagens mais estúpidos e sem sal da história da Literatura. Seu modo de viver a vida, entretanto, revela ser bastante tralfamadoriano: ele apenas a vive, sem esperar por milagres e sem se perder em especulações metafísicas. Ao longo dos vaivens de Billy pelo tempo, Vonnegut tece uma colcha de retalhos com preciosos e sábios comentários sobre os mais variados temas, sempre com um apuradíssimo senso de humor (negro), em prosa lírica.

Citando o resumo da obra feito pelo próprio autor, o romance “começa assim:
‘Escute:
Billy Pilgrim soltou-se no tempo.
Termina assim:
Piu piu piu?’”

Entre esse início e esse fim, temos passeios pelo tempo, viagens interestelares, sexo numa jaula de zoológico, acidentes de avião, possíveis enredos para livros de ficção científica, a verdade sobre o fim do universo e o modo como os garimpeiros de Dresden encontraram minas de cadáveres depois que uma chuva de fogo transformou a cidade na superfície da Lua. Coisas da vida.

Ah, e se algum dia vocês passarem por Cody, Wyoming, perguntem por Wild Bob.

Postado por Eduardo Nunes

Comentários (2)

  • Grazi diz: 31 de janeiro de 2008

    me convenceu, vou ler o meu que está na estante desde o ano passado

  • Cássia diz: 11 de fevereiro de 2008

    Livraço! Honra enorme de ter traduzido :-)

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