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Posts de janeiro 2008

Reflexões sobre o escrever - 1

29 de janeiro de 2008 1

Já é tempo de uvas, perguntei colhendo um bago.
Era enjoativo de tão doce, mas se eu rompesse a polpa cerrada e densa, sentiria seu gosto verdadeiro. Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi a semente: assim queria escrever, indo ao âmago do âmago até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto
.

Lygia Fagundes Telles em Verde Lagarto Amarelo, incluído em Antes do Baile Verde

 

Postado por Carlos André Moreira

Coisas da Vida

28 de janeiro de 2008 2


Abri Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, pensando ter em mãos um livro sobre o bombardeio de Dresden. Tendo lido outras obras do autor, eu esperava uma descrição tipicamente vonnegutiana dos horrores da guerra, em especial a destruição da cidade aberta alemã por bombas incendiárias, já no fim da Segunda Guerra Mundial, mas o que encontrei, ao invés disso, foi uma reflexão tipicamente vonnegutiana sobre a vida, a morte, o tempo e também a guerra.

A história de Matadouro 5 (L&PM, 226 páginas, R$ 15, tradução de Cássia Zanon) é a história de Billy Pilgrim, um ex-quase-assistente-de-capelão-militar que, depois de sobreviver ao inferno da “tempestade ígnea” (um brinde aos puristas!) em Dresden, volta para os EUA e enriquece como optometrista e golpista do baú, sendo de quebra abduzido por sábios e depravados alienígenas do planeta Tralfamador. A história da vida de Billy é contada de um modo inusitado: todos os momentos são narrados ao mesmo tempo, pois ele “soltou-se no tempo,” adquirindo o maravilhoso dom de viajar pela escala temporal num piscar de olhos.

Vonnegut se usa dos tralfamadorianos para mostrar a Billy (e ao leitor) o seu modo de ver a vida: um mosaico de momentos únicos e infinitos. Para o povo de Tralfamador, cada vivência é eterna como eterno é um inseto aprisionado no âmbar. Nesse sentido, a morte não é uma tragédia, mas uma etapa da vida, incapaz de denegrir os bons momentos vividos.

Billy Pilgrim pode parecer à primeira vista um dos personagens mais estúpidos e sem sal da história da Literatura. Seu modo de viver a vida, entretanto, revela ser bastante tralfamadoriano: ele apenas a vive, sem esperar por milagres e sem se perder em especulações metafísicas. Ao longo dos vaivens de Billy pelo tempo, Vonnegut tece uma colcha de retalhos com preciosos e sábios comentários sobre os mais variados temas, sempre com um apuradíssimo senso de humor (negro), em prosa lírica.

Citando o resumo da obra feito pelo próprio autor, o romance “começa assim:
‘Escute:
Billy Pilgrim soltou-se no tempo.
Termina assim:
Piu piu piu?’”

Entre esse início e esse fim, temos passeios pelo tempo, viagens interestelares, sexo numa jaula de zoológico, acidentes de avião, possíveis enredos para livros de ficção científica, a verdade sobre o fim do universo e o modo como os garimpeiros de Dresden encontraram minas de cadáveres depois que uma chuva de fogo transformou a cidade na superfície da Lua. Coisas da vida.

Ah, e se algum dia vocês passarem por Cody, Wyoming, perguntem por Wild Bob.

Postado por Eduardo Nunes

Citação sem razão

25 de janeiro de 2008 0

Pra provar que leitura boa não tem hora nem está condicionada aos lançamentos recentes:

 

Essas coisas todas se passaram tempos depois. Talhei de avanço, em minha história. O senhor tolere minhas más devassas no contar. É ignorância. Eu não converso com ninguém de fora, quase. Não sei contar direito. Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém; mas ele quer saber tudo diverso, quer não é o caso inteirado em si, mas a sobre-coisa, a outra-coisa. Agora, neste dia nosso, com o senhor mesmo – me escutando com devoção assim – é que aos poucos vou indo aprendendo a contar, corrigido. E para o dito volto.
Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa

Tem uma edição nova que custa os olhos da cara, comemorativa, mas tem também mais de uma edição a preço de gente, como a da biblioteca do Estudante, e também se acha em sebo – e se na tua biblioteca não tem, melhor começar a protestar pela renovação do acervo, urgente.

Postado por Carlos André Moreira

Bendito Mario...

24 de janeiro de 2008 0


Não é a primeira vez que escrevo meu nome, Renato Valenzuela, e o vejo como se fosse de outra pessoa, de alguém distante com quem perdi contato faz tempo. Em outras ocasiões, diante do espelho, quando acabo de me barbear, vejo um rosto que mal reconheço, como se fosse o esboço ou a caricatura de outro rosto, com que estou mais ou menos acostumado. Então acho que esse olhar não é o meu, que essas pupilas de rancor não me dizem respeito, que essas rugas pertencem a outra máscara, que esses fiordes de calvície não correspondem à minha geografia capilar. É verdade que tais divagações costumam ser momentâneas, metamorfoses que duram o tempo de um suspito, mas sempre me deixam instável, desassossegado, indefeso. É por isso, Renato Valenzuela, que talvez tenha chegado a hora de acertar as nossas contas. Com o tempo, com o passado, com as feridas, com as promessas contigo/comigo. Todas.

Trecho de Não há sombra no espelho, conto do mago uruguaio das palavras Mario Benedetti, e que está ganhando edição em português pela Alfaguara (tradução de Rubia Goldoni) no volume Correio do Tempo, pequenas pérolas de nostalgia e de uma melancolia que, vinda do passado, contamina todo o futuro.

Postado por Carlos André Moreira

Freud complica

24 de janeiro de 2008 2


Como eu escrevi há um tempo atrás aqui mesmo neste espaço, têm aparecido com freqüência nos últimos tempos romances que, na tentativa de renovar as por vezes pétreas regras do gênero policial partem para alguma novidade de superfície ainda que não de forma – dotar seus personagens de esquisitices que, bem trabalhadas, podem servir como elementos de formação consistente de um personagem, ou dar uma função importante na trama à figura e, menos freqüentemente, às idéias de um personagem. Exemplos não faltam, dos livros protagonizados por Poe que citei há alguns posts atrás a uma trilogia italiana na qual o detetive é Dante Alighieri, passando por um recente lançamento no qual um assassino perturbado é caçado na Londres do início do século 20 por Guglielmo Marconi – e do qual falarei mais adiante. Teve outro uns anos atrás no qual Theodore Roosevelt, ainda chefe de Polícia de Nova Iorque, se via em uma caçada humana contra um assassino mutilador de crianças. A lista é grande.

Como minhas leituras de férias – e, imagino, as de todo mundo, invariavelmente incluem alguns romances policiais (ao contrário de muitos de meus parceiros literatos eu sou fascinado pelo gênero e não o considero um atestado de má qualidade) me caiu às mãos um exemplar recente do gênero – com outros personagens reais como centro da intriga.

A Interpretação do Assassinato (Companhia das Letras, 480 páginas, R$ 53), de um tal Jed Rubenfeld, do qual nunca havia ouvido falar, é uma história ambientada na Nova Iorque de 1909, durante a breve e traumática visita que o pai da psicanálise, Sigmund Freud, fez à América, acompanhado de seus lugares-tenentes Sandor Ferenczi e o herdeiro presumido do médico austríaco, Carl Jung, que alguns anos mais tarde romperia definitiva, ruidosa e dolorosamente com seu mestre.

No exato dia da chegada de Freud aos Estados Unidos, uma jovem da alta-sociedade americana é estrangulada depois de ser amarrada, chicoteada e ter as coxas rasgadas a navalha. E isso no hotel no qual estava hospedada. No dia seguinte, outra jovem de família tradicional passa pelo mesmo processo, mas sobrevive. Apaga, entretanto, da memória, todo e qualquer vestígio da agressão, o que leva a polícia, em desespero de causa e tentando abafar o caso da imprensa o quanto antes, a recorrer à ajuda de Freud – que orienta o narrador, um jovem psicanalista americano, na psicoterapia da qual terá de desencavar as memórias reprimidas. Paralelamente, os esforços de outro vértice da narrativa, um jovem e atabalhoado investigador de polícia, podem aponta para pessoas da própria comitiva freudiana. 

O livro tem uma trama que, se não prima pela originalidade (já vi uns dois ou três filmes assim, o último era com o Bruce Willis, acho, ou com o Michael Douglas, Refém do Silêncio) pelo menos é conduzida em sua maior parte com uma leveza e um interesse constantes. Amparado em ampla pesquisa, Rubenfeld reconstrói aos olhos do leitor a sociedade americana do início do século 20, revê discussões do nascedouro da psicanálise, e é aí que, em alguns momentos, ele derrapa, porque muitas vezes essa ampla massa de dados é intercalada com a trama prejudicando um pouco de sua fluidez. Mas nada que me faça não recomendar a leitura a quem tiver oportunidade. Abraço a todos.

Postado por Carlos André Moreira

Advertência

19 de janeiro de 2008 1

Amigos, o ritmo de atualização vai ser um pouco menos freqüente nas próximas duas semanas. O editor deste blog – ou seja, eu – está saindo para 15 dias de umas necessárias férias. Vou atualizar alguma coisa à distância. Mas não todo dia como venho fazendo. Deixei nas mãos de meus colegas de redação o pedido para que mantenham a página atualizada. Se isso não acontecer, nos vemos no dia 4 de fevereiro.

Há braços.

Postado por Carlos André Moreira

Tradução e reação - 8

19 de janeiro de 2008 1

James Joyce em foto de Bernice Abbott, em 1926

Entre as características que o autor e malucão James Joyce tornou praticamente sinônimos de sua obra está o recurso chamado Stream of Conciousness (fluxo de consciência), uma torrente narrativa que, para dar conta da complexidade e da celeridade do pensamento, vale-se do monólogo interior do personagem, progredindo não de forma estruturada como um discurso aristotélico, e sim pulando de associação em associação, em conexões sutis e não lógicas – exatamente como fazemos quando pensamos. A maestria de Joyce em lidar com esse recurso narrativo fez com que ele até hoje seja apontado como o criador desse tipo de procedimento literário _ uma afirmação discutível, já que essa primazia poderia ser atribuída a Edouard Dujardin, que lançou Os loureiros estão cortados em 1888, bem antes de Joyce começar sua carreira literária.

Mas Joyce realmente foi o mestre indiscutível desse recurso narrativo – hoje corriqueiro mas um escândalo e um assombro em sua época. Embora vá atingir o ponto ótimo desse tipo de escrita com o monólogo da esposa de Leopold Bloom, Molly, em Ulisses, ele já está presente em graus menos radicais em alguns contos de Dublinenses e no “romance de formação artística”Retrato do artista quando jovem, publicado em 1916.

A origem do Retrato… foi um ensaio escrito por Joyce sobre sua formação como artista e suas idéias sobre estética. Enviado a uma revista literária e recusado, o ensaio foi sendo retrabalhado até se tornar um romance que Joyce planejou chamar Stephen Hero. Depois de anos de reescrituras, o Retrato… ganhou a forma pela qual o conhecemos hoje: um romance de formação que não apenas narra o desenvolvimento psicológico e emocional de seu herói mas também a própria evolução artística do romance. Seus cinco capítulos têm uma linguagem que vai se tornando mais complexa e literária à medida que a história se desenvolve, como se a narrativa não apenas mostrasse as mudanças físicas e sentimentais de Stephen, um alter-ego do próprio Joyce, mas as transformações que ele enquanto narrador vai sofrendo até ser capaz de narrar-se artisticamente.

Logo, é um trabalho não apenas de ficção, mas uma aventura na linguagem, e por isso nos interessa particularmente saber que contornos assumiu essa aventura ao ser transportada para o português por tradutores diferentes. É com Joyce que faremos nossa comparação de traduções de hoje, usando duas edições diferentes do Retrato do Artista Quando Jovem. A primeira é um livro de bolso da Ediouro, comprado em 1995, na livraria da Casa de Cultura Mario Quintana, com tradução de José Geraldo Vieira. A segunda é a edição recente do mesmo romance publicada em 2006 pela Alfaguara, selo da Objetiva, com tradução da mesma Bernardina da Silveira Pinheiro que lançou faz um tempo a segunda versão para o português de Ulisses também de Joyce. Essa versão traz o artigo “um” antes de “retrato”.

Como eu mesmo comentei com vocês que os capítulos vão se fazendo mais estruturados à medida que a narrativa avança, achei melhor pegar um trecho do início do terceiro capítulo, situado exatamente no meio da evolução tanto do narrador quanto da prosa. Vai primeiro a versão de José Geraldo Vieira:

O crepúsculo, que em dezembro sempre vem cedo, chegara, caindo grotescamente, depois desse dia monótono. E, como olhasse através do quadrado escuro da janela da sala da escola, Stephen sentiu o estômago reclamar alimento. Desejou que houvesse guisado ao jantar, nabos, cenouras e batatas esmagadas, gordos pedaços de carneiro coberto com colheradas de molho apimentado engrossado com trigo. Atulha-te com isso, aconselhava o estômago.
Ia ser uma noite sinistra e misteriosa. Depois da queda prematura da noite iam acender-se as lâmpadas amarelentas, aqui e acolá, pelo esquálido bairro dos bordéis. E ele seguiria em direção errante, para cima e para baixo, em círculos cada vez mais fechados até se aproximar, num tremor de medo e prazer, levado pelos pés inadvertidamente, dum canto escuro. As prostitutas já estariam deixando suas casas, prontas para a noite, bocejando preguiçosamente depois de haverem dormido, e enfiando seus grampos nos cabelos encacheados.

Vamos agora comparar esse trecho, por si só já pleno de alguns achados de grande valor na prosa de Joyce, aproximada da poesia, com o de Bernardina, que, assumidamente no Ulisses, se dispôs a recuperar um pouco do humor e de uma certa coloquialidade de Joyce. Vamos ver como ela se saiu no Retrato…

A penumbra  repentina de dezembro chegara tropeçando ridiculamente depois de um dia sem graça e, quanto olhava fixamente através do quadrado inexpressivo da janela da sala de aula, ele sentia seu estômago implorar comida. . Esperava que houvesse ensopado para o jantar, nabos e cenouras e batatas amassadas e fatias gordas de carneiro para serem servidas em grande quantidade com um molho apimentado consistente, engrossado com farinha de trigo. Empanturre-se com isso, aconselhava o estômago.
Seria uma sombria noite secreta. Depois do anoitecer prematuro as lâmpadas amarelas iluminariam, aqui e ali, o quarteirão miserável dos bordéis. Ele faria um trajeto tortuoso, ruas acima e abaixo, descrevendo sempre círculos cada vez mais próximos com um tremor de medo e de alegria, até que seus pés o conduzissem subitamente em torno de uma esquina escura. As prostitutas estariam justo naquele momento saindo de suas casas e se aprontando para a noite,  bocejando preguiçosamente depois de seu sono reparador e enfiando grampos nos cachos de seus cabelos.

Sim, para mim, ao menos, a versão de Bernardina tem um algo mais de coloquialidade, mas perde alguns dos melhores momentos poéticos da outra tradução, como a “queda prematura da noite” e o “esquálido bairro dos bordéis”, vertidos para formas mais simples na segunda tradução. Há também pequenas aparições de um bloco de tradução para o outro, principalmente de adjetivos. O quadrado da janela no primeiro parágrafo é “escuro” no primeiro trecho, e “inexpressivo” no segundo. Assim como o sono das prostitutas de uma versão para outra torna-se “reparador”. E o molho de um trecho para outro torna-se “consistente” – vai ver derramaram farinha demais. Ah, sim, e a escolha de palavras que delimitam coisas concretas também continuam, como em outros exemplos que vimos, esbarrando em termos que expressam idéias diferentes. Basta ver que o guisado de um trecho tornou-se ensopado no outro. Ou eu é que sou uma nulidade na cozinha?

Vamos conferir, então, com o original:

The swift December dusk had come tumbling clownishly after its dull day and, as he stared through the dull square of the window of the schoolroom, he felt his belly crave for its food. He hoped there would be stew for dinner, turnips and carrots and bruised potatoes and fat mutton pieces to be ladled out in thick peppered flour-fattened sauce. Stuff it into you, his belly counselled him.
It would be a gloomy secret night. After early nightfall the yellow lamps would light up, here and there, the squalid quarter of the brothels. He would follow a devious course up and down the streets, circling always nearer and nearer in a tremor of fear and joy, until his feet led him suddenly round a dark corner. The whores would be just coming out of their houses making ready for the night, yawning lazily after their sleep and settling the hairpins in their clusters of hair.

Mais do mesmo

17 de janeiro de 2008 1

Bom, já que ninguém se manifestou contra e teve até um inconseqüente (brincadeirinha, Rafael) que se manifestou a favor, publico aqui mais um dos textos ficcionais que tenho escrito para a revista de Verão da Zero Hora, que é publicada todas as sextas-feiras. Obviamente, não é o da próxima sexta-feira, é um dos textos antigos. Este foi publicado no segundo número da revista, no dia 28 de dezembro, e me lembro que eu cortei bastante. Vai aqui, então, a versão original. Críticas, reclamações, vitupérios e interjeições desairosas, a janela de comentários é de vocês:

Conforme a Música

Quando a gente planejou, haveria argentinas entediadas, pernas esguias de um branco doentio como pilares de gesso. E catarinenses douradas de longos cabelos solares. E até uma ou outra gaúcha de óculos escuros para despistar o olhar triste – algumas delas com um maiô disfarçando o corpo idem. Mas eu tinha de saber que dois cabeludos pálidos, fãs de rock pesado e criados no interior, não captariam todas as nuanças envolvidas nesse processo misterioso que é ir à praia – principalmente se a atividade-fim é se dar bem. O resultado é que estamos ambos sentados numa sexta-feira à noite na sala vazia de uma pousada vagabunda na Praia do Rosa comendo, em cima dos joelhos, dois pratos enormes de um miojo grudento temperado com um molho composto dos restos de coisas que nem quero saber o que são. E ouvindo Rage. E a prova da situação tenebrosa em que a gente se encontra é que o som está quase no último volume e não aparece ninguém nem pra reclamar.

Sentados no bar da faculdade a coisa parecia barbada: uma semana na Praia do Rosa. Sempre enchia de mulher, um colega comentara. Sem perspectiva que não a de amargar o calorão de Porto Alegre ou de ir cada um pra sua cidade, combinamos de passar uma semana por lá. Viagem no Uno do Muniz, o meu camarada. A gente dividiria a gasolina. Eu levaria uns CDs (Kreator, Black Sabbath, Pantera e a minha arma secreta, escondida para as horas de emergência). Ele, outros (Iron, Metalica, Megadeth e Rage). E as gurias, cada um que procurasse a sua.
E quando não tivemos problema na viagem já achamos que era um presságio. E que outros viriam. E vieram, mas não do jeito que imaginávamos. Estávamos no trecho final quando um carro com quatro argentinas maravilhosas parou do nosso lado no sinal, na entrada de Garopaba. Uma, loira, os cabelos caindo na cara, ouviu o som que saía do nosso Uno, desfez o ar de enfado, característica nacional, e perguntou:
– Megadêf?
E nós, entusiasmados, já começamos a dizer que sim, era, a gente curtia, e perguntamos se também estavam indo para o Rosa, se iam ficar muito tempo, de onde tinham vindo. E ao ouvirem nossas brasileiras palavras, elas fizeram aquela cara de quem revista sapato à procura da substância na qual pisou de manhã cedo. Não falaram mais até o sinal abrir e elas sumirem. Belo prenúncio.
A semana toda assim: argentinas entediadas nos virando a cara quando descobriam que éramos brasileiros, gaúchas tristes nos virando a cara quando descobriam que éramos gaúchos e catarinenses solares que nem olhavam pra gente, já que naquela praia repleta de surfistas – o que, em nossa ignorância, não sabíamos – nossas míseras carcaças branquelas faziam triste figura. Teve também a insolação do Muniz, minhas queimaduras de sol, e os dois quase apanhando ontem quando chegamos em duas gurias na beira da praia. Como é que a gente ia saber que os felizes proprietários estavam no mar, dando banho na prancha em vez de ficarem com as minas na areia?

E é ao olhar em volta para as ruínas de nossas belas férias que eu fico pensando: cara, a gente estava sendo otário, o problema foi que esta viagem já nasceu com vício de origem. Uma semana no sol, numa baita praia em Santa Catarina, e tudo o que a gente havia feito nesses sete dias fora correr atrás de mulher, pagar mico, se incomodar, quase apanhar, que diabo, verão não pode ser só isso. Deu, vou ficar aqui, curtindo meu som, e não me mexo nem que entre agora nessa pousada a melhor mulher do planeta.
Um clarão de faróis ilumina a janela da pensão. O Muniz levanta e vai ver o que é. Vira com os olhos arregalados:
– Jorge, troca o disco, cara. Tem um carro cheio de mulher estacionando aí na frente.

Hum. Situação de emergência
Beatles.
Não tem erro.

Postado por Carlos André Moreira

O caçador de emoções baratas

16 de janeiro de 2008 2

Amir e Hassan em cena de O caçador de pipas/Divulgação
O Afeganistão se tornou o país da vez neste início de novo século. Já estava claro desde que, na esteira do atentado de 11 de setembro, os olhos do mundo voltaram-se para a nação, uma das mais pobres do Oriente e governada por um dos mais assustadores regimes autoritários que já tomaram o poder em qualquer território nacional. Ainda quando a invasão ao Afeganistão estava em progresso, o filme Caminho para Kandahar obteve uma bilheteria além da que seria de se esperar de um filme com essa temática uns cinco anos antes, por exemplo.

Na literatura, o marco deflagrador desse interesse tem nome: Khaled Hosseini, um médico afegão residente na Califórnia e autor do best-seller de absoluto de 2006: O Caçador de Pipas (Nova Fronteira 365 páginas), cuja adaptação cinematográfica deve estreiar aqui esta semana. Lançado em 2003, tornou-se um imediato sucesso editorial. Repetiu o fenômeno por aqui e, ao menos no Brasil, foi o responsável por uma irritante %22avalanche Cabul%22 que dominou as livrarias no ano passado, com coisas tão díspares quanto a boa reportagem de Äsne Seierstad O Livreiro de Cabul quanto coisas inomináveis como O Salão de Beleza de Cabul.

Quanto ao Caçador… propriamente dito, uma das pedras angulares do romance, apesar de seu apelo universalista centra-se em uma questão muito específica do Afeganistão em particular: antipatias étnicas. O Afeganistão, cenário da primeira das três partes muito bem delimitadas da trama, tem uma população formada por uma colcha de retalhos de povos. A etnia predominante é a dos Patanes, ou Pashtuns – daí saíram a elite dominante, os talibãs e a antiga família real. Há também uzbeques, tajiques, turcomanos e a etnia minoritária e discriminada dos hazaras, vítimas de um massacre étnico durante o governo do Talibã.

Nessa rede demográfica, é possível compreender esse primeiro nó dramático da história contada por Hosseini, e como essa especificidade se conecta com um cenário mais amplo. O caçador de pipas é narrado em primeira pessoa por Amir, um garoto pashtun órfão de mãe, filho de um audacioso e rico comerciante – homem de uma generosidade peculiar e de posições políticas independentes. A primeira parte do livro retrata a infância de Amir, nos anos 70, na mansão de seu pai, em Cabul, então uma capital colorida e aberta às influências do ocidente. Em um casebre nos fundos da mesma casa, vive outro menino, também sem mãe: Hassan,um garoto hazara, filho do empregado Ali.

Embora Amir e Hassan brinquem juntos como melhores amigos, essa amizade é ilusória, embora as próprias crianças não pareçam perceber a fratura que se instala na relação. Quando Amir, o filho do dono da casa, acorda, Hassan já está em pé há tempos para servir-lhe o café e passar sua roupa. Enquanto Amir vai à escola, Hassan trabalha e não sabe ler. Mesmo a orfandade que os une assume feições diferentes. A mãe de Amir morreu no parto. A de Hassan abaondou o pai e saiu pelo mundo, algo muito malvisto em uma sociedade árabe e motivo para falatórios. Mesmo com esse aparente abismo, é o leal Hassan quem, com fidelidade quase canina, defende seu companheiro de infância contra as crueldades dos garotos da vizinhança, com uma coragem que o ambíguo Amir mais inveja do que admira. A valentia de Hassan eleva o garoto a um status perante os olhos do pai de Amir do qual este último se ressente.

Amir e Hassan são também uma ótima dupla quando se trata de empinar
pipas, uma tradição afegã e um símbolo muito claro na trama do livro: as pipas são um emblema da inocência: de Amir e de Hassan, que será perdida irreparavelmente após um ato de violência a covardia ao fim de um festival de pipas tradicional em Cabul; do país, já que o colorido das pipas no céu será substituído pelo vazio arenoso do regime Talibã na terceira parte do livro. E ao fim da história a pipa é uma forma encontrada pelo Amir já adulto para devolver a uma criança que sofreu no Talibã. Uma tentativa de resgatar a infância violada.

Mas voltando ao livro. Ainda na infância de Amir, no inverno de 1975, no torneio de pipas já mencionado, o personagem saboreia seu maior triunfo, e também sua derrota mais torpe para si mesmo. Posto em situação de defender seu amigo de uma brutalidade praticada por Assef, um cruel garoto da vizinhança, Amir prefere fingir que não vê o amigo em apuros. Depois, silencia para ocultar sua vergonha. O remorso pela falta de coragem vai envenenar de tal forma o relacionamento de ambos que Amir vai tramar a demissão do empregado e de seu filho. Encerra-se nesse ponto a primeira parte do romance

Só muitos anos depois, já casado e exilado nos Estados Unidos, Amir vai ter a oportunidade de buscar a redenção para sua covardia. A maneira como Hosseini delineia o caráter ambíguo, ciumento e amedrontado de Amir em comparação com o bravo e servil Hassan quando ambos são crianças garante ao livro seus melhores momentos. Hassan, rebaixado a uma condição inferior por causa de sua etnia, não guarda rancor do status privilegiado de seu amo e amigo, e o defende em mais de uma ocasião. Já Amir, ressentido por Hassan ter muitas das qualidades que ele gostaria de possuir para ganhar a afeição do pai, muitas vezes humilha intelectualmente o amigo, lembrando- de sua condição de analfabeto ou explicando erradamente o significado de palavras
difíceis que o garoto ignora, por exemplo.

Também são preciosas as descrições dos costumes e tradições afegãos e as sutis pinceladas que ambientam a complexa situação política do país ao longo das quase três décadas de história (nesse ponto, contudo, é curioso notar que a tradução de Maria Helena Rouanet, feita do original inglês, opta por transliterar algumas palavras do árabe e do persa que Hosseini espalha pelo livro usando a pronúncia da língua inglesa, caso de noor em vez de nur, por exemplo, para a palavra %22luz%22).

Então eu amei O caçador de pipas, você vai me perguntar. Não. Na verdade cheguei bem perto de grudar o exemplar na parede ao longo do terceiro ato, que flagra o retorno do Amir adulto ao seu país, agora governado pela mão de ferro radical do Talibã. A narrativa aí se acelera – e os problemas se avolumam. Hosseini reserva para o fim uma série de reviravoltas e coincidências que tornam a narrativa quase um vaudeville árabe e mudam os rumos da busca de Amir por redenção. O problema é que esses giros da trama, demarcados páginas ou capítulos antes por sinais nada sutis, são clichês previsíveis, melodramáticos e sentimentalóides. A exuberância emotiva que o livro havia construído com muita sutileza até aí se perde em nome dessa necessidade de %22redimir%22 a culpa de Amir – anulando a chance de fazer dele um dos personagens mais complexos e únicos da literatura recente.

Postado por Carlos André Moreira

Maratona do Conhecimento

16 de janeiro de 2008 2


Em primeiro lugar, o que é o belo?
Para Scheling, é o infinito exprimindo-se pelo finito; para Reid, uma qualidade oculta; para Jouffroy, um fato indecomponível; para De Maiestre, o que agrada à virtude; para o padre André, o que convém à razão.
E existem vários tipo de belo: nas ciências, a geometria é bela; nos costumes, não se pode negar que a morte de Sócrates seja bela; no reino animal, a beleza do cão consiste em seu faro. Um porco não poderia ser belo, haja vista seus hábitos imundos; uma seprente tampouco, pois desperta em nós idéias de baixeza. As flores, as borboletas, as aves, podem ser belas. Enfim, a primeira condição do belo é a unidade na variedade, é este o princípio
.

O trecho acima, que muito se assemelha a uma dissertação sobre estética, é na verdade parte do romance-compêndio-enciclopédia-tratado Bouvard e Pécuchet, do mestre da prosa Gustave Flaubert – mais conhecido da multidão por Madame Bovary. Flaubert apresenta no romance – seu último – os parisienses de temperamentos antagônicos Bouvard e Pécuchet, que, ao se conhecerem, estabelecem uma grande relação de amizade pautada pela colaboração intelectual e pela busca do conhecimento. Quando um deles recebe uma herança, ambos decidem aproveitar o sustento agora garantido e mudar-se para uma quinta na Normandia, onde poderão se dedicar aos estudos científicos e filosóficos.

Com o pretexto dessa busca, Flaubert lança mão de sua monstruosa erudição para elaborar um catálogo dos saberes de seu tempo. Os dois descobrem um tema e saem perseguindo-no, com leituras, reflexões, tentativas de elaboração de uma síntese proveitosa, experiências de comprovação dessa síntese e enfado provocado pelo impasse que se segue ao fracasso em apreender a totalidade desse conhecimento. Não é a experiência pedante que você está pensando porque a dedicação das almas simplórias, embora curiosas, de Bouvard e Pécuchet é tratada com um humor de alto calibre.

Bouvard e Pécuchet ganhou edição recente pela Estação Liberdade, um belo trabalho que inclui ainda apontamentos e capítulos que Flaubert deixou escritos para um segundo volume que não chegou a concluir e um ensaio do também escritor Guy de Maupassant escrito quando da publicação da obra, em 1881, após a morte do autor.

Postado por Carlos André Moreira