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Posts de fevereiro 2008

Comparando histórias

29 de fevereiro de 2008 3


Um dos pontos mais fascinantes do livro Palimpsesto, as memórias do escritor americano Gore Vidal, é que ele participou de uma das mais ativas gerações de literatos dos Estados Unidos. E, ao contar uma certa passagem de sua vida envolvendo outros escritores ou artistas, ele tinha como apresentar também a versão do mesmo episódio nas memórias de gente como Anaïs Nin ou Tennessee Williams, o que provoca um espelhamento de relatos muy gracioso.

Como não é sempre que aparece uma geração de tal calibre ligada às letras, podemos dizer que tivemos algo parecido com a turma que fez a música brasileira do fim dos anos 1950 em diante. Um pessoal que se conheceu no Rio de Janeiro, então o centro de gravitação cultural e ainda política do Brasil, e que escreveu seu nome na história da música nacional: Roberto Carlos, Tim Maia, Wilson Simonal, Erasmo Carlos, Jorge Ben (na época não era Benjor). E com o envelhecimento progressivo dessa geração, embora a maioria, com exceção de Caetano no livro Verdade Tropical, não tenha se dedicado a suas memórias, eles já começaram a ser alvos de biografias, autorizadas ou não. O que nos permite fazer, pela pura curtição do processo, comparações entre o mesmo episódio relatado em um e em outro livro.

Estimulado pelo post do Eduardo Veras logo abaixo, resolvi fazer algo parecido com Tim Maia e Roberto Carlos, ambos jovens pobres que tiveram até certo ponto trajetórias muito semelhantes (flerte com a bossa nova, idolatria a João Gilberto, desilusão com a estrutura fechada e elitista do grupo dos bossa-novistas e posterior descoberta do rock) e que, no início de suas carreiras, estiveram no mesmo grupo, o breve Sputniks, quarteto composto por ambos e pelos amigos em comum Wellington Oliveira e Arlênio Lívio. Um grupo que nasceu e morreu de maneira fulminante no ano de 1957 e que se dissolveu por atrito justamente entre aqueles dentre os quatro que mais que projeção ganhariam no futuro: Roberto e Tim.

Vamos então ver como o livro Vale Tudo (Objetiva), de Nelson Motta, citado faz pouco pelo Edu, relata o episódio:

Foi no Clube do Rock que Tião e Roberto conheceram o gordo Imperial, compositor, produtor e empresário artístico, o principal divulgador do rock-and-roll no Rio de Janeiro, que também promovia shows em clubes da Zona Norte e dos subúrbios. Depois de um breve teste numa sala da emissora, no antigo Cassino da Urca, Imperial escalou-os imediatamente. Foi a primeira e única apresentação dos Sputniks na televisão.
A estréia vitoriosa na tevê, cantando
“Little Darlin’
em arranjo idêntico ao da gravação original do conjunto The Diamonds, marcou também o início do fim do grupo, quando, depois do programa, Tião e Roberto bateram boca aos gritos na porta do estúdio e quase saíram no tapa.
A confusão começou depois do programa. Tião estava com fome e foi com Arlênio e Wellington comer um salgado num bar. Roberto ficou na porta da televisão, e quando viu Imperial saindo, lhe disse que também era de Cachoeiro e que imitava Elvis Presley. Imperial tinha gostado da apresentação dos Sputniks e deixou que Roberto cantasse alguma coisa de Elvis. Depois de ouvir
Tutti Frutti e Jailhouse Rock, com Roberto se acompanhando ao violão, Imperial não teve dúvidas e escalou-o para o próximo programa.
A turma voltou do bar, Roberto contou feliz a novidade e Tião a recebeu como alta traição. A terra tremeu, os berros ecoaram pelas históricas paredes do Cassino da Urca:
Seu filho-da-puta! Eu boto você no meu conjunto e você vai cantar sozinho, porra!
Roberto tentava explicar que os seus números de Elvis não prejudicariam em nada o trabalho com os Sputniks, mas Tião estava irado, tomado de um ciúme devastador, de um ódio mortal.

E agora vejamos o mesmo causo pelo prisma da polêmica e malfadada biografia Roberto Carlos em Detalhes, retirada de circulação pelo acordo judicial entre Roberto, a editora Planeta e o autor Paulo César Araújo. Como o meu exemplar eu comprei legalmente em uma época em que não tinha ainda dado o bolo com a decisão judicial, ainda o tenho para que possamos comparar com o trecho referente ao mesmo episódio:

Os Sputniks chegaram às onze e quinze da manhã na porta da TV Tupi e ali ficaram à espera de Carlos Imperial. Quando ele apareceu, o quarteto se aproximou pedindo a chance para se apresentar no programa. Mas o que vocês cantam? quis saber Imperial. Como não poderia deixar de ser, eles responderam quase em uníssono: Little darling. E com suas quatro vozes, dois violões e uma canequinha cantaram para Carlos Imperial ouvir. Antes mesmo de o grupo concluir a música, Imperial exclamou: Ok, estão aprovados, vão cantar hoje mesmo no programa. Não tinha mesmo como errar. Little Darling era o melhor número do quarteto – e com ele estrearam no Clube do Rock. A gente cantou vocalizando bonitinho. Era bonitinho mesmo, pois a gente era muito caprichoso com a vocalização afirma Roberto Carlos.
Ao final do programa, os Sputniks foram fazer um lanche num bar próximo da TV Tupi, menos Roberto Carlos, que ficou no corredor esperando Carlos Imperial deixar o estúdio. Quando ele saiu, Roberto pegou firme no seu braço e disse:
Carlos Imperial, eu também sou de Cachoeiro do Itapemirim e imito Elvis Presley. Um pouco surpreso, Imperial exclamou: Ah! Você é de Cachoeiro? E imita o Elvis? Então canta aí para eu ouvir. Roberto Carlos pegou no seu violão e mandou Tutti frutti. E ali, naquele momento, pela primeira vez Carlos Imperial prestou atenção em Roberto Carlos. Imperial pediu mais uma música e seu conterrâneo cantou Jailhouse Rock. Ok, você está escalado para cantar um número de Elvis no próximo programa. Roberto Carlos saiu eufórico e Imperial ficou ali mais pouco acertando detalhes com a produção do programa. Mais tarde, um dos assistentes de Imperial foi lhe comunicar que dois integrantes dos Sputniks quase saíram no pau na porta da TV Tupi. Era Tim Maia, furioso por saber que Roberto Carlos fora escalado para se apresentar no próximo programa. Eu boto você no meu conjunto e você vai cantar sozinho, porra!, berrava Tim Maia para quem quisesse ouvir.

Escrevia bem BRAGArai

28 de fevereiro de 2008 0

Rubem Braga/Banco de Dados, ZH
E continuando com nosso pequeno aperitivo do próximo caderno de Cultura, passo agora a falar um pouquinho da matéria de capa escrita pelo Daniel Feix, sobre um dos sujeitos responsáveis por elevar a crônica brasileira ao nível de hoje. Rubem Braga foi um dos prosadores que transformou a crônica em um gênero realmente literário, e até hoje é autor de alguns dos mais bem lapidados exemplares do gênero. Para dar uma idéia, no ano passado nosso colega Gabriel Brust esteve na Flip, em Parati, acompanhando uma oficina de crônica com Joaquim Ferreira dos Santos, e, ao voltar, comentou que uma aula inteira do bagulho era dedicada a uma crônica de Braga que Ferreira dos Santos (hoje um dos cronistas mais interessantes em atividade na imprensa) considera exemplar de todas as características que formam o DNA do gênero. O texto se chama Aula de Inglês. Quem tem mais de trinta anos, por aí, vai lembrar dele incluído no segundo ou no terceiro volume daquela coletânea da Ática, Para Gostar de Ler, que foi muito popular nas escolas e talvez continue a ser e eu é que não saiba. O mesmo texto também está incluído na recente compilação As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, publicada no ano passado pela Objetiva. A seleção, a propósito, é do próprio Joaquim Ferreira dos Santos.

Mas voltando a Braga e ao Cultura. A matéria escrita pelo Daniel comenta a recente biografia de Rubem Braga, Um cigano fazendeiro no ar, escrita por Marco Antonio de Carvalho e editada pela Globo. O material escrito pelo Daniel dá ênfase ao pouco conhecido período porto-alegrense do autor. No fim dos anos 1930, Braga se mudou para Porto Alegre com a justificativa de que no Rio estava sendo visado pela polícia política de Getúlio Vargas. Chegou e foi recebido pelo amigo Carlos Reverbel, que lhe arranjou pouso e emprego, e só meio século depois foi saber o real motivo da mudança. Ficou curioso? Vai ler o Cultura no sábado.

O Daniel também menciona trechos de crônicas publicadas por Braga quando trabalhou como cronista para a extinta Folha da Tarde, jornal publicado na época pela empresa Caldas Júnior, a mesma do Correio do Povo. Essas crônicas porto-alegrenses foram recuperadas por Carlos Revebel e publicadas nos anos 1990 em um livro chamado Uma fada no front, publicado pela editora Sulina, de Porto Alegre. O mesmo volume foi relançado há uns quatro anos como parte da obra completa do autor pela Record, mas agora com o título de 1939: Um episódio em Porto Alegre. Ainda se acha nas %22melhores casas do ramo%22.

Vai abaixo, então, um excerto da crônica Uma fada no front, que, por questões de espaço, não coube na matéria do Daniel. Trechos de outras crônicas e a história detalhada da estadia de Rubem Braga em Porto Alegre, vocês podem ler no próximo sábado no caderno Cultura. Até lá

Desta vez a primavera chegou no começo de setembro às ruas de Porto Alegre. Aí anda florindo pelas ruas batidas de sol, em marchas e cantos. É doce afastar os olhos das negras notícias que os jornais trazem da velha Europa, é doce desligar o rádio de ondas curtas cheio de palavras de ódio e de mortes e simplesmente sair pela rua, pela nossa rua brasileira em que desfilam meninos, rapazes e moças. Em um escuro minuto do mundo estamos vivendo nesta cidade uma bela e mansa alvorada humana. Há uma ingenuidade matinal nessa festa de gente moça de uma terra moça. É um prazer puro ficar na beira da calçada vendo esse desfile de rapazes e meninos de todas as raças, de lindas moças que avançam tão felizes no ritmo de sua marcha como se a marcha fosse uma dança simples e sincera.
(…) Ora, no meio dessas festas da Semana da Pátria eu quero pedir ao homem de rua de Porto Alegre que deixe um momento de acompanhar com os olhos o alegre desfile para contemplar com respeito e amizade essa figura modesta de mulher que faz e renova todo o milagre antigeográfico da união nacional: a professora pública. Agora que tanta festa se faz com archotes e piras em simbolismos gregos eu quero lembrar essa figura humilde que, silenciosamente, em cada canto perdido do Brasil, vai passando, através dos tempos, para as mãos das gerações que amanhecem, todo o fogo e toda a luz do sentimento brasileiro. (…) É uma fada – e hoje, sobretudo no Rio Grande do Sul, uma fada no front.
Trata-se de um front sentimental; mas não são os fronts sentimentais que marcam as linhas dos outros. Não se trata, neste país de muitas terras e pouca gente, de conquistar terras, mas de conquistar gentes; e gente só se conquista pelo coração. É gente da nossa terra que essa lutadora está conquistando para a nossa terra. Quando a sua mão passa, ternamente, pela cabeça áspera de um pretinho ou pela cabecinha macia de um menino louro, ela está semeando compreensão para nossas colheitas de ideal. Não está ensinando geografia, nem leitura, nem aritmética; está ensinando Brasil.
(…) Pais e mães de meninos do Rio Grande: ajudem essa missionária do Brasil. Aqueles dentre vocês que não são brasileiros, não tenham medo de que seus filhos se tornem brasileiros. Isso não os afastará de vocês, porque ser brasileiro não afasta um homem de outro homem do mundo. Ser brasileiro é apenas o jeito da gente do Brasil ser humana. Não pensem que, aprendendo a amar este Brasil tão grande, seus filhos não terão mais espaço no peito para amar também a terra de vocês. Terão sim. Quem aprende a amar uma terra tão grande não sente dificuldade em amar, de uma vez, a terra inteira…

De Uma fada no front
(publicado originalmente em 6 de setembro de 1939)

Postado por Carlos André Moreira

Sexo, Morte e Rock`n`Roll

28 de fevereiro de 2008 0

Carl Hiaasen/Divulgação
Senhores, bons dias. Vamos aqui outra vez, como já estamos tornando um hábito, antecipar o que você vai ler no Caderno Cultura do próximo sábado. Este, em particular, está bastante literário. Além da tradicional resenha sobre livros na página 2, a capa do caderno é dedicada ao cronista Rubem Braga e a sua nova biografia recém-lançada, mas isso eu falo no próximo post.

Vai abaixo um fragmento do texto da página 2, escrito pelo editor do caderno, retornado às suas funções após as férias, Luiz Zini Pires. O Zini é um grande apreciador de literatura policial e apresenta o novo livro do norte-americano (embora o nome não sugira isso) Carl Hiaasen, autor de best-sellers policiais ligeiros. Um deles, Strip-tease, gerou o filme constrangedor aquele com a Demi Moore e o Burt Reynolds. O livro mais recente é Caso perdido (Companhias das Letras, 372 págfinas, R$ 54), uma trama na qual um jornalista em mau momento profissional vê na misteriosa morte de um cantor de rock a chance de voltar à primeira página.

Leiam as impressões do Zini logo abaixo e confiram a íntegra no próximo Caderno de Cultura:

Carl Hiaasen escreve histórias polícias. Obras que exibem óbvias gotas de sangue nos quatro cantos e nas escadas das casas, mas a violência jamais estrangula o humor dos personagens principais e dos coadjuvantes – divididos, com certeza, entre agentes do bem e do mal. Seu sucesso reside aí. Enxugar um pouco (não muito) a violência real do gênero. Dosar a alta tensão com o riso (a gargalhada é natural). É entre risos e tremores que Caso Perdido flui sem que o relógio se dê conta, sem apressar o embarque.
Ambientado na Flórida,
Caso Perdido dá voz ao fictício jornalista Jack Tagger, um profissional em desgraça, imaginando-se no fundo do poço, sem ânimo e encostado num pequeno jornal, onde cumpre a burocrática missão de assinar obituários. Sua jornada diária em busca da primeira página da publicação, vitrine do que há de melhor e dos melhores, é um caminho impossível. Menos por talento, mais por perseguição dos implacáveis superiores, os que definem a real conteúdo da notícia.

Postado por Carlos André Moreira

A doença como processo

27 de fevereiro de 2008 1

Um profissional de medicina especializado em ministrar dicas de saúde para um amplo público toda semana na televisão comete um deslize prosaico: não renova uma vacina imunizante mesmo precisando viajar para locais com forte perigo de contaminação por moléstias infecciosas de toda ordem. Ao voltar da viagem, começa a sentir cansaço, fraquezas musculares, um certo desconforto que se manifesta em dores nas costas. No período de uma semana, o homem, um jovial maratonista que com quase 65 anos ainda consegue correr 25 quilômetros por dia e subir 14 andares de escada, está tão fraco que não tem forças para levantar da cama.

O que poderia ser a trama de um telefilme médico vagabundo é a base sobre a qual o cancerologista Drauzio Varella, que muitos (inclusive eu) aprenderam a conhecer e a respeitar depois do best-seller Estação Carandiru, no qual relatou seus anos como médico atendente da Casa de Detenção, em São Paulo, constrói seu livro mais recente, O Médico Doente (Companhia das Letras, 136 páginas, R$ 31).

Pela negligência em renovar a vacina contra a febre amarela, Drauzio é infectado em uma viagem à selva em 2004 para gravar um dos programas que apresenta como séries de saúde no Fantástico. Os sintomas, a princípio, assemelham-se a um resfriado. Depois, a um caso de dengue, depois ainda a nada que ocorra aos médicos – que se vêem lidando com o amigo e paciente como se fossem a equipe do seriado House (e essa comparação é minha, óbvio, não do livro). Apenas uma semana após o aparecimento dos primeiros sintomas é que os exames laboratoriais conseguem esclarecer o que Varella tem. O que não ajuda muito, já que não há tratamento efetivo para a febre amarela, é possível apenas aliviar as dores, manter o paciente em repouso e esperar até que a infecção cumpra seu ciclo e o paciente desenvolva imunidade ou seja derrotado por ela.

O que torna o livro de Varella uma leitura tão cativante é que o médico mistura o conhecimento médico do que estava passando a um olhar honesto e desapiedado para si mesmo na condição de paciente. É a narrativa de um doutor derrubado ao patamar de doente, refletindo sobre a fragilidade da sua situação, sobre as dores cruciantes, a própria prática da medicina e seus dilemas em uma época em que a técnica onipresente torna tantos doentes famintos de um contato e um consolo humanos. Mesmo esse terno reconforto oferecido pelos médicos é dissecado, já que, quando o estado do médico se agrava de forma preocupante sem que se tenha um diagnóstico, os cuidados de gentileza e consolo oferecidos por seus colegas são comparados aos que o próprio Varella oferecia aos seus pacientes – e muitas vezes tão inócuos quanto.

Em uma prosa que flui com simplicidade mas passa longe do simplório (só quem já tentou sabe que há uma grande dose de esforço e talento envolvidos na tarefa de escrever claramente e com elegância), Varella também percorre memórias de infância, e oferece reflexões sobre a própria prática médica. Chega também a uma conclusão pessoal terrível. À medida que a doença evolui implacável e as chances de sua sobrevivência diminuem, o médico doente vai sendo tomado de um desapego e de uma apatia emocional que praticamente o tornam estranho a todas as suas relações e conquistas: seu trabalho como médico, a mulher, a atriz Regina Braga, as duas filhas, uma delas tradutora e outra médica. Como se à medida que a morte se aproximasse um intrincado mecanismo fosse retirando do doente seus últimos laços para facilitar sua partida.

Drauzio sobreviveu, é óbvio.

Vale Tudo

25 de fevereiro de 2008 8

Muito já se comentou sobre a biografia de Tim Maia lançada por Nelson Motta – e, já que é assim, também eu me sinto liberado para apresentar algum palpite. De saída, parece inevitável a comparação: quando se menciona biografias assinadas por jornalistas, não tem como não pensar em Ruy Castro, o biógrafo de Carmen Miranda, Nelson Rodrigues, Garrincha, João Gilberto (sim, Chega de Saudade não é apenas um livro de “história e histórias da bossa nova”, como prometia seu subtítulo; trata-se, antes de tudo, de uma biografia de João Gilberto). Ruy Castro, que não tem sido tão feliz em suas tentativas de ficção (seja em Bilac Vê Estrelas ou no recentíssimo Era no Tempo do Rei), merece e goza amplo reconhecimento pela minúcia de suas apurações e pelo delicioso sabor de seu texto. Pô, é um privilégio ler um Ruy Castro.

E, admitamos, Nelson Motta não é um Ruy Castro. Na comparação, cruel comparação, injusta até, o biógrafo de Tim Maia perde tanto em termos de apuração quanto de texto. O que, por outro lado, confere um caráter admiravelmente despretensioso ao seu Vale Tudo (Objetiva, R$ 49,90), livro que se lê como quem acompanha uma conversa, conversa feita sem preciosismos lingüísticos ou estilísticos (e, sendo sincero, não é tão fácil escrever de um jeito que parece tão fácil). As quase 400 páginas somem rapidamente, e a gente fica com vontade de ler mais (esse, aliás, seria um motivo franco de reclamação: o livro termina quase como um “Tim Maia morreu. Ponto“. Fica faltando alguma menção ao enterro, à repercussão pública e familiar da perda, ao destino presente dos personagens que Nelson Motta apresenta tão bem ao longo do texto: Cassiano, Hyldon, a turma toda da brazilian soul music).

Enfim, Nelson Motta não é Ruy Castro, deixou o fim meio capenga, mas ergue, sem pudor nenhum e sem moralismos, um retrato de corpo inteiro de um artista monumental, suas malandragens, suas idiossincrasias, suas “viagens” e bebedeiras. E faz isso não com a admiração reverenciosa do tipo chapa branca, mas com algo bem diferente, que não precisa estar ausente de um texto jornalístico: carinho pelo biografado, mais inteligência e sensibilidade. Nelson Motta recupera a famosa dimensão humana do personagem (o que, por sinal, ele já fizera com Wilson Simonal em Noites Tropicais).

Fica a urgência de ouvir o quanto antes os discos que o jornalista está organizando, a coletânea com o melhor de Tim Maia. O livro exige essa trilha sonora. Seus leitores precisam.

Texto de Eduardo Veras

O Oscar para ser lido

21 de fevereiro de 2008 2


Tem algo de profundamente intrigante na festa do Oscar: ela é cafona, não representa o profundo reconhecimento artístico do cinema em si, e sim sua porção mais voltada para o entrenimento, é bastante suscetível a injustiças na premiação, mas mesmo assim a audiência sempre cumpriu as expectativas. Não é à toa que o programa foi um dos grandes cabos-de-guerra na recente batalha entre roteiristas e estúdios.
Algo que é verdade mesmo para aqueles que cultivam o prazer da boa leitura: o Oscar é um termômetro do que se produz no país mais presente em nossos cinemas, uma vitrine para produções que geram interesse, curiosidade e o compromisso de serem conferidos. Vamos então aqui no Mundo Livro olhar para o Oscar com os olhos específicos de nosso interesse, buscando nos filmes indicados às principais categorias seu DNA literário, aqueles filmes que vieram diretamente das páginas da literatura:

Em vez de começar com melhor filme, como seria o óbvio, vamos falar primeiro daquela categoria que nos diz diretamente respeito, Melhor Roteiro Adaptado, que, como o nome já diz, parte de uma outra obra original para a produção do filme. Vão aí algumas informações para traçar a genealogia e, para aqueles que tiverem curiosidade, irem atrás da obra original.

Desejo e Reparação
Roteiro adaptado por Christopher Hampton de um dos grandes romances contemporâneos (eleito em uma pesquisa do The Guardian em 2005 como o melhor romance britânico publicado nos 25 anos anteriores). Passado em meio à II Guerra Mundial, Reparação, de Ian McEwan, é o equivalente de uma moderna tragédia. Durante um fim de semana em uma suntuosa casa inglesa, manejando sentimentos que ainda não compreende, uma jovem inteligente, aspirante a escritora, faz uma acusação falsa que arruina a vida de um homem  destrói o romance secreto que este mantinha com a irmã da narradora. Algo que a jovem passará o resto da vida tentando reparar. Edição da Companhia das Letras. Me falaram bem do filme, mas eu só li o livro, e só posso dizer: leiam também.

Onde os fracos não têm vez
Ninguém ainda conseguiu me explicar por que diabos esse título estranho na adaptação cinematográfica. Sim, porque a edição brasileira do romance No country for old men, de Cormac McCarthy, com tradução de Adriana Lisboa, ganhou o título de Onde os VELHOS não têm vez na edição do selo Alfaguara, do Grupo Objetiva. Vi o filme e li o livro. O filme é fantástico, e consegue ser ainda mais seco que o livro, que por vezes cede a algum sentimentalismo na voz do xerife Del que no filme é interpretado por Tommy Lee Jones. No demais, segue quase à risca até mesmo a ordem dos acontecmientos no livro. Um veterano do Vietnã, durante uma caçada, encontra, no local de um violento acerto de contas entre traficantes mexicanos, uma mala cheia de dinheiro. Passa a ser perseguido então pela lei e por um dos matadores mais doentes já surgidos na ficção. A adaptação do roteiro foi dos próprios Irmãos Coen.

O escafandro e a borboleta
Depois de um derrame cerebral, o jornalista e editor da revista Elle Jean-Dominique Bauby ficou paralisado, capaz apenas de mexer a pálpebra esquerda. Mesmo nesse estado, com auxílio de uma enfermeira e mais tarde de um programa de computador, ele continua escrevendo soletrando letras por piscadelas, letra a letra, frase a frase narrando sua história. O livro O escafandro e a borboleta tem edição por aqui da Martins Fontes. E eu não li, então não tem muito o que falar.

Sangue negro
Tem origem parcial no épico-denúncia Oil!, de Upton Sinclair, escritor e ativista de esquerda preocupado em denunciar as mazelas do capitalismo selvagem. Hoje pouco traduzido no Brasil. Quem tiver interesse de se informar mais, estamos publicando um artigo de Moacyr Scliar sobre Upton Sinclair no caderno Cultura deste sábado.

Longe Dela
A estréia da atriz Sarah Polley na direção se dá usando o material original de um conto da canadense Alice Munro, The bear came over the Mountain (O urso subiu a montanha), sobre o sofrimento de um marido que vê a mulher que amou a vida toda desaparecendo soterrada em si mesmo pelo mal de Alzheimer. Munro teve publicado pela Companhia em 2006 o livro Fugitiva, reunião de oito contos representativos de suas histórias de um triste e duro humanismo.

Postado por Carlos André Moreira

Preenchendo o Vazio

20 de fevereiro de 2008 5


Nosso medo é excessivo. E espero não ter de engolir essas palavras algum dia. Mas eu assumo que no momento esses terroristas estão fazendo o máximo que podem, e o que eles podem fazer não é necessariamente tanto assim, considerando as forças colossais que estão em ação contra eles.
Agora, posso parecer muito frio, mas creio que nós exageramos nossa reação de medo, e o motivo é a nossa má consciência. A má consciência corre por este país como um rio desgovernado.
No 11 de setembro morreram 3 mil homens e mulheres. Este número foi repetido vezes sem conta. Ninguém mais fala sobre os quase 60 mil americanos mortos no Vietnã, ou nossos 400 mil soldados caídos na Segunda Guerra Muncial, ou os 110 mil caídos na Primeira Guerra Muncial. Nós nem sabemos esses números. Para nós, eles não importam. mas aqueles 3 mil estão gravados de maneira indelével na nossa história. É como se uma mão gigantesca tivesse agarrado o país e o arrancado das suas raízes. Desde aquele dia estamos tomados pelo terror. E, contudo, não sentimos terror ao pensar que a cada ano morrem 40 mil pessoas nos Estados Unidos em desastres de automóvel. Nem falamos nesse assunto. Por quê? Porque para nós o carro é abolutamente necessário. Assim, eu diria que a própria sociedade civilizada também é necessária para nós, e se nós acabássemos com um número relativamente grande de pessoas assassinadas por terroristas a cada ano, bem, veja Israel. É um país que funciona. A população paga um preço pesado pelo terrorismo, mas não é um preço final.

O trecho que vocês puderam ler acima foi extraído de O Grande vazio: diálogos sobre política, sexo, Deus, boxe, moral, mito, pôquer e má consciência na América (Companhia das Letras, tradução de Isa Mara Lando, 184 páginas, R$ 37,50). Como o longo subtítulo já explica sem que sejam necessários muitos acréscimos, o livro é uma coletânea de diálogos entre o romancista recentemente falecido Norman Mailer e seu filho John Buffalo Mailer. como o próprio John Buffalo explica no prefácio da obra, o livro é uma tentativa para que o mais jovem volte não tanto à sabedoria, mas à experiência do mais velho, seu pai 55 anos mais velho, um homem que no período de duas gerações ou mais que separam as existências de ambos viveu a vida intensa da talvez última geração heróica do século 20.

Norman Mailer vivenciou a II Guerra, testemunhou as agitações do Vietnã, as mudanças comportamentais e sexuais dos anos 1960 em diante, foi boxeador, jornalista, correspondente, romancista aclamado como gigante das letras americanas e autor de ao menos três livros fundamentais, Foi também escritor com trânsito no jornalismo literário que marcou o século passado, casou seis vezes, protestou, defendeu os negros e comprou briga com as feministas, foi candidato a prefeito de Nova York com uma plataforma delirante que o transformava em algo parecido com o Ilton Marx (lembram dele?) americano: a cidade de Nova York deveria se tornar um Estado autônomo e declarar sua independência dos Estados Unidos. Não se elegeu.

Não se vive uma vida assim sem acumular uma certa dose de sabedoria cansada, de cinismo e de convicções – e com a agilidade verbal e a personalidade forte de Mailer, mesmo suas defesas das convicções mais equivocadas são sempre um deleite em qualquer debate.

O livro, portanto, recolhe conversas entre pai e filho nas quais Mailer pontifica sobre política, esporte, sexo, o 11 de setembro e muito sobre George W. Bush. Embora dotadas de todo o charme que Mailer consegue imprimir a sua franqueza desconcertante, é este assunto, que domina a primeira parte do livro, o grande ponto fraco da edição, porque a maioria dos textos e diálogo fazem referência a fatos pré-segunda eleição de George Bush, e talvez o volume tivesse se beneficiado de um lançamento lá por 2006, quando foi publicado nos Estados Unidos. Agora, sua primeira parte parece um tanto datada, embora isso não tire o brilho da segunda, na qual, ao discorrer sobre as escapadas de Bill Clinton no fim dos 1990, faz um diagnóstico da moral americana. Discute crítica literária, o politicamente correto, o racismo, experiências com drogas. É nessa segunda fase da obra que o papel de John Buffalo como interlocutor de seu pai cresce, fica menos reverente e assume muitas vezes uma postura crítica às manias e opinões sólidas do escritor.

Pode não ser a Ética a Nicômaco de nosso tempo, mas ainda assim é uma grande leitura, folks.

Postado por Carlos André Moreira

As vidas dos outros

14 de fevereiro de 2008 2


Como estamos tentando transformar em um hábito, esta página antecipa uma palhinha do que você vai ler no próximo caderno Cultura, no próximo sábado, sobre um livro ou tema literário. Como desta vez teremos não um, mas dois textos sobre livros no caderno – um deles assinado por mim –, antecipo apenas o que não é de minha autoria. Vai abaixo um trechinho da resenha escrita pelo Márcio Pinheiro, titular do blog de velharia pop Jogo da Memória (www.zerohora.com/jogodamemoria) sobre O livro das vidas, uma coletânea dos lendários necrológios publicados pelo New York Times – tão prestigiados que, ao contrário do que seria de se esperar, muitas pessoas se sentem lisonjeadas em receber um telefone da editoria de obituários para elaboração de um perfil: era a garantia de que o nome figuraria na coluna quando chegasse a %22malfadada hora%22. Como escreve o organizador do livro, Matinas Suzuki, no posfácio da obra: %22Para muita gente é mais negócio ter um bom obituário no New York Times do que ir para o céu. Há uma grande chance de, aqui na Terra, ele dar a última palavra a respeito de suas vidas%22. Segue, então, o trecho do Márcio:

Como não consegue explicar o absurdo da morte, o obituário faz com que a vida seja consagrada. Ainda que de maneira condensada e resumida, todo necrológio é uma exaltação, não necessariamente pelos elogios – às vezes exagerados – que carrega, mas pela capacidade de tentar buscar um sentido em tudo o que foi vivido. O New York Times levou este ensinamento ao ponto mais alto, fazendo da sua página de obituários um sinônimo do jornalismo de qualidade superior. Um exemplo disso está em O Livro das Vidas (Companhia das Letras, 312 páginas, R$ 48), antologia organizada por Matinas Suzuki Jr. que reúne obituários publicados pelo New York Times.
O livro surge da junção de duas outras coletâneas publicadas nos Estados Unidos. A primeira, de 1997, é
The Last Word: The New York Times Book of Obituaries and Farewells. A Celebration of Unusual Lives, organizado por Marvin Siegel, editor de obituários do jornal naquele período. A outra, mais recente, é 52 McGs: The Best Obituaries from legendary New York Times writer Robert McG. Thomas Jr., reunindo textos do mais destacado fazedor de obituários. O que O Livro das Vidas reúne são textos curtos, mas não superficiais, curiosos, mas não bobos, emotivos, mas sem escorregar para a pieguice, enfim, relatos escritos na medida certa, respeitando o rigor jornalístico mas sem perder a ternura.

Leiam o resto no Cultura do próximo sábado, pessoal. Só, antes, um último comentário:um dos mais destacados obituaristas do Times foi Alden Whitman – ele é tido como o jornalista que estabeleceu o estilo dos modernos obituários da publicação, inclusive a entrevista prévia assumidamente realizada para a composição do obituário. E daí? Daí que se alguém ficou curioso de saber a rotina de alguém que coordena a equipe que redige antecipadamente as matérias sobre alguém que ainda está vivo, pode ler o perfil de Whitman escrito para a Esquire em 1966 por outra lenda do jornalismo, Gay Talese. O texto, batizado de Senhor Má Notícia, consta de Fama e Anonimato, outro livro da coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras, pela qual agora está saindo este O Livro das VIdas.

Postado por Carlos André Moreira

Uma caixa de vaga-lumes

13 de fevereiro de 2008 7


Para a geração deste que vos escreve, bem como, acredito, para outras que nos seguiram, a expressão %22leituras de juventude%22 evoca freqüentemente uma associação com a coleção Vaga-Lume, da Editora Ática, pela qual jovens em idade escolar fizeram suas primeiras viagens literárias e foram apresentados ao prazer do livro, de uma trama imaginativa, narrada com ritmo de tirar o fôlego.

A Vaga-lume, que completou 35 anos no ano passado, sempre soube conciliar ação, aventura e imaginação com qualidade literária sem condescendência – muitos dos livros da série haviam sido escritos décadas antes de serem incorporados à coleção e por nomes consagrados da ficção brasileira, como Orígenes Lessa ou Maria José Dupré. Capacidade que se traduziu em números. De acordo com os dados obtidos pela minha colega Patrícia Rocha em reportagem feita no ano passado, apenas de 2001 até agosto de 2007 já haviam sido vendidos 1,5 milhão de exemplares dos diferentes títulos da coleção, que ainda está sendo produzida.

Os temas abordados pela coleção também são de uma diversidade invejável, já que a série nunca se esquivou das questões atuais de seu tempo. Antes mesmo de todos sermos confrontados sem desculpa com a chaga social dos meninos de rua, já havia o livro Tonico, de José Rezende Filho e Assis Brasil. O drama dos exilados na ditadura militar era abordado já nos anos 1980, logo após o fim do regime, com Meninos sem pátria, de Luiz Puntel. O mesmo autor mais tarde enfocaria o drama social dos trabalhadores do campo em Açúcar amargo. Marcos Rey contava um seqüestro em Bem-vindos ao Rio.

Confesso que não me mantive informado dos títulos posteriores aos anos 1990, mas já a matéria da Patrícia publicada em agosto informava que %22a coleção há muito deixou de ser hegemônica: hoje enfrenta a concorrência de editoras de peso e de fenômenos internacionais, como Harry Potter, além de ter reduzido o investimento em divulgação para professores%22.

O que não impede que eu sinta um certo saudosismo ao ficar sabendo que, para comemorar seus 35 anos completos em agosto, a Ática está lançando uma caixa com 10 livros da série Vaga-Lume – dois mais recentes, o livro que abriu a coleção e aqueles que figuram entre os mais vendidos. Há ausências, claro. Um dos mais populares títulos, O mistério do cinco estrelas, de Marcos Rey, é hoje publicado por outra editora, a Global, bem como boa parte da obra do mesmo autor. Mas a lista dos 10 livros é um bom panorama dessas três décadas de Vaga-lume:

* A ilha perdida, de Maria José Dupré
* O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida
* Um cadáver ouve rádio, de Marcos Rey
* Acúcar amargo, de Luiz Puntel
* Éramos seis, de Maria José Dupré
* Os barcos de papel, de José Maviael Monteiro
* Menino de asas, de Homero Homem
* O caso da borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida
* A turma da rua 15, de Marçal Aquino
* A árvore que dava dinheiro, de Domingos Pellegrini

Te interessou? mais informações no site da coleção (http://www.atica.com.br/vagalume/)

Postado por Carlos André Moreira

Mais um conto de verão

11 de fevereiro de 2008 1

Preclaros, vai abaixo mais uma das histórias escritas por este que vos fala para a revista de Verão que circula às sextas-feiras em Zero Hora. Este conto em particular foi publicado há umas duas semanas. Esta é a versão integral, o resultado foi meio cortado por imposições de espaço. Comentários e malhações na janela de comentários:

Vinte e cinco anos
O barulho parecia o de uma discoteca dentro do carro, mas não vinha do rádio e sim do aparelho retangular que o filho de Irineu parecia dedicado a partir no meio apertando com um polegar de cada lado. Na época em que deu o gameboy de presente para Alexandre, no aniversário de 10 anos, ano passado, Irineu ainda teve bom humor para dizer que aquela algaravia entrecortada parecia uma musiquinha de carrossel composta pelo Rush – mas a piada não surtiu efeito, Alexandre nunca havia andado em um carrossel, e não conhecia o Rush. Agora, contudo, o som da engenhoca, ouvido ininterruptamente nas últimas horas (quanto tempo dura a bateria dessas coisas?), parecia uma broca a atravessar o cérebro.
– Filho, pode baixar um pouquinho o volume, por favor? Papai tá com dor de cabeça.
– Pai, não baixa mais do que isso.
– Filho, colabora, por favor? Tira o som, então, deve ter um botão só pra isso aí em algum lugar.
– Agora não, pai, tou bem adiantado na fase e se parar vou perder.
– Bom, então tu VAI perder. Eu to dirigindo, guri, esse troço desconcentra. Desliga.
– Mas pai…
– Desliga agora!
Alexandre desligou o aparelho e o jogou com força no banco de trás. O gameboy ricocheteou e caiu com estrondo no tapete do piso. Irineu abriu a boca para ralhar, mas, arrependido por haver perdido a calma, preferiu não dizer nada. Deixou no ar o silêncio mal humorado. Não havia sido a melhor das idéias, estava deduzindo agora, mas, depois de anos de briga na Justiça por qualquer coisa relativa a Alexandre – mais dias de visita, menos dias de visita, aumento de pensão, diminuição de pensão, guarda exclusiva, guarda compartilhada –, a mãe do garoto vinha se mostrando mais razoável. Hoje ela parecia menos disposta a pensar que Irineu fugiria com ele para o Paraguai a cada vez que apanhava o filho para o fim de semana a que tinha direito. O garoto, certamente envenenado pela megera, tinha bem pouca naturalidade com ele, parecia sempre contrariado.
Mas a evolução, lenta e minuciosa, era inegável. Vera até havia concordado, depois de anos de propostas rechaçadas sem qualquer consideração, em deixar Alexandre fazer uma viagem de verão com o pai para Santa Catarina, coisa rápida, quatro dias. Irineu chegou a desconfiar, no mínimo aquela mala estava com algum outro otário na mira e queria curtir uns dias de solteira em Porto Alegre. Mas não ia reclamar, porque aquilo havia proporcionado a oportunidade para ele tentar uma reaproximação do filho com a mesma viagem que ele próprio fizera com o pai nas férias 25 anos antes.
Muito do que ele se tornara e da ligação que desenvolvera com o pai havia sido moldado naquele veraneio há um quarto de século, na praia ainda desconhecida à margem de uma aldeia de pescadores. Será que ele também complicara tanto as coisas na viagem? Naquele tempo as estradas não eram tão fáceis, parecia demorar mais, e no entanto suas lembranças eram alegres, ele e o pai cantando acompanhando o rádio, comendo sanduíche na rodoviária na beira da estrada, nadando, passeando pelos morros em volta. Agora Alexandre reclamava o tempo inteiro, comera salgadinhos todo o caminho e ainda continuava se queixando de fome, pedira de meia em meia hora para parar o carro e fazer xixi à beira da estrada e não largara aquele aparelho infernal quase em momento algum. Se na ida já estava assim, não saberia o que fazer durante os quatro dias que ainda tinham pela frente. Imaginara uma interação crescente entre pai e filho, mas já nas horas de viagem as coisas haviam degenerado. Ainda bem que já estavam chegando.
O carro entrou no vilarejo. Ao perceber os olhos arregalados do filho para o cenário rústico de casas de estuque e tijolo à vista o pai deixou-se tomar por uma esperança de remendar aquela viagem. Reduziu a velocidade e começou a passear entre as casas lentamente, como se descortinasse o panorama para o filho. Logo estacionou na frente da pousada, respirou o ar denso de maresia e observou Alexandre, que continuava olhando em volta minuciosamente. 
– Legal!
A exclamação de Alexandre encorajou o pai a perguntar, esperançoso.
– Gostou, filho?
– Maneiro, parece uma daquelas vilas do Counter Strike. Falando nisso, tem internet nesse lugar?

Irineu dirigiu-se para o porta-malas sem dizer mais nada. Sentia agora o quanto 25 anos podiam ser um longo tempo.

Postado por Carlos André Moreira