
Um dos pontos mais fascinantes do livro Palimpsesto, as memórias do escritor americano Gore Vidal, é que ele participou de uma das mais ativas gerações de literatos dos Estados Unidos. E, ao contar uma certa passagem de sua vida envolvendo outros escritores ou artistas, ele tinha como apresentar também a versão do mesmo episódio nas memórias de gente como Anaïs Nin ou Tennessee Williams, o que provoca um espelhamento de relatos muy gracioso.
Como não é sempre que aparece uma geração de tal calibre ligada às letras, podemos dizer que tivemos algo parecido com a turma que fez a música brasileira do fim dos anos 1950 em diante. Um pessoal que se conheceu no Rio de Janeiro, então o centro de gravitação cultural e ainda política do Brasil, e que escreveu seu nome na história da música nacional: Roberto Carlos, Tim Maia, Wilson Simonal, Erasmo Carlos, Jorge Ben (na época não era Benjor). E com o envelhecimento progressivo dessa geração, embora a maioria, com exceção de Caetano no livro Verdade Tropical, não tenha se dedicado a suas memórias, eles já começaram a ser alvos de biografias, autorizadas ou não. O que nos permite fazer, pela pura curtição do processo, comparações entre o mesmo episódio relatado em um e em outro livro.
Estimulado pelo post do Eduardo Veras logo abaixo, resolvi fazer algo parecido com Tim Maia e Roberto Carlos, ambos jovens pobres que tiveram até certo ponto trajetórias muito semelhantes (flerte com a bossa nova, idolatria a João Gilberto, desilusão com a estrutura fechada e elitista do grupo dos bossa-novistas e posterior descoberta do rock) e que, no início de suas carreiras, estiveram no mesmo grupo, o breve Sputniks, quarteto composto por ambos e pelos amigos em comum Wellington Oliveira e Arlênio Lívio. Um grupo que nasceu e morreu de maneira fulminante no ano de 1957 e que se dissolveu por atrito justamente entre aqueles dentre os quatro que mais que projeção ganhariam no futuro: Roberto e Tim.
Vamos então ver como o livro Vale Tudo (Objetiva), de Nelson Motta, citado faz pouco pelo Edu, relata o episódio:
Foi no Clube do Rock que Tião e Roberto conheceram o gordo Imperial, compositor, produtor e empresário artístico, o principal divulgador do rock-and-roll no Rio de Janeiro, que também promovia shows em clubes da Zona Norte e dos subúrbios. Depois de um breve teste numa sala da emissora, no antigo Cassino da Urca, Imperial escalou-os imediatamente. Foi a primeira e única apresentação dos Sputniks na televisão.
A estréia vitoriosa na tevê, cantando "Little Darlin'" em arranjo idêntico ao da gravação original do conjunto The Diamonds, marcou também o início do fim do grupo, quando, depois do programa, Tião e Roberto bateram boca aos gritos na porta do estúdio e quase saíram no tapa.
A confusão começou depois do programa. Tião estava com fome e foi com Arlênio e Wellington comer um salgado num bar. Roberto ficou na porta da televisão, e quando viu Imperial saindo, lhe disse que também era de Cachoeiro e que imitava Elvis Presley. Imperial tinha gostado da apresentação dos Sputniks e deixou que Roberto cantasse alguma coisa de Elvis. Depois de ouvir "Tutti Frutti" e "Jailhouse Rock", com Roberto se acompanhando ao violão, Imperial não teve dúvidas e escalou-o para o próximo programa.
A turma voltou do bar, Roberto contou feliz a novidade e Tião a recebeu como alta traição. A terra tremeu, os berros ecoaram pelas históricas paredes do Cassino da Urca:
"Seu filho-da-puta! Eu boto você no meu conjunto e você vai cantar sozinho, porra!"
Roberto tentava explicar que os seus números de Elvis não prejudicariam em nada o trabalho com os Sputniks, mas Tião estava irado, tomado de um ciúme devastador, de um ódio mortal.
E agora vejamos o mesmo causo pelo prisma da polêmica e malfadada biografia Roberto Carlos em Detalhes, retirada de circulação pelo acordo judicial entre Roberto, a editora Planeta e o autor Paulo César Araújo. Como o meu exemplar eu comprei legalmente em uma época em que não tinha ainda dado o bolo com a decisão judicial, ainda o tenho para que possamos comparar com o trecho referente ao mesmo episódio:
Os Sputniks chegaram às onze e quinze da manhã na porta da TV Tupi e ali ficaram à espera de Carlos Imperial. Quando ele apareceu, o quarteto se aproximou pedindo a chance para se apresentar no programa. "Mas o que vocês cantam?" quis saber Imperial. Como não poderia deixar de ser, eles responderam quase em uníssono: Little darling. E com suas quatro vozes, dois violões e uma canequinha cantaram para Carlos Imperial ouvir. Antes mesmo de o grupo concluir a música, Imperial exclamou: "Ok, estão aprovados, vão cantar hoje mesmo no programa". Não tinha mesmo como errar. Little Darling era o melhor número do quarteto – e com ele estrearam no Clube do Rock. "A gente cantou vocalizando bonitinho. Era bonitinho mesmo, pois a gente era muito caprichoso com a vocalização" afirma Roberto Carlos.
Ao final do programa, os Sputniks foram fazer um lanche num bar próximo da TV Tupi, menos Roberto Carlos, que ficou no corredor esperando Carlos Imperial deixar o estúdio. Quando ele saiu, Roberto pegou firme no seu braço e disse: "Carlos Imperial, eu também sou de Cachoeiro do Itapemirim e imito Elvis Presley". Um pouco surpreso, Imperial exclamou: "Ah! Você é de Cachoeiro? E imita o Elvis? Então canta aí para eu ouvir". Roberto Carlos pegou no seu violão e mandou Tutti frutti. E ali, naquele momento, pela primeira vez Carlos Imperial prestou atenção em Roberto Carlos. Imperial pediu mais uma música e seu conterrâneo cantou Jailhouse Rock. "Ok, você está escalado para cantar um número de Elvis no próximo programa". Roberto Carlos saiu eufórico e Imperial ficou ali mais pouco acertando detalhes com a produção do programa. Mais tarde, um dos assistentes de Imperial foi lhe comunicar que dois integrantes dos Sputniks quase saíram no pau na porta da TV Tupi. Era Tim Maia, furioso por saber que Roberto Carlos fora escalado para se apresentar no próximo programa. "Eu boto você no meu conjunto e você vai cantar sozinho, porra!", berrava Tim Maia para quem quisesse ouvir.












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