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Uma voz emBRAGAda

01 de março de 2008 4

Como vocês leram no nosso texto antecipando o material produzido pelo Daniel Feix aí embaixo e puderam conferir na edição de hoje, nossa matéria de capa no caderno Cultura foi sobre o Rubem Braga aproveitando o recente lançamento de sua biografia, Um cigano fazendeiro do ar. A menção ao texto provocou um e-mail de nosso colega jornalista Felipe Lenhart, que, além de ter sido repórter do caderno Variedades do jornal Diário Catarinense, também foi nas últimas semanas colunista da revista de verão produzida lá pelo DC. O Felipe me comentava a coincidência porque em resenha no caderno DC Cultura, publicada no último sábado, dia 23, ele havia abordado o mesmo assunto. Fui lá olhar o texto no blog dele, o Uma crônica por dia (www.1cronicapordia.blogspot.com) e achei muito apropriada para ser publicada aqui. Mando abaixo, então, o texto:

O Cronista Passarinho
Felipe Lenhart

Sabia-se que ele tinha apreço por frutas colhidas no pé, passarinhos cantadores e pelas mulheres mais lindas do Brasil. Que, desde cedo, o talento para a escrita e a vocação para o jornalismo o empurraram para dentro das redações, livrando-o dos escritórios de advocacia e do empolado estilo forense. Que viajou pelo país e o mundo, mas gostava mesmo era do vento litorâneo na cara e de dormir embalado na rede. Que não lia muito, era de pouco falar, cultivava árvores frutíferas na cobertura em Ipanema e garrafas de uísque no armário da sala. Que se metera em conflitos armados no Brasil e na Itália de olho atento a tudo e empunhando só uma caneta. Que era de poucos, fiéis amigos, mas colega de intelectuais, políticos, músicos e modelos. Que não gostava da política partidária, apesar de ter sido cônsul, embaixador e um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro (PSB) – mas também não desejava virar barão capitalista ou conde paulistano. Que escreveu sobre a beleza do pé de milho, o voejar da borboleta amarela, um alerta a Copacabana, uma ode às meninas em flor e uma celebração do fato miúdo.

Pois agora há muito mais por descobrir a respeito da vida de Rubem Braga, o melhor, mais célebre e festejado cronista da história da imprensa brasileira. No fim de 2007, a editora Globo lançou um livro essencial, que havia anos reclamava um lugar nas estantes de pesquisadores e leitores saudosos. Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, do jornalista Marco Antonio de Carvalho – morto em junho de 2007, meses antes do lançamento da obra que lhe consumiu uma década de pesquisas e entrevistas – , é um alento para quem procura compreender melhor a vida pessoal e profissional de um dos mais sensíveis e brilhantes escritores do Brasil, cuja produção foi apenas em parte publicada em 18 coletâneas, porque dispersa em uma coleção de jornais e revistas que somam inacreditáveis 61 periódicos. Um sujeito que sobreviveu da escrita desde a adolescência (estréia em 1928, no jornal Correio do Sul, de propriedade do irmão) e viria a morrer (escrevendo em O Estado de S. Paulo) em 19 de dezembro de 1990, num leito do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Em silêncio, solitário e melancólico, mas “sabiá”, como o apelidou o notável cronista mineiro Fernando Sabino.

Até então, o livro mais famoso sobre o ilustre personagem era o do jornalista e crítico literário José Castello, intitulado Na cobertura de Rubem Braga (1996, José Olympio Editora) – um competente perfil biográfico do autor de O conde e o passarinho, de 168 páginas. Agora, são 564 páginas de texto e mais 46 com a discriminação de notas e referências. Eis o salto de riqueza e profundidade. Durante 10 anos, o biógrafo entrevistou centenas de pessoas que pudessem acrescentar um detalhe ao mosaico da vida do “velho Braga”. Consultou incontáveis textos e cartas, gastou semanas em arquivos esquecidos, leu livros que o ajudassem a entender melhor o tempo em que viveu Rubem Braga – nascido em 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro do Itapemirim, cidade que daria à luz também o cantor Roberto Carlos e a diva Luz Del Fuego.

Aspectos pouco conhecidos da trajetória do cronista, como sua atuação política, o trabalho de editor (nos anos 1960, fundou a Editora do Autor, com Fernando Sabino e o advogado Walter Acosta, e a Editora Sabiá, só com Sabino), o relacionamento com Tônia Carrero, o amor platônico (e ciumento ao extremo) por Danuza Leão e outras musas, o gosto por artes plásticas (ganhava quadros e os vendia em momentos de penúria), as desilusões com os amigos comunistas, as divergências artísticas com sumidades da cultura brasileira (considerava um erro Vinicius de Moraes ter trocado a sua fina poesia pelas “bobocas” letras de música), as prisões, o seu antigetulismo aguerrido, a atuação como funcionário do governo no exterior, são esclarecidos.

Pode parecer covardia fazer críticas ao livro, sabendo-se o seu autor já falecido, mas Marco Antonio de Carvalho não foi um biógrafo de primeira linha, como o são Fernando Morais e Ruy Castro, para citar apenas dois. Talvez por ter nascido na mesma cidade do biografado, Carvalho tenha dado tanta ênfase, na parte inicial, a Cachoeiro: informações históricas pormenorizadas do município parecem “sobrar” no conjunto do livro – apesar de sabermos que a nostalgia da cidade natal seja um assunto recorrente na produção braguiana. A atuação profissional na Itália, durante a Segunda Guerra, também poderia ser mais detalhada. No geral, porém, o livro é muito bom – o último capítulo, sobre o câncer e o ritual de despedida de Braga, comove às lágrimas.

Diga-se, ainda – e em favor de Carvalho – , que, numa nota final, o autor explica que até 1980 jamais se interessara por literatura brasileira ou biografias. O anjo pornográfico (1992, Cia. das Letras), magistral relato da vida de Nelson Rodrigues escrito por Ruy Castro, foi que lhe despertou a vontade de esmiuçar de maneira equilibrada a existência do cronista “indispensável”, como ilustra o crítico Davi Arrigucci Jr.:Anos atrás, quem fosse direto a certas páginas e não o encontrasse ia se sentir como o fumante que esqueceu os cigarros não sabe onde” (1999, Outros achados e perdidos).

Há até revelações típicas de biografias, como a informação do verdadeiro motivo que levou Braga a “exilar-se” em Porto Alegre. No prefácio do livro 1939 – um episódio em Porto Alegre (2002, Record), Carlos Reverbel escreveu que Braga mudara-se para a capital gaúcha em pleno Estado Novo não para fugir da polícia de Filinto Müller, da censura de Lourival Fontes ou do olhar de Getúlio Vargas, mas a fim de “refazer-se de envolvente crise sentimental, talvez a mais perturbadora de sua vida íntima“. Pudera. Como esclarece Carvalho, Rubem, casado com Zora Seljan, engravida Bluma Wainer, esposa do amigo Samuel Wainer, e a amante, apaixonada, deixa o marido disposta a viver com o cronista! Braga não pensa duas vezes: pega Zora, as trouxas e foge para o Sul longínquo. Ou o fato de que, em 1989, no fim da vida e já doente, passou pelo constrangimento de ser censurado em O Estado de S. Paulo, por escrever que votaria no “bronco Lula”. Augusto Nunes, então editor-chefe, covardemente suprimiu a frase (“um gesto que faria o jornalista se penitenciar pelo resto da vida“), sem avisar ao autor, que se demitiu, furioso, mas voltou atrás. Afinal, o pomar da sua cobertura dava de tudo, menos dinheiro.

Comentários (4)

  • Marcelo Xavier diz: 2 de março de 2008

    Não sabia dessa censura sobre o “bronco Lula”.

  • Rafael Pimentel Müller diz: 2 de março de 2008

    Parabéns, Carlos, pela iniciativa de publicar o texto do Felipe aqui no blog. Sem dúvida, agradável.

    Abraçosss

  • Felipe Lenhart diz: 7 de março de 2008

    Maravilha, Carlos! Muito obrigado pela divulgação do texto aí no seu blog.
    Um pequeno ajuste, só: o texto saiu no DC Cultura, não na revista. É isso. Sucesso, e um abraço

  • Mundo Livro » Blog Archive » Quatro mineiros diz: 2 de março de 2010

    [...] passado para homenagear a memória de Sabino. O que me faz pensar… Há uns dois anos, saiu Um Cigano Fazendeiro do Ar, de Marco Antônio de Carvalho, alentada e ótima biografia de Rubem Braga, na qual Sabino é [...]

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