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Posts de março 2008

Olhos ofuscados

31 de março de 2008 0


Em seu ofício, acostumou-se a atender chamados de madrugada. Mas naquela noite, quando abriu a porta e viu o negrinho batendo os dentes e tremendo, sem um pala ou chapéu que lhe amainassem a chuva, teve um presságio ruim. Fez o menino entrar e se botou a secá-lo enquanto ele dava o recado. Era a Sinhá Estela, da fazenda dos Ramos, quem a chamava. Calculou, pelo que lhe tinham agendado, e concluiu que os trabalhos começaram antes do tempo, pelo menos um mês. Era a segunda tentativa de Sinhá Estela, a outra nem fora tão logne. A moça não ouvira seu conselho para esperar um pouco mais. Quando lhe procurou a dizer que estava grávida de novo, confessou a pressa em segurar o casamento, que ia mal, com o marido festeiro e, desconfiava ela, de amante.
O negrinho já estava seco mas ainda batia os beiços. Ela espalmou-lhe a testa, e ardia.
– Vou te fazer um chá, guri.
– e a Sinhá Estela?
Sem responder, deixou o menino enrolado na toalha e saiu, foi pegar um ramo de sálvia no canteiro. Foi pisando firme com os tamancos para não escorregar na terra molhada, e segurando o guarda-chuva contra o vento, com as duas mãos, com força, numa luta difícil e desproporcional. Ao abaixar-se no canteiro, o vento virou o guarda-chuva, que voou, deixando-a desprotegida e fazendo-a sentir, pela segunda vez naquela noite, um presságio ruim . Ergueu-se de súbito, com as folhas da erva na mão e, no alumiar de um relâmpago, viu, a dez passos na sua frente, com o poncho lustroso de encharcado, seu falecido esposo.

O trecho acima é do conto Dona Mimosa, Parteira, incluído no livro Olhos de Morcego, do gaúcho Leonardo Brasiliense, recentemente lançado pela editora 7Letras, a mesma pela qual havia saído no ano passado o infanto-juvenil Adeus Conto de Fadas (prêmio da categoria no Açorianos). Para que vocês tenham mais informações sobre o livro, vai abaixo a crítica escrita por este que vos dirige a palavra e que saiu no dia do lançamento do livro, dia 26 último:

Recomenda-se não ler um livro focando-se nas orelhas. Mas determinadas obras podem permitir uma aproximação por suas epígrafes. É o caso da coletânea de contos Olhos de Morcego, do escritor Leonardo Brasiliense.
Uma frase de Aristóteles dá título ao livro e também fornece uma chave de leitura para os 10 contos do livro, quarta coletânea de narrativas breves do autor.
A frase é %22
Assim como os olhos do morcego reagem diante da luz do dia, assim também a inteligência que está em nossa alma se comporta diante das coisas que, por sua natureza, são as mais evidentes%22. Se os olhos de morcego reagem à luz, como na frase de Aristóteles, os personagens do livro reagem – quase sempre de formas inesperadas para o leitor e para elas próprias – a uma violência subjacente nas relações. O mundo ficcional criado por Brasiliense é, na prática, uma sucessão de conseqüências desastrosas de uma administração equivocada de circunstâncias.
É esse imbricar da brutalidade com o cotidiano que produz alguns dos episódios de maior estranhamento na obra. E em literatura, estranhamento é virtude.
Às vezes os resultados dessa interconexão são ótimos, como na  desesperadora história
A Neta Estuprada, na qual uma septuagenária parte, às cegas, para uma vingança contra o homem que violentou sua neta, cega. Ou na história plena de uma tensão não-concretizada Dona Mimosa, a Parteira, na qual a personagem-título é chamada no meio da madrugada para efetuar  um parto em um rancho a quilômetros de sua casa e sofre um acidente com o cavalo no meio do caminho. E é de uma ironia refinada que a protagonista seja uma parteira – ofício associado com o despertar da vida – em uma narrativa triste na qual tudo vai sendo perdido gradativamente, numa lenta atmosfera de morte.
A dezena de histórias em
Olhos de Morcego (7Letras, 112 páginas, R$ 27) lança um olhar melancólico sobre personagens das chamadas classes  populares: peões de estância, policiais, proprietárias de botecos, os menos bem posicionados na escala social, e às vezes um certo toque farsesco se insinua por entre as peças realistas que compõem o volume – e este casamento já é menos bem-sucedido. O ritmo e algumas imagens particularmente felizes do conto Fim dos Tempos perdem-se em meio ao
desfecho, que extrapola o trágico até pisar no terreno do nonsense, diluindo o efeito construído até então com o ritmo veloz e entrecortado.

Postado por Carlos André Moreira

Leia no Cultura de amanhã

28 de março de 2008 0


Um olhar de conjunto sobre a obra de McCarthy devolve uma imagem notavelmente coerente apesar das óbvias transformações de estilo de um romance para o outro. Alguns de seus melhores livros anteriores, como Todos os Belos Cavalos e Meridiano Sangrento, têm uma prosa em caudal, estentórea, com ressonâncias bíblicas que revestem de um poder alegórico e imagético tramas que, embora imaginativas, não respondem pelo total fascínio provocado pelo escritor _ até o estouro com sua Trilogia da Fronteira nos anos 1990 e agora com a sua descoberta pelo cinema, McCarthy era um autor “de culto”, venerado por um número restrito de leitores que amam seus livros apaixonadamente.
Meridiano Sangrento e as obras que compõem a Trilogia da Fronteira (Todos os Belos Cavalos, A Travessia, Cidades da Planície) revisitam o Oeste, a paisagem fundadora da mitologia americana, atualizando-a com altas doses de uma violência mais adequada à nossa época. Não mais os duelos ao entardecer ou as brigas de soco e cadeiradas em saloons empoeirados. A violência neste caso se aproximou tanto dos personagens que atravessou a fronteira da pele, dedicando-se ao retrato de homens e mulheres que se agridem e se violentam psicológica e emocionalmente. A “fronteira” não é só física, é sim o limite em que um homem ainda pode ser considerado humano.

O trecho acima foi extraído de um longo artigo que escrevi no Cultura desta semana sobre o autor norte-americano Cormac McCarthy (foto), e que vocês podem ler amanhã na contracapa do caderno. Os demais artigos sobre livros incluem um texto sobre (mais um) livro abordando o Rio na época da chegada de Dom João VI ( Ponha-se na Rua: Fatos e Curiosidades no Rio de Janeiro de D. João VI) e o estudo A Guerra Particular de Lênin, de Lesley Chamberlain (Record, 420 páginas, R$ 60).

Não percam.

E já que eu falei de livros não lidos

27 de março de 2008 2

Como a propósito do artigo de John Freeman eu citei também o livro recentemente publicado por aqui de Pierre Bayard, é uma boa oportunidade para republicar aqui o artigo que escrevi sobre essa obra no Caderno Cultura do dia 16 de fevereiro último. Destaquei algumas passagens que dialogam com as idéias de Freeman no artigo cujo trecho traduzi abaixo. Para quem não leu, leu e esqueceu, ou nem quis ler e continua não querendo. Qualquer coisa, nos vemos no próximo post.

Os Livros que Não Lemos
Professor de literatura francesa na Universidade de Paris, Pierre Bayard discute a indeterminação dos conceitos de leitura e de não-leitura em ensaio best-seller que defende a tese de que cada leitor monta sua própria rede de relações com uma obra

Acautelem-se os que costumam comprar um livro instigados pelas promessas contidas no título. À primeira vista, a obra Como Falar dos Livros que não Lemos (Objetiva, 207 páginas) parece um volume de auto-ajuda para picaretas e arrivistas de toda ordem. E mesmo que em seu terço final ele às vezes chegue perto disso, mas não muito, o livro do professor francês de literatura Pierre Bayard é um delicioso e instigante ensaio sobre as contradições e dificuldades das definições correntes do que venha a ser leitura – e, por conseqüência, do que pode ser chamado %22não-leitura%22.

Ao abordar o mesmo tema, no magistral Uma História da Leitura, publicado em 1997 no Brasil pela Companhia das Letras, o crítico Alberto Manguel já justificava o uso do artigo indefinido no título da obra devido àquela ser uma dentre as milhares de histórias da leitura possíveis, uma para cada leitor. Com a liberdade formal proporcionada por essa escolha, Manguel construiu sua visão pessoal da história da leitura com uma série de ensaios mesclando depoimentos pessoais com tentativas de sistematizar uma linha narrativa cronológica e classificatória, elencando hipóteses históricas ao mesmo tempo em que apresentava diferentes tipos de experiências de contato com o universo da leitura.

É um caminho em certo ponto similar ao que Bayard trilha em Como Falar dos Livros que não Lemos. Ambos os ensaios concordam em um ponto essencial: a leitura é uma atividade cujo poder transformador independe de orientação especializada ou da condução dócil de um cicerone, cada leitor fará dela uma circunstância pessoal. A diferença é que essa conclusão leva Manguel a um elogio da leitura individual, enquanto Bayard aproveita para comentar que, se a leitura prescinde de recomendações de terceiros, mesmo formas socialmente reprováveis de apreciação de uma obra, como a própria não-leitura, são válidas como apreciação artística. O livro de Bayard é a defesa erudita e involuntária do mote de Oswald de Andrade: não li e não gostei.

Como Falar dos Livros que não Lemos é dividido em três partes. Já na primeira delas o autor detém-se sobre as complexas nuanças existentes em alguns conceitos tomados universalmente como válidos. A fim de estabelecer desde logo as ferramentas de sua reflexão, Bayard descarta a, para ele pouco clara, distinção entre livros lidos e não-lidos. Um livro não-lido pode ocupar um espaço tão central em uma cultura que determinados leitores terão sobre ele tantas informações quanto aqueles que o leram. E, mesmo no âmbito mais restrito das obras a quem alguém realmente se dedicou, há gradações para o que sobrou dessa leitura. Alguns lerão até boa parte antes de desistir, e outros lerão um livro inteiro e reterão sobre ele uma memória mais pálida do que a daqueles que não leram uma determinada obra, mas têm conhecimento do que dela já se disse, já se estudou e de sua importância:

É difícil, como se vê – e os fatos só vão acentuá-lo – determinar com precisão o que é a não-leitura, e, conseqüentemente, o que é a leitura. Parece que nós nos situamos, o mais das vezes, ao menos no caso dos livros que nos acompanham no interior de uma determinada cultura, em um território intermediário entre as duas, a ponto de se tornar difícil dizer, na maior parte dos casos, se nós os lemos – escreve Bayard.

Com o humor refinado que permeia todo o livro, Bayard propõe novas classificações, e as apresenta detalhadamente na primeira parte. Substitui lido e não lido por quatro categorias que pretendem abranger a variedade de interações de um leitor com a obra. São elas: os livros desconhecidos, a grande maioria sobre a qual nada se sabe; os folheados, aqueles que foram manuseados tendo sido percorridos até o fim ou não; os de que ouvimos falar, sob os quais nos chegaram informações seja pela rede de trocas culturais da tradição seja pela resenha de uma publicação, como esta aqui; os esquecidos, aqueles que, mesmo seguidos palavra por palavra até o fim vão gradualmente sendo erodidos da memória. Com exceção da categoria dos desconhecidos, contudo, as demais não são estanques: nada impede que tenhamos ouvido falar de um livro que mais tarde folhearemos – e é impossível reter na memória humana a totalidade, palavra por palavra, de um livro, e portanto todos eles, em maior ou menor grau, são parcialmente esquecidos. O que sobra de cada um são ilhas de compreensão conectadas pelo impacto que a obra produziu no leitor.

Falando assim, parece um árido exercício de taxonomia, mas a obra de Bayard, plena de uma ironia sutil, garante o interesse recorrendo, com texto impecável, a exemplos tirados da própria literatura: Proust, Valéry, Umberto Eco, Robert Musil, entre outros. Todos parte do que Bayard chama, em defesa de sua tese, de biblioteca coletiva, o grande continuum literário para o qual cada autor contribuiu e no qual se situa de acordo com sua importância. O patrimônio coletivo que permite a alguém dissertar e ter opinião sobre um livro que não leu: a capacidade de situar autores e textos no grande panorama da literatura.

Para um verdadeiro leitor, preocupado em refletir sobre a literatura, não é um livro específico que conta, mas o conjunto de todos os outros, e prestar atenção exclusiva em um único traz o risco de perdermos de vista o conjunto e aquilo que, em todos os livros, faz parte de uma organização mais ampla e que permite compreendê-lo em profundidade.

Na segunda parte, Bayard vai um pouco além: cada leitor vai priorizar aquilo que a ele interessar na grande biblioteca coletiva. Some-se a essa idiossincrasia o fato de que a recepção de um livro muda de acordo com o espírito do tempo e com a cultura na qual o leitor está imerso (Bayard exemplifica com o hilário relato de uma pesquisadora em dificuldades para explicar Hamlet a uma tribo africana que, para começar, não acredita em vida após a morte, divergindo já na primeira cena do catalisador da peça, o fantasma do rei morto). Em decorrência dessa combinação de fatores, as relações simbólicas, intelectuais e afetivas que um leitor estabelece com uma obra jamais serão as mesmas que as de outro leitor. E, já que muito do que se leu costuma desaparecer da memória, todo livro lido com paixão virá a ser substituído na mente e no coração do leitor por um outro livro, o livro que ele considera ter lido, não necessariamente o mesmo que o autor pensa ter escrito.

Mas, sobretudo, já que é verdade que os livros interiores de duas pessoas  não podem coincidir, é inútil lançar-se em longas explicações diante de um escritor, que se vê ameaçado de ter a angústia aumentada à medida que evocamos o que ele escreveu, experimentando a sensação de que estamos lhe falando de um outro livro ou de que nos enganamos de pessoa.

Ah, sim, e se alguém ficou curioso, na terceira parte Bayard chega enfim aos sutis conselhos para que um leitor se desvie com elegância das situações em que precisa falar de um livro que não leu. Também aqui o livro vale não pelas supostas dicas, e sim pelas pertinentes reflexões que Bayard retira delas. A grande ironia é que o livro, best-seller quando lançado na França no ano passado, foi alvo de uma série de ataques de quem viu nele um incentivo à trapaça intelectual. Algumas das críticas claramente feitas por pessoas que não leram a obra. E, pelas proposições de Bayard, tão válidas quanto esta, escrita por um sujeito que leu, folheou e conheceu o livro, e que neste exato momento, provavelmente já começou a esquecê-lo e a substituí-lo por outro.

Postado por Carlos André Moreira

A encruzilhada das resenhas

26 de março de 2008 0

As margens não são mais marginais, como tem sido dito freqüentemente. Mas o que pode ser encontrado lá também ameaça tomar conta do tempo que nós realmente gastamos lendo os livros. Digamos que você passe apenas uma hora por dia lendo sobre livros – em um ano você terá queimado duas semanas de sua vida desperta.Nunca teve tempo para o Moby Dick ou Em Busca do Tempo Perdido ou Crime e Castigo? Eis aí sua janela de leitura.

Na verdade, equações como essa são sempre enganadoras, porque o tempo que nós gastamos espiando e tateando em resenhas não é ideal para a leitura de ficção. Zapear em sites tornou-se nossa inquietação mental, um modo de satisfazer nosso desejo constante de estar “lá fora” quando não podemos estar – seja porque estamos sentados no escritório ou esperando as batatas ferverem.

Mas a acumulação da informação cobra um tributo. Ocasionamente, uma pilha de resenhas de um novo livro apenas me faz sentir cansado – oh, você de novo, eu penso. Seguramente isto é um motivo parcial para que escritores como John Updike e Philip Roth ou Joyce Carol Oates, que publicam freqüentemente e em um nível tão elevado, aterrisem nas livrarias com uma cauda de cometa que vibra de forma algo irritante. Eles nos negam a oportunidade de falar sobre algo – ou alguém – novo.

Para além dessa frustração, os escritores sobre quem freqüentemente se escreve podem se tornar aqueles que se lê com menos freqüência. Além disso, quanto mais os jornalistas nos fazem pensar que conhecemos algo sobre um escritor – Ele certa vez deu um tiro uma prova impressa enviada a ele para que escrevesse uma recomendação, diz. Ela é uma diva – mais fácil é para nós fazer um julgamento prévio. Tivesse eu continuado a ler o perfil de Jonathan Franzer que apareceu antes da publicação de As Correções (e que falava sobre ele escrevendo de olhos vendados) e não sei se eu teria algum dia lido o romance.

O trecho acima, traduzido por este que vos escreve, é de um artigo assinado por John Freeman, presidente do Círculo Nacional de Críticos Literários dos Estados Unidos, e publicado nesta quarta-feira no blog que ele mantém na página do jornal inglês The Guardian. Freeman faz uma interessante reflexão sobre como, no mundo acelerado e de informação abundante em que vivemos, as pessoas não estão cada vez se contentando mais com as resenhas, as reportagens no jornal, os perfis literários e se esquecendo de dedicar um tempo à “coisa real”, ao livro em si, objeto palpável e único, a relação do leitor com o texto mediada cada vez mais pela palavra de algum opinador empedernido (sim, sim, esse tom irônico é parte de um mea-culpa pessoal deste crítico). Uma discussão que até certo ponto é a mesma do recém lançado (por aqui) livro Como Falar dos Livros que não Lemos, de Pierre Bayard. Tanto o texto de Freeman, ligeiro, mais adequado a um jornal, quanto o estudo aprofundado de Bayard, erudito e instigante, são reflexões agudas sobre o próprio estatuto da leitura nesta sociedade atual dita pós-moderna.

Ah, sim, o link para o texto original, em inglês, está aqui. O mais engraçado é ler como alguns dos comentadores online do artigo são tão sarcásticos e atilados quanto o próprio Freeman, e oferecem contrapontos irônicos e debochadas críticas ao crítico, numa inversão da autoridade do discurso crítico que é ela própria um comentário apropriado sobre o tema que Freeman vinha discutindo: a supervalorização da resenha e do texto comentário.

Postado por Carlos André Moreira

Vati Hemingway

26 de março de 2008 0

Hemingway em Schruns em 1926, com a primeira mulher, Hadley, e o filho de ambos John, apelidado Bumby
Notícia que vem da agência DPA, que por sua vez a recebeu da agência austríaca APA:

Depois de anos de controvérsia, a comunidade de Schruns, na Austria, receberá no próximo sábado um monumento em honra do escritor e aventureiro americano Ernest Hemingway (1899-1961). O autor passou duas temporadas na cidade em meados dos anos 1920, trabalhando em seus livros – mais notoriamente O Sol Também se Levanta. O prefeito de Schruns, cidade de 3,8 mil habitantes, havia conseguido na Justiça a suspensão do projeto, com base em informações de que durante a II Guerra Hemingway teria cometido crimes contra prisioneiros alemães, como espancamento e execução a sangue-frio.

O monumento só será erigido agora graças a um parecer solicitado pelo Ernest Hemingway Memorial à Universidade de Hamburgo. De acordo com a universidade, as cartas de Hemingway nas quais ele citava as brutalidades cometidas e que foram a base para a acusação de crimes de guerra contra o americano seriam %22fantasia do poeta%22 – sei não, comentário pessoal meu, mas é estranhamente conveniente…

Agora, com o tal parecer, Schruns vai inaugurar finalmente um busto de bronze de dois metros do escritor.

Postado por Carlos André Moreira

Os heróis e os mitos

26 de março de 2008 3

Garibaldi em fotografia de cerca de 1866
Durante quatro anos ele lutou pela causa do Rio Grande do Sul, em terra e no mar, e por mais seis anos serviu ao governo liberal em uma guerra civil no Uruguai. Essas foram pequenas guerras travadas em imensas paisagens. A esquadra riograndense (sic), da qual Garibaldi, um moscardo audaz como Drake, desafiou o gigantesco império, enfrentou os 67 navios da marinha brasileira, a maior da América do Sul. O Rio Grande do Sul era do tamanho da Inglaterra, enquanto o Brasil, do qual ele queria ficar independente, era maior do que toda a Europa, incluída a Rússia. Nessas terras intermináveis de população rarefeita, cobertas por florestas e pampas onde o capim crescia tão alto que podia esconder um homem a cavalo, os minúsculos exércitos e os grupos de guerrilha menores ainda passavam tanto tempo procurando uns aos outros quanto lutando.
Quando chegavam a se confrontar, era por breve tempo (uma das batalhas mais decisivas de Garibaldi durou uma hora e meia) e de maneira brutal. Posteriormente Garibaldi veio a ser idealizado como um paladino imaculado, porém os registros de sua verdadeira experiência são tão manchados de sangue quanto os de qualquer guerreiro irregular tendem a ser. Ninguém, tendo que galopar a toda velocidade para cobrir enormes distâncias, se dispunha a fazer prisioneiros. Há uma história, repetida muitas vezes anos depois, de como no Brasil Garibaldi interveio (como Wallerstein certa vez se recusara a fazer) para impedir que um jovem fosse executado, dizendo que ele poderia ser útil à comunidade. Essa história era contada para ilustrar a clemência de Garibaldi, e de fato ilustra; porém naquele mesmo dia ele já havia mandado degolar quatro homens.

Não sei quanto a vocês, mas eu, vivendo em um Rio Grande do Sul que bombardeia sem trégua sua própria versão de seu passado heróico, com versões canônicas estabelecidas e textos considerados apócrifos execrados, sempre que deparo com um olhar  construído %22de fora%22 para o mito fundador dos 10 anos da Revolução Farroupilha fico muito, mas muito curioso por acompanhar a impressão neutra desse %22estrangeiro%22 que chega a nossa história de viés.

Daí meu interesse ao pegar recentemente um exemplar do livro Heróis: salvadores, traidores e super-homens (Record, 564 páginas, R$ 67,90), da escritora e jornalista inglesa Lucy Hughes-Hallet. O alentado volume é uma coletânea de perfis histórico-biográficos de oito personagens heróicos da cultura ocidental, de algum modo representando também os padres fundadores de uma certa noção de heroísmo nacional europeu: os gregos Aquiles, Ulisses e Alcibíades, o romano Catão, o espanhol El Cid, o inglês Francis Drake, o checo-autro-germânico Albrecht Eusebius Wallerstein e o italiano (na verdade francês de nascimento, acreditem) e bem nosso conhecido Giuseppe Garibaldi (1807 – 1882). E falar de Garibaldi, mesmo para um escritor com foco na cultura heróica européia, é falar em algum momento dos anos que ele passou no Rio Grande do Sul ao lado das forças de Bento Gonçalves. Lucy o faz em 10 das quase cem páginas do perfil do herói italiano. Passeia por sua adesão à causa da %22independência de um país que jamais chergaria a existir%22, aborda seu amor por Anita, companheira ideal, valente e combativa nas refregas como ele. Como a intenção da autora é uma obra que dê um apanhado biográfico do famoso guerreiro e algumas das condições de seu tempo, ela não se detém muito na história de Garibaldi na América do Sul (na bibliografia apresentada no fim do livro, vê-se que as informações sobre esse período vieram todas de outras biografias de Garibaldi, e não de alguma das obras específicas sobre a nossa revolução (de resto, provavelmente inacessíveis em inglês). Mais ou menos como Plutarco já havia feito com as vidas dos grandes vultos, ela não apenas narra suas histórias, mas tece comparações e ligações entre eles: Garibaldi tem sua valentia comparada com a do Cid espanhol, sua coragem e gosto pelo mar relacionados com Francis Drake e assim por diante. Ah, sim, e esqueçam o Tiago Lacerda na minissérie A Casa das Sete Mulheres: o pelos depoimentos que se tem (abundantes, o que torna Garibaldi um caso raro de vulto histórico com uma vida razoavelmente bem documentada), o corsário, embora dotado de carisma magnético, feições nobres e inspiradoras e de um porte altivo, não tinha mais de 1,67m. 

Porém, nem tudo é perfeito. Uma das regras de ouro do jornalismo é que você pode avaliar a precisão de uma notícia ou da publicação que a veiculou ao ler o que foi escrito e narrado de um evento ou fato que você presenciou ou conhece bem. E em Heróis são muitos os tropeços, colaterais e inofensivos para o propósito global do livro, mas límpidos para os que conhecem essa parte da história. O engraçado é que alguns deles são da autora, enquanto outros são claramente equívocos da edição em português – o que aí sim as torna problemáticas, por revelar desconhecimento não da autora, residente em Londres, mas da editora, sediada no Rio. No índice onomástico ao fim do volume, por exemplo, o comandante farroupilha aparece como %22Gonçalves, Benito%22. Mesmo o gentílico do nascido no Rio Grande, %22rio-grandense%22, aparece emendado e sem hífen, como no exemplo que eu destaquei acima – é algo que Lucy Hugues Hallet não precisaria necessariamente saber, embora seria de se esperar que fosse do conhecimento dos revisores da Record.

Ah, sim, e não vou bater o martelo sobre isso, mas acredito que se você colocar a Rússia na parada, o Brasil não tem espaço para a Europa inteira. No mínimo uma Suíca vai ter de ficar de fora. Alguém tem os dados corretos?

Postado por Carlos André Moreira

O segredo do submundo

25 de março de 2008 0

Stanley Tucci como Joseph Mitchell e Ian Holm como Joe Gould no filme Crônica de uma certa Nova York
Os tempos modernos produziram imensas diferenças sociais que são visíveis tanto nos países pobres como nos países ricos e você, com certeza, já deparou com estas diferenças diversas vezes na sua vida. Basta sair de casa, caminhar pelas ruas e ver, sentir e cheirar o cotidiano. Um mendigo dorme na calçada em plena luz do dia; um flanelinha cuida do seu carro em troca de alguns centavos; uma mãe amamenta o filho na calçada e pede uns trocados. No outro extremo, o casal flerta e ensaia a noite de amor; um novo negócio é fechado em um aperto de mãos; uma mãe derrama uma lágrima ao ver o filho nascendo. É a cidade respirando. No meio deste turbilhão urbano você caminha com seus sonhos, compromissos e aventuras e se questiona: O submundo do cotidiano tem alma? O que pensam e sonham estes marginais da sociedade? Somente uma pessoa com o olhar do escritor e jornalista norte-americano Joseph Mitchell (1908-1996) pode traduzir estes sentimentos. Um dos maiores expoentes do chamado Jornalismo Literário, que revolucionou a forma de contar histórias em jornais e revistas nos Estados Unidos, Mitchell sempre se interessou por marginais. Sempre quis falar sobre as pessoas que não têm voz. Sempre quis saber o que acontece nos becos, bares e ruas que não viram manchetes. E conseguiu de forma magistral no livro O Segredo de Joe Gould (Companhia das Letras). Mitchell trabalhou até o fim da sua vida na célebre revista New Yorker, e foi nela que, em 1942, publicou uma reportagem sobre um maltrapilho que dizia estar escrevendo o maior livro sobre a história oral da humanidade. Joe Gould perambulava pelo Village, tradicional bairro boêmio de NY, carregando cadernos e rascunhos desta grande obra que ele estava produzindo. O sujeito baixinho, barbudo e extremamente falante chamou a atenção de Joseph Mitchell, que penetrou no submundo de Nova York e descobriu coisas que não imaginava. Conheceu uma outra cidade que vive escondida dentro da própria cidade.

Embora se esforce para dar a impressão de que é um vagabundo filósofo, Gould tem trabalhado muito durante sua carreira de boêmio. Todos os dias, mesmo quando está com uma ressaca das bravas, ou com tanta fome que se sente fraco e desanimado, passa ao menos duas horas trabalhando num livro sem forma e misterioso que chama de %22Uma história oral de nossa época%22. Começou a escrevê-lo 26 anos atrás e está longe de concluí-lo. A preocupação com essa obra parece ser o motivo principal de seu estilo de vida; um emprego fixo, qualquer que fosse, atrapalharia suas reflexões, diz ele.

O texto sobre Joe Gould é uma reportagem sobre o lado B de toda metrópole, que passa desapercebido na correria do cotidiano. Mitchell decifrou a alma do submundo urbano nos dilemas enfrentados por Joe Gould. Em 1964, sete anos depois da morte de Gould, Joseph Mitchell publicou novamente uma reportagem na revista New Yorker com o título O Segredo de Joe Gould. O mistério guardado por tanto tempo sobre a obra de Gould – A História Oral da Humanidade – é revelado nesta reportagem, que tornou-se livro.

Misteriosamente, Mitchell nunca mais escreveu algo significativo após a publicação desta reportagem. O motivo do silêncio do escritor nunca foi descoberto, apesar de inúmeras especulações. Mas, afinal, o que Joe Gould e o submundo têm a nos ensinar? Descubra o segredo com Joseph Mitchell. 

Postado por Maurício Tonetto

Regras da Exceção

23 de março de 2008 4


Às sete horas da noite, Iben é a única que ainda está no trabalho. Às oito, arrasta duas enormes sacolas de supermercado para seu apartamento. Fez estoque de mantimentos: arroz, mel, papel higiênico, três pacotes de bolachas orgânicas que estavam em oferta especial, iogurte e legumes. Para o janteas, ela fatia um punhado de verduras, acrescenta tempero e azeite de oliva, mistura com o prato do dia – um pedaço de bacalhau congelado – e coloca tudo no microondas.
Por enquanto, ela não fez muita coisa no apartamento. As paredes ainda são brancas, como eram quando se mudou para lá. Seus poucos móveis são herdados ou comprados de segunda mão.
Enquanto o microondas zumbe, ela verifica a secretária eletrônica. Nenhum recado. Depois que o forno apita, ela abre a caixa de e-mails. Há apenas uma nova mensagem, em inglês

Você, Iben Højgaard, por seus atos,
foi reconhecida como
%22hipócrita entre os seres humanos%22.
É, portanto, um privilégio e um prazer
Levá-la à morte
Agora.

Remexa a memória: quantos romances recentes você conhece que esmiucem o universo do trabalho? Em que as relações de trabalho sejam tão importantes para a trama quanto as relações familiares e amorosas? De modo geral, a ficção contemporânea afasta-se de um problema do personagem (o sustento) para investir em outro (sua psique, seu horizonte mental, sua forma de estar no mundo, normalmente um sentimento de inadequação). A questão de onde esse personagem tirará dinheiro para seu sustento é sempre resolvida com poucas tintas: o sujeito se vira como tradutor, ou o sujeito é escritor, ou o sujeito de alguma forma tem o ganho de vida garantido por alguma circunstância (pai ajuda, ganhou na loteria, herdou uma grana).

Quando o universo do trabalho se faz presente, é normalmente sua faceta mais passível de denúncia: o subemprego, a ocupação burocrática infernal (mais ou menos inútil e sempre muito, muito vaga). Ou os que vivem no limite da miséria material, e aí a condição de despossuído é elevado à condição de tema, mas não o emprego assalariado no mundo capitalista. Nos anos 1980 e 1990, o jogo da alta grana manejado pelos yuppies moldou algumas obras como Grana, de Martin Amis, ou O Psicopata Americano, de Brett Easton Ellis. Mas o fato é que, passados anos desde sua publicação, os contos de Bukowski (fiquem ligados, em breve a L&PM lança uma nova coletânea de histórias do velho safado) continuam de longe algumas das melhores abordagens literárias do universo do trabalho capitalista – pelo lado da mão-de-obra que se estropia no processo de %22produção e acumulação%22.

O romance A Exceção, de Christian Jungersen (Intrínseca, 560 páginas, , quase poderia ser esse livro, essa… exceção (a piada tava pronta, não reclamem comigo), ao lidar com as conseqüências fatais da inveja corporativa e da surda rivalidade entre empregados de um escritório. Digo quase porque é um romance dinamarquês, e portanto a realidade do trabalho explicitada no livro é bem diferente da nossa, e o escritório é o de uma ONG de documentação e combate ao genocídio que conta com auxílio da ONU, o que a difere um pouco de uma repartição no 17º andar de um prédio no centro de Porto Alegre, por exemplo.

Iben, Malene e Anne-Lise são três mulheres que dividem o trabalho em um centro dinamarquês de documentação e denúncia de crimes contra a humanidade. Quando a história começa, Iben acaba de voltar do Quênia, onde, mandada em missão do centro, foi feita refém por uma milícia, experiência traumática que a transforma por um breve momento em espécie de celebridade. Malene, ex-colega de faculdade, foi quem ajudou Iben a conseguir o emprego, e, apesar de sua posição hierárquica superior, sofre com as dores provocadas por uma precoce e agressiva artrite reumatóide que, às vezes, a impossibilita de se locomover. E empurra com a barriga uma relação não satisfatória com um namorado mais ausente do que próximo. Já Anne-Lise, mais velha, mais apagada, trabalhando no cubículo de uma biblioteca de documentação à parte da sala geral do escritório, sente-se isolada, excluída da interação amistosa das outras duas e dos demais colegas do escritório da organização, que a brindam com maus-tratos constantes

Uma trinca cuja relação se encontra contaminada na origem. Quando as duas amigas mais jovens recebem e-mails ameaçadores enviados à primeira vista por um suposto criminoso de guerra sérvio denunciado por ambas em textos assinados. Logo, ambas estarão desconfiando que Anne-Lise é a autora das mensagens, e passam a manipular as coisas para que ela seja incriminada.

Não apenas essas relações são viciosas na história. Todas têm com o chefe manipulador um histórico de ambigüidade – ora em confronto aberto, ora aliadas com o intuito de prejudicar as demais. Mesmo a amizade entre Malene e Iben pode ser corrompida quando ambas passam a disputar a atenção de um mesmo homem, um desencantado jornalista especializado em questões internacionais. Cada etapa dessa jornada de paranóia e pesadelo é narrada pelo ponto-de-vista de uma delas: Iben, Malene, Anne-Lise. Paralelo a tudo isso, o curioso retrato de uma sociedade que para nós, os brasileiros, parece pura invenção (a maioria dos ex-colegas de faculdade de Iben e Malene está desempregada, mas %22desempregado%22 na Dinamarca significa vivendo de um auxílio governamental que garante não só que nenhum deles passe fome como também mantenham um padrão de vida de dar inveja a brasileiro empregado.

Ou seja: embora retrate de forma descarnada os conflitos no universo do trabalho, o romance do ainda pouco conhecido dinamarquês Christian Jungersen provoca um certo grau de estranheza por situar-se em um país ele próprio considerado %22exceção%22.

Postado por Carlos André Moreira

A terapia de Nietzsche

21 de março de 2008 1


Ao tomar conhecimento do livro Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom,  fiquei curiosa: como alguém teria a indiscrição de revelar a mente tão privilegiada de um filósofo? Em seguida soube que era um romance, pura imaginação, e questionei novamente: como podia um livro que mistura ficção com psicanálise interessar a tanta gente a ponto de se tornar um best-seller? Tive a resposta nas primeiras páginas. Para quem ainda não ouviu falar, a história mostra diálogos entre o filósofo Friedrich Nietzsche e um renomado médico, que tinha como amigo e confidente Freud – sim, ele mesmo, Sigmund Freud, naquele momento um jovem médico promissor em início de carreira. Tudo se passa em Viena, no século 19, quando Nietzsche procura Dr. Breur para se consultar sobre problemas de saúde que até então médico algum tinha resolvido. A idéia por si só já é sugestiva, porém o autor consegue muito mais.

O livro é criativo, agradável e tem uma linguagem acessível. Retrata bem a época, os costumes e cria um ambiente quase de suspense. Tudo isso e mais a intenção de introduzir os leitores nas questões filosóficas, nos mistérios da alma. Querem mais? O texto é simples, a ponto de falar de psicanálise de forma bem didática, compreensível até para os menos chegados ao assunto. E, para completar, bem-humorado. Da metade em diante, começa a adquirir um caráter quase que de brincadeira. Como se o autor propusesse ao leitor um jogo: leia até o fim, por favor, e eu te darei pícaras passagens e a idéia de que o tema psicanálise não é tão chato e nem tão elevado assim. Boa leitura!

Postado por Leonice Schmorantz

O Horror de Caio

19 de março de 2008 1

Caio Fernando Abreu na época da publicação de O Ovo Apunhalado/Paulo Franken / ZH
Não que eu tivesse medo. Mas ele era excessivamente pálido. Mesmo sem ter nunca encarado o seu rosto eu já sabia de sua palidez, como sabia de sua frieza sem precisar tocá-lo. Estava ali desde muito tempo, desde antes de mim. Eu o via desde muito pequeno, quando minha mãe abria o guarda-roupa e eu conseguia perceber no meio dos vestidos as suas mãos demasiado longas. No começo não tinha voz para perguntar, nenhuma curiosidade. Sabia-o ali, no meio dos vestidos e dos chapéus. Sabia-o ali, pálido e frio, praticamente ausente. Às vezes me comoviam a sua solidão e a sua lealdade: nunca vira minha mãe agredi-lo mas, por outro lado, também nunca a vi tomar conhecimento dele. Nem por isso ele solicitava qualquer atenção. Estava apenas ali, tangível e remoto como a parede do fundo do guarda-roupa. 

Curiosamente, quando se fala de Caio Fernando Abreu, fala-se muito de sua modernidade, do homossexualismo subjacente em muitas de suas narrativas, de sua poesia. Mas, tirando análises da época em que ele apareceu, não tenho lido nada muito recente que ressalte Caio como um dos grandes autores de horror da nossa literatura (talvez um dos únicos, pensando bem). Não há vampiros ou lobisomens ou mortos-vivos ou zumbis, mas há sim uma sensação difusa de esmagamento, de um certo ceder ao desespero, de um esmagamento do eu em contraposição ao mundo ameaçador. Caio expressa a contemporaneidade como um conto de horror, as %22pessoas empilhadas na cidade enquanto os burocratas afiam o arame farpado%22, como diz um dos personagens de um conto de Rubem Fonseca chamado Entrevista.

Para mim, particularmente, como leitor, Caio conseguiu seus melhores resultados na concisão da narrativa curta, e lapidou suas melhores gemas na trilogia Inventário do Ir-remediável, Pedras de Calcutá (este, particularmente, meu preferido) e O Ovo Apunhalado, de onde retirei o trecho que vocês leram acima. O Ovo Apunhalado acaba de ser reeditado pela Agir (R$ 29,90), juntando-se aos outros dois livros dos quais falei. Mas também ainda é facilmente encontrável em edição de bolso pela L&PM a R$ 12,50, aí vai da sua sorte no procurar, mas dá para economizar uns cobres..

Uma leitura que ainda inquieta ao diagnosticar o horror em nós, cada vez mais próximo.

Postado por Carlos André Moreira