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Todos os nomes

23 de abril de 2008 0


Faz pouco a jovem colega Tássia Kastner me comentou que havia lido um livro, lançamento recente, com uma estrutura original: uma coletânea de contos interligados que se organizava como um manual de significados de nomes e aproveitava esses significados como mote para o desenvolvimento do personagem principal de cada história. Achei interessante e pedi que ela me escrevesse um texto com suas impressões para compartilhar com vocês aqui no blog. Ele segue abaixo.
Leiam e aproveitem o talento de nossa jovem promessa:

Ao folhear-se O Livro dos Nomes (Companhia das Letras, 2008, 170 páginas) pode-se pensar que é mais um guia para escolher o nome de um filho. A autora Maria Esther Maciel cria um alfabeto de filhos que ao mesmo tempo são primos, irmã, pais, amantes. Relações iguaizinhas às que estabelecemos em nossas vidas. Um caminho para simplicidade – ou simplificação – da leitura, tanto do livro, como das personagens.
O entrelaçamento de histórias não tem nada de incomum. São os nossos círculos de amizade, nossos universos, por vezes mais desumanos que humanos. Mas, pelos olhos da autora, muito mais íntimas do que sociais.
O diálogo entre cada personagem não acontece entre parágrafos, mas sim, entre capítulos. A cada protagonista é dado o direito de ter a sua versão contada, ainda que não em primeira pessoa. Ainda assim, há a possibilidade de esse personagem mostrar a sua versão sobre os fatos, mesmo que o faça de forma distante. Por vezes, resta a um coadjuvante a missão de terminar a história.
E em ordem alfabética, cada %22nome%22 é apresentado através de seu significado, mas também, por alguma definição conceitual que traça um pouco do rumo tomado pelo indivíduo que é muito mais que seu nome:

Lídia ou Dos Amores Fingidos
Definição: %22…Fontes alternativas, porém, o associam as pessoas que trabalham com afã e optam por uma vida sem fadiga. Consta ainda que Lídia designa as mulheres lídimas, legítimas, as quais, contudo, estão sempre em contenda com que as deixa infelizes.%22
%22Mas também, sendo filha de Odília, não havia como ser diferente. A mãe interferiu em todos os seus atos, em todas as suas tentativas de seguir uma vida estrita, colocando-a em permanente estado de risco. Por isso Lídia oferece a ela apenas um amor ambíguo, desses que só contentam os que são muito carentes ou tristes.%22 (…)

Odília ou O Leite Derramado
 %22O nome Odília, de raiz germânica, sugere riqueza, propriedade, esplendor de bens (…) Pode-se ainda depreender da sonoridade do nome um quê de ode, de idílio. Ou mesmo um de ódio, digamos, tranqüilo…%22
No contar de sua história, porém, é ela quem, tendo duas filhas, as tratou com diferença declarada, fazendo uma delas – Lídia – desejar não ter nascido dela, por ter como dívida até o %22leite consumido de seus peitos%22.

A história de cada nome é um diário de sua vida escrito por outro, que racionaliza cada conflito vivido pela personagem, e por fazê-lo, simplifica sua existência, levando-nos a ler cada indivíduo-personagem da forma como sua descrição inicial. Um texto que implica em duas possíveis leituras: ou nossas complexidades são triviais ao extremo, ou somos tão parecidos com todos esses nomes, que por mais estúpidas e complexas que sejam suas vidas vemos neles um pouco de cada um de nós.

Postado por Carlos André Moreira

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