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As almas e a guerra

25 de abril de 2008 0


Albert Camus escreveu A Queda, tratado sobre a decrepitude sincera da alma humana, em 1956. Apesar de orgulhosamente argelino, ganhou notoriedade após mudar-se para a França durante a Segunda Guerra Mundial, e utilizou a língua dos colonizadores de sua terra natal nos escritos que lhe trariam fama. Quase 30 anos antes, porém, Irène Némirovisky, uma judia de origem russa, havia feito o mesmo.

Lançado agora no Brasil, O Senhor das Almas (Companhia das Letras, R$ 34 em média) traz, em prosa fluida e rápida, o mesmo escrutínio a que Camus submeteria o homem em seu último romance publicado em vida. E como o argelino, Irène fez carreira escrevendo no idioma do país que a enviaria, aos 39 anos, para morrer de tifo nos campos de concentração nazistas. A biografia da autora, entretanto, vai além da tragédia do holocausto e justapõe-se à sua obra mais do que, talvez, ela gostaria.

A obra, lançada como folhetim em 1939 – portanto, às vésperas da II Guerra Mundial e da ocupação da França por Hitler – narra a desventurosa vida de Dario Asfar. Russo fugido da Revolução Bolchevique, forma-se à duras penas em Paris e se vê em Nice com a esposa, um filho recém-nascido e nenhum dinheiro. Apesar do diploma, não consegue galgar a escada social devido principalmente a sua condição inequívoca de imigrante – cujas feições, descritas minuciosamente e citadas várias vezes, não deixam dúvidas.
Entretanto, assim como o personagem do derradeiro romance de Camus, Dario não guarda para si a gana de ascender ao tout Paris utilizando quaisquer meios, ao mesmo tempo que procura, a todo custo, renegar à sua origem. Na excruciante lógica que permeia as ações do jovem médico, boa parte das privações pelas quais passa provêm de seu berço. É quando decide se enveredar pelo campo da recém-nascida psicanálise.

Auto-intitulado Senhor das Almas, começa a tratar da alta burguesia francesa. Mas Dario é um charlatão. E tem tanta consciência disso que jamais se dá por satisfeito, temeroso do dia em que voltará à miséria. Tanto que uma vez alcançado seu objetivo – graças em parte à relação simbiótica com um rico empresário – o médico continua insatisfeito.

Parece ser de sua natureza jamais se contentar com o que possui e permanecer diuturnamente em busca não e simples status social, mas de ser reconhecido como um igual por seus clientes. Seu modus operandi, entretanto, não é compartilhado pelo filho, que o despreza, e pela esposa, que limita-se a aceitar.

O simulacro que Irène desenvolve é, para alguns críticos, uma analogia da situação que vivia. Judia na França que acaba de editar leis anti-semitas, a escritora teria, por várias vezes, negado sua herança até o momento final de ser mandada para morrer em Auschwitz. O filho e a esposa representariam a sociedade que ou a odeia, ou a ignora.

A questão, entretanto, não influi no entendimento da obra. Camus se encarrega de responder n´A Queda. %22Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou?%22.

Postado por Gustavo Brigatti

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