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Alice para Crianças

29 de abril de 2008 0

A gente leva tão a sério Alice no País das Maravilhas que acaba esquecendo do que ele realmente é: um livro para crianças. Uma novíssima tradução do texto de Lewis Carroll — assinada pelo cineasta Jorge Furtado, diretor do
filme Saneamento Básico, e por sua professora de inglês, Liziane Kugland (Editora Objetiva, 168 páginas, R$ 29,90) — vem nos lembrar justamente disso. Quando Carroll inventou essa história, em 1862, o que ele tinha no horizonte era uma diversão para crianças, mais exatamente três meninas: as irmãs Lorina, 13 anos, Alice, 10, e Edith, oito. Foi durante um passeio de barco, no verão europeu. Carroll, que era professor de matemática e diácono da Igreja Luterana, imaginou uma história em que uma garota chamada Alice, entediada com a tarde à beira do lago, meio sonolenta e abobada, tem sua atenção despertada por um coelho de relógio. Ela decide perseguir o animal, cai num poço profundo e vai parar em um universo fantástico, onde ela encolhe e aumenta de tamanho à medida em que experimenta biscoitos ou bebidas e onde os bichos falam e têm atitudes muito esquisitas.

Foi a pedido de Alice — a menina do meio entre as três irmãs — que ele escreveu o livro, à mão e com caprichados desenhos em preto-e-branco. Esse texto, publicado em 1865, se tornou um dos mais encantadores de todos os tempos, maravilhando não só crianças mas também adultos. Pensadores como Gilles Deleuze produziram ensaios sobre Alice, e muito se discutiu sobre as metáforas e as idéias sugeridas pelo autor (acredita-se que ele próprio não concordaria com muitas delas).

Em português, o livro ganhou dezenas de traduções. Em geral, elas são literais, muito fiéis ao original, com notas de rodapé explicativas, voltadas, portanto, para adultos — o exemplo clássico, aqui, seria a belíssima versão assinada pelo poeta Sebastião Uchoa Leite em 1977 (confira abaixo). De outro lado, estão as adaptações, facilitadas, resumidas, concebidas para leitura de crianças – caso, por exemplo, das versões de Monteiro Lobato, o criador do Sítio do Picapau Amarelo, e Ana Maria Machado, autora de Bisa Bia, Bisa Bel.

Liziane Kugland e Jorge Furtado escolheram fazer nem uma coisa nem outra. O livro deles, com ilustrações da carioca Mariana Newlands, tenta manter sempre que possível o texto integral, mas atualiza referências de época e enfrenta os trocadilhos e jogos de palavras. Compare três trechos:

Por Jorge Furtado e Liziane Kugland, para crianças brasileiras do século 21:
Tinha mesmo um jeitão esquisito aquele grupo reunido na beira d`água: as aves com as penas enlameadas, os outros bichos com o pêlo grudado no corpo, e todos encharcados, irritados e desconfortáveis. A primeira questão, claro, era como se secar. Eles tinham discutido sobre isso e, depois de alguns minutos, pareceu bem natural para Alice conversar com eles na maior intimidade, como se já os conhecesse por toda a vida. Na verdade, ela teve uma discussão bem longa com o Papagaio, que acabou ficando emburrado, dizendo apenas: 
— Eu sou mais velho que você, e tenho que saber mais.
Alice não aceitaria aquilo sem saber quantos anos ele tinha (…).

Pelo poeta Sebastião Uchoa Leite (Summus Editorial), fiel ao original, que mirou nos leitores adultos:
Era na verdade um grupo singular o que se reuniu na margem do lago: as aves com as asas arrastando, os outros animais com o pêlo colado ao corpo, todos encharcados, mal-humorados e contrafeitos.
A primeira questão a colocar-se, portanto, era como secar outra vez: fizeram uma reunião de consulta, e após alguns minutos Alice achou muito natural que estivesse falando familiarmente com ele, como se os conhecesse há tempos. E na verdade teve até uma longa discussão com o Papagaio, que por fim,  agastado, apelou para o seguinte argumento: Sou mais velho que você e portanto devo saber mais. — Alice não podia admitir isso, sem antes saber qual a idade dele (…).

Nílson José Machado (Editora Scipione) adaptou o texto – com rimas – para crianças:
Era uma cena singela: Alice banhada em lágrimas, os bichos em volta dela, com penas e pêlos molhados, na boca um gosto de sal, um desconforto geral. Como fazer para secar, para rearrumar as penas, para pentear os pêlos, para voltar ao normal? Com muita impaciência e pouca organização, foi grande a discussão. O periquito clamava:
— Aqui, o mais velho sou eu!
E Alice retrucava:
— Duvido! Pois então diga o ano em que nasceu!

Postado por Eduardo Veras

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