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Os livros mais cult do mundo?

29 de abril de 2008 3


O que é um livro”cult? Nós tentamos e fracassamos em chegar a uma definição: livros freqüentemente encontrados nos bolsos de assassinos;, livros que você levou bastante a sério quando você tinha 17 anos; livros cujos leitores podem ser identificados para todos com a fórmula maluco por [nome do autor]. Livros que nossos filhos não querem ler.
Algumas coisas sobressaem com freqüência: drogas, viagens, filosofia, dois dedos de sabedoria convencional, um autocentrismo titânico, uma tendência a ficar datado rapidamente e uma edição econômica que todos reconhecem com um leve estremecimento. Mas isso não cobre tudo.
Alguns livros cult incluem algumas das mais assustadoras coleções de bobagens jamais compiladas entre duas capas. Mas também incluem muitos dos textos-chave do moderno feminismo; algumas das melhores memórias e reportagens, alguns dos mais extasiantes e originais romances do cânone.
Os livros cult são, de certa forma, intangivelmente diversos dos simples best-sellers – embora muitos daqueles também sejam estes.
The Carpetbaggers foi um best-seller, Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas foi um cult.
Eles também são diferentes de livros que têm grandes novas idéias – embora muitos deles também sejam.
A Origem das Espécies mudou a história. Assim Falou Zaratustra foi um cult.
(…) Estes são os livros que se tornaram pessoalmente importantes para seus leitores: mudaram o jeito que eles viviam, ou o jeito que eles pensaram sobre como viviam.

Quem me deu este toque foi a colega Grazi Badke, uma das titulares do blog Remix, cujo link você acha na coluna de referência aí do seu lado direito. O trecho acima, traduzido por mim, foi retirado deste link na página eletrônica do jornal inglês Telegraph, uma instigante matéria organizada pelo grupo de críticos literários da publicação compilando 50 livros considerados “cult” pelas definições que vocês leram acima. Como toda lista desse tipo, uma das grandes curtições é discutir o que entrou e o que ficou de fora. E como toda lista desse tipo feita em outro país e por pessoas imersas num outro tipo de tradição, também é interessante ver o quanto determinadas obras consideradas cult deste lado da cerca passaram em branco lá, e vice-versa – uma lista dessas no Brasil jamais poderia ser feita sem, por exemplo, As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, O Alquimista, do Paulo Coelho, ou Operação Cavalo-de-Tróia, de J.J. Benitez.

O que diferencia essa reportagem em particular, também, é a levada bem-humorada do texto que comenta cada uma das obras. Uma verve descompromissada, por vezes leviana, mas muito, muito agradável de ler, como nos exemplos abaixo, que eu também traduzi pra vocês terem uma idéia. A lista completa to Telegraph está aqui, em inglês, obviamente:

Matadouro 5, de Kurt Vonnegut (1969)
Fantasia alternativa do Diógenes das letras americanas, um sábio cômico que sobreviveu ao bombardeiro aéreo de Dresden e a várias tragédias familiares para criar sua mistura única de sátira e ficção científica. Como muito do material de Vonnegut, este é raiva selvagem mal e mal mascarada pelo sarcasmo urbano antropológico. O lugar perfeito para começar.

O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell (1957 – 1960)
O grande romance barroco moderno. Tornou possível para as classes médias abraçarem o Mediterrâneo. Nenhuma Alexandria como aquela existiu de verdade. Nem neste thriller barato de exploração espaço-temporal, Cabala, sexo, boa comida e bebida (durante um racionamento) ou investigação filosófica. Algumas frases bonitas, é certo; mas um monte delas não faz sentido.

Ardil 22, de Joseph Heller (1961)
Uma farsa bélica amargamente frenética, responsável por inventar o dilema do qual retirou seu nome: você só está dispensado da guerra se for louco, mas querer uma isenção é sinal de que você deve ser são. A história da literatura poderia ser inteiramente diferente se Heller seguisse sua intenção original e chamasse o romance de Ardil 18: mas o título foi mudado para evitar confusão com um livro de Leon Uris.

O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger (1951)
O texto sagrado sobre alienação adolescente, amado por assassinos, emo, e todos os que estiverem entre uma categoria e outra, incluindo aí Gordon Brown. O complicado adolescente Holden Caulfield à solta na Cidade Grande, analisando sua família e ficando bêbado. Você provavelmente já o leu, seja honesto.

A Profecia Celestina, de James Redfield (1993)
No fundo da selva sul-americana um intrépido explorador está prestes a tropeçar em uma série de antigas profecias que poderiam mudar nossa maneira de viver e até mesmo salvar o mundo. Se ao menos nós não tivéssemos de comprar os outros livros daquela série para saber quais eram! Para um efeito similar mais barato, alugue um filme-tipo-Indiana-Jones – Tomb Raider, digamos – e peça a um hippie para sussurrar absurdos em sua orelha enquanto você estiver assistindo.

Confissões de Jean-Jacques Rousseau (1782)
Em uma era de títulos tais como “Não, por favor, papai, lá não!”, a autobiografia espiritual parece tão avançada quanto uma panqueca crocante Findus. Mas quando Rousseau contou sua história, as confissões nunca haviam sido tão confessionais. “Eu me decidi por uma empreitada sem precedentes”, ele declarou, acertadamente. Ele ainda acrescentou, erradamente: “e que, uma vez concluída, não terá imitador”.

Duna, de Frank Herbert (1965)
Vermes de Areia, ornitópteros, Atreides, Harkonnen e especiaria: bata tudo e misture com fantasia sci-fi, estranhamente semelhante a um parente intergalático de James Clavell. O primeiro de uma série que cresceu longa como uma telenovela. Adaptado para as telas em um filme igualmente cult por David Lynch, e, para muitos, a raiz de uma paixão para a vida toda por nomes de personagens complicados e paramentos bélicos cerimoniais arcanos.

Comentários (3)

  • Rafael Pimentel Müller diz: 30 de abril de 2008

    O conceito de “cult” é muito relativo e subjetivo. Há dificuldades de estabelecer uma definição adequada, tal qual para filosofia.
    O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger é um livro excelente, segundo minha visão.

    Abraçossssss

  • carlos orellana diz: 7 de maio de 2008

    O termo cult vem daquilo que `culto`, e na definição de Bourdieu é aquilo que se relaciona a um discurso dominante, e por ser dominante, legítimo. Assim, também poderia considerar obras de Katherine Mansfield, Virgínia Woolf, Marcel Proust, Thomas Mann e James Joyce como legítimos da tradição modernista. E talvez, Harold Bloom seja mais capaz de elencar livros, coisa que ele adora.

  • Biajoni diz: 8 de maio de 2008

    me interesso por livros e filmes cult no sentido de “pouco conhecidos mas amado por aqueles que conhecem” – e a lista do telegraph foge um pouco desse conceito.
    nesse sentido, no brasil, temos “tanto faz”, do reinaldo moraes, “a planta da donzela”, do glauco mattoso, entre alguns outros de edição própria, como alguns do chacal. em português, gosto do “memórias de um ex-morfinómano”, do repórter x. no futuro alguns e-books serão chamados cult. e nem falo em causa própria.
    ;>)

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