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Greene, Gutiérrez, o boxe e a vida

30 de abril de 2008 0


Falei faz poucos posts do britânico Graham Greene, ao comparar justamente as traduções de duas edições de Nosso Homem em Havana, provavelmente seu livro mais conhecido, e eis que chega às livrarias do Brasil uma tradução de Nosso GG em Havana, novo romance do cubano Pedro Juan Gutiérrez no qual Graham Greene é o personagem – do encontro das personalidades bastantes distintas destes dois escritores virão algumas das mais interessantes características do romance, conforme escrevi na edição de hoje do Segundo Caderno a respeito do livro.

Para quem é acostumado com a prosa sensória e com a abundante sensualidade dos livros de Gutiérrez, é interessante ver o autor cubano operando aqui em outro registro, ainda %22tropicalizado%22 mas mais sóbrio, como se tentasse conciliar seu próprio estilo ao pragmatismo anglo-saxão da prosa de Greene. Como podemos ver no ágil e cortante diálogo abaixo, extraído do livro e que reproduz uma conversa entre Greene, em Havana no ano de 1955 para investigar a estranha circunstância de um homem ter sido preso no país fazendo-se passar por ele, e um malandro que o aborda na arquibancada do hipódromo – local, como se sabe, bastante apreciado pelo gênero de espionagem ao qual Greene foi filiado:

– Hey, mister, good morning.
– Good evening
Ah, yes, é isso, evening, hehehe. Quer apostar num ganhador na próxima?
– Todos queremos. Sempre.
– Por dois dólares lhe dou o nome.
– Ah, não, era só o que me faltava.
– É certo, mister. Está tudo combinado e tenho bons contatos. São dois dólares, e se ganhar me dá outros dez.
– E se perder?
– Não pode perder, é certo.
– Aqui combinam tudo antes, desse jeito?
– Aqui e em qualquer outro lugar, mister. Tudo é acertado antes nesse mundo de merda. Não acredite na sorte, não acredite na honestidade, não acredite em nada.
– Ei, ei,
stop, stop!
Eu lhe dou um conselho: fique no meio dos vencedores e não deixe que o tirem nem com um chute na bunda. Os que estão em cima é que dão as ordens.
– E o senhor foi expluso desse grupo faz algum tempo.

– Yes, mister. Às vezes a gente tem momentos ruins na vida. Mas, se o senhor me visse há alguns anos, no Madison Square Garde, Sabe que sou eu?
– Não.
– Eu fui campeão mundial dos pesos leves.
– Ah, por favor.
– Não acredita? estou tão caído?
– Sim, bastante.
– Me paga uma cerveja?
– Por que não?
– Peça Hatuey. Essa cerveja americana é uma merda.
– O senhor é patriota?
– Não, bêbado, hahaha.
Quando chegaram as duas cervejas os dois brindaram:
– Saúde, mister.
– Saúde, boxeador.
– Mister, não perca tempo. Vão fechar as bilheterias. E tem mais, para que confie em mim vou lhe dizer quem sou. Eu nasci em Los Sitios, sabe o são Los Sitios?
– Não.
– Um dos melhores bairros de Havana. De lá saiu gente muito famosa, músicos, boxeadores, atletas. Eu sou Garoto Doido, Crazy Boy é como me chamavam no Madison e nos jornais. Nunca ouviu falar de mim?
– Não me interesso or esporte. Boxe, muito menos.
– Deveria se interessar, mister. O boxe é a vida. Ou o contrário. A vida é um boxe: a gente bate, batem na gente. E ganha quem bate mais forte, mais rápido e tem maior capacidade de assimilação. Isso é a vida, mister. Nada complicado. É muito simples. Passe os dois dólares e vá fazer sua aposta. O senhor pode ficar rico em cinco minutos.
GG tirou dois dólares e lhe deu.
– Pode apostar alto. Tudo o que quiser. Depressa. O cnvelho é um cavalo mexicano muito bonito, Chama-se Centella.

Postado por Carlos André Moreira

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