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Posts de abril 2008

Greene, Gutiérrez, o boxe e a vida

30 de abril de 2008 0


Falei faz poucos posts do britânico Graham Greene, ao comparar justamente as traduções de duas edições de Nosso Homem em Havana, provavelmente seu livro mais conhecido, e eis que chega às livrarias do Brasil uma tradução de Nosso GG em Havana, novo romance do cubano Pedro Juan Gutiérrez no qual Graham Greene é o personagem – do encontro das personalidades bastantes distintas destes dois escritores virão algumas das mais interessantes características do romance, conforme escrevi na edição de hoje do Segundo Caderno a respeito do livro.

Para quem é acostumado com a prosa sensória e com a abundante sensualidade dos livros de Gutiérrez, é interessante ver o autor cubano operando aqui em outro registro, ainda %22tropicalizado%22 mas mais sóbrio, como se tentasse conciliar seu próprio estilo ao pragmatismo anglo-saxão da prosa de Greene. Como podemos ver no ágil e cortante diálogo abaixo, extraído do livro e que reproduz uma conversa entre Greene, em Havana no ano de 1955 para investigar a estranha circunstância de um homem ter sido preso no país fazendo-se passar por ele, e um malandro que o aborda na arquibancada do hipódromo – local, como se sabe, bastante apreciado pelo gênero de espionagem ao qual Greene foi filiado:

– Hey, mister, good morning.
– Good evening
Ah, yes, é isso, evening, hehehe. Quer apostar num ganhador na próxima?
– Todos queremos. Sempre.
– Por dois dólares lhe dou o nome.
– Ah, não, era só o que me faltava.
– É certo, mister. Está tudo combinado e tenho bons contatos. São dois dólares, e se ganhar me dá outros dez.
– E se perder?
– Não pode perder, é certo.
– Aqui combinam tudo antes, desse jeito?
– Aqui e em qualquer outro lugar, mister. Tudo é acertado antes nesse mundo de merda. Não acredite na sorte, não acredite na honestidade, não acredite em nada.
– Ei, ei,
stop, stop!
Eu lhe dou um conselho: fique no meio dos vencedores e não deixe que o tirem nem com um chute na bunda. Os que estão em cima é que dão as ordens.
– E o senhor foi expluso desse grupo faz algum tempo.

– Yes, mister. Às vezes a gente tem momentos ruins na vida. Mas, se o senhor me visse há alguns anos, no Madison Square Garde, Sabe que sou eu?
– Não.
– Eu fui campeão mundial dos pesos leves.
– Ah, por favor.
– Não acredita? estou tão caído?
– Sim, bastante.
– Me paga uma cerveja?
– Por que não?
– Peça Hatuey. Essa cerveja americana é uma merda.
– O senhor é patriota?
– Não, bêbado, hahaha.
Quando chegaram as duas cervejas os dois brindaram:
– Saúde, mister.
– Saúde, boxeador.
– Mister, não perca tempo. Vão fechar as bilheterias. E tem mais, para que confie em mim vou lhe dizer quem sou. Eu nasci em Los Sitios, sabe o são Los Sitios?
– Não.
– Um dos melhores bairros de Havana. De lá saiu gente muito famosa, músicos, boxeadores, atletas. Eu sou Garoto Doido, Crazy Boy é como me chamavam no Madison e nos jornais. Nunca ouviu falar de mim?
– Não me interesso or esporte. Boxe, muito menos.
– Deveria se interessar, mister. O boxe é a vida. Ou o contrário. A vida é um boxe: a gente bate, batem na gente. E ganha quem bate mais forte, mais rápido e tem maior capacidade de assimilação. Isso é a vida, mister. Nada complicado. É muito simples. Passe os dois dólares e vá fazer sua aposta. O senhor pode ficar rico em cinco minutos.
GG tirou dois dólares e lhe deu.
– Pode apostar alto. Tudo o que quiser. Depressa. O cnvelho é um cavalo mexicano muito bonito, Chama-se Centella.

Postado por Carlos André Moreira

Os livros mais cult do mundo?

29 de abril de 2008 3


O que é um livro”cult? Nós tentamos e fracassamos em chegar a uma definição: livros freqüentemente encontrados nos bolsos de assassinos;, livros que você levou bastante a sério quando você tinha 17 anos; livros cujos leitores podem ser identificados para todos com a fórmula maluco por [nome do autor]. Livros que nossos filhos não querem ler.
Algumas coisas sobressaem com freqüência: drogas, viagens, filosofia, dois dedos de sabedoria convencional, um autocentrismo titânico, uma tendência a ficar datado rapidamente e uma edição econômica que todos reconhecem com um leve estremecimento. Mas isso não cobre tudo.
Alguns livros cult incluem algumas das mais assustadoras coleções de bobagens jamais compiladas entre duas capas. Mas também incluem muitos dos textos-chave do moderno feminismo; algumas das melhores memórias e reportagens, alguns dos mais extasiantes e originais romances do cânone.
Os livros cult são, de certa forma, intangivelmente diversos dos simples best-sellers – embora muitos daqueles também sejam estes.
The Carpetbaggers foi um best-seller, Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas foi um cult.
Eles também são diferentes de livros que têm grandes novas idéias – embora muitos deles também sejam.
A Origem das Espécies mudou a história. Assim Falou Zaratustra foi um cult.
(…) Estes são os livros que se tornaram pessoalmente importantes para seus leitores: mudaram o jeito que eles viviam, ou o jeito que eles pensaram sobre como viviam.

Quem me deu este toque foi a colega Grazi Badke, uma das titulares do blog Remix, cujo link você acha na coluna de referência aí do seu lado direito. O trecho acima, traduzido por mim, foi retirado deste link na página eletrônica do jornal inglês Telegraph, uma instigante matéria organizada pelo grupo de críticos literários da publicação compilando 50 livros considerados “cult” pelas definições que vocês leram acima. Como toda lista desse tipo, uma das grandes curtições é discutir o que entrou e o que ficou de fora. E como toda lista desse tipo feita em outro país e por pessoas imersas num outro tipo de tradição, também é interessante ver o quanto determinadas obras consideradas cult deste lado da cerca passaram em branco lá, e vice-versa – uma lista dessas no Brasil jamais poderia ser feita sem, por exemplo, As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, O Alquimista, do Paulo Coelho, ou Operação Cavalo-de-Tróia, de J.J. Benitez.

O que diferencia essa reportagem em particular, também, é a levada bem-humorada do texto que comenta cada uma das obras. Uma verve descompromissada, por vezes leviana, mas muito, muito agradável de ler, como nos exemplos abaixo, que eu também traduzi pra vocês terem uma idéia. A lista completa to Telegraph está aqui, em inglês, obviamente:

Matadouro 5, de Kurt Vonnegut (1969)
Fantasia alternativa do Diógenes das letras americanas, um sábio cômico que sobreviveu ao bombardeiro aéreo de Dresden e a várias tragédias familiares para criar sua mistura única de sátira e ficção científica. Como muito do material de Vonnegut, este é raiva selvagem mal e mal mascarada pelo sarcasmo urbano antropológico. O lugar perfeito para começar.

O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell (1957 – 1960)
O grande romance barroco moderno. Tornou possível para as classes médias abraçarem o Mediterrâneo. Nenhuma Alexandria como aquela existiu de verdade. Nem neste thriller barato de exploração espaço-temporal, Cabala, sexo, boa comida e bebida (durante um racionamento) ou investigação filosófica. Algumas frases bonitas, é certo; mas um monte delas não faz sentido.

Ardil 22, de Joseph Heller (1961)
Uma farsa bélica amargamente frenética, responsável por inventar o dilema do qual retirou seu nome: você só está dispensado da guerra se for louco, mas querer uma isenção é sinal de que você deve ser são. A história da literatura poderia ser inteiramente diferente se Heller seguisse sua intenção original e chamasse o romance de Ardil 18: mas o título foi mudado para evitar confusão com um livro de Leon Uris.

O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger (1951)
O texto sagrado sobre alienação adolescente, amado por assassinos, emo, e todos os que estiverem entre uma categoria e outra, incluindo aí Gordon Brown. O complicado adolescente Holden Caulfield à solta na Cidade Grande, analisando sua família e ficando bêbado. Você provavelmente já o leu, seja honesto.

A Profecia Celestina, de James Redfield (1993)
No fundo da selva sul-americana um intrépido explorador está prestes a tropeçar em uma série de antigas profecias que poderiam mudar nossa maneira de viver e até mesmo salvar o mundo. Se ao menos nós não tivéssemos de comprar os outros livros daquela série para saber quais eram! Para um efeito similar mais barato, alugue um filme-tipo-Indiana-Jones – Tomb Raider, digamos – e peça a um hippie para sussurrar absurdos em sua orelha enquanto você estiver assistindo.

Confissões de Jean-Jacques Rousseau (1782)
Em uma era de títulos tais como “Não, por favor, papai, lá não!”, a autobiografia espiritual parece tão avançada quanto uma panqueca crocante Findus. Mas quando Rousseau contou sua história, as confissões nunca haviam sido tão confessionais. “Eu me decidi por uma empreitada sem precedentes”, ele declarou, acertadamente. Ele ainda acrescentou, erradamente: “e que, uma vez concluída, não terá imitador”.

Duna, de Frank Herbert (1965)
Vermes de Areia, ornitópteros, Atreides, Harkonnen e especiaria: bata tudo e misture com fantasia sci-fi, estranhamente semelhante a um parente intergalático de James Clavell. O primeiro de uma série que cresceu longa como uma telenovela. Adaptado para as telas em um filme igualmente cult por David Lynch, e, para muitos, a raiz de uma paixão para a vida toda por nomes de personagens complicados e paramentos bélicos cerimoniais arcanos.

Jack London, o dentuço

29 de abril de 2008 1

Jack London em foto de 1900
Prepare-se para voltar aos confins do Planeta Terra e presenciar o desabrochar da civilização humana. Prepare-se também para saltar árvores, cruzar rios, descobrir o fogo e explorar cavernas. Ao ler o livro Antes de Adão, do escritor americano Jack London (1876-1916), você vai se sentir como um privilegiado espectador de uma época pré-histórica, em que os macacos disputavam com os tigres, hienas, cobras, jacarés e com os seus semelhantes um espaço na história. Esta obra bem que poderia estar presente nas estantes de História de qualquer biblioteca do mundo, mas trata-se de uma ficção. Jack London narra as aventuras do macaco Dentuço em um planeta ainda virgem. Segundo o autor, a idéia de escrever esta ficção veio após uma série de sonhos que ele teve. Neles, o Dentuço ia mostrando todo o desenrolar da trama. Os relatos são tão vivos e intensos que a impressão que se tem é que Jack London fez uma pesquisa antropológica antes de escrever. O local (continente) onde acontece a trama não está claro, já que pântanos se misturam com florestas e rios. A história começa com Dentuço deitado na sua casa, na copa de uma árvore. Ele abre os olhos e resolve conhecer os mistérios que o cercam. Abandonado pela mãe e pelo %22padrasto%22, ele segue sua caminhada com o fiel amigo Orelha-de-Abano. Os relatos do macaco exprimem sons, cheiros e cores e são intercalados por diálogos entre Jack London e o leitor. O escritor acreditava que as memórias do macaco sobreviveram durante os séculos nos genes das gerações que foram se sucedendo, permitindo então que ele pudesse reavivá-las em pleno século 20.

%22Era inevitável que imitássemos os Homens-do-Fogo reabastecendo a fogueira. No início, tentamos fazê-lo com pequenos pedaços de madeira. Foi um sucesso. A madeira pegou fogo e estalou, e nos divertimos dançando e fazendo barulho. Então, começamos a jogar pedaços cada vez maiores de lenha. Jogávamos cada vez mais, até que tivemos uma enorme fogueira. Corríamos excitados de um lado para outro, arrastando galhos mortos e arbustos da mata (…) Aquela era a obra mais monumental que já havíamos obtido com as nossas próprias mãos e estávamos orgulhosos dela. Nós, também, eramos Homens-do-Fogo, pensávamos, dançando como gnomos broncos no meio do grande incêndio.%22

As aventuras errantes do Dentuço se confundem, de certa forma, com a própria vida do autor. John Griffith Chaney adotou o pseudônimo Jack London e, após uma infância pobre e difícil em Oakland (EUA), resolveu correr o mundo e narrar suas aventuras. Foi operário, catador de ostras, comunista, marinheiro, minerador, vagabundo… e escritor! O espírito nômade e aventureiro está presente em toda a sua biografia, mas não de forma tão intensa quanto no livro Antes de Adão. Jack London se suicidou aos 40 anos e pôs fim a uma brilhante carreira literária. Mas ainda bem para nós leitores que, enquanto macaco, ele não teve o mesmo destino. Boa leitura.

A edição mais recente de Antes de Adão é da L&PM em formato bolso, datada de 1999, com tradução de  Maria Inês Arieira e Luís Fernando Brandão. Pela mesma coleção já saíram também Caninos brancos, O chamado da floresta e De vagões e vagabundos.

Capa de Antes de Adão (L&PM)

Postado por Maurício Tonetto

Alice para Crianças

29 de abril de 2008 0

A gente leva tão a sério Alice no País das Maravilhas que acaba esquecendo do que ele realmente é: um livro para crianças. Uma novíssima tradução do texto de Lewis Carroll — assinada pelo cineasta Jorge Furtado, diretor do
filme Saneamento Básico, e por sua professora de inglês, Liziane Kugland (Editora Objetiva, 168 páginas, R$ 29,90) — vem nos lembrar justamente disso. Quando Carroll inventou essa história, em 1862, o que ele tinha no horizonte era uma diversão para crianças, mais exatamente três meninas: as irmãs Lorina, 13 anos, Alice, 10, e Edith, oito. Foi durante um passeio de barco, no verão europeu. Carroll, que era professor de matemática e diácono da Igreja Luterana, imaginou uma história em que uma garota chamada Alice, entediada com a tarde à beira do lago, meio sonolenta e abobada, tem sua atenção despertada por um coelho de relógio. Ela decide perseguir o animal, cai num poço profundo e vai parar em um universo fantástico, onde ela encolhe e aumenta de tamanho à medida em que experimenta biscoitos ou bebidas e onde os bichos falam e têm atitudes muito esquisitas.

Foi a pedido de Alice — a menina do meio entre as três irmãs — que ele escreveu o livro, à mão e com caprichados desenhos em preto-e-branco. Esse texto, publicado em 1865, se tornou um dos mais encantadores de todos os tempos, maravilhando não só crianças mas também adultos. Pensadores como Gilles Deleuze produziram ensaios sobre Alice, e muito se discutiu sobre as metáforas e as idéias sugeridas pelo autor (acredita-se que ele próprio não concordaria com muitas delas).

Em português, o livro ganhou dezenas de traduções. Em geral, elas são literais, muito fiéis ao original, com notas de rodapé explicativas, voltadas, portanto, para adultos — o exemplo clássico, aqui, seria a belíssima versão assinada pelo poeta Sebastião Uchoa Leite em 1977 (confira abaixo). De outro lado, estão as adaptações, facilitadas, resumidas, concebidas para leitura de crianças – caso, por exemplo, das versões de Monteiro Lobato, o criador do Sítio do Picapau Amarelo, e Ana Maria Machado, autora de Bisa Bia, Bisa Bel.

Liziane Kugland e Jorge Furtado escolheram fazer nem uma coisa nem outra. O livro deles, com ilustrações da carioca Mariana Newlands, tenta manter sempre que possível o texto integral, mas atualiza referências de época e enfrenta os trocadilhos e jogos de palavras. Compare três trechos:

Por Jorge Furtado e Liziane Kugland, para crianças brasileiras do século 21:
Tinha mesmo um jeitão esquisito aquele grupo reunido na beira d`água: as aves com as penas enlameadas, os outros bichos com o pêlo grudado no corpo, e todos encharcados, irritados e desconfortáveis. A primeira questão, claro, era como se secar. Eles tinham discutido sobre isso e, depois de alguns minutos, pareceu bem natural para Alice conversar com eles na maior intimidade, como se já os conhecesse por toda a vida. Na verdade, ela teve uma discussão bem longa com o Papagaio, que acabou ficando emburrado, dizendo apenas: 
— Eu sou mais velho que você, e tenho que saber mais.
Alice não aceitaria aquilo sem saber quantos anos ele tinha (…).

Pelo poeta Sebastião Uchoa Leite (Summus Editorial), fiel ao original, que mirou nos leitores adultos:
Era na verdade um grupo singular o que se reuniu na margem do lago: as aves com as asas arrastando, os outros animais com o pêlo colado ao corpo, todos encharcados, mal-humorados e contrafeitos.
A primeira questão a colocar-se, portanto, era como secar outra vez: fizeram uma reunião de consulta, e após alguns minutos Alice achou muito natural que estivesse falando familiarmente com ele, como se os conhecesse há tempos. E na verdade teve até uma longa discussão com o Papagaio, que por fim,  agastado, apelou para o seguinte argumento: Sou mais velho que você e portanto devo saber mais. — Alice não podia admitir isso, sem antes saber qual a idade dele (…).

Nílson José Machado (Editora Scipione) adaptou o texto – com rimas – para crianças:
Era uma cena singela: Alice banhada em lágrimas, os bichos em volta dela, com penas e pêlos molhados, na boca um gosto de sal, um desconforto geral. Como fazer para secar, para rearrumar as penas, para pentear os pêlos, para voltar ao normal? Com muita impaciência e pouca organização, foi grande a discussão. O periquito clamava:
— Aqui, o mais velho sou eu!
E Alice retrucava:
— Duvido! Pois então diga o ano em que nasceu!

Postado por Eduardo Veras

Para surpreender suas leituras...

28 de abril de 2008 0

Estava zanzando aí pela internet tentando ler algo interessante e descubro, no blog Todoprosa, do escritor e jornalista Sergio Rodrigues, que o também escritor e jornalista Michel Laub, autor dos belos romances Longe da Água e O Segundo Tempo, mantém um blog na internet, no qual comenta, nas palavras dele próprio, %22Livros, cinema, música, pinballs Taito e outras essências%22.

Fui lá conferir – Michel escreve muito bem e gosto de seus textos de análise e opinião desde a época em que ele escrevia na Bravo, na melhor fase da revista, ali no fim dos anos 1990 e início dos dos 2000. E lá encontrei este texto muito legal. Escrevi para o Michel e perguntei se ele nos autorizaria a reproduzir a breve lista aqui no blog, e ele, porto-alegrense e gentil, nos concedeu a vênia de compartilhar aqui com vocês esta lista feita por ele de leituras recentes. Quem quiser conferir os demais posts no blog do Michel, o endereço é www.michellaub.wordpress.com. Pintem lá. Agora, com vocês, o texto do Michel:

Grandes livros sobre temas não muito atraentes à primeira vista – pelo menos para os outros

Quando a sombra descola do chão, de Daniele del Giudice (Companhia das Letras, 144 págs.) – contos sobre manches, pedais, turbinas, fuselagem em geral e velhos pilotos que passam os dias falando com fantasmas em torres de controle de hangares abandonados, tudo descrito numa prosa densa, sinuosa, obsessiva em seu gosto pelo detalhamento, inclusive quando se trata daquele assunto sempre muito agradável a bordo: os acidentes.

 

O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon (Objetiva, 504 págs.) - um tratado longo, erudito e extraordinário sobre os aspectos médicos, econômicos, psicológicos e sociais da depressão. Quem narra é um jornalista que no fim do segundo grau passou a temer que o prédio de sua escola iria desabar – e que de madrugada, sozinho, numa estrada deserta, precisou dormir no acostamento porque não se livraria mais da sensação de que era incapaz de dirigir um carro.

 

Electroboy, de Andy Behrman (Random House, 304 págs.) - em vez da depressão, a mania na voz de um yuppie dos anos 1980 que costumava pegar o vôo noturno Nova York-Tóquio e voltar no dia seguinte, %22só para sentir a mudança do clima%22. Sua aventura começa aos oito ou nove anos, quando, num dia qualquer, por volta das quatro da manhã, ele é flagrado pelos pais lavando novamente a louça que já havia sido guardada. Mais tarde, já adulto e rico, a necessidade de adrenalina o faz se prostituir e falsificar obras de arte, o que o leva a uma corte criminal e ao tratamento inspirador do título de seu relato.

Febre de bola, de Nick Hornby (Rocco, 248 págs.) - não que futebol seja pouco atraente, mas este é um livro sobre temas mais específicos: o Arsenal, o estádio do Arsenal, os atletas do Arsenal, a vida de quem se dedica exclusivamente ao Arsenal. Quer dizer, para quem torce para o Grêmio, clube igualmente antipático aos olhos ímpios, adepto das vitórias épicas obtidas na chuva e no frio e na lama e na escuridão, não há nada mais familiar. Mas entendo que existam leitores insensíveis a essa comédia exuberante sobre paixões ingratas

Postado por Carlos André Moreira

O que há num nome?

28 de abril de 2008 1

Saiu esses tempos no Segundo Caderno de Zero Hora um artigo assinado pelo meu colega Eduardo Veras sobre uma nova tradução, modernizada, da obra prima da literatura mundial escrita pelo clérigo e matemático Charles Lutwidge Dodgson, de quem vocês já devem ter ouvido falar… Não? Ah, desculpem. É uma obra muito conhecida da literatura infantil, assim como aquele outro grande livro para crianças escrito pelo também famoso Samuel Langhorn Clemens. Não ainda? Talvez estejamos nos centrando muito na literatura infantil. podemos então tentar uma nova abordagem e falar de um dos grandes artífices da língua inglesa em todos os tempos, Józef Teodor Korzeniowski. Também não?

Se os nomes citados não são familiares à maioria de vocês, o problema não é com vocês, acalmem-se. É que esses são os nomes reais de três artistas que se tornaram conhecidos por outro nome, um pseudônimo literário, ou “nom de plume”, como diziam os franceses, ou “pen name”, como se diz em língua inglesa. Charles Lutwidge Dodgson, embora realmente fosse diácono da ingelsa anglicana e matemático, como está no texto, se tornou conhecido na realidade pelo nome de Lewis Carroll, o autor de Alice no País das Maravilhas; Samuel Langhorn Clemens é um clássico das letra americanas com o Tom Sawyer e o Huckleberry Finn publicados sob o nome Mark Twain (provavelmente leitores da série em quadrinhos Sandman já haviam matado essa) e Józef Teodor Korzeniowski (é a vez de os leitores de Rubem Fonseca piscarem o olho e dizerem: “eu já sabia”), o autor de O coração das trevas, tornou o nome Joseph Conrad sinônimo de concisão e elegância na prosa inglesa.

De modo geral, o pseudônimo (do grego, quer dizer “nome falso”) é uma tradição tão antiga quanto a própria literatura. Cícero, por exemplo, adotou para si como sobrenome o apelido de um antepassado que queria dizer “grão-de-bico”. E antes disso, ainda, segundo conta Diógenes Laércio, o jovem e corpulento grego Aristocles ganhou, pelo aspecto robusto de sua figura e pelo tamanho dos peitorais e dos ombros amplos, o apelido de “Largo” (Πλάτων, ou “Platon” em grego) com o qual foi conhecido dali por diante. O próprio “Dante” é uma forma reduzida de Durante.

O pseudônimo, entretanto, se torna mais presente com o estabelecimento, de uma categoria de escritores que vivem do que escrevem ou que fazem de seu ofício de escrever sua identidade social, digamos assim. É assim que o francês Jean-Marie Arouet deu lugar ao mestre do iluminismo Voltaire. Não se sabe muito bem a origem desse pseudônimo, alguns defendem que era um anagrama usando as letras de AROUET (não esqueça que em latim, a língua científica da época, V e U se equivaliam) acompanhados de L. J., abreviatura de “Le Jeune” – “o jovem”.

Muitas vezes a iniciativa de adotar um “nom de plume” advém de uma intenção de criar com aquele pseudônimo uma entidade literária à parte para a obra de ficção, preservando o nome original para as obras “científicas” – como fez o próprio Carroll, que escreveu tratados de matemática com o nome verdadeiro e Alice… com seu “nome de escritor”.

Outras vezes, um pseudônimo têm a ver com tentar condicionar a expectativa do público ou justamente escapar dos preconceitos dele. George Eliot, por exemplo (na imagem que ilustra o post, com cerca de 30 anos, pintada por François D`Albert Durade), era a inglesa Mary Ann Evans, George Sand era a francesa Amandine Aurore Lucile Dupin e a dinamarquesa Karen Blixen assinou seus livros com o nome de Isak Dinesen – em ambos os casos as duas mudaram de nome para fazer o público pensar que o livro era escrito por um homem, e assim a obra poderia ser analisada por si mesmo e não como um “livro escrito por uma mulher”. Já no sentido contrário, Stephen King, consagrado como o grande nome do horror em língua inglesa, resolveu publicar romances sob o pseudônimo Richard Bachman para ter certeza de que a obra seria comprada pela sua qualidade e pelo conteúdo, e não por ser o mais recente romance de Stephen King. Há ainda um caso engraçado envolvendo a prêmio Nobel de 2007 Doris Lessing. Em 1984, já tendo publicado obras de grande sucesso de crítica e público, como O carnê dourado, A canção da relva, O verão antes da queda e a série de ficção científica Canopus em Argos, enviou para seu editor o romance Diário de uma boa vizinha, com o pseudônimo Jane Somers. Sem saber quem era, o editor recusou o livro.

Vão abaixo então, alguns desses pseudônimos curiosos de grandes nomes da literatura:

Anthony Burgess se chamava na verdade John Burgess Wilson.
George Orwell nasceu Eric Arthur Blair
O ator e dramaturgo Molière se chamava na verdade Jean-Baptiste Poquelin.
Stendhal
tinha o nome de batismo Henry-Marie Beyle.

Tem no Brasil, também: Nelson Rodrigues escreveu vários folhetins com o nome Suzana Flag – e, pelo que conta Ruy Castro em O anjo pornográfico, muitos acreditaram que a personagem existia de fato. E o grande nome das literatura policial voltada para jovens, Marcos Rey, se chamava na verdade Edmundo Nonato, um nome bem menos imponente.

Mais do Mestre

28 de abril de 2008 3


Recentemente, o leitor Rodrigo (pensando bem não foi tão recentemente, foi no início do mês, mal aí, Rodrigo) deixou a seguinte mensagem nos comentários:

Dia desses vocês comentaram que sairia material do Bukowski em versão pocket. Sabe a quantas anda isso? É algum título que ainda não saiu em português?

Pois Rodrigo, desculpa só responder agora, mas sim, temos novidades. Primeiro, o livro sobre o qual falamos se chamará Ao sul de lugar nenhum: histórias da vida subterrânea, e é uma coletânea de contos com tradução de Pedro Gonzaga. É a versão em português de South of no north: stories of buried life, publicado em 1973 nos Estados Unidos, e chega às bancas brasileiras em maio. Exatamente como no caso de O amor é um cão dos diabos, também em formato pocket e também traduzido pelo Pedro Gonzaga, é material que ainda estava inédito no Brasil.Com isso, o catálogo da L&PM já acumula os seguintes títulos do velho safado, todos em formato pocket:

* O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio (diário/memórias)
* Crônica de um amor louco (contos)
* Fabulário geral do delírio cotidiano (contos)
* Factótum (romance)
* Hollywood (romance)
* Misto-quente (romance)
* Notas de um velho safado (crônicas, contos, textos esparsos)
* Numa fria (contos)

Postado por Carlos André Moreira

As almas e a guerra

25 de abril de 2008 0


Albert Camus escreveu A Queda, tratado sobre a decrepitude sincera da alma humana, em 1956. Apesar de orgulhosamente argelino, ganhou notoriedade após mudar-se para a França durante a Segunda Guerra Mundial, e utilizou a língua dos colonizadores de sua terra natal nos escritos que lhe trariam fama. Quase 30 anos antes, porém, Irène Némirovisky, uma judia de origem russa, havia feito o mesmo.

Lançado agora no Brasil, O Senhor das Almas (Companhia das Letras, R$ 34 em média) traz, em prosa fluida e rápida, o mesmo escrutínio a que Camus submeteria o homem em seu último romance publicado em vida. E como o argelino, Irène fez carreira escrevendo no idioma do país que a enviaria, aos 39 anos, para morrer de tifo nos campos de concentração nazistas. A biografia da autora, entretanto, vai além da tragédia do holocausto e justapõe-se à sua obra mais do que, talvez, ela gostaria.

A obra, lançada como folhetim em 1939 – portanto, às vésperas da II Guerra Mundial e da ocupação da França por Hitler – narra a desventurosa vida de Dario Asfar. Russo fugido da Revolução Bolchevique, forma-se à duras penas em Paris e se vê em Nice com a esposa, um filho recém-nascido e nenhum dinheiro. Apesar do diploma, não consegue galgar a escada social devido principalmente a sua condição inequívoca de imigrante – cujas feições, descritas minuciosamente e citadas várias vezes, não deixam dúvidas.
Entretanto, assim como o personagem do derradeiro romance de Camus, Dario não guarda para si a gana de ascender ao tout Paris utilizando quaisquer meios, ao mesmo tempo que procura, a todo custo, renegar à sua origem. Na excruciante lógica que permeia as ações do jovem médico, boa parte das privações pelas quais passa provêm de seu berço. É quando decide se enveredar pelo campo da recém-nascida psicanálise.

Auto-intitulado Senhor das Almas, começa a tratar da alta burguesia francesa. Mas Dario é um charlatão. E tem tanta consciência disso que jamais se dá por satisfeito, temeroso do dia em que voltará à miséria. Tanto que uma vez alcançado seu objetivo – graças em parte à relação simbiótica com um rico empresário – o médico continua insatisfeito.

Parece ser de sua natureza jamais se contentar com o que possui e permanecer diuturnamente em busca não e simples status social, mas de ser reconhecido como um igual por seus clientes. Seu modus operandi, entretanto, não é compartilhado pelo filho, que o despreza, e pela esposa, que limita-se a aceitar.

O simulacro que Irène desenvolve é, para alguns críticos, uma analogia da situação que vivia. Judia na França que acaba de editar leis anti-semitas, a escritora teria, por várias vezes, negado sua herança até o momento final de ser mandada para morrer em Auschwitz. O filho e a esposa representariam a sociedade que ou a odeia, ou a ignora.

A questão, entretanto, não influi no entendimento da obra. Camus se encarrega de responder n´A Queda. %22Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou?%22.

Postado por Gustavo Brigatti

Todos os nomes

23 de abril de 2008 0


Faz pouco a jovem colega Tássia Kastner me comentou que havia lido um livro, lançamento recente, com uma estrutura original: uma coletânea de contos interligados que se organizava como um manual de significados de nomes e aproveitava esses significados como mote para o desenvolvimento do personagem principal de cada história. Achei interessante e pedi que ela me escrevesse um texto com suas impressões para compartilhar com vocês aqui no blog. Ele segue abaixo.
Leiam e aproveitem o talento de nossa jovem promessa:

Ao folhear-se O Livro dos Nomes (Companhia das Letras, 2008, 170 páginas) pode-se pensar que é mais um guia para escolher o nome de um filho. A autora Maria Esther Maciel cria um alfabeto de filhos que ao mesmo tempo são primos, irmã, pais, amantes. Relações iguaizinhas às que estabelecemos em nossas vidas. Um caminho para simplicidade – ou simplificação – da leitura, tanto do livro, como das personagens.
O entrelaçamento de histórias não tem nada de incomum. São os nossos círculos de amizade, nossos universos, por vezes mais desumanos que humanos. Mas, pelos olhos da autora, muito mais íntimas do que sociais.
O diálogo entre cada personagem não acontece entre parágrafos, mas sim, entre capítulos. A cada protagonista é dado o direito de ter a sua versão contada, ainda que não em primeira pessoa. Ainda assim, há a possibilidade de esse personagem mostrar a sua versão sobre os fatos, mesmo que o faça de forma distante. Por vezes, resta a um coadjuvante a missão de terminar a história.
E em ordem alfabética, cada %22nome%22 é apresentado através de seu significado, mas também, por alguma definição conceitual que traça um pouco do rumo tomado pelo indivíduo que é muito mais que seu nome:

Lídia ou Dos Amores Fingidos
Definição: %22…Fontes alternativas, porém, o associam as pessoas que trabalham com afã e optam por uma vida sem fadiga. Consta ainda que Lídia designa as mulheres lídimas, legítimas, as quais, contudo, estão sempre em contenda com que as deixa infelizes.%22
%22Mas também, sendo filha de Odília, não havia como ser diferente. A mãe interferiu em todos os seus atos, em todas as suas tentativas de seguir uma vida estrita, colocando-a em permanente estado de risco. Por isso Lídia oferece a ela apenas um amor ambíguo, desses que só contentam os que são muito carentes ou tristes.%22 (…)

Odília ou O Leite Derramado
 %22O nome Odília, de raiz germânica, sugere riqueza, propriedade, esplendor de bens (…) Pode-se ainda depreender da sonoridade do nome um quê de ode, de idílio. Ou mesmo um de ódio, digamos, tranqüilo…%22
No contar de sua história, porém, é ela quem, tendo duas filhas, as tratou com diferença declarada, fazendo uma delas – Lídia – desejar não ter nascido dela, por ter como dívida até o %22leite consumido de seus peitos%22.

A história de cada nome é um diário de sua vida escrito por outro, que racionaliza cada conflito vivido pela personagem, e por fazê-lo, simplifica sua existência, levando-nos a ler cada indivíduo-personagem da forma como sua descrição inicial. Um texto que implica em duas possíveis leituras: ou nossas complexidades são triviais ao extremo, ou somos tão parecidos com todos esses nomes, que por mais estúpidas e complexas que sejam suas vidas vemos neles um pouco de cada um de nós.

Postado por Carlos André Moreira

Juro que é verdade

22 de abril de 2008 5

Se tivesse chegado no dia primeiro de abril, eu não publicaria porque é trote, certo – reparem no sobrenome do dono da empresa. Mas como é de hoje e veio pelo serviço de notícias da BBC, pode ser sério – tem até foto no site da BBC Brasil, confiram aqui. Reparem com especial carinho nas frases destacadas:

O velho hábito de ler no banheiro ganhou um componente moderno: o papel higiênico literário. A empresa espanhola Empreendedores está lançando rolos de papel especial onde aparecem impressos clássicos da literatura mundial para que o usuário vá lendo enquanto permanecer no banheiro. O produto, vendido só através da internet, inclui trechos de literatura clássica, teatro, poesia e até textos sagrados da Bíblia e do Budismo.
Hemingway dizia que clássico é aquele livro que todo mundo respeita, mas ninguém lê. O que estamos fazendo é levar os livros aos banheiros, aproximando a literatura do homem – disse o dono da empresa, Raúl Camarero – E surge aí um conflito interessante: limpar o traseiro com uma bela obra e o dilema moral que isso representa – disse.
Da
Bíblia foram escolhidos trechos do Apocalipse, do Cantar dos Cantares e dos Provérbios. Os textos sagrados budistas são O Sutra do Loto e o Livro Tibetano dos Mortos. A intenção dos sócios da companhia era incluir também trechos do Alcorão, mas tiveram medo da possível reação dos islâmicos.
– Tivemos medo, sim, de provocar ira e vingança. Alguns até ameaçaram sair do projeto, se insistíssemos%22, explicou o empresário.

Peça de teatro

A idéia surgiu a partir de um espetáculo teatral. Camarero, que dirige uma companhia de teatro, escreveu uma peça intitulada Empreendedores, onde uma empresa imprimia clássicos literários em papel higiênico. A peça ganhou um prêmio no Festival de Teatro de Sevilha e a companhia decidiu então transformar ficção em realidade. Os trechos escolhidos para a impressão são clássicos de domínio público, pelos quais não é preciso pagar direitos autorais. Mas a empresa avisa que está aberta a propostas de novos escritores.
Os rolos custam 3,70 euros (cerca de R$ 9,80) cada, e o %22leitor%22 tem a opção de escolher os textos e a cor do papel higiênico. Eles estão disponíveis nas cores branco, laranja e rosa, feitos de uma celulose mais resistente.
A maioria dos pedidos tem sido de trechos de livros de Federico García Lorca.
– Usamos letras grandes com espaço entre as palavras para que seja uma leitura fácil e relaxante. Às vezes você não tem muito tempo no banheiro e tem a tentação de usar o papel e não ler. Mas se pensar que esse material vai ser desperdiçado para sempre…–, comentou Camarero.

Postado por Carlos André Moreira