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O Clone

26 de maio de 2008 3

Reparem na capa logo abaixo. É de um estudo publicado há algum tempo pelo acadêmico inglês (é serio, inglês mesmo, apesar do nome) A. Alvarez, traduzido e editado no Brasil pela Companhia das Letras.

O Deus Selvagem é uma densa e ao mesmo tempo poética reflexão sobre o impulso do suicídio, seja na sociedade seja na literatura – o famoso mote de Camus segundo o qual o suicídio é o único problema filosófico real é o norte do livro. Cruzando história, crítica literária e antropologia, Alvarez vai dos suicídios rituais em sociedades como as japonesas a um dos estudos mais reveladores sobre a obra da poetisa norte-americana Sylvia Plath, símbolo do artista atormentado que dá fim à própria existência.

Agora, reparem na outra capa mais abaixo, de um livro que está saindo por aqui pela editora Mundo Editorial. É a coletânea Contos Indiscretos, do brasileiro Sergio Keuchgerian, histórias que investem em uma descrição sensorial e desesperada do mal estar atual da modernidade, da solidão, da entrega física como signo de carência.

Editoras diferentes, autores diferentes, temas diferentes, formato diferente, mas olhem a capa.

Não se trata de um plágio de imagem, obviamente, mas de uma coincidência (in)fortuita. A imagem, tomada praticamente no mesmo detalhe e no mesmo ângulo nas duas capas (a mulher enrolada na toalha rosa não aparece no primeiro livro, por exemplo) é uma famosa pintura do americano Edward Hopper, um dos artistas visuais que melhor dotaram a luz de tristeza. Há sempre muita luz nas obras de Hopper, às vezes provenientes de janelas abertas – signos constantes  nas pinturas do homem –, mas essa luz não ilumina os seres e os ambientes, despojados e estéreis. Pelo contrário, a luminosidade brutal reveste a imagem de uma sensação de solidão, desamparo e náusea que, obviamente, dialoga com as duas obras aqui mostradas. Mas, obviamente, também, representa ou uma conexão inconsciente e poderosa entre os autores das duas capas (no livro da Mundo Editorial o projeto gráfico está creditado a José Costa e Teco de Souza, sem crédito específico para a capa. Na edição da Companhia a capa é de Sílvia Ribeiro) ou, o que parece mais simples, falta de imaginação mesmo.

Pra quem teve curiosidade, vai abaixo a imagem da pintura inteira. É um óleo sobre tela de 1928 e chama-se Night Windows. Está exposta no MoMA de Nova York:

Comentários (3)

  • Luciana Castilhos diz: 4 de junho de 2008

    Fui ao Senhor Google para ver mais obras do Edward Hopper e gostei muito do trabalho dele. O detalhe da tristeza sempre me é inspirador. Não que eu goste de estar triste (acho que ninguém gosta), mas dias cabisbaixos sempre me rendem alguns textos razoáveis ou um olhar diferente sobre assuntos que me incomodam. Vai ver é um problema com minha alma. A propósito, muito bom o trecho do post acima. Abraço!

     

    O trecho, pra mim, claro, é da época em que Rubem Fonseca era bom de fato, Luciana. Quanto à obra do Hopper, ela consegue o que uma obra deve conseguir: ela divide, sacode a unanimidade – nos Estados Unidos há quem odeie Hopper, o considere vulgar, enganador e coisas do gênero, acham um cara preso a um repertório limitado e limitante. E há quem o considere um mestre no uso da luz, um clássico moderno. Abraço.

    Carlos André

  • Rafael Pimentel Müller diz: 27 de maio de 2008

    Infeliz coincidência. A capa é praticamente igual. Penso que poderiam ter pesquisado, para evitar tal caso. Realmente, a preguiça é a mãe, não só dos vícios.

    Abraçossss

  • Mundo Livro » Arquivo » Cinquenta Clones Cinzas diz: 10 de dezembro de 2012

    [...] é possível escrever série inteiras até coincidências curiosas entre duas capas diferentes que se parecem bastante.  A quem questiona a validade de se deter de vez em quando em uma capa de livro, é bom lembrar, [...]

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