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Posts de maio 2008

Encontro de gigantes

28 de maio de 2008 6

Confesso que sou fã do primeiro e um leitor bem, mas bem recalcitrante dos livros do segundo, a quem só leio  por motivos profissionais, mas admito que estou curioso para acompanhar o que vai sair de O Mago, livro escrito por Fernando Morais com a biografia do escritor brasileiro mais vendido aqui e no Exterior, o auto-intitulado mago Paulo Coelho (acredito que, além de uma referência à autoconcedida titulação mística de Coelho, o título da biografia de Morais seja também uma sutil referência ao livro de mesmo nome de John Fowles, mas aí é chute meu, claro)

Morais acompanhou a fundo o cotidiano de Coelho nos últimos três anos, e eu, particularmente, estou bastante curioso para saber o que o esperar de um livro escrito pelo autor do monumental Chatô sobre um escritor que, à parte seus méritos literários sempre tema de discussão, é ele próprio um personagem muito interessante.

O Mago chega às livrarias no início de Junho, pela editora Planeta.

Postado por Carlos André Moreira

As razões do homem

26 de maio de 2008 2

Na época em que estreou por aqui a minissérie Agosto, na Globo, lá por 1993, o protagonista, comissário Mattos, era vivido por José Mayer. E em entrevistas sobre a produção e sobre a obra de Fonseca que deu origem ao seriado, Mayer comentou que Fonseca era um “grande tradutor da alma masculina”.

Sempre acho esse papo de “tradutor da alma” meio gratuito – ele é usado para juntar em um grupo mais ou menos heterogêneo obras de qualidades díspares mas que muitas vezes partilham em maior ou menor grau dos mesmos cacoetes. Sem falar que esse tipo de rótulo normalmente é pregado em uma literatura mais voltada para a assim chamada “alma feminina”. Então quando li essa frase do Mayer aplicada ao Fonseca, me lembrei imediatamente desse trecho abaixo, extraído do conto Relatório de Carlos, incluído na clássica coletânea A Coleira do Cão. Será que é isso que ele quer dizer com “tradutor da alma masculina”?

Aqui abro um parêntese (…) para fazer uma pequena digressão sobre o caráter do homem. Quando Sicrano ouve dizer que Fulana está indo para a cama com Beltrano acha logo que Fulana pode também ir para a cama com ele. Essa é uma presunção das mais falsas, desde que seria preciso que Sicrano pagasse a Fulana o mesmo que Beltrano; ou então que para Fulana Sicrano lesse, como Beltrano, os poetas; ou então, que Sicrano pudesse arranjar para Fulana o emprego público que Beltrano prometeu; ou então, que Sicrano desse a Fulana os graus que Beltrano lhe dará para passar nos exames; Ou então, que Fulana sentisse por Sicrano a mesma atração física que por Beltrano; ou então, que como Beltrano Sicrano tivesse sido companheiro de viagem transatlântica de Fulana; ou então, que Sicrano, como Beltrano, tivesse tocado piano para Fulana; ou então, que Fulana, da sua janela, fosse vista por Sicrano como por Beltrano; ou então, que Fulana tivesse sido de Sicrano a cliente que foi de Beltrano; ou então, tal como Beltrano, Sicrano pudesse ler a palma da mão de Fulana; ou então, que apresentasse Sicrano a Fulana, que tivesse, como Beltrano, um olho azul e outro castanho; ou então, que Sicrano, à maneira de Beltrano, pretendesse não gostar de Fulana.”

O Clone

26 de maio de 2008 3

Reparem na capa logo abaixo. É de um estudo publicado há algum tempo pelo acadêmico inglês (é serio, inglês mesmo, apesar do nome) A. Alvarez, traduzido e editado no Brasil pela Companhia das Letras.

O Deus Selvagem é uma densa e ao mesmo tempo poética reflexão sobre o impulso do suicídio, seja na sociedade seja na literatura – o famoso mote de Camus segundo o qual o suicídio é o único problema filosófico real é o norte do livro. Cruzando história, crítica literária e antropologia, Alvarez vai dos suicídios rituais em sociedades como as japonesas a um dos estudos mais reveladores sobre a obra da poetisa norte-americana Sylvia Plath, símbolo do artista atormentado que dá fim à própria existência.

Agora, reparem na outra capa mais abaixo, de um livro que está saindo por aqui pela editora Mundo Editorial. É a coletânea Contos Indiscretos, do brasileiro Sergio Keuchgerian, histórias que investem em uma descrição sensorial e desesperada do mal estar atual da modernidade, da solidão, da entrega física como signo de carência.

Editoras diferentes, autores diferentes, temas diferentes, formato diferente, mas olhem a capa.

Não se trata de um plágio de imagem, obviamente, mas de uma coincidência (in)fortuita. A imagem, tomada praticamente no mesmo detalhe e no mesmo ângulo nas duas capas (a mulher enrolada na toalha rosa não aparece no primeiro livro, por exemplo) é uma famosa pintura do americano Edward Hopper, um dos artistas visuais que melhor dotaram a luz de tristeza. Há sempre muita luz nas obras de Hopper, às vezes provenientes de janelas abertas – signos constantes  nas pinturas do homem –, mas essa luz não ilumina os seres e os ambientes, despojados e estéreis. Pelo contrário, a luminosidade brutal reveste a imagem de uma sensação de solidão, desamparo e náusea que, obviamente, dialoga com as duas obras aqui mostradas. Mas, obviamente, também, representa ou uma conexão inconsciente e poderosa entre os autores das duas capas (no livro da Mundo Editorial o projeto gráfico está creditado a José Costa e Teco de Souza, sem crédito específico para a capa. Na edição da Companhia a capa é de Sílvia Ribeiro) ou, o que parece mais simples, falta de imaginação mesmo.

Pra quem teve curiosidade, vai abaixo a imagem da pintura inteira. É um óleo sobre tela de 1928 e chama-se Night Windows. Está exposta no MoMA de Nova York:

De Trevisan para Iberê

23 de maio de 2008 0

A Última Tela

No final da vida,
aos setenta e nove anos,
o pintor Iberê Camargo,
que sofria de câncer de pulmão,
acordou, certa madrugada,
impelido por um incoercível desejo de pintar.

Chamou a mulher,
que, por sua vez, chamou uma amiga,
e ambas o ajudaram a subir a escada
que levava ao ateliê,
nos fundos da casa.

Lá chegados, a mulher o deixou
na companhia das estrelas
(o ateliê tinha um teto
de vidro).

E ele pintou uma vasta tela
de quatro metros de largura
por dois de altura,
com três figuras,
que se assemelham, vagamente,
a estáturas cobertas.

Neste preciso momento
contemplo sua tela

Ela dói nos olhos
na mente,
no coração!

Mas ela possui,
no segundo plano,
um misterioso alaranjado
que traz à memória…
muros de tijolos.

Ou simplesmente um muro?
ou simplesmente uma cor?

Nenhuma cor pode ser dita
por meio de palavras.

É este o mistério
que torna grande
o pintor morto!

Ele deu
à sua tela o título:
Solidão

Uma semana depois,
morreu.

Diz-se que a figura da esquerda
representa seu gato de estimação,
a figura do meio
o próprio pintor, sem rosto,
um objeto empacotado
à maneira do búlgaro Christo,
em que se pode identificar
uma linha em forma de flama de fogo,
a
línea verniculata!

Pobre grande Iberê

Deve, agora, estar na Luz
à luz do qual as cores
envilecem,
e as linhas
não sofrem nenhuma distorção.

Sua tela ficou neste mundo,
e a veremos, por meio
de seus olhos, sempre
ébrios de cores.

Elas sobrevivem ao seu pó,

Possivelmente sobreviverão ao nosso pó.

Enquanto isso, nós te agradecemos, Iberê,
essa pintura
que minha neta jamais verá,
com olhos inocentes.

Porque neles
não cabe tanta solidão:
a tua,
a minha,
a nossa,
a de todos os nascituros.

O poema acima é A Última Tela, e está aqui por dois motivos conexos e próximos. O primeiro é que é um poema incluído no livro Adeus às Andorinhas (AGE, 190 páginas, R$ 32), que o poeta, crítico de arte e professor Armindo Trevisan lança na próxima sexta-feira, dia 30 de maio, às 19h, na Livraria Siciliano do Shopping Moinhos (Olavo Barreto Viana, 36). O livro é um retorno de Trevisan à poesia depois do exercício filosófico das Cartas à minha Neta, para ler quando for adulta.

A segunda é que o poema, como vocês puderam ler, é uma homenagem de Trevisan a seu amigo, o pintor Iberê Camargo – e por coinciência, no mesmo dia 30, será inaugurado o prédio do Museu Iberê ali na beira do Guaíba, o popular “bunker do Iberê”, um prédio cujo projeto, do arquiteto português Alvaro Siza, já ganhou prêmios internacionais e coloca Porto Alegre na rota como destaque da arquitetura contemporânea.

Biblioteca do Dia

22 de maio de 2008 1

Resolvi criar uma série por aqui para compartilhar com vocês que me lêem – nunca está descartada a hipótese de termos um visitante pesquisador, por exemplo – alguns endereços de bibliotecas digitais que estou garimpando neste mundo virtual.

Abro, então, com uma coleção nacional de obras raras disponíveis na rede.

A Biblioteca de Obras Raras da USP, além de disponibilizar seu catálogo de raridades, ainda mantém na rede um acervo de obras raras completas com a possibilidade de leitura via "flip-click", ou seja, aquele sistema parecido com o que tem aqui mesmo na ZeroHora.com em que se vê, uma imagem scaneada de um documento e se pode virar as páginas com um clique.

As obras, muitas datadas dos séculos 15, 16, 17, estão em seus idiomas originais, o que inclui alemão com tipografia gótica, latim, grego. São 38 livros em várias áreas do conhecimento digitalizados na íntegra e disponíveis para consulta ou impressão para uso não comercial. Há também um catálogo com 1.224 títulos raros espalhados pelas diferentes bibliotecas da USP (236 têm as capas digitalizadas no site, e só. Os demais nem isso).

Mesmo que pareça que 38 obras são pouca coisa, há, por exemplo, um exemplar dos Sete Livros sobre a Estrutura do Corpo, do belga Vesálio, publicado em 1543 e considerado um dos marcos fundadores da Anatomia Moderna (na ilustração abaixo). Há a obra sobre os canibais brasileiros escrita por Hans Staden e sobre a qual eu falei há pouco, comentando seu lançamento em formato bolso pela L&PM, há a compilação dos 10 volumes de De Architectura, do arquiteto romano Vitrúvio, mas em italiano, e não em latim e, mesmo, para quem não domina nenhum desses idiomas, um exemplar das Ordenações Manuelinas, o código legislativo promulgado pelo rei português Dom Manuel I no século 16.

 

Postado por Carlos André Moreira

Balzac e as Sociedades Secretas

20 de maio de 2008 1

A história dos Treze, que é uma trilogia, confirma outro hobby seu: as sociedades secretas. A sua visão do universo social, já o dissemos, é assombrada pelas forças escondidas que ali atuam de maneira por vezes mais decisivia do que os procedimentos ou eventos visíveis. A idéia de um pacto clandestino, selado entre diversos homens, a fim de conquistarem juntos, solidariamente, a influência e o poder, agrada o seu apetite de sucesso e dominação. O seu pai fora maçom. Um pouco mais tarde, com alguns amigos, ele mesmo fundará um clube secreto chamado “Cavalo vermelho”, destinado a assegurar aos seus membros, em curto prazo, uma hegemonia exclusiva sobre a imprensa e o mundo literário. Parece que foi o único a acreditar nisso mas, sem dúvida, não por muito tempo.

Pouco conclusivo na realidade, o tema das sociedades secretas também o é no romance. Imaginamos os conjurados tramando estratégias de poder, provocando falhas, fazendo ou desfazendo sucessos ou reputações… No entando, nada fazem além de se ocupar com algumas histórias de mulheres. Se o tríptico de A história dos Treze é interessante, é por outras razões. A figura de um de Marsay, temido e ambicioso, o grande homem de poder de A comédia humana, impenetrável e cínico, que reaparecerá em outros romances, destaca-se nesse pano de fundo em que se adivinham bastidores obscuros. Afinal, se os Treze fascinam, é talvez precisamente porque não conhecemos tudo das suas manobras… É preciso observar também que mais tarde, ao criar o personagem Vautrin, Balzac voltará ao tema do poder oculto, que atrai, aliás, outros romancistas do seu tempo: Edmond Dantès transformado no Conde de Montecristo e Jean Valjean reaparecendo na pele do imponente e bom sr. Madeleine são, na opinião de alguns, irmãos de Vautrin. Nesse sentido, A história dos Treze funciona como um pólo magnético indispensável ao universo balzaquiano.

A menina dos olhos de ouro (terceira narrativa da trilogia, depois de Ferragus e A duquesa de Langeais) revela outro traço do romancista: o seu interesse pelas formas mais diversas, e por vezes mais misteriosas, das sexualidade e do erotismo. Amante de  uma cortesão chamada Paquita, Henri de Marsay percebe que essa moça sedutora o engana com a marquesa de San-Réal, figura venenosa que parece fruto da imaginação de Laclos. Ora, De Marsay é levado a descobrir que a marquesa de San-Réal não é outra senão a sua própria meia-irmã. Paquita, sendo amante de ambos, foi de alguma forma fiel ao sangue, ou apaixonada pelo mesmo ser sob duas formas…

O trecho acima é de Balzac, biografia do grande escritor francês (1799 – 1850) escrita por François Taillandier e lançada aqui pela L&PM como parte de sua deliciosa série Biografias, textos curtos e direto ao ponto mas cheios de informação sobre a vida de determinados personagens da cultura e da história mundiais. Já saíram pelo mesmo selo biografias semelhantes de Júlio César, Picasso, Modigliani, Shakespeare, entre outros.

O trecho em questão está neste blog porque a mesma L&PM está lançando  História dos Treze em uma edição em formato livro regular, e não bolso, como as demais traduções de Balzac publicadas pela editora e disponíveis em catálogo. Ferragus traduzido por William Lagos, A duquesa de Langeais passado para o português por Paulo Neves e A menina dos olhos de ouro com tradução de Ilana Heineberg.

O livro, em formato grande (16cm x 23cm), numa edição que a própria editora qualifica como “de luxo” e com 420 páginas, sai por R$ 58. É uma prática pouco comum ainda aqui no mercado editorial nacional: o de lançar uma edição única da trilogia mais cuidada e mais cara, para quem quer ter o volume completo ou dar de presente, por exemplo, enquanto permanecem em catálogo versões mais acessíveis do mesmo livro.

Explico. Estão disponíveis também em formato pocket os três livros da coleção, e juntando os três sai mais barato – quase a metade, pra dizer a verdade. Ferragus por R$ 13, A Duquesa de Langeais por R$ 12 e A menina dos olhos de ouro por R$ 9, então pelos três livros em formato bolso o preço é de R$ 34. Quem decide agora  o que vale mais a pena é você, se a sofisticação da edição única ou se o fator financeiro das três versões de bolso.

A leitura, essa sim, eu recomendo vivamente.

Advertência

19 de maio de 2008 1

 

Se acharem que algo parece meio estranho, visualmente falando, nos post mais recentes, por ora relevem. É que foi alterada a ferramenta de edição de textos do blog e eu ainda estou me adaptando com ela.

Confesso que estou curtindo as novas possibilidades que o processo oferece. A partir de agora, posso responder aos comentários de vocês no próprio comentário, por exemplo, e também ganhei uma liberdade maior para usar material fotográfico como ilustração, como vocês devem ter notado – antes, só uma foto aparecia, e no topo da página. Agora, posso jogar com a posição dela nos posts.

Ainda estou me acostumando, portanto tenham a gentileza de compreender os deslizes técnicos.

E continuem visitando e comentando, cambada.

Postado por Carlos André Moreira

Verissimo para gostar de ler

19 de maio de 2008 2

Um rico passa pela entrada de um labirinto e não resiste. Entra. Quer saber o que se esconde no centro do labirinto.

Talvez seja um tesouro, ou no mínimo uma oportunidade de negócios. É da natureza humana querer explorar o desconhecido e é da natureza dos ricos querer ficar mais ricos. Como. além de um aventureiro e um empreendedor, o rico é um ser racional, vai denxando moedas no caminho, para depois voltar pelo mesmo caminho e encontrar a saída do labirinto. No centro do labirinto não há nada, só o centro de um labirinto, e quando se vira para começar o caminho de volta, o rico dá com o pobre, que chega colocando a última moeda do chão na sua sacola.

– Minhas moedas! – diz o rico.

– Suas? Estavam no chão. Vim catando-as pelo caminho. Agora são minhas. Tenho direito a um pouco da riqueza do mundo.

– Imbecil! Eu as deixei pelo chão para encontrar o caminho de volta, já que sou um ser racional. Agora eu não encontrarei a saída. Agora eu vou ficar neste labirinto pelo resto da vida.

– “Eu, eu, eu.” Você só pensa em você, como todos os ricos. E eu?

– Você também está condenado a ficar neste labirinto pelo resto da vida. Culpa da sua ganância e da sua burrice.

– Outra mania de rico, achar que quem é pobre é burro. Mas eu também sou um ser racional, meu caro. Em lugar das moedas, deixei grãos de milho pelo chão, para me guiar de volta à saída do labirinto.

Os dois preparam-se para sair do centro do labirinto quando dão com uma galinha, bicando o último grão de milho. A galinhas passou pela entrada do labirinto, viu os grãos enfileirados no chão e também não resistiu. Foi comento o milho de grão em grão sem deixar nada em seu lugar para mostrar o caminho de volta.

O rico e o pobre xingam a galinha juntos. Chamam a galinha de irresponsável. De inconseqüente.

O rico diz que entrou no labirinto porque é um aventureiro e um empreendedor, e porque é da sua natureza explorar o desconhecido e as oportunidades de enriquecer mais. O pobre diz que entrou no labirinto atrás de moedas, mesmo as moedas sendo de outro, porque tem direito a um pouco da riqueza do mundo. E a galinha, que só foi atrás de sua fome:

E o rico e o pobre passam o resto de suas vidas correndo pelo labirinto atrás da galinha, que, como não é um ser racional, nem sabe o que está fazendo ali.

O que deve significar alguma coisa.

Como leitor, confesso que me incomoda um pouco o quanto a crônica se disseminou pela imprensa brasileira, de modo que cada jornal tem pelo menos uns cinco cronistas, e como a abundância da prática não ajudou, pela promoção da quantidade, a melhorar a qualidade, antes pelo contrário. A crônica está por toda parte, mas os cronistas que merecem uma leitura atenta e prazerosa ainda são poucos. E no topo rarefeito dessa confraria de cronistas, encontra-se o mestre indiscutível do gênero em atividade, Luis Fernando Verissimo, que tem mais um volume de suas crônicas lançado pela Editora Objetiva, Mais Crônicas para Ler na Escola (144 páginas, R$ 29,90), seleção de 38 textos compilados e apresentados pela professora Marisa Lajolo, com enfoque de serem lidos por quem está em idade escolar para, assim, despertar o gosto pela leitura (funciona, gurizada, quantos da minha geração não começaram a apreciar os bons textos pelas seleções “Para Gostar de Ler”, da Editora Ática?).

São histórias que variam da croniqueta bem humorada na qual Verissimo é mestre até textos que se assemelham a contos humorísticos, pérolas de nonsense ou de um refinado humor flertando com o absurdo e com outros gêneros clássicos da literatura, como o exemplo acima.

Postado por Carlos André Moreira

1968 não acaba nunca

19 de maio de 2008 0


Quem acompanhou o Segundo Caderno de Zero Hora hoje deve ter esbarrado na entrevista que fiz com Zuenir Ventura, que em 1968: o que fizemos de nós, retorna, 20 anos depois à pauta de sua obra mais conhecida, o best-seller 1968: o ano que não acabou.

Zuenir é um homem afável, cordato, um repórter em tempo integral que, no meio da entrevista por telefone, passa a fazer perguntas sobre seu interlocutor. O que sempre rende ótimas entrevistas que sempre, como é comum no jornalismo, precisam ser cortadas em função de espaço – problema que não temos aqui no blog. Como prometido nas páginas do jornal, vai aqui o material integral da entrevista.

Zero Hora _ No momento de redigir 1968: O que fizemos de nós, o senhor precisou voltar ao primeiro livro. Como foi recuperar essa obra que já era uma outra tentativa de recuperar 1968?
Zuenir Ventura _
Na verdade o livro ia ser uma revisão atualizada do antigo. Mas à medida que eu fui relendo o livro e revisitando personagens e situações eu tive vontade de ver o que foi feito dessa gente, onde foi parar tanto sonho, tanta ambição, personagens tão importantes. Esse livro foi sendo feito no processo, como se ele mesmo fosse escolhendo a pauta. O primeiro capítulo deste segundo livro remete ao primeiro capítulo do primeiro, porque eu entrevisto três avós, senhoras, que eram em 1968 as musas daquela festa do primeiro capítulo de O Ano que Não Acabou, todas da geração da Leila Diniz. E aí comecei a fazer essa busca que chamo “pelas pegadas de 1968″, tem um capítulo em que eu digo: há um meia-oito em cada canto. E aí você vai descobrir que tem 1968 no governo, na oposição, na esquerda, na direita, no Congresso, no Supremo… Então ele foi caminhando assim. Ao contrário do outro, que era em ordem cronológica, começa com o réveillon e termina com o AI-5, nesse a divisão é temática, tem duas partes, uma parte o meu olhar, minhas reportagens, minha busca, e tem o segundo, que são as entrevistas…

<ZH – …Os depoimentos de participantes do período
Zuenir –
Exato. Os depoimentos de sete personagens que tiveram papel importante em 1968. Então o livro foi se fazendo assim. Desde memórias pessoais. Por exemplo, tem um capítulo: “a culpa é de 1968″, que surge em casa, com a minha filha, até outros como por exemplo eu indo buscar traços de 1968 em uma rave, por exemplo. Então ele foi um livro muito heterodoxo no sentido de feitura e de estrutura narrativa. Tem um pouco de tudo ali, tem reportagem, leitura, entrevista, uma mistura de tudo isso.

ZH _ Em O Ano que Não Terminou o senhor escrevia que 1968 não havia acabado. Neste segundo livro, o tom não é mais tão unânime, alguns dos seus entrevistados dizem que o ano acabou sim, e comemoram isso. O senhor acha que a grande questão hoje é saber onde 1968 está?
Zuenir
_ Eu acho que sim, porque esse legado é muito plural, muito diverso. Essa sua leitura é perfeita: você tem um ano em que as coisas se condensaram, se fizeram, e depois houve, está me ocorrendo uma imagem que não sei se é a mais adequada, não é que tenha explodido, mas vários cacos de 1968, vários restos, qualquer coisa que você possa chamar de herança, isso se espalhou, às vezes de uma forma evidente, às vezes de forma difusa. Então o que eu quis buscar nesse livro não foi apenas o legado positivo, dizer “ah, foi um ano maravilhoso”. Não, ficou muita coisa boa e ficou muita coisa ruim também. A idéia era não fazer um livro de nostalgia, ficar lamentando o que a gente perdeu, mas que desse conta dessa herança, o que ficou, em que setores, e saber o que foi feito desses personagens. É um livro bem diferente do outro, estou até curioso em relação às pessoas que leram os dois livros, claro que vai ter sempre alguém que diga: “ah, gostei mais do primeiro”, “gostei mais do segundo”. Agora, isso corresponde à narrativa do nosso tempo. Vivemos um tempo pós-moderno de segmentação, de fragmentação. E a estrutura do livro não foi cronológica, foi temática também por isso. A narrativa hoje não tem mais aquela pretensão totalizante.

ZH _ No livro A condição pós-moderna o autor americano David Harvey afirma que as narrativas da modernidade, lineares ou não, partiam de um ponto para terminar em outro, bem definido. É o caso do seu primeiro livro. Já as narrativas pós-modernas só têm o presente e são fragmentadas, múltiplas. Na estrutura seus livros revelam a filiação ao tempo em que foram escritos?
Zuenir –
Acho ótimo que você tenha falado isso, porque sempre fica meio besta quando eu falo. Mas foi naturalmente, não foi nem uma opção, foi muito natural. Mas você tem razão: a narrativa acaba refletindo um pouco o objeto narrado. A descrição que você fez é exatamente isso: você acaba procurando uma narrativa que dê conta dessa esfacelamento, essa fragmentação, eu falei em cacos mas poderia falar em estilhaços. Claro que eu estou procurando descrever os cacos, as coisas que sobraram, então a narrativa surge dessa necessidade. Não foi uma opção teórica à priori: vou fazer um livro com narrativa pós-moderna, seria uma coisa pretensiosa, muito besta, e que não me ocorreu. Mas sua leitura está correta, acho que a narrativa acaba sendo influenciada pelo próprio objeto.

ZH – A geração de  1968 é muito citada como a última com reações em larga escala que visavam a uma transformação.
Zuenir
– Eu acho que pode ter sido, pelo menos com a intensidade de 1968, acho que não houve outra. Havia uma certeza, uma onipotência muito grande dos jovens achando que iam transformar não só as pessoas como o mundo com a sua vontade, de um dia para o outro. Você se lembra da famosa música do Geraldo Vandré: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer“. Você acreditava que poderia mudar, que ia mudar, e tentava mudar, não houve uma geração depois que tentasse conciliar vontade, desejo, ambição, projeto, com a própria ação. Você conciliar vida e obra, vontade e realidade, cabeça e coração, botar tudo no mesmo projeto, sexo e revolução, acho que foi algo típico de 1968. Hoje você sabe que, primeiro, há dois tipos de utopia, não só do bem, não dá para esquecer que o stalinismo e o nazismo foram utopias. Eu tenho a teoria de que o sonho não acabou, ao contrário do John Lennon. Porque sonho, como Freud já ensinava, é o desejo, e se você perde a capacidade de sonhar, de ter esperança, você está morrendo. Acredito nessa herança de sonho de 1968. Mas você tem razão, mudou tudo. O quadro de 1968 para hoje, em termos de projetos, ambições políticas, é muito diferente.

ZH – Uma das partes mais instigantes do livro é sua busca de 1968 na contemporaneidade. O entendimento geral sobre o tempo de hoje é que ele é mais cínico e hedonista justamente por essa falta de utopias. Embora o senhor também mencione essa concepção no livro, sua abordagem do mundo atual parece bem mais otimista.
Zuenir –
Eu realmente acho uma das piores coisas destes tempos pós-modernos o ceticismo e o cinismo. Eu por exemplo sou às vezes um homem fora do meu tempo, porque acredito em sentimentos, em valores que estão fora de moda, gosto da solidariedade, da amizade, dessas relações desatualizadas. Hoje qualquer sentimento é considerado piegas, pieguice, então a moda é o ceticismo e o pessimismo: “nada vai dar certo…”. E eu, até por natureza, não aposto no pessimismo, sou mais otimista. Claro que é um otimismo relativo, eu sou mineiro e, como todo mineiro, sou muito cauteloso e desconfiado. Mas sou otimista. E acho que desses tempos pós-modernos a pior coisa é o abandono, o declínio desses valores, que foram, como a ética, muito cultivados em 1968: a solidariedade, a preocupação com o outro. Uma das coisas bonitas da garotada daquela época era essa capacidade de doação, essa generosidade cívica, esse desprendimento de seus próprios interesses. Foi uma geração que entrou de corpo e alma literalmente em defesa de interesses públicos, não interesses pessoais. Os melhores anos dessa juventude muitos deles passaram no exílio, ou presos, ou torturados ou morreram. Essa herança, por exemplo, de 1968, faz muito bem a estes tempos pós-modernos, de consagração a esses valores relativos.

ZH _ O senhor, no livro, cita uma visita ao Brasil de Bento XVI na qual ele condenou o comportamento jovem do “ficar” comparando-o à prostituição. É difícil para quem não vive o tempo desta juventude entender seus padrões, tanto entre um religioso como o papa como mesmo entre a geração libertária de 1968?
Zuenir _
Ah, acho, e muito. Nós, os pais tendemos a querer que os filhos sejam parecidos com a gente. Quando é diferente, é um pouco aquele verso do Caetano: “Narciso acha feio o que não é espelho”. Há em relação a essa geração, em tudo, uma má-vontade muito grande, um certo desprezo: “essa garotada não quer saber de política, não se interessa por nada, não tem ideologia…” Agora, a geração de 68 era olhada dessa maneira pela geração anterior: diziam que aqueles meninos eram “um bando de porra-loucas”. Agora, aquela geração era mais reativa e agressiva e revidava da seguinte maneira: “Vocês não acreditam em nós? Tudo bem, a gente não acredita em ninguém com mais de 30″. Essa geração de hoje está na dela, é mais individualista, não é uma geração de ruptura, que quer brigar, matar simbolicamente os pais, como a geração de 1968. Mas a turma de 1968 não tem com relação a essa geração aquilo que até se poderia esperar, mais compreensão, mais tolerância, aceitação da diferença, tudo aquilo que 1968 ensinou: olhar para o outro, compreender a diferença. Eu aprendi muito nesse meu trabalho de conviver com os jovens, sobretudo com um psicanalista que é um personagem querido dos dois livros: João Batista Ferreira, que me disse: “tem um 1968 dentro de 2008, e tem de se ver isso”. E aí eu vou entrevistar o Caetano e pergunto se tem chance de um novo 1968 e ele me diz” para ser parecido, tem de ser muito diferente”. Que resume toda a exposição teórica do João Batista. Há uma má vontade e uma certa incompreensão da geração de todos nós, os remanescentes de 1968, com relação a essa garotada.

ZH _ O senhor entrevista no livro Caetano Veloso, José Dirceu atores de 68 que são eles próprios hoje instituições. Essa onipresença ainda dos agentes de 1968 é também algo que afasta as gerações mais novas do que seria uma luta política e artística?
Zuenir _
Acho que o caracteriza a geração de hoje é não querer o confronto ou a ruptura, até porque isso já foi feito pelos pais, ela não tá interessada nisso. Não é por desprezo, é simplesmente porque não tá. É um pouco como a política: dizem “ah, não querem saber de política”. Mas que graça tem a política para um menino desses? que interesse, que fascínio pode ter a atividade político-partidária hoje no Brasil para esse menino? então ele vira as costas, não se dá nem ao trabalho de contestar, diz simplesmente “não me interessa, não quero saber”. Então essa coisa do confronto que era muito daquele tempo, tempo de enfrentamento, contestação, isso hoje não passa pela cabeça dos meninos. Eles estão na deles, fazendo ali o que eles querem fazer e se lixando muito pouco para o que tem em volta, o que está acima. Pode-se até criticar esse isolacionismo, esse individualismo que leva a ficar 12 horas na frente de um computador, mas de qualquer maneira eles têm lá suas razões, que a gente tem de tentar entender, porque quem tem de entender os filhos são os pais.

ZH _ Numa entrevista recente Edgar Morin lamentou, ao comparar a geração de 1968 com a de agora, a perda da noção de futuro, uma idéia que dialoga com o que já escreveu Harvey em A condição pós-moderna. Para Morin, a situação atual é trágica porque a juventude está presa em um eterno presente. O senhor concorda?
Zuenir _
Olha, eu acho isso também, talvez não desse a dimensão trágica disso, mas ele tem razão, 1968 era um projeto de futuro. Agora, havia um futuro à vista, possível, e hoje o quadro que a gente oferece, o quadro do futuro é apocalíptico. A própria ciência que diz. Agora, está surgindo uma coisa que nesse processo das entrevistas do livro, um dos colegas, batendo papo, me contou que o filho dele, de cinco anos, não o deixa fazer a barba de torneira aberta. Outra colega me contou que a filha dela, mais ou menos da mesma idade, fica patrulhando quanta água ela gasta no banho do chuveiro: “mãe, não gasta água, a água vai acabar”. E eu fiquei muito impressionado com aquilo. É uma consciência da finitude da água que os adultos não têm. Tá surgindo com a novíssima geração uma consciência ecológica que pode ser a bandeira, a causa para os jovens que lamentam hoje não ter um motivo para lutar. Eu achei isso muito curioso: vai ver tá pintando aí essa geração que hoje tem cinco anos crescendo com a certeza de que tem de lutar no dia-a-dia pela preservação do planeta.

ZH _ Ou seja: diferentemente da noção de 1968, que era de esperança em um futuro, a da próxima poderá ser a de evitar uma catástrofe?
Zuenir _
Sim, o que havia em 1968 como ameaça, a Guerra Fria, a possibilidade de uma hecatombe nuclear… tinha essas coisas. Mas precisava alguém lá apertar um botão. Hoje não precisa mais, a ameaça para o futuro hoje é os oceanos invadindo, tomando conta… Então essa coisa da idéia do futuro eu lamento muito, só não lamento por mim porque o meu futuro é mais limitado que o desse pessoal mais jovem. Agora, tem razão para isso. Só acho que isso deveria ser uma causa de luta. Minha esperança é que esteja pintando uma nova geração com um projeto de “salvar o planeta” não com retórica, mas com reações concretas.

ZH _ A utopia que o senhor retrata em 1968 é uma aspiração de uma fatia ampla da classe média. Hoje, com a classe média achatada e com o aumento da massa de miseráveis, o senhor acha que ainda há possibilidade para uma causa emergir, mesmo a ecológica que o senhor mencionou, e que também é uma tendência classe média?
Zuenir _
Você tem hoje a tendência da distopia, ou seja, você tem a invasão dos bárbaros, seja no plano nacional, das favelas invadindo as cidades, ou seja no primeiro mundo da onda de imigrantes. Essa distopia eu até coloco para alguns entrevistados no livro: a história não vai ser melhor, o futuro não vai ser melhor do que o presente, o americano Russell Jacoby escreveu recentemente um livro chamado O Fim da Utopia no qual ele diz isso. Eu, como sou otimista, não acredito nessa distopia ainda. No caso do Rio, que eu conheço bem, a “invasão dos  bárbaros” aqui está carregada de preconceitos. Porque a gente olha para os morros e você acha que ali é uma usina de violência, que ali só tem traficante. Esquece que a população de traficantes é de 0,01% da população das favelas, e que o problema da favela é um problema social só, que você resolve levando cidadania para lá _ não polícia, mas cidadania, ou seja, levando a república, as instituições democráticas para lá. Levar saúde, educação, tudo aquilo a que eles não têm direito. Porque esse vazio do Estado está sendo ocupado pelos traficantes. O quadro hoje é mais difícil, houve um acúmulo de problemas. A democracia, seja aqui, seja em qualquer lugar, mas no Brasil ela é incompleta na medida em que falta uma perna dela, a da Justiça Social. Mas não temos nenhum dos problemas de fundamentalismo que tem por exemplo em outros continentes ou países. A gente tem racismo, preconceito racial, mas não tem uma questão racial explosiva. Nada que aponte para essa direção. O que tem é um apartheid social muito grande, tem preconceito, tem racismo, um negro não tem as mesmas condições de vida de um branco. Mas acho que não é nada que não possa ser resolvido pela política, pelas transformações sociais. Não existe uma coisa estrutural na nossa composição política que aponte para o acúmulo de um fundamentalismo religioso ou étnico. E isso é uma razão de esperança em relação ao nosso futuro. Tem tudo isso que você apontou, a exclusão é forte, mas isso tem solução pela política, se resolve com políticas públicas. Às vezes falta é vontade.

Ruínas humanas na infância da Revolução

14 de maio de 2008 0

Você provavelmente não conhece Isaac Bábel (1894 – 1940) – e muitos dos que conhecem, incluindo eu, só tiveram contato com sua obra depois que o autor foi mencionado no romance Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, de Rubem Fonseca, no qual um cineasta brasileiro era levado à União Soviética para trabalhar no roteiro de um longa-metragem que adaptava um fictício romance de Bábel, encontrado anos depois de sua morte. Depois do livro de Fonseca, aquela que é considerada a obra-prima do escritor russo, A Cavalaria Vermelha, chegou a ser lançada pela Ediouro. Agora, o mesmo livro volta às livrarias em sua primeira tradução diretamente do russo (a anterior baseava-se em versões inglesas e francesas), numa luxuosa edição da Cosac Naify incluída na coleção “Prosa do Mundo” – que tem colocado nas livrarias em edições belíssimas clássicos que compõem uma verdadeira biblioteca básica da literatura mundial de ontem e de hoje, como Nadja, do francês André Breton; Satyricon, do romano Petrônio; Pais e Filhos, do também russo Turguêniev, O Companheiro de Viagem, do húngaro Gyula Krúdy; Diálogos com Leucó, do italiano Cesare Pavese e Niels Lyhne, do dinamarquês Jens Peter Jacobsen. Ah, sim, a nova tradução do livro de Bábel, assinada por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade altera o nome da obra para O Exército de Cavalaria

Numa literatura russa já por si desconcertante em sua riqueza, Bábel é uma figura de destaque e, paradoxalmente, pouco conhecida. O próprio Máximo Górki o considerava um representante do que de melhor a Rússia tinha para oferecer em termos de literatura, e mesmo assim Bábel é um autor sem renome. Parte dessa condição se deve a ele ter publicado pouco em vida. Outra parte pode ser atribuída a uma cortina de silêncio envergonhado jogada pela intelectualidade de esquerda – considerado “romântico”, “decadentista” e “contra-revolucionário”, Bábel foi preso e mais tarde morto durante os expurgos do sombrio período stalinista (1924-1953). Muitos de seus escritos inéditos foram queimados pelo regime.

Os 36 contos de Bábel reunidos em O Exército de Cavalaria são resultado de um período que o autor passou, como soldado raso e correspondente do jornal militar O Cavalariano Vermelho, junto às tropas da cavalaria russa durante a sangrenta guerra de fixação de fronteiras com a Polônia, entre 1920 e 1921. Os cavalarianos, no caso, não eram simples russos, mas os folclóricos cossacos, cavaleiros que valorizavam sua liberdade individual, independente de fronteiras, e tinham prazer pelo combate.
A leitura dos contos, muito curtos, alguns não ultrapassando duas páginas, é, também, uma forma de entender por que Bábel se tornou uma vítima inevitável da intolerância comunista. Repletas de violência e barbárie, contadas com um tom econômico e ao mesmo tempo coalhado de metáforas e sugestivas imagens, as histórias de Bábel são narradas em primeira pessoa, quase todas do ponto de vista de um único personagem, Kiril Vassílievitch Liútov, jovem judeu agregado ao batalhão de cossacos – e um alter ego do próprio Isaac Bábel, judeu nascido em Odessa e, por certo tempo, militante revolucionário.

São textos que flutuam entre a crônica e o conto — muitas vezes a história é um fiapo narrativo, mero pretexto para a recriação de uma atmosfera. No limite, seus textos são também uma crua análise do paradoxo inescapável do intelectual, aquele que, por definição, seria o responsável pela crítica e pela reflexão de modo a pautar a ação transformadora do mundo. Nas narrativas de Bábel, esse intelectual, que vem a ser ele mesmo, não influi na voragem da verdadeira ação transformadora, a da violência, pautada pelos mais atávicos instintos.

O olhar do escritor é o de um homem ao mesmo tempo horrorizado com a brutalidade dos que estão à sua volta e fascinado pela nobreza rude daquelas figuras de resoluta ignorância. Em muitas das histórias do livro, o protagonista, por um urgente artifício narrativo, entrega a palavra a outros personagens, acentuando o caráter de testemunha deslocada que o autor assume perante suas criaturas. É o caso, por exemplo, do brutal Uma Carta, no qual um jovem conta com minúcias, em uma correspondência a sua mãe, a maneira pela qual matou o próprio pai – militar do exército inimigo que já havia, por sua vez, assassinado antes seu outro filho, irmão do rapaz que assina a carta.

Em uma época em que a experiência comunista recém aflorava com a promessa de uma utopia igualitária, o que Bábel testemunha – às vezes abandonando o papel passivo de observador e cedendo ao jogo – é a repetição das atávicas estruturas de dominação pela força. Uma das mais belas narrativas do livro, Guedáli, é apenas um diálogo do narrador com o dono de uma loja de quinquilharias, judeu como ele, na véspera do sabá. Para o idoso comerciante, do alto de suas barbas ancestrais, a violência “utópica” da Revolução e a violência “reacionária” dos poloneses não faz lá muita diferença: “Mas o polonês estava atirando, meu caro pan, porque ele era a contra-revolução. E vocês atiram porque são a Revolução.

O contraste entre o que prega a revolução em que Bábel acredita e o que ele efetivamente vê, e às vezes faz, nas vastidões geladas da fronteira é uma das molas do livro. Em Meu Primeiro Ganso, Bábel/Liútov se apresenta à companhia em que servirá e é achincalhado pelo comandante por usar óculos. Designado para um alojamento numa casa ocupada, é hostilizado pelos cossacos que dividirão o lugar com ele (um deles, mais violento, pega o baú em que estão as coisas de Liútov e o arremessa violentamente, quebrando-o). A violência só cessa quando o protagonista esmaga com os próprios pés o ganso da dona da casa em que está alojado e a obriga, sob violenta coerção, a cozinhá-lo para ele. É só aí que Liútov ganha o respeito dos demais: “O rapaz é dos nossos – disse um deles, deu uma piscada e pegou uma colherada de chtchi”