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Para ver Clarice

04 de junho de 2008 0

Conforme prometido em matéria veiculada no Segundo Caderno de hoje, segue, abaixo, a íntegra da entrevista com Nádia Battella Gotlib, professora da USP e organizadora de Clarice Fotobiografia (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 656 páginas, R$ 90), o belo livro-álbum de Clarice Lispector que acaba de chegar às livrarias.

Como conta abaixo, Nádia, que é especialista em literatura brasileira e portuguesa e já havia lançado Teoria do Conto (Ática, 1985), Clarice – Uma Vida que se Conta (Ática, 1995) e Tarsila do Amaral – A Modernista (Senac, 1998), viajou para todos os locais nos quais a grande escritora morou, de Maceió a Torquay (Inglaterra), de Washington (EUA) a Nápoles (Itália), do Rio de Janeiro a Berna (Suíça). Passando, inclusive, pela pequena e, conforme a própria Clarice, insignificante Tchechelnik, aldeia da Ucrânia onde ela nasceu.

O resultado é um livro completo, que desvenda diversos pequenos segredos da autora de uma vasta obra de contos, crônicas e correspondências, e de grandes romances como Perto do Coração Selvagem (1944), A Paixão Segundo G.H. (1964) e A Hora da Estrela (1977).

A entrevista (preste atenção no trecho em que ela fala sobre a sua própria viagem a Tchechelnik e no anúncio de que um dos próximos lançamentos pode ser uma “fotobibliografia”) foi concedida por e-mail desde São Paulo.

Zero Hora – O livro apresenta um número muito grande de imagens, algumas inéditas, muitas raras, outras de alto valor informativo. Na apresentação, a senhora relata que Clarice Fotobiografia é um projeto antigo. Foi uma surpresa deparar com tanto material ou foi justamente o seu conhecimento deste material que a fez dedicar-se a este projeto?
Nádia Gotlib –
Tinha noção da quantidade de fotos e de documentos logo no início da pesquisa, quando tomei conhecimento do material depositado na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Não sabia, naquela altura, que lá havia também pastas com fotos “não-identificadas”, o que me levou a um trabalho demorado de identificação de lugares e pessoas. Esse primeiro repertório foi se complementando. Recebi a colaboração de parentes e amigos de Clarice, de seus colegas jornalistas e escritores, que me cederam fotos da própria Clarice e de outros. Havia, ainda, as fotos de arquivos de museus, jornais, agências de imagens. De tais instituições selecionei sobretudo imagens dos lugares onde Clarice viveu ou por onde ela passou. Na realidade, o material consultado foi muito extenso. Foram milhares e milhares de fotos. Desse material selecionei apenas os registros que atendiam a uma exigência: o da contextualização dos espaços em que Clarice viveu e de situações de vida por ela experimentadas. Mas a idéia de quantas imagens seriam necessárias só se tornou clara mesmo quando eu terminei o livro.

ZH – Em Clarice Fotobiografia a senhora repetiu a estrutura de capítulos de outro livro que já havia publicado sobre a escritora, Clarice – Uma Vida que se Conta. Por quê? Esta estrutura representa algum tipo de “modo mais adequado de ler Clarice”?
Nádia -
Essa sequência atende a um propósito: o de organizar cronologicamente o material que consegui reunir. Posso afirmar que meu objetivo nos dois livros foi o de acompanhar Clarice, ao longo da vida, atenta a situações que considerei mais significativas, tendo em vista, sempre, o seu perfil de artista. Os dois livros existem porque Clarice foi uma excelente escritora. É claro que a organização do material traduz, já, um “modo de ler” Clarice. No caso do primeiro livro, a partir dos textos que li (de Clarice e de outros), sobre os quais discorro. No caso do segundo, a partir das imagens que vi (fotos, documentos) e que selecionei para registrar no livro, acompanhados de legendas, citações e, no final, comentários. Ainda no caso do segundo livro, a própria disposição das imagens na página, com realce a umas e não a outras, também traduz um “modo de ler” Clarice, mesmo porque procuro, sempre que possível, estabelecer um diálogo entre as imagens e alguns textos por ela escritos.

ZH – O que uma fotobiografia pode trazer de novo em se tratando da leitura de um autor literário? O caso de Clarice é diferenciado neste sentido?
Nádia -
Pode reforçar pontos de vista já propostos e divulgados pela crítica e pode acrescentar novos, abrindo novas frentes de leitura. Dou um exemplo. Clarice escreveu muito sobre Berna em crônicas belíssimas. Refere-se à vieille ville, à parte medieval da cidade onde morou durante algum tempo, na rua da Justiça, onde havia, bem em frente à casa dela, uma estátua da Justiça com uma fonte embaixo, com gerânios, no verão. Ao passar por essa rua, senti o “clima” da cidade histórica; ao ver a estátua, vi os “reis esmagados” a que ela se refere; e apesar de ser verão, não havia ainda gerânios na fonte… Essa visão provocou em mim mudanças de comportamento de leitura. Certos detalhes da crônica tornaram-se mais vivos. E não há como voltar atrás. A visão foi fatal. Agora não há como ler a crônica sem visualizar o espaço que ela ali registra. Tentei passar esse ponto de vista do narrador da crônica para o leitor da fotobiografia, montando uma sequência de imagens da casa, da janela da casa, da rua, da estátua, e procurando, dessa forma, refazer o percurso do olhar do narrador (ou narradora) da crônica. Mais um dado sobre Berna: justamente nessa cidade medieval, que guarda ainda ruínas da muralha que a cercava, Clarice terminou o romance que intitulou A Cidade Sitiada

ZH – Que surpresas a pesquisa iconográfica da vida da escritora lhe revelou? Ou aquilo que a senhora encontrou era previsível?
Nádia –
Houve muitas surpresas. Ao pesquisar, no Ministério do Exército, a atuação da FEB na Segunda Guerra Mundial, encontrei a major Elza Cansanção Medeiros, que não só me cedeu fotos de Clarice, como identificou funcionários do Consulado e militares brasileiros que apareciam em várias fotos com Clarice, em Nápoles. A major Elza conheceu Clarice quando trabalhava como enfermeira no hospital em que Clarice atuou como voluntária. Encontrei uma excelente colaboradora por acaso, onde não esperava encontrar.

ZH – Por que é tão raro vermos publicadas outras fotobiografias das grandes personalidades do Brasil? Na sua opinião, trata-se de um fenômeno semelhante ao que ocorre com biografias, que existem em número muito maior em países de primeiro mundo, na comparação com o nosso país?
Nádia -
Temos uma boa tradição de fotobiografias em língua portuguesa feitas em Portugal. Gosto, particularmente, da fotobiografia de Fernando Pessoa, feita por Maria José de Lancastre e publicada em 1986. E há outras fotobiografias de outros escritores portugueses que foram feitas depois dessa primeira, com excelente nível de qualidade. No Brasil há trabalhos de caráter fotobiográfico, entre outros, em torno de Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. E há muitos a serem feitos ainda. É um campo fértil, disponível ao pesquisador.

ZH – Você percorreu praticamente todos os lugares em que Clarice morou, tendo feito pesquisas detalhadas de sua vida e do contexto dos locais em que ela viveu. Depois de mergulhar tão profundamente em sua vida, o que mudou na sua avaliação da obra da escritora?
Nádia -
Lembro-me que um dos títulos de Água Viva que antecederam o definitivo foi Atrás do Pensamento. Eu diria que a obra de Clarice permanece, íntegra, por trás das imagens. Entre os ganhos que resultaram dessa pesquisa, em termos de leitura, posso citar o diálogo que acabei entabulando com a escritora. Acho que desfaço alguns dos “mitos” de Clarice. Ao se referir a suas origens, ela afirma que havia nascido numa aldeia que, de tão pequena, acha que nem figura no mapa. Eu encontrei a aldeia no mapa. E fui até lá. Descobri a força da tradição judaica na sua família. E a violência da perseguição que sofreu e que acabou provocando a emigração e a viagem para o Brasil. Os dados históricos definem situações, alinhavam motivações, possibilitam conclusões. Mas como lutar contra o poder da palavra do escritor? Quando leio a crônica, a literatura de Clarice me leva novamente para a aldeia da autora, a que ocupa um lugar indefinido, que talvez nem exista no mapa, onde ela situa o território das suas origens.

ZH – Como foi o trabalho de pesquisa em países diferentes e, particularmente, na Ucrânia, onde Clarice nasceu? A língua foi um obstáculo?
Nádia – Em cada país passei por experiências bem específicas. Na Ucrânia, por exemplo, a pesquisa rendeu porque organizei, antes, e contando com a colaboração da Embaixada do Brasil, um programa que foi seguido rigorosamente. Em primeiro lugar, tive a ajuda de um intérprete, pois não falo russo nem ucraniano. Pude, pois, me comunicar com as pessoas. A viagem de carro me permitiu praticamente atravessar a Ucrânia, de norte a sul. Justamente entre Kiev e Odessa está a região habitada pelos ascendentes de Clarice. Na aldeia onde ela nasceu, Tchechelnik, eu e minha amiga, Elza Miné, fomos recebidas calorosamente pelo prefeito, que nos ofereceu um excelente almoço, regado a vôdka, muita vôdka, e informações importantes sobre a participação dos judeus na formação cultural da região, patente, por exemplo, nas ruínas da sinagoga. Fiquei comovida quando vi a placa em homenagem a Clarice na entrada do prédio que abriga hoje a prefeitura e a biblioteca. Conversei com as bibliotecárias e as professoras que solicitam livros de Clarice para mostrar às crianças da cidade. Na Ucrânia, fui também a museus e arquivos, onde consegui completar o repertório de imagens importantes para o capítulo referente às “raízes” de Clarice.

ZH – O livro traz fotografias feitas por Clarice e até uma foto em que Clarice aparece com uma câmera fotográfica. Como era a relação da escritora com a fotografia, com as artes visuais? Ela era uma escritora que se dedicava às palavras, mas que também valorizava a imagem? Em que nível?
Nádia –
Valorizava, e muito. Curiosamente, consegui uma foto que foi tirada por Clarice criança, na presença de outra criança e da prima de Clarice, Cecília. Há várias referências a fotografias na sua correspondência. E a menção à fotobiografia permeia sua obra toda. Em A Paixão Segundo G.H., há uma rede de figuras ligadas às artes visuais, incluindo aí a fotografia. E é possível fazer uma leitura do livro a partir do modo como tais figuras se entrelaçam no livro.

ZH – No livro você anuncia que vai publicar uma fotobibliografia de Clarice. Que projeto é este?
Nádia –
É um projeto antigo, que iniciei há alguns anos e que propõe a reprodução visual de publicações de Clarice, com realce às dos anos 1940. Trata-se, no fundo, de uma luta pela preservação da memória visual dos jornais e revistas em que Clarice publicou seus primeiros textos, cujas páginas encontram-se, algumas, já em estado avançado de degradação física. Esse projeto nasceu da admiração que tenho pela fotobibliografia de Fernando Pessoa, de João Rui de Sousa, com prefácio de Eduardo Lourenço, publicada em Portugal em 1988. Já comecei a reunir os registros. Um dia, quem sabe, esse livro ficará pronto

Texto de Daniel Feix

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