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Direto do Túnel do Tempo

16 de junho de 2008 2

2.
- É o Bejair para você.
Tento ignorar a ironia sutil na voz da minha mãe. Ensaio rapidamente como vou atender.
- Oi, Beja, tudo legal?
- Daí, Bejair, que que manda?
- Fala, Bebê!
Finalmente me decido pelo clássico.
- Alô, Bejair, que surpresa!
Ele me convida para ir ao cinema. Se eu aceitar, será a primeira vez que faço isso com alguém do outro sexo. Dizer com um homem seria um pouco precipitado da minha parte.
Aceito. Minha mãe deixa. Às quatro da tarde do outro dia, encontro Bejair na frente do cinema. Ele escolhe o filme, uma versão da Branca de Neve com a mulata Adele Fátima, o tchan que deu origem à série.
O filme é um pornô familiar com sete anões tarados e a mulata de neve querendo dar para eles o tempo inteiro. Emocionado com o roteiro, Bejair pega a minha mão. Eu deixo. Bejair beija a minha mão. Eu deixo. Bejair quebra o meu pescoço, vira a minha cabeça na direção dele, enfia a língua pela minha boca e me dá o que, alguns homens mais tarde, eu descobriria ser um beijo.
Não sei como o filme terminou. Bejair e eu pegamos o ônibus para voltar, um sem coragem de olhar para o outro. No portão, Bejair pergunta se pode repetir a experiência. Realmente, aquilo parecia mais uma experiência que um beijo. Eu deixo.
Entro em casa e olho tudo diferente. Minhas irmãs me parecem infantis demais, agora que eu já sei beijar. Não tenho fome, mas de qualquer jeito a louça do jantar é minha. Acabo comendo uma montanha de pão e antes de dormir ainda penso que não passei o creme Nívea e posso precisar da minha pele macia amanhã.

3
Bejair não liga.

4.
Bejair não manda um telegrama.

5.
Colo cartazes com a foto do Bejair pela cidade.

O livro Dez (Quase) Amores, do qual foi retirado esse trecho acima, foi a estréia literária da escritora gaúcha Cláudia Tajes, autora de A Vida Sexual da Mulher Feia, e está sendo relançado agora pela L&PM em formato bolso. Publicado em 2000, talvez sua volta a público neste exato momento acabe por ser injusta para com a autora, dado que ele reaparece numa época em que agruras sentimentais femininas contadas com um tanto de humor e ironia estão associadas à onipresença de Sex & the City, o filme, na mídia, e o livro é bem anterior à essa mania desenfreada e algo infame pelo seriado em terras nacionais (não, não vou comentar o filme ou livros da autora Candace Bushnell. O que eu tinha para dizer sobre isso já foi dito de forma muito melhor pelo Marcelo Perrone no Primeira Fila).

Sempre gosto, quando é possível, de conferir a recepção que um determinado livro que volta em edição nova teve quando de seu lançamento. E vou partilhar essa mania com vocês publicando aqui, além do trecho do livro, uma parte da matéria assinada pela nossa então colega de redação Cris Gutkoski, em novembro de 2000, quando do lançamento de Dez (Quase) Amores – na época no formato tradicional – durante a Feira do Livro daquele ano. Divirtam-se.

Mulher solteira procura rir
 CRIS GUTKOSKI

Com a proximidade da Feira do Livro da Capital, editoras gaúchas ressurgem no mapa apostando na ficção local.
Uma estréia que merece atenção é a de Cláudia Tajes, que lança hoje Dez (Quase) Amores, dez crônicas para quase rolar de rir das conquistas femininas.
 
Impressiona neste primeiro livro da autora a mão firme para criar cenas domésticas aparentemente banais que, graças ao recurso literário da auto-ironia, revelam-se portadoras de uma graça comovente. Cláudia Tajes é hábil nos acidentes e reviravoltas dos sentimentos, como mostram Quase Amor 2 e Quase Amor 5. Na primeira, a moça destrói e refaz todas as suas más impressões acerca de um hippie universitário a partir da manjada senha: “Você é bem bonita”. No segunda, quem inverte as expectativas é a estirpe nobre de Bernardo Antônio, um carioca negro que ela encontrou de sunga amarela e que jurava ser filho de pagodeiros.
Há com certeza dor nestes amores fracassados, nesta solidão que felizmente não se leva a sério, mas a autora sempre enxerta humor em doses maiores, em tiradas como “só falta ser um maníaco, mas, atualmente, até os maníacos estão escassos” ou “sou um ser primitivo demais para achar que tanta mão em cima de mim tem a ver com o lado espiritual”. Em seus momentos mais hilários e cruéis, estas crônicas lembram as referências sarcásticas a amantes que a norte-americana Sylvia Plath fez no romance A Redoma de Vidro, que escreveu com 20 e poucos anos.
Em Dez (Quase) Amores, a narradora é uma só, experimentando várias idades, cenários e homens: Bejair, Reginaldo, Henrique, Augusto, Euclides, Roger (o vizinho casado), Mauro, Bernardo Antônio, Nelson, Luiz, André Araújo… A autora se inspirou em romances seus e das amigas.
- Cada vez mais tem mulheres escrevendo sobre suas experiências, mas quase sempre de uma forma meio densa, séria. Dá para fazer isso com mais humor – ela afirma. – E eu sempre tive muita facilidade para falar bobagem.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (2)

  • Evelin Cristina diz: 24 de junho de 2008

    Ontem li aqui no teu blog sobre o livro Dez (quase) Amores, não resisti, sai do trabalho as 18h e antes de chegar a aula as 19h passei em uma livraria aqui do Bom Fim e comprei o livro… Já li todo ele e se não bastasse, li pra minha mãe (tem glaucoma) ao mesmo tempo… Tivemos cólicas de tanto rir e ver que é bem assim mesmo… Ótimo livro, adorei! Se puder me passa os nomes dos outros livros da autora? Obrigado, bjus

     

    Oi, Evelin. Os outros livros da Cláudia são, se não deixo escapar nenhum:

    As Pernas de Úrsula e Outras Possilidades (tem edição da L&PM antiga e reedição nova da Agir).
    Dores, Amores e Assemelhados (L&PM)
    Vida Dura (Planeta)
    A Vida Sexual da Mulher Feia (Agir)
    Louca por Homem (Agir)

    Abraço e volte sempre.

  • Claudia diz: 23 de junho de 2008

    Carlos André, entrei no teu blog pra falar sobre o Philip Roth e me achei nele! Já tinha adorado a nota na ZH sobre o relançamento do Dez Quase em pocket, com a idéia de ser uma espécie de antecessor (pobre, bem entendido) do Sex and the City. Pra falar bem a verdade, fiquei agradecidíssima e, confesso, orgulhosa. Buenas, muito obrigada pelo post, pelo comentário, pela força, pela surpresa. E continuo sobre o Roth no post acima, porque ultrapassei o número máximo de caracteres aqui.

     

    Senhores, em dia memorável, temos a manifestação da própria autora. Dêem nossos cumprimentos para a Cláudia.
    Abraço, garota.

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