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A figura carismática do General Osório

23 de junho de 2008 1

Busto em homenagem ao general Osório na Praça da Alfândega, em Porto Alegre

Quem acompanhou no caderno Cultura de sábado deve ter visto a entrevista assinada por mim com o historiador paulista Francisco Doratioto, autor da recentemente lançada biografia do general gaúcho Manuel Luís Osório, parte da série Perfis Brasileiros da Companhia das Letras. Vai agora a íntegra do papo, feito por telefone com o historiador e professor universitário radicado em Brasília. Doratioto é também o autor de Maldita Guerra (2000), um dos grandes livros recentes sobre a Guerra do Paraguai.

Cultura – O senhor abre a biografia do General Osório contando que até a primeira metade do século 20 ele era tão ou mais popular entre os militares que o próprio Caxias, hoje patrono do Exército. Em que momento se deu essa substituição gradativa de um pelo outro como símbolo?
Francisco Doratioto –
Na verdade o General Osório depois da Guerra do Paraguai se torna um ídolo da população e dos militares. Não é nada construído, é decorrência da participação dele na guerra, e, depois, do fato de ele ser do Partido Liberal, no qual, após a década de 1870 se depositavam muitas esperanças de reforma do processo político brasileiro, ampliação da participação de eleitores, esse tipo de coisa. Mas, terminado o Império, a popularidade de Osório continua enorme, basta ver o número de ruas e praças batizadas com o nome dele. O Osório começa a ser substituído intencionalmente, com uma postura institucional do Exército, a partir de 1920. Porque, como eu escrevo no livro, temos nessa época o movimento do tenentismo, várias rebeliões, e o Exército precisa de uma figura forte, identificada com a ordem, com a centralização, com a hierarquia, e essa figura é o Caxias, que era do Partido Conservador, que lutou contra todos os levantes no período, que foi, enfim, o homem da ordem.

Cultura – Caxias tem uma trajetória pessoal oposta à de Osório. O primeiro vem de uma linhagem de aristocracia militar, o segundo é um homem pobre filho de um incorporado ao corpo de milícias . Isso também influi?
Doratioto –
Há um contraste entre os dois, mas os dois sem dúvida nenhuma foram os maiores comandantes militares do Brasil no século 19. Agora, por que em um determinado momento Osório é o mais popular e em outro momento é o Caxias? Tem aí uma dimensão política que decorre das circunstâncias da época. No século 19 há uma campanha em favor da descentralização, da abertura política, e Osório é do partido que se identifica com essa bandeira. E no início do século 20, posteriormente, no Estado Novo, Getúlio Vargas vai recuperar ou reconstruir mitos e heróis nacionais. A própria figura de Tiradentes é extremamente fortalecida nessa época. E aí vai entrar também a figura do Caxias, o centralizador. Quer dizer, nos momentos de fechamento político, como foram o Estado Novo o período pós-1964, a figura de Caxias vai ser fortalecida. Não que Caxias fosse ditador, Caxias se estabeleceu como político e como militar, se sobressaiu pelos dois. O que esses regimes fazem é tentar pegar uma dimensão de Caxias, a do militar centralizador, e ressaltarem isso. Mas Caxias era, por exemplo, também um legalista, sempre esteve subordinado à Constituição, coisa que Vargas ou os militares de 1964 não destacam.

Cultura – Mas além de ter um perfil associado a esse viés político mais liberal do que Caxias, Osório foi no seu tempo e na estrutura militar uma espécie de “comandante de massa” também, correto?
Doratioto –
Sem dúvida. Osório era um militar que conversava com os militares de igual para igual, no mesmo linguajar, por exemplo. Ele havia trabalhado com peões quando era jovem, havia aprendido a montar com os peões da estância do avô, enquanto que o Caxias não, era o homem formal, o homem que estudou, vindo de uma aristocracia militar. São duas personalidades absolutamente diferentes. Mas o interessante é que se deram muito bem durante quase 30 anos. Um e outro se complementaram inclusive em campos de batalha.

Cultura – O senhor busca algumas circunstâncias pessoais da formação de Osório mas também reitera em seu livro que ele tinha um inegável talento militar, o que também explica sua preeminência.
Doratioto –
O filósofo liberal espanhol Ortega e Gasset já dizia que o homem é ele mesmo e suas circunstâncias. Osório foi resultado de suas circunstâncias, mas tem suas características próprias. Foi um homem extremamente corajoso, coerente em suas posturas políticas, leal à constituição do Estado Imperial e esteve sempre pronto a participar de todos os combates, o que não é o caso de todos os oficiais do exército imperial do século 19. Por exemplo, na Guerra do Paraguai, uma parte da oficialidade não queria ir para a guerra a uma certa altura. E Osório foi, voltou, tornou a ir mesmo ferido. Claro, ele é fruto de suas circunstâncias. Ele vai ser um grande cavaleiro porque foi criado no campo gaúcho, por exemplo. Agora, entre ser um bom cavaleiro e ser um grande militar vai uma diferença grande. Ele vai ser um grande militar porque tinha habilidade para os temas militares, embora não gostasse desses temas. E era um homem de sorte. Ele esteve na frente de várias batalhas e foi ferido uma vez só. Há relatos nos quais as testemunhas ficam surpresas de que ele tenha saído vivo. Em Humaitá, por exemplo, se dizia entre a tropa que ele tinha o “corpo fechado” e que depois das batalhas, quando ele chacoalhava o poncho, caíam os projéteis no chão. Porque na batalha de Humaitá o poncho dele ficou furado e ele não. Ou seja, ele teve muita sorte. Houve várias ocasiões em que ele poderia ter morrido e não morreu.

Cultura – O senhor descreve um lance em uma das primeiras batalhas de Osório que parece cinematográfico. Perseguido por dois inimigos, a galope, ele se vira na sela, atira com a arma da época, sem a precisão dos revólveres de hoje, e derruba outro homem a galope.
Doratioto –
Sim, e na Guerra do Paraguai, durante a primeira retirada que ele precisa fazer ele se submete a uma cirurgia em campo aberto. Quer dizer, naquelas condições da época, mesmo em um hospital, sofrer uma cirurgia era algo muito arriscado, a possibilidade de você morrer de septicemia era muito grande, agora imagine em campo aberto. E com ele não aconteceu nada. Então, além de competente do ponto de vista militar, ele foi um homem de sorte. Eu, como historiador, não tenho o mínimo pudor de dizer que o Osório é uma figura sedutora para o historiador que o estuda. Ele é um personagem rico, e uma figura simpática. Tem personagens históricos com os quais você trabalha que são profundamente antipáticos, você trabalha por obrigação profissional mas não sente identificação nenhuma com a figura que está estudando. Vou dar um exemplo distante: um historiador britânico escreveu uma longa biografia do Franco, e ele admitia que odiava a figura com a qual estava trabalhando. Já o Osório é o contrário. Com ele a gente tem de tomar cuidado porque passados cem anos  de sua morte ele continua seduzindo com a sua atuação. Claro que ele teve lá suas falhas, temos de vê-lo com os valores da época, mas é um personagem sedutor mesmo hoje em 2008.

Cultura – Ou seja, também para o senhor foi necessário um cuidado para, devido a essa simpatia da figura, não ceder à tentação de relevar os pontos não tão nobres do personagem?
Doratioto –
Bom, o meu livro terminou simpático à figura do Osório, e não é que eu planejei que fosse assim. Não quis que fosse assim, mas a gente trabalha com a documentação de época, os testemunhos, e, é uma coisa surpreendente, não existem muitos depoimentos negativos sobre a figura do Osório. Mesmo os inimigos políticos o criticam por usar o prestígio militar dele no Rio Grande no final dos anos 1850, começo dos 1860, para eleger setores do Partido Liberal histórico, moderado, para deputados. Ou seja, a crítica é a uma prática política que era comum na época e posteriormente também. A não ser nesse caso político e no caso em que eu cito no livro, que ele teria perseguido um grupo de bandoleiros e invadido um acampamento no qual teriam morrido mulheres e crianças, houve poucos episódios desabonadores. Ele era criticado também por não usar o uniforme regulamentar, já que o poncho não fazia parte do uniforme. Outro historiador trabalhando sobre essa documentação tivesse uma interpretação diferente do personagem, é assim que funciona, a história é plural. Mas eu contei o que eu interpretei.

Cultura – Mas na sua atuação política Osório não reproduzia muitas vezes as práticas políticas de sua época, que eram um tanto de debate e um tanto de intimidação, se necessário de confronto? O senhor cita no livro um episódio no qual Osório invadiu um tribunal com um grupo de seguidores armados.
Doratioto –
Olha, confronto físico mesmo de Osório na vida civil se tem notícia só dessa tentativa de intimidação a um juiz, mas isso também era prática comum, a realidade no interior gaúcho na época. Mas confronto físico com inimigos políticos eu não me lembro de nenhum. Mas a luta política no Rio Grande do Sul na época era muito dura, e o Osório vai ser acusado duas vezes pelo Barão de Porto Alegre de traição, de procurar fazer o separatismo do Rio Grande e fundar uma república porque ele tinha nos anos 1850 e 1860 o apoio dos antigos farroupilhas. Mas foram acusações que nunca tiveram acolhida junto ao Imperador. Agora, Osório jogava o jogo e o jogo era esse. Uso de violência física contra adversários políticos não se tem registro a não ser nesse caso do julgamento. E a leitura que o Osório faz desse episódio é a seguinte: que ele e os seguidores dele estão sendo vítimas de uma perseguição também com aquele julgamento. O que movia a atuação dos chefes militares, mesmo durante a Guerra do Paraguai, era a motivação política, e isso vai explicar muitas coisas, inclusive a dificuldade, por exemplo, de estabelecer um plano de defesa do Sul porque os chefes militares não se entendiam, estavam mais interessados em política do que na defesa da província. Nesse momento, em 1865, entretanto, Osório já estava no Uruguai, ele não participa disso.

Cultura – Chama a atenção também que Osório, durante seu tempo de atuação política, via o Exército também como um elemento para manutenção da ordem interna quanto para atuação na defesa externa. É um entendimento diverso do que o que se tem hoje.
Doratioto –
É, existe uma polêmica hoje em dia, principalmente na questão do Rio de Janeiro, se o exército deve ou não ser usado na manutenção da ordem interna. Mas quando o Osório é Ministro da Guerra no gabinete do Visconde de Sinimbu, no final da década de 1870, o que se entende por “manutenção da ordem interna” é o combate às rebeliões e sublevações escravas, principalmente no interior de São Paulo, ele cita textualmente. Se estivéssemos buscando, por exemplo, aspectos menos meritórios na figura do Osório, um aspecto poderia ser esse. Mas aí também é a concepção do militar. Porque você tem várias manifestações do Osório contra a escravidão e a favor da liberdade dos escravos. Tudo indica que ele era pessoalmente contra a escravidão. Agora, ele tem escravos domésticos, isso nós também sabemos. Mas como Ministro da Guerra ele vai exercer seu papel institucional, que é a manutenção da ordem. E no exército na época havia uma dupla interpretação. A jovem oficialidade quer desligar o exército dessa função de manter a ordem escravocrata. Mas a antiga oficialidade, que inclui Caxias, Osório, um pessoal que se formou antes da Guerra do Paraguai e tinha uma relação de fidelidade pessoal com o Imperador e com o estado monárquico, esses achavam que o Exército devia ser usado para a manutenção da ordem interna, que era uma forma de sustentar o governo monárquico e escravista.

Cultura – Isso também é decorrência do temperamento militar, apegado à hierarquia, de Osório, um homem que via a carreira militar como uma sucessão de sacrifícios?
Doratioto –
Olha, Osório até não era dos mais rigorosos nessa coisa da hierarquia, o Caxias era muito mais. Agora, como Ministro da Guerra, ele segue a ordem institucional. A atuação dele como ministro é ela própria um sacrifício pessoal. Porque ele sabia da fragilidade da defesa Sul do Império, sabia que o Império estava mal armado. Mas quando ele assume o ministério, demanda-se que ele faça cortes no Exército, e ele reduz o efetivo em dois mil homens, de 15 mil para 13 mil. Ele é coerente na atuação dele. A convicção dele é que o Exército tem de ser mais forte, mas pede-se que ele reduza o efetivo para conter despesas e diminuir o déficit público enorme. E ele segue a hierarquia, a autoridade do Visconde de Sinimbu e as demandas do Estado Imperial.

Cultura – Outro ponto interessante da biografia de Osório é que ele se torna um personagem de preeminência e uma figura símbolo do Exército mas ele por muito tempo não pensa em seguir a carreira militar em definitivo.
Doratioto –
Osório não era tido como grande estratégico, o mestre estrategista é aquele que prevê grandes manobras, o desenrolar de um combate em escala ampla, e nós não sabemos se ele foi esse tipo de líder porque ele só comandou um exército uma vez, em 1865, quando formou um exército em marcha e conseguiu entrar no Paraguai, mas ele estava subordinado, ainda que com grande autonomia, ao comandante-em-chefe aliado, o presidente Mitre. O que ele demonstrou era que era um grande líder militar, um dos melhores generais de sua época. Ele não teve a academia militar, não estudo, não teve formação técnica, ele aprendeu fazendo guerra. E era muito crítico em relação a si mesmo nesse aspecto. Ele sempre valorizou muito a educação dos filhos, mas lamentava-se também do fato de ele próprio não ter podido estudar. Mesmo quando já era herói de guerra, Senador do Império, ministro, posto máximo na carreia militar, ele teria todos os motivos para ser uma pessoa extremamente orgulhosa de si própria. Vemos hoje pessoas com menos méritos do que esses fazendo isso no dia-a-dia do país. Ele chegou nesse ponto e lamentava não haver estudado, não ter curso superior. Ele era de uma grande humildade e valorizava muito a educação. Quando fui fazer a biografia eu conhecia bem a figura do Osório militar pelo Maldita Guerra, livro que escrevi sobre a Guerra do Paraguai. Mas o que me surpreendeu, além da figura política, maior do que eu esperava, foi essa dimensão pessoal, a relação pessoal da família e o valor que ele dava à educação. Eu não esperava isso de um chefe militar tão importante que tinha se feito sozinho saído do nada, de um lugar no interior gaúcho que não tinha escola quando ele era criança.

Cultura – E uma trajetória como a de Osório, que sai de um posto baixo numa milícia local e encerra a carreira no posto mais alto da oficialidade, seria possível hoje?
Doratioto –
Não, hoje não seria possível porque só pode chegar ao generalato quem cursa Academia Militar. Que eu saiba, quem não faz a Aman hoje só chega no máximo a Coronel, no chamado Quadro Suplementar, médicos, professores, sociólogos, economistas. Mas a Guerra mudou, também. Você não pode mais aprender, como Osório aprendeu, a lutar uma guerra num campo de batalha. As guerras hoje se tornaram mais tecnológicas. Quando Osório ingressa no exército, ainda jovem, basicamente se lutava com cavalos, ainda com lanças, porque as armas de fogo eram pouco confiáveis e não permitiam mira de longa distância. O uso de tecnologia moderna numa guerra em grau que comece a fazer frente à cavalaria vai se dar justamente, no nosso caso, na Guerra do Paraguai, que significa uma revolução tecnológica na arte de matar. O próprio Osório se começasse carreira na Guerra do Paraguai não teria chegado a general. E ouso dizer: ele não teria alcançado o posto se não houvesse a Revolução Farroupilha. Porque depois que a guerra divide o que existia de exércitos e tropas no Rio Grande, aqueles que ficaram no lado legalista fizeram carreira e ganharam conceito junto ao poder central. O Osório, na época coronel, vai conhecer o Caxias na Revolução Farroupilha. E o Caxias vai se tornar uma espécie de protetor do Osório no plano militar. E em troca o Osório vai apoiar politicamente os aliados de Caxias no Estado. Há um elo de amizade sincera entre ambos até o fim da Guerra do Paraguai, mas há também uma relação mútua na qual ambos saem ganhando.

Cultura – E por que ambos vão romper mais adiante essa amizade?
Doratioto –
Foram dois equívocos relacionados a interpretações diferentes em relação a um ataque em Humaitá em 1868. Durante uma batalha, o Osório entende uma ordem do Caxias de um jeito e o Caxias afirma que a ordem era outra. Tudo indica que foi um erro de transmissão do ajudante de ordens de Osório que entendeu errado no calor da batalha. E Osório ficou magoado com o episódio. Depois, na batalha de Itororó, vai acontecer a mesma coisa, houve uma ordem do dia dúbia por parte do Caxias, porque não era ele quem escrevia essas ordens, era um médico seu auxiliar, que muitas vezes exagerava no estilo. Quando você olha as Ordens do Dia da Guerra do Paraguai não são muito confiáveis para estabelecer como se deram as batalhas. E como o Osório era do Partido Liberal e Caxias do Conservador, assim que acaba a guerra a luta entre os dois partidos vai se acirrar muito, e os civis de um lado e de outro vão estimular as intrigas. Porque aos Liberais interessa comprometer a figura do Caxias, e eles passam a apontar todas as falhas que ele teve na Guerra do Paraguai, e as teve. E quanto a Osório, não se tinha o que apontar muito, mas os conservadores o apontam como um sujeito orgulhoso. E o fato é que o Caxias fica magoado com o Osório, porque ele, ao chegar no Rio, quase se deixa contaminar por aquele clima criado em torno dele, ele havia virado um herói nacional. E o Caxias, que também foi importante para as vitórias aliadas na Guerra, se sente injustiçado. E ambos a partir daí rompem e param de se falar. E o interessante é que a historiografia oficial escrita a partir do século 20 procuraram minimizar esse desentendimento ou mesmo ignorá-lo, já que são os dois maiores heróis do panteão do exército brasileiro e não interessava mostrar essa divergência. Embora o fato de eles haverem se desentendido não altera em nada a imagem histórica e os feitos de ambos. Só mostra que eles foram o que foram, seres humanos.

Cultura – E qual sua avaliação da onda revisionista que, à partir dos anos 1970, estabeleceu uma postura crítica à participação brasileira na Guerra do Paraguai e aos personagens que estiveram nela, como Osório?
Doratioto –
Creio que até a década de 1960, a historiografia conservadora, oficialista, e os próprios intelectuais ligados ao poder exageraram na idealização dos personagens do passado. Então eles construíram heróis, Caxias, Osório, o próprio Tiradentes, e era evidente que havia um exagero, um artificialismo em caracterizar esse homens de forma unidimensional. Como se eles não tivessem nenhuma falha, nenhum erro na sua vida. A população, um estudante, um civil, dificilmente iria se identificar com um personagem como esse porque pessoas assim não existem. Agora, em relação a essa historiografia tradicional, que exagerou esses aspectos, vai surgir o revisionismo, que vai desconstruir esses personagens. Mas aí vamos cair no outro extremo. De repente parece que esses personagens nunca tiveram uma característica positiva, que foram instrumentos de escravidão, de destruição, e o caso da Guerra do Paraguai é o maior exemplo. Toda aquela visão de que a guerra foi causada pela Inglaterra, que o Império do Brasil foi um instrumento de dominação sobre um suposto modelo de desenvolvimento democrático paraguaio _ modelo que nunca existiu, está comprovado historicamente, era uma ditadura atrasada em um país miserável, era quase surrealista. Solano Lopez daria um belo livro de García-Márquez. Quando você vai estudar o cotidiano da vida do Paraguai sob Solano Lopez ou mesmo sob ditadores anteriores, você vê coisas que impressionam até o historiador profissional. Então voltando, toda essa década de 1960 viu uma leitura crítica, que é necessária, ciência e história só avançam com pensamento crítico, mas uma coisa é você criticar, agora desconstruir com objetivos terceiros e exagerar nessa desconstrução, torná-lo absolutamente mal também é um exagero. Então depois do fim da década de 1980, quando houve a redemocratização do Brasil e acabou a Guerra Fria, foi afastado um monte de lixo ideológico por uma nova geração de historiadores que tenta ir aos documentos com um olhar novo. Claro que toda interpretação é passível de questionamento, mesmo com os documentos, mas é consenso que tem de haver o documento, haver uma base.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (1)

  • Claudia diz: 23 de junho de 2008

    Carlos André, conforme ia dizendo no comentário do Dez Quase, tu fez uma garota duplamente feliz hoje, com o post abaixo e o Philip Roth em página dupla na ZH. Coisa boa abrir o jornal e ver, além do Grêmio (tãrãrã!), o Mr. Roth em entrevista e resenha. Concordo inteiramente com a tua leitura do Fantasma Sai de Cena. Apenas daria 5 estrelas para o livro, mas também não consigo avaliar com imparcialidade o meu amor Roth (não o Celso, claro). Valeu por tudo e um beijão da tua sempre leitora.

     

    Pois é, Cláudia, não foste a primeira a comentar que talvez eu tenha sido rigoroso demais com o livro novo do mister Roth, ao dar só quatro estrelas, mas acho que fui condicionado pela leitura do anterior Homem Comum. Digamos que essas avaliações acabam levando em conta, no fim, a obra do autor em relação a um panorama geral e em relação a sua própria obra. Em comparação com, sei lá, 80% dos escritores, Roth é sempre cinco estrelas, mas dentro da própria obra dele confesso que ainda reservo cinco para O Teatro de Sabbath, Complexo de Portnoy, Pastoral Americana, A Marca Humana.
    Quanto ao Grêmio, meu confrangido coração colorado se restringirá de fazer comentários.

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