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Fragmentos de Passado

23 de junho de 2008 0

O título é King Kong e Cervejas, mas pode chamar de Coisas que Esquecemos Pelo Caminho. Não, nenhuma referência ao filme com Benicio Del Toro, que é Coisas que Perdemos Pelo Caminho. Até porque Fabricio Corsaletti não nos faz lembrar do que deixamos para trás. Isso é óbvio. Cada um dos capítulos do livro encerra, na verdade, situações que marcaram determinadas fases da vida do personagem – que, acredita-se, seja o próprio autor. São fragmentos de memória, e não há palavra melhor para descrevê-los.

Como qualquer pessoa que vez ou outra abre a gaveta do passado, e o que encontra são pedaços de momentos, mas pedaços vivos, cheios de sabores e cheiros. E Corsaletti coloca o leitor a vasculhar a própria enciclopédia de memórias, com textos rápidos e que se pretendem corridos. A intenção beira fazer com uma vida o que Joyce fez com um dia.

Mas não chegam a ser fotografias. São filmetes perfeitos para serem colocados no YouTube, por exemplo.

King Kong… coloca o personagem principal, capiau do interior paulista que foi morar na capital para estudar, contando sua história até aquele momento. Mas ao invés de utilizar uma narrativa linear, ele segue pelos rasgos de memórias que considera mais representativos. A infância no sítio dos avós, a adolescência metida em brigas, carnavais e promessas de sexo. E a melancolia inescapável de quem volta para a cidade natal e encontra exatamente tudo como está – senão pior.

Sem raiva, sem dor, nada disso. Um reencontro com um velho amigo, algumas cervejas com bilhar e pronto. Hora de voltar para a capital. O personagem não pertence mais àquele mundo, e a memória parece ter sido fragmentada propositalmente até para facilitar essa transição.

Claro que não tem final. Não um final de novela, nem um final engraçadinho típico desses novos escritores pops. O lance de Corsaletti é o excerto de vida que, embora seja a dele, serve para todo mundo. Ou ao menos para quem fez ou faz ou fará a mesma viagem. E é cru, é saudável, é tocante e vivo. Não há falsa erudição, aquela idiotice de “chegava em casa, abriga um iscótschi e ouvia Coltrane à meia-luz”, um intelectualismo bobo, boçal, ranheta.

O sujeito é um caipira, não almeja nada que não seja fazer brotar de si algum fiapo da esperança que não encontra nos amigos, nos pais, na família ou na cidade onde mora. E sua história conta exatamente isso. Nem mais, nem menos. “Não gostou, problema teu, pega tua vidinha de m*** e faz de conta que é diferente, por que eu só quero mostrar a real aqui“, sublima Corsaletti. E a realidade não é melhor nem pior. É só a realidade. Como cervejas geladas num puteiro vagabundo.

Postado por Gustavo Brigatti

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