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Noll aprende a rir

25 de junho de 2008 0

João Gilberto Noll no gabinete de trabalho de sua residência em Porto Alegre

Lutávamos no chão frio do corredor. Do consultório do dentista vinha o barulho incisivo da broca. E nós dois a lutar deitados, às vezes rolando pela escada da portaria abaixo. Crianças, trabalhávamos no avesso, para que as verdadeiras intenções não fossem nem sequer sugeridas. Súbito, os dois corpos pararam e ficaram ali, aguardando. Aguardando o quê? Nem nós dois sabíamos com alguma limpidez. A impossibilidade de uma intenção aberta produzia essa luta ardendo em vácuo. O guri meu colega de escola estava nesse exato minuto me prendendo. Seu corpo em cima do meu parecia tão forte que eu teria de me render. O que sentiriam os rendidos? E as conseqüências práticas, quais seriam? Contei de um colega cujos pêlos do pentelho —, aliás, com um futuro ruivo, começavam a nascer. Pentelho? Eu trouxe a novidade pronunciando por ignorância a última vogal como um “a”. Os pêlos apareciam primeiro na região da virilha, nas laterais, portanto. Ou mais embaixo um pouco, quase no saco. Nunca ouvira falar antes desse tufo encrespado a encobrir o sexo parcialmente. Na minha drástica compreensão, esses fios emaranhados deveriam coroar a escalada sexual. Coroar de algum modo que agora me fugia.

Cinco relançamentos e um romance inédito marcam uma nova fase no trabalho do porto-alegrense João Gilberto Noll, que agora passa a ter sua obra integral publicada pela Editora Record. E o romance inédito, Acenos e Afagos (208 páginas, R$ 32), também marca uma transição no trabalho do romancista, que, não sem surpresa, confessa ter encontrado motivos para o riso em seu novo livro.

— Não perdi minha visão trágica e pessimista da existência, mas aos 62 anos a gente aprende a encarar isso com mais serenidade — conta o escritor, convidado deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa no dia 2 de julho.

Noll é reconhecido hoje como um dos principais escritores brasileiros em atividade tanto nos romances quanto nos contos. Sua prosa vai do elíptico, insinuado, onírico nas narrativas breves, a um caudal labiríntico nos romances, nos quais a trama que é conduzida mais pelos vôos da linguagem do que pelos  acontecimentos. Seus personagens são seres angustiados em uma busca indefinida por algo que não encontram. Uma busca que, paradoxalmente, almeja o metafísico enquanto mergulha profundamente no físico, nos sentidos, no sexo como um grito de desespero.

Em Acenos e Afagos esse emblemático personagem é um narrador sem nome de ascendência germânica, consumido pelo amor por um colega de infância, hoje engenheiro. Ao longo da narrativa, o protagonista é empurrado de aventura em aventura sem conseqüência plena do que o leva: vai parar em uma orgia  homossexual em um submarino alemão, depois refugia-se em uma fazendola no Interior, e daí por diante.

Em Noll, lembremos, a trama normalmente é um pretexto para uma investigação sensória. A extensão e a ênfase que Acenos e Afagos dedica ao sexo aparenta esse novo livro com o barroco A Fúria do Corpo – que está ganhando nova edição, com A Céu Aberto, O Cego e a Dançarina, Bandoleiros e Rastros do Verão. Mas o novo livro envenena a habitual atmosfera surreal de angústia e pesadelo dos livros de Noll com pitadas de nonsense.

— Percebi que essa voz teria humor quando eu mesmo me peguei, para minha surpresa, rindo com o que escrevia — conta o autor.

Postado por Carlos André Moreira

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