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O fantasma agonizante

27 de junho de 2008 0

A incontinência não fora nem um pouco afetada pelo tratamento de colágeno, e quando, na manhã do dia da eleição, relatei esse fato, a enfermeira do consultório médico recomentou que eu marcasse uma consulta no mês seguinte para repetir o procedimento. Se até lá houvesse uma melhora, eu podia cancelar a consulta; caso contrário, a intervenção seria realizada mais uma vez. “E se não adiantar?” “Agente tenta mais uma vez. Na terceira vez, não é através da uretra”, explicou a enfermeita, “e sim pela cicatriz da operação na próstata. É só uma perfuração. Anestesia local. Não dói.” “E se a terceira vez também não adiantar?”, perguntei.”Ah, isso ainda está muito longe, senhor Zuckerman. Uma coisa de cada vez. Não desanime. Vai acabar dando algum resultado.

Como se a incontinência já não fosse uma humilhação suficiente, eu ainda tinha que ser tratado como um pirralho birrento que não queria tomar óleo de fígado de bacalhau. mas é o que acontece quando um paciente idoso se recusa a aceitar com resignação os males inevitáveis da idade e caminhar obediente, com passos incertos, em direção à cova: os médicos e as enfermeiras têm que lidar com uma criança que é preciso ficar o tempo todo convencendo, com palavras tranqüilizadoras, a seguir em frente nessa causa perdida. Foi isso o que pensei quando desliguei o telefone, sentindo que todo meu orgulho fora esvaziado e que minhas forças eram muito limitadas, vendo-me como um homem numa situação em que, resistindo ou cedendo, o fracasso é inevitável.

Ainda que não seja uma personificação de facto de seu criador, o personagem Nathan Zuckerman tem sido a voz literária mais constante de Philip Roth ao longo dos últimos 30 anos e nove romances, entre eles O Avesso da VidaPastoral Americana e A Marca Humana. É com admiração, portanto, que se percebe,na leitura de Fantasma Sai de Cena (Companhia das Letras, 284 páginas, R$ 42), a facilidade com que Roth se despede de seu “agente” no mundo da ficção. O romance é o canto do cisne de Zuckerman, entoado com desprendimento, crueldade e um ceticismo perplexo que veda a entrada de qualquer sentimentalismo barato – e, paradoxalmente, essa voz tão ácida, tão seca, tão característica de Philip Roth consegue lograr o efeito de soar comovente.

Exilado voluntariamente há 11 anos nas montanhas Berkshire, em Massachusetts, impotente e sofrendo de incontinência urinária devido a uma cirurgia anterior para extirpar um câncer de próstata, Zuckerman vai a Nova York para um tratamento à base de colágeno que poderia minimizar a incômoda incontinência. Assim que pisa na Nova York ainda traumatizada pelos atentados da Al-Qaeda, Zuckerman experimenta, além da melancolia de não pertencer mais àquele cenário, um último impulso de vida. Reencontra uma antiga amante, Amy Bellette, que viveu por um tempo com um de seus ídolos literários, o escritor E.I. Lonoff, a quem Zuckerman conheceu nos anos 1950 – história narrada em seu romance The Ghost Writer. Zuckerman trava contato, por impulso, com um jovem casal  interessado em trocar por um ano o apartamento em que vive, em Nova York, pelo refúgio montanhês do escritor. A mulher desse casal, Jamie, vai exercer sobre o narrador fascínio imediato, tão forte quanto a antipatia que Zuckerman sentirá por um amigo do casal e ex-namorado de Jamie, Richard Kliman – que quer a todo custo a colaboração de Zuckerman para escrever uma biografia bombástica do mesmo Lonoff mencionado há pouco.

A tradução escolhida por Paulo Henriques Britto para o título original,Exit Ghost, preserva o tom de rubrica teatral da expressão, chave fundamental de leitura. Isolado em seu refúgio bucólico nas montanhas, Zuckerman havia treinado a si mesmo para acreditar que uma década inteira de inatividade sexual havia sido suficiente para livrá-lo também das teias do desejo. Um entendimento que se mostrará equivocado já nas primeiras 50 páginas do romance, escrito em primeira pessoa com a urdidura caprichosa peculiar a Roth, hoje mais amarga e menos cômica do que no passado. Mas ainda assim corrosiva.

O Zuckerman que começa a narrativa é um homem convencido de sua condição de  espectador cansado do teatro do mundo: a política, simbolizada pelo passional pleito eleitoral que opõe George W. Bush e John Kerry (o romance se passa em 2004); a arena literária, personificada em Kliman; mesmo a atividade sexual, comprometida pela impotência e também representada na decrepitude da outrora bela  Amy Bellette. No momento em que toma o caminho de Nova York, contudo, Zuckerman percebe que ainda vive um drama essencialmente patético: ele não tem mais potência, metafórica e fisicamente falando, mas em momento algum se livrou do desejo, algo que descobre ao conhecer a bela Jamie. Ele é espectador contra a vontade, e, ao partir, reluta.

Zuckerman é inquieto demais, inconformado demais, sua inteligência não se traduz em serenidade no fim. A imagem de ancião estóico que tentava construir para si mesmo não resiste ao choque da esperança, e talvez por isso sua antipatia para com Kliman – que o próprio narrador admite ter um tanto da arrogância e da energia que ele tinha naquela idade. É o rancor de quem está sendo substituído.

E aqui fala-se de Zuckerman, obviamente. Porque Roth, ele próprio, é hoje um escritor que não parece ter sucessor à vista.

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