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Posts de junho 2008

Histórias de um Advogado de porta de cadeia

30 de junho de 2008 0

Louis Roulet afirmava inocência atrás das grades de uma delegacia de polícia de Los Angeles. O mauricinho de Beverly Hills queria ser solto e sabia que para isso precisava de Mickey Haller, ele era um cliente que podia pagar pela liberdade, e se tratava de uma defesa classe A. A acusação: Roulet foi descoberto, imobilizado por dois homens, no apartamento de uma mulher marcada por hematomas no rosto e no corpo. Ela o acusava veemente de ter feito aquilo.

Esse é o caso que mexe com a vida do advogado Mickey Haller no décimo segundo livro de Michael Connelly, Advogado de porta de cadeia. (Record, 420 páginas, R$ 50). Com uma trama divertida e eletrizante, o romance prende o leitor do início ao fim. Escrito em primeira pessoa por Haller, a narração descreve os pensamentos, sensações e conflitos desse personagem complexo e, ao mesmo tempo, simples. Sem escritório, o criminalista atende no banco de trás de seu carro lincoln e angaria clientes por meio das páginas amarelas dos jornais e de placas espalhadas pelas zonas mais perigosas da cidade.

O que também acompanha o complicado caso é o indecifrável coração do personagem principal. Haller mantém um relacionamento intrigante com a ex-mulher, a competente promotora Meggi McFeroz, como é “carinhosamente” chamada. O affair se baseia em amor, expectativa da filha em tê-lo mais próximo e em informações restritas do Estado ao advogado de Los Angeles.

Ex-repórter das linhas policiais do jornal Los Angeles Times, Michael Connelly se aventura no mundo dos advogados criminalistas com pose de quem tem experiência na área. Inúmeros casos se entrecruzam com a história de Louis Roulet e cada um deles com detalhes jurídicos que não atrapalham nem um pouco a compreensão de quem não é da área.

Então, prepare seus argumentos e separe um tempo para investir nesse livro que mostra a sensibilidade de um advogado que não se importa com a inocência de seus clientes. Pelo menos não até se deparar com Louis Roulet…

Postado por Joana Marins

O fantasma agonizante

27 de junho de 2008 0

A incontinência não fora nem um pouco afetada pelo tratamento de colágeno, e quando, na manhã do dia da eleição, relatei esse fato, a enfermeira do consultório médico recomentou que eu marcasse uma consulta no mês seguinte para repetir o procedimento. Se até lá houvesse uma melhora, eu podia cancelar a consulta; caso contrário, a intervenção seria realizada mais uma vez. “E se não adiantar?” “Agente tenta mais uma vez. Na terceira vez, não é através da uretra”, explicou a enfermeita, “e sim pela cicatriz da operação na próstata. É só uma perfuração. Anestesia local. Não dói.” “E se a terceira vez também não adiantar?”, perguntei.”Ah, isso ainda está muito longe, senhor Zuckerman. Uma coisa de cada vez. Não desanime. Vai acabar dando algum resultado.

Como se a incontinência já não fosse uma humilhação suficiente, eu ainda tinha que ser tratado como um pirralho birrento que não queria tomar óleo de fígado de bacalhau. mas é o que acontece quando um paciente idoso se recusa a aceitar com resignação os males inevitáveis da idade e caminhar obediente, com passos incertos, em direção à cova: os médicos e as enfermeiras têm que lidar com uma criança que é preciso ficar o tempo todo convencendo, com palavras tranqüilizadoras, a seguir em frente nessa causa perdida. Foi isso o que pensei quando desliguei o telefone, sentindo que todo meu orgulho fora esvaziado e que minhas forças eram muito limitadas, vendo-me como um homem numa situação em que, resistindo ou cedendo, o fracasso é inevitável.

Ainda que não seja uma personificação de facto de seu criador, o personagem Nathan Zuckerman tem sido a voz literária mais constante de Philip Roth ao longo dos últimos 30 anos e nove romances, entre eles O Avesso da VidaPastoral Americana e A Marca Humana. É com admiração, portanto, que se percebe,na leitura de Fantasma Sai de Cena (Companhia das Letras, 284 páginas, R$ 42), a facilidade com que Roth se despede de seu “agente” no mundo da ficção. O romance é o canto do cisne de Zuckerman, entoado com desprendimento, crueldade e um ceticismo perplexo que veda a entrada de qualquer sentimentalismo barato – e, paradoxalmente, essa voz tão ácida, tão seca, tão característica de Philip Roth consegue lograr o efeito de soar comovente.

Exilado voluntariamente há 11 anos nas montanhas Berkshire, em Massachusetts, impotente e sofrendo de incontinência urinária devido a uma cirurgia anterior para extirpar um câncer de próstata, Zuckerman vai a Nova York para um tratamento à base de colágeno que poderia minimizar a incômoda incontinência. Assim que pisa na Nova York ainda traumatizada pelos atentados da Al-Qaeda, Zuckerman experimenta, além da melancolia de não pertencer mais àquele cenário, um último impulso de vida. Reencontra uma antiga amante, Amy Bellette, que viveu por um tempo com um de seus ídolos literários, o escritor E.I. Lonoff, a quem Zuckerman conheceu nos anos 1950 – história narrada em seu romance The Ghost Writer. Zuckerman trava contato, por impulso, com um jovem casal  interessado em trocar por um ano o apartamento em que vive, em Nova York, pelo refúgio montanhês do escritor. A mulher desse casal, Jamie, vai exercer sobre o narrador fascínio imediato, tão forte quanto a antipatia que Zuckerman sentirá por um amigo do casal e ex-namorado de Jamie, Richard Kliman – que quer a todo custo a colaboração de Zuckerman para escrever uma biografia bombástica do mesmo Lonoff mencionado há pouco.

A tradução escolhida por Paulo Henriques Britto para o título original,Exit Ghost, preserva o tom de rubrica teatral da expressão, chave fundamental de leitura. Isolado em seu refúgio bucólico nas montanhas, Zuckerman havia treinado a si mesmo para acreditar que uma década inteira de inatividade sexual havia sido suficiente para livrá-lo também das teias do desejo. Um entendimento que se mostrará equivocado já nas primeiras 50 páginas do romance, escrito em primeira pessoa com a urdidura caprichosa peculiar a Roth, hoje mais amarga e menos cômica do que no passado. Mas ainda assim corrosiva.

O Zuckerman que começa a narrativa é um homem convencido de sua condição de  espectador cansado do teatro do mundo: a política, simbolizada pelo passional pleito eleitoral que opõe George W. Bush e John Kerry (o romance se passa em 2004); a arena literária, personificada em Kliman; mesmo a atividade sexual, comprometida pela impotência e também representada na decrepitude da outrora bela  Amy Bellette. No momento em que toma o caminho de Nova York, contudo, Zuckerman percebe que ainda vive um drama essencialmente patético: ele não tem mais potência, metafórica e fisicamente falando, mas em momento algum se livrou do desejo, algo que descobre ao conhecer a bela Jamie. Ele é espectador contra a vontade, e, ao partir, reluta.

Zuckerman é inquieto demais, inconformado demais, sua inteligência não se traduz em serenidade no fim. A imagem de ancião estóico que tentava construir para si mesmo não resiste ao choque da esperança, e talvez por isso sua antipatia para com Kliman – que o próprio narrador admite ter um tanto da arrogância e da energia que ele tinha naquela idade. É o rancor de quem está sendo substituído.

E aqui fala-se de Zuckerman, obviamente. Porque Roth, ele próprio, é hoje um escritor que não parece ter sucessor à vista.

Noll aprende a rir

25 de junho de 2008 0

João Gilberto Noll no gabinete de trabalho de sua residência em Porto Alegre

Lutávamos no chão frio do corredor. Do consultório do dentista vinha o barulho incisivo da broca. E nós dois a lutar deitados, às vezes rolando pela escada da portaria abaixo. Crianças, trabalhávamos no avesso, para que as verdadeiras intenções não fossem nem sequer sugeridas. Súbito, os dois corpos pararam e ficaram ali, aguardando. Aguardando o quê? Nem nós dois sabíamos com alguma limpidez. A impossibilidade de uma intenção aberta produzia essa luta ardendo em vácuo. O guri meu colega de escola estava nesse exato minuto me prendendo. Seu corpo em cima do meu parecia tão forte que eu teria de me render. O que sentiriam os rendidos? E as conseqüências práticas, quais seriam? Contei de um colega cujos pêlos do pentelho —, aliás, com um futuro ruivo, começavam a nascer. Pentelho? Eu trouxe a novidade pronunciando por ignorância a última vogal como um “a”. Os pêlos apareciam primeiro na região da virilha, nas laterais, portanto. Ou mais embaixo um pouco, quase no saco. Nunca ouvira falar antes desse tufo encrespado a encobrir o sexo parcialmente. Na minha drástica compreensão, esses fios emaranhados deveriam coroar a escalada sexual. Coroar de algum modo que agora me fugia.

Cinco relançamentos e um romance inédito marcam uma nova fase no trabalho do porto-alegrense João Gilberto Noll, que agora passa a ter sua obra integral publicada pela Editora Record. E o romance inédito, Acenos e Afagos (208 páginas, R$ 32), também marca uma transição no trabalho do romancista, que, não sem surpresa, confessa ter encontrado motivos para o riso em seu novo livro.

— Não perdi minha visão trágica e pessimista da existência, mas aos 62 anos a gente aprende a encarar isso com mais serenidade — conta o escritor, convidado deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa no dia 2 de julho.

Noll é reconhecido hoje como um dos principais escritores brasileiros em atividade tanto nos romances quanto nos contos. Sua prosa vai do elíptico, insinuado, onírico nas narrativas breves, a um caudal labiríntico nos romances, nos quais a trama que é conduzida mais pelos vôos da linguagem do que pelos  acontecimentos. Seus personagens são seres angustiados em uma busca indefinida por algo que não encontram. Uma busca que, paradoxalmente, almeja o metafísico enquanto mergulha profundamente no físico, nos sentidos, no sexo como um grito de desespero.

Em Acenos e Afagos esse emblemático personagem é um narrador sem nome de ascendência germânica, consumido pelo amor por um colega de infância, hoje engenheiro. Ao longo da narrativa, o protagonista é empurrado de aventura em aventura sem conseqüência plena do que o leva: vai parar em uma orgia  homossexual em um submarino alemão, depois refugia-se em uma fazendola no Interior, e daí por diante.

Em Noll, lembremos, a trama normalmente é um pretexto para uma investigação sensória. A extensão e a ênfase que Acenos e Afagos dedica ao sexo aparenta esse novo livro com o barroco A Fúria do Corpo – que está ganhando nova edição, com A Céu Aberto, O Cego e a Dançarina, Bandoleiros e Rastros do Verão. Mas o novo livro envenena a habitual atmosfera surreal de angústia e pesadelo dos livros de Noll com pitadas de nonsense.

— Percebi que essa voz teria humor quando eu mesmo me peguei, para minha surpresa, rindo com o que escrevia — conta o autor.

Postado por Carlos André Moreira

Estamos de parabéns

24 de junho de 2008 3

Quase que deixei passar em branco, mas vale a menção mesmo com alguns dias de atraso (jornalistas de redação, de modo geral, por se acostumarem a trabalhar também em feriados, acabam sendo as fontes menos confiáveis para datas justamente porque sua relação com o tempo passa a ser outra. Mas isso é uma outra história).

No último dia 20 de junho, nosso teimoso Mundo Livro completou dois anos em atividade vagamente ininterrupta (com algumas ausências mas nenhuma desistência, isso é importante). Agradecemos a todos os que pintaram por aqui ao longo desse tempo e compartilharam conosco opiniões, gostos, discordâncias, dicas e outras observações. Continuaremos, pessoas. Por mais alguns anos, se assim for possível.

Postado por Carlos André Moreira

Fragmentos de Passado

23 de junho de 2008 0

O título é King Kong e Cervejas, mas pode chamar de Coisas que Esquecemos Pelo Caminho. Não, nenhuma referência ao filme com Benicio Del Toro, que é Coisas que Perdemos Pelo Caminho. Até porque Fabricio Corsaletti não nos faz lembrar do que deixamos para trás. Isso é óbvio. Cada um dos capítulos do livro encerra, na verdade, situações que marcaram determinadas fases da vida do personagem – que, acredita-se, seja o próprio autor. São fragmentos de memória, e não há palavra melhor para descrevê-los.

Como qualquer pessoa que vez ou outra abre a gaveta do passado, e o que encontra são pedaços de momentos, mas pedaços vivos, cheios de sabores e cheiros. E Corsaletti coloca o leitor a vasculhar a própria enciclopédia de memórias, com textos rápidos e que se pretendem corridos. A intenção beira fazer com uma vida o que Joyce fez com um dia.

Mas não chegam a ser fotografias. São filmetes perfeitos para serem colocados no YouTube, por exemplo.

King Kong… coloca o personagem principal, capiau do interior paulista que foi morar na capital para estudar, contando sua história até aquele momento. Mas ao invés de utilizar uma narrativa linear, ele segue pelos rasgos de memórias que considera mais representativos. A infância no sítio dos avós, a adolescência metida em brigas, carnavais e promessas de sexo. E a melancolia inescapável de quem volta para a cidade natal e encontra exatamente tudo como está – senão pior.

Sem raiva, sem dor, nada disso. Um reencontro com um velho amigo, algumas cervejas com bilhar e pronto. Hora de voltar para a capital. O personagem não pertence mais àquele mundo, e a memória parece ter sido fragmentada propositalmente até para facilitar essa transição.

Claro que não tem final. Não um final de novela, nem um final engraçadinho típico desses novos escritores pops. O lance de Corsaletti é o excerto de vida que, embora seja a dele, serve para todo mundo. Ou ao menos para quem fez ou faz ou fará a mesma viagem. E é cru, é saudável, é tocante e vivo. Não há falsa erudição, aquela idiotice de “chegava em casa, abriga um iscótschi e ouvia Coltrane à meia-luz”, um intelectualismo bobo, boçal, ranheta.

O sujeito é um caipira, não almeja nada que não seja fazer brotar de si algum fiapo da esperança que não encontra nos amigos, nos pais, na família ou na cidade onde mora. E sua história conta exatamente isso. Nem mais, nem menos. “Não gostou, problema teu, pega tua vidinha de m*** e faz de conta que é diferente, por que eu só quero mostrar a real aqui“, sublima Corsaletti. E a realidade não é melhor nem pior. É só a realidade. Como cervejas geladas num puteiro vagabundo.

Postado por Gustavo Brigatti

A figura carismática do General Osório

23 de junho de 2008 1

Busto em homenagem ao general Osório na Praça da Alfândega, em Porto Alegre

Quem acompanhou no caderno Cultura de sábado deve ter visto a entrevista assinada por mim com o historiador paulista Francisco Doratioto, autor da recentemente lançada biografia do general gaúcho Manuel Luís Osório, parte da série Perfis Brasileiros da Companhia das Letras. Vai agora a íntegra do papo, feito por telefone com o historiador e professor universitário radicado em Brasília. Doratioto é também o autor de Maldita Guerra (2000), um dos grandes livros recentes sobre a Guerra do Paraguai.

Cultura – O senhor abre a biografia do General Osório contando que até a primeira metade do século 20 ele era tão ou mais popular entre os militares que o próprio Caxias, hoje patrono do Exército. Em que momento se deu essa substituição gradativa de um pelo outro como símbolo?
Francisco Doratioto –
Na verdade o General Osório depois da Guerra do Paraguai se torna um ídolo da população e dos militares. Não é nada construído, é decorrência da participação dele na guerra, e, depois, do fato de ele ser do Partido Liberal, no qual, após a década de 1870 se depositavam muitas esperanças de reforma do processo político brasileiro, ampliação da participação de eleitores, esse tipo de coisa. Mas, terminado o Império, a popularidade de Osório continua enorme, basta ver o número de ruas e praças batizadas com o nome dele. O Osório começa a ser substituído intencionalmente, com uma postura institucional do Exército, a partir de 1920. Porque, como eu escrevo no livro, temos nessa época o movimento do tenentismo, várias rebeliões, e o Exército precisa de uma figura forte, identificada com a ordem, com a centralização, com a hierarquia, e essa figura é o Caxias, que era do Partido Conservador, que lutou contra todos os levantes no período, que foi, enfim, o homem da ordem.

Cultura – Caxias tem uma trajetória pessoal oposta à de Osório. O primeiro vem de uma linhagem de aristocracia militar, o segundo é um homem pobre filho de um incorporado ao corpo de milícias . Isso também influi?
Doratioto –
Há um contraste entre os dois, mas os dois sem dúvida nenhuma foram os maiores comandantes militares do Brasil no século 19. Agora, por que em um determinado momento Osório é o mais popular e em outro momento é o Caxias? Tem aí uma dimensão política que decorre das circunstâncias da época. No século 19 há uma campanha em favor da descentralização, da abertura política, e Osório é do partido que se identifica com essa bandeira. E no início do século 20, posteriormente, no Estado Novo, Getúlio Vargas vai recuperar ou reconstruir mitos e heróis nacionais. A própria figura de Tiradentes é extremamente fortalecida nessa época. E aí vai entrar também a figura do Caxias, o centralizador. Quer dizer, nos momentos de fechamento político, como foram o Estado Novo o período pós-1964, a figura de Caxias vai ser fortalecida. Não que Caxias fosse ditador, Caxias se estabeleceu como político e como militar, se sobressaiu pelos dois. O que esses regimes fazem é tentar pegar uma dimensão de Caxias, a do militar centralizador, e ressaltarem isso. Mas Caxias era, por exemplo, também um legalista, sempre esteve subordinado à Constituição, coisa que Vargas ou os militares de 1964 não destacam.

Cultura – Mas além de ter um perfil associado a esse viés político mais liberal do que Caxias, Osório foi no seu tempo e na estrutura militar uma espécie de “comandante de massa” também, correto?
Doratioto –
Sem dúvida. Osório era um militar que conversava com os militares de igual para igual, no mesmo linguajar, por exemplo. Ele havia trabalhado com peões quando era jovem, havia aprendido a montar com os peões da estância do avô, enquanto que o Caxias não, era o homem formal, o homem que estudou, vindo de uma aristocracia militar. São duas personalidades absolutamente diferentes. Mas o interessante é que se deram muito bem durante quase 30 anos. Um e outro se complementaram inclusive em campos de batalha.

Cultura – O senhor busca algumas circunstâncias pessoais da formação de Osório mas também reitera em seu livro que ele tinha um inegável talento militar, o que também explica sua preeminência.
Doratioto –
O filósofo liberal espanhol Ortega e Gasset já dizia que o homem é ele mesmo e suas circunstâncias. Osório foi resultado de suas circunstâncias, mas tem suas características próprias. Foi um homem extremamente corajoso, coerente em suas posturas políticas, leal à constituição do Estado Imperial e esteve sempre pronto a participar de todos os combates, o que não é o caso de todos os oficiais do exército imperial do século 19. Por exemplo, na Guerra do Paraguai, uma parte da oficialidade não queria ir para a guerra a uma certa altura. E Osório foi, voltou, tornou a ir mesmo ferido. Claro, ele é fruto de suas circunstâncias. Ele vai ser um grande cavaleiro porque foi criado no campo gaúcho, por exemplo. Agora, entre ser um bom cavaleiro e ser um grande militar vai uma diferença grande. Ele vai ser um grande militar porque tinha habilidade para os temas militares, embora não gostasse desses temas. E era um homem de sorte. Ele esteve na frente de várias batalhas e foi ferido uma vez só. Há relatos nos quais as testemunhas ficam surpresas de que ele tenha saído vivo. Em Humaitá, por exemplo, se dizia entre a tropa que ele tinha o “corpo fechado” e que depois das batalhas, quando ele chacoalhava o poncho, caíam os projéteis no chão. Porque na batalha de Humaitá o poncho dele ficou furado e ele não. Ou seja, ele teve muita sorte. Houve várias ocasiões em que ele poderia ter morrido e não morreu.

Cultura – O senhor descreve um lance em uma das primeiras batalhas de Osório que parece cinematográfico. Perseguido por dois inimigos, a galope, ele se vira na sela, atira com a arma da época, sem a precisão dos revólveres de hoje, e derruba outro homem a galope.
Doratioto –
Sim, e na Guerra do Paraguai, durante a primeira retirada que ele precisa fazer ele se submete a uma cirurgia em campo aberto. Quer dizer, naquelas condições da época, mesmo em um hospital, sofrer uma cirurgia era algo muito arriscado, a possibilidade de você morrer de septicemia era muito grande, agora imagine em campo aberto. E com ele não aconteceu nada. Então, além de competente do ponto de vista militar, ele foi um homem de sorte. Eu, como historiador, não tenho o mínimo pudor de dizer que o Osório é uma figura sedutora para o historiador que o estuda. Ele é um personagem rico, e uma figura simpática. Tem personagens históricos com os quais você trabalha que são profundamente antipáticos, você trabalha por obrigação profissional mas não sente identificação nenhuma com a figura que está estudando. Vou dar um exemplo distante: um historiador britânico escreveu uma longa biografia do Franco, e ele admitia que odiava a figura com a qual estava trabalhando. Já o Osório é o contrário. Com ele a gente tem de tomar cuidado porque passados cem anos  de sua morte ele continua seduzindo com a sua atuação. Claro que ele teve lá suas falhas, temos de vê-lo com os valores da época, mas é um personagem sedutor mesmo hoje em 2008.

Cultura – Ou seja, também para o senhor foi necessário um cuidado para, devido a essa simpatia da figura, não ceder à tentação de relevar os pontos não tão nobres do personagem?
Doratioto –
Bom, o meu livro terminou simpático à figura do Osório, e não é que eu planejei que fosse assim. Não quis que fosse assim, mas a gente trabalha com a documentação de época, os testemunhos, e, é uma coisa surpreendente, não existem muitos depoimentos negativos sobre a figura do Osório. Mesmo os inimigos políticos o criticam por usar o prestígio militar dele no Rio Grande no final dos anos 1850, começo dos 1860, para eleger setores do Partido Liberal histórico, moderado, para deputados. Ou seja, a crítica é a uma prática política que era comum na época e posteriormente também. A não ser nesse caso político e no caso em que eu cito no livro, que ele teria perseguido um grupo de bandoleiros e invadido um acampamento no qual teriam morrido mulheres e crianças, houve poucos episódios desabonadores. Ele era criticado também por não usar o uniforme regulamentar, já que o poncho não fazia parte do uniforme. Outro historiador trabalhando sobre essa documentação tivesse uma interpretação diferente do personagem, é assim que funciona, a história é plural. Mas eu contei o que eu interpretei.

Cultura – Mas na sua atuação política Osório não reproduzia muitas vezes as práticas políticas de sua época, que eram um tanto de debate e um tanto de intimidação, se necessário de confronto? O senhor cita no livro um episódio no qual Osório invadiu um tribunal com um grupo de seguidores armados.
Doratioto –
Olha, confronto físico mesmo de Osório na vida civil se tem notícia só dessa tentativa de intimidação a um juiz, mas isso também era prática comum, a realidade no interior gaúcho na época. Mas confronto físico com inimigos políticos eu não me lembro de nenhum. Mas a luta política no Rio Grande do Sul na época era muito dura, e o Osório vai ser acusado duas vezes pelo Barão de Porto Alegre de traição, de procurar fazer o separatismo do Rio Grande e fundar uma república porque ele tinha nos anos 1850 e 1860 o apoio dos antigos farroupilhas. Mas foram acusações que nunca tiveram acolhida junto ao Imperador. Agora, Osório jogava o jogo e o jogo era esse. Uso de violência física contra adversários políticos não se tem registro a não ser nesse caso do julgamento. E a leitura que o Osório faz desse episódio é a seguinte: que ele e os seguidores dele estão sendo vítimas de uma perseguição também com aquele julgamento. O que movia a atuação dos chefes militares, mesmo durante a Guerra do Paraguai, era a motivação política, e isso vai explicar muitas coisas, inclusive a dificuldade, por exemplo, de estabelecer um plano de defesa do Sul porque os chefes militares não se entendiam, estavam mais interessados em política do que na defesa da província. Nesse momento, em 1865, entretanto, Osório já estava no Uruguai, ele não participa disso.

Cultura – Chama a atenção também que Osório, durante seu tempo de atuação política, via o Exército também como um elemento para manutenção da ordem interna quanto para atuação na defesa externa. É um entendimento diverso do que o que se tem hoje.
Doratioto –
É, existe uma polêmica hoje em dia, principalmente na questão do Rio de Janeiro, se o exército deve ou não ser usado na manutenção da ordem interna. Mas quando o Osório é Ministro da Guerra no gabinete do Visconde de Sinimbu, no final da década de 1870, o que se entende por “manutenção da ordem interna” é o combate às rebeliões e sublevações escravas, principalmente no interior de São Paulo, ele cita textualmente. Se estivéssemos buscando, por exemplo, aspectos menos meritórios na figura do Osório, um aspecto poderia ser esse. Mas aí também é a concepção do militar. Porque você tem várias manifestações do Osório contra a escravidão e a favor da liberdade dos escravos. Tudo indica que ele era pessoalmente contra a escravidão. Agora, ele tem escravos domésticos, isso nós também sabemos. Mas como Ministro da Guerra ele vai exercer seu papel institucional, que é a manutenção da ordem. E no exército na época havia uma dupla interpretação. A jovem oficialidade quer desligar o exército dessa função de manter a ordem escravocrata. Mas a antiga oficialidade, que inclui Caxias, Osório, um pessoal que se formou antes da Guerra do Paraguai e tinha uma relação de fidelidade pessoal com o Imperador e com o estado monárquico, esses achavam que o Exército devia ser usado para a manutenção da ordem interna, que era uma forma de sustentar o governo monárquico e escravista.

Cultura – Isso também é decorrência do temperamento militar, apegado à hierarquia, de Osório, um homem que via a carreira militar como uma sucessão de sacrifícios?
Doratioto –
Olha, Osório até não era dos mais rigorosos nessa coisa da hierarquia, o Caxias era muito mais. Agora, como Ministro da Guerra, ele segue a ordem institucional. A atuação dele como ministro é ela própria um sacrifício pessoal. Porque ele sabia da fragilidade da defesa Sul do Império, sabia que o Império estava mal armado. Mas quando ele assume o ministério, demanda-se que ele faça cortes no Exército, e ele reduz o efetivo em dois mil homens, de 15 mil para 13 mil. Ele é coerente na atuação dele. A convicção dele é que o Exército tem de ser mais forte, mas pede-se que ele reduza o efetivo para conter despesas e diminuir o déficit público enorme. E ele segue a hierarquia, a autoridade do Visconde de Sinimbu e as demandas do Estado Imperial.

Cultura – Outro ponto interessante da biografia de Osório é que ele se torna um personagem de preeminência e uma figura símbolo do Exército mas ele por muito tempo não pensa em seguir a carreira militar em definitivo.
Doratioto –
Osório não era tido como grande estratégico, o mestre estrategista é aquele que prevê grandes manobras, o desenrolar de um combate em escala ampla, e nós não sabemos se ele foi esse tipo de líder porque ele só comandou um exército uma vez, em 1865, quando formou um exército em marcha e conseguiu entrar no Paraguai, mas ele estava subordinado, ainda que com grande autonomia, ao comandante-em-chefe aliado, o presidente Mitre. O que ele demonstrou era que era um grande líder militar, um dos melhores generais de sua época. Ele não teve a academia militar, não estudo, não teve formação técnica, ele aprendeu fazendo guerra. E era muito crítico em relação a si mesmo nesse aspecto. Ele sempre valorizou muito a educação dos filhos, mas lamentava-se também do fato de ele próprio não ter podido estudar. Mesmo quando já era herói de guerra, Senador do Império, ministro, posto máximo na carreia militar, ele teria todos os motivos para ser uma pessoa extremamente orgulhosa de si própria. Vemos hoje pessoas com menos méritos do que esses fazendo isso no dia-a-dia do país. Ele chegou nesse ponto e lamentava não haver estudado, não ter curso superior. Ele era de uma grande humildade e valorizava muito a educação. Quando fui fazer a biografia eu conhecia bem a figura do Osório militar pelo Maldita Guerra, livro que escrevi sobre a Guerra do Paraguai. Mas o que me surpreendeu, além da figura política, maior do que eu esperava, foi essa dimensão pessoal, a relação pessoal da família e o valor que ele dava à educação. Eu não esperava isso de um chefe militar tão importante que tinha se feito sozinho saído do nada, de um lugar no interior gaúcho que não tinha escola quando ele era criança.

Cultura – E uma trajetória como a de Osório, que sai de um posto baixo numa milícia local e encerra a carreira no posto mais alto da oficialidade, seria possível hoje?
Doratioto –
Não, hoje não seria possível porque só pode chegar ao generalato quem cursa Academia Militar. Que eu saiba, quem não faz a Aman hoje só chega no máximo a Coronel, no chamado Quadro Suplementar, médicos, professores, sociólogos, economistas. Mas a Guerra mudou, também. Você não pode mais aprender, como Osório aprendeu, a lutar uma guerra num campo de batalha. As guerras hoje se tornaram mais tecnológicas. Quando Osório ingressa no exército, ainda jovem, basicamente se lutava com cavalos, ainda com lanças, porque as armas de fogo eram pouco confiáveis e não permitiam mira de longa distância. O uso de tecnologia moderna numa guerra em grau que comece a fazer frente à cavalaria vai se dar justamente, no nosso caso, na Guerra do Paraguai, que significa uma revolução tecnológica na arte de matar. O próprio Osório se começasse carreira na Guerra do Paraguai não teria chegado a general. E ouso dizer: ele não teria alcançado o posto se não houvesse a Revolução Farroupilha. Porque depois que a guerra divide o que existia de exércitos e tropas no Rio Grande, aqueles que ficaram no lado legalista fizeram carreira e ganharam conceito junto ao poder central. O Osório, na época coronel, vai conhecer o Caxias na Revolução Farroupilha. E o Caxias vai se tornar uma espécie de protetor do Osório no plano militar. E em troca o Osório vai apoiar politicamente os aliados de Caxias no Estado. Há um elo de amizade sincera entre ambos até o fim da Guerra do Paraguai, mas há também uma relação mútua na qual ambos saem ganhando.

Cultura – E por que ambos vão romper mais adiante essa amizade?
Doratioto –
Foram dois equívocos relacionados a interpretações diferentes em relação a um ataque em Humaitá em 1868. Durante uma batalha, o Osório entende uma ordem do Caxias de um jeito e o Caxias afirma que a ordem era outra. Tudo indica que foi um erro de transmissão do ajudante de ordens de Osório que entendeu errado no calor da batalha. E Osório ficou magoado com o episódio. Depois, na batalha de Itororó, vai acontecer a mesma coisa, houve uma ordem do dia dúbia por parte do Caxias, porque não era ele quem escrevia essas ordens, era um médico seu auxiliar, que muitas vezes exagerava no estilo. Quando você olha as Ordens do Dia da Guerra do Paraguai não são muito confiáveis para estabelecer como se deram as batalhas. E como o Osório era do Partido Liberal e Caxias do Conservador, assim que acaba a guerra a luta entre os dois partidos vai se acirrar muito, e os civis de um lado e de outro vão estimular as intrigas. Porque aos Liberais interessa comprometer a figura do Caxias, e eles passam a apontar todas as falhas que ele teve na Guerra do Paraguai, e as teve. E quanto a Osório, não se tinha o que apontar muito, mas os conservadores o apontam como um sujeito orgulhoso. E o fato é que o Caxias fica magoado com o Osório, porque ele, ao chegar no Rio, quase se deixa contaminar por aquele clima criado em torno dele, ele havia virado um herói nacional. E o Caxias, que também foi importante para as vitórias aliadas na Guerra, se sente injustiçado. E ambos a partir daí rompem e param de se falar. E o interessante é que a historiografia oficial escrita a partir do século 20 procuraram minimizar esse desentendimento ou mesmo ignorá-lo, já que são os dois maiores heróis do panteão do exército brasileiro e não interessava mostrar essa divergência. Embora o fato de eles haverem se desentendido não altera em nada a imagem histórica e os feitos de ambos. Só mostra que eles foram o que foram, seres humanos.

Cultura – E qual sua avaliação da onda revisionista que, à partir dos anos 1970, estabeleceu uma postura crítica à participação brasileira na Guerra do Paraguai e aos personagens que estiveram nela, como Osório?
Doratioto –
Creio que até a década de 1960, a historiografia conservadora, oficialista, e os próprios intelectuais ligados ao poder exageraram na idealização dos personagens do passado. Então eles construíram heróis, Caxias, Osório, o próprio Tiradentes, e era evidente que havia um exagero, um artificialismo em caracterizar esse homens de forma unidimensional. Como se eles não tivessem nenhuma falha, nenhum erro na sua vida. A população, um estudante, um civil, dificilmente iria se identificar com um personagem como esse porque pessoas assim não existem. Agora, em relação a essa historiografia tradicional, que exagerou esses aspectos, vai surgir o revisionismo, que vai desconstruir esses personagens. Mas aí vamos cair no outro extremo. De repente parece que esses personagens nunca tiveram uma característica positiva, que foram instrumentos de escravidão, de destruição, e o caso da Guerra do Paraguai é o maior exemplo. Toda aquela visão de que a guerra foi causada pela Inglaterra, que o Império do Brasil foi um instrumento de dominação sobre um suposto modelo de desenvolvimento democrático paraguaio _ modelo que nunca existiu, está comprovado historicamente, era uma ditadura atrasada em um país miserável, era quase surrealista. Solano Lopez daria um belo livro de García-Márquez. Quando você vai estudar o cotidiano da vida do Paraguai sob Solano Lopez ou mesmo sob ditadores anteriores, você vê coisas que impressionam até o historiador profissional. Então voltando, toda essa década de 1960 viu uma leitura crítica, que é necessária, ciência e história só avançam com pensamento crítico, mas uma coisa é você criticar, agora desconstruir com objetivos terceiros e exagerar nessa desconstrução, torná-lo absolutamente mal também é um exagero. Então depois do fim da década de 1980, quando houve a redemocratização do Brasil e acabou a Guerra Fria, foi afastado um monte de lixo ideológico por uma nova geração de historiadores que tenta ir aos documentos com um olhar novo. Claro que toda interpretação é passível de questionamento, mesmo com os documentos, mas é consenso que tem de haver o documento, haver uma base.

Postado por Carlos André Moreira

Direto do Túnel do Tempo

16 de junho de 2008 2

2.
- É o Bejair para você.
Tento ignorar a ironia sutil na voz da minha mãe. Ensaio rapidamente como vou atender.
- Oi, Beja, tudo legal?
- Daí, Bejair, que que manda?
- Fala, Bebê!
Finalmente me decido pelo clássico.
- Alô, Bejair, que surpresa!
Ele me convida para ir ao cinema. Se eu aceitar, será a primeira vez que faço isso com alguém do outro sexo. Dizer com um homem seria um pouco precipitado da minha parte.
Aceito. Minha mãe deixa. Às quatro da tarde do outro dia, encontro Bejair na frente do cinema. Ele escolhe o filme, uma versão da Branca de Neve com a mulata Adele Fátima, o tchan que deu origem à série.
O filme é um pornô familiar com sete anões tarados e a mulata de neve querendo dar para eles o tempo inteiro. Emocionado com o roteiro, Bejair pega a minha mão. Eu deixo. Bejair beija a minha mão. Eu deixo. Bejair quebra o meu pescoço, vira a minha cabeça na direção dele, enfia a língua pela minha boca e me dá o que, alguns homens mais tarde, eu descobriria ser um beijo.
Não sei como o filme terminou. Bejair e eu pegamos o ônibus para voltar, um sem coragem de olhar para o outro. No portão, Bejair pergunta se pode repetir a experiência. Realmente, aquilo parecia mais uma experiência que um beijo. Eu deixo.
Entro em casa e olho tudo diferente. Minhas irmãs me parecem infantis demais, agora que eu já sei beijar. Não tenho fome, mas de qualquer jeito a louça do jantar é minha. Acabo comendo uma montanha de pão e antes de dormir ainda penso que não passei o creme Nívea e posso precisar da minha pele macia amanhã.

3
Bejair não liga.

4.
Bejair não manda um telegrama.

5.
Colo cartazes com a foto do Bejair pela cidade.

O livro Dez (Quase) Amores, do qual foi retirado esse trecho acima, foi a estréia literária da escritora gaúcha Cláudia Tajes, autora de A Vida Sexual da Mulher Feia, e está sendo relançado agora pela L&PM em formato bolso. Publicado em 2000, talvez sua volta a público neste exato momento acabe por ser injusta para com a autora, dado que ele reaparece numa época em que agruras sentimentais femininas contadas com um tanto de humor e ironia estão associadas à onipresença de Sex & the City, o filme, na mídia, e o livro é bem anterior à essa mania desenfreada e algo infame pelo seriado em terras nacionais (não, não vou comentar o filme ou livros da autora Candace Bushnell. O que eu tinha para dizer sobre isso já foi dito de forma muito melhor pelo Marcelo Perrone no Primeira Fila).

Sempre gosto, quando é possível, de conferir a recepção que um determinado livro que volta em edição nova teve quando de seu lançamento. E vou partilhar essa mania com vocês publicando aqui, além do trecho do livro, uma parte da matéria assinada pela nossa então colega de redação Cris Gutkoski, em novembro de 2000, quando do lançamento de Dez (Quase) Amores – na época no formato tradicional – durante a Feira do Livro daquele ano. Divirtam-se.

Mulher solteira procura rir
 CRIS GUTKOSKI

Com a proximidade da Feira do Livro da Capital, editoras gaúchas ressurgem no mapa apostando na ficção local.
Uma estréia que merece atenção é a de Cláudia Tajes, que lança hoje Dez (Quase) Amores, dez crônicas para quase rolar de rir das conquistas femininas.
 
Impressiona neste primeiro livro da autora a mão firme para criar cenas domésticas aparentemente banais que, graças ao recurso literário da auto-ironia, revelam-se portadoras de uma graça comovente. Cláudia Tajes é hábil nos acidentes e reviravoltas dos sentimentos, como mostram Quase Amor 2 e Quase Amor 5. Na primeira, a moça destrói e refaz todas as suas más impressões acerca de um hippie universitário a partir da manjada senha: “Você é bem bonita”. No segunda, quem inverte as expectativas é a estirpe nobre de Bernardo Antônio, um carioca negro que ela encontrou de sunga amarela e que jurava ser filho de pagodeiros.
Há com certeza dor nestes amores fracassados, nesta solidão que felizmente não se leva a sério, mas a autora sempre enxerta humor em doses maiores, em tiradas como “só falta ser um maníaco, mas, atualmente, até os maníacos estão escassos” ou “sou um ser primitivo demais para achar que tanta mão em cima de mim tem a ver com o lado espiritual”. Em seus momentos mais hilários e cruéis, estas crônicas lembram as referências sarcásticas a amantes que a norte-americana Sylvia Plath fez no romance A Redoma de Vidro, que escreveu com 20 e poucos anos.
Em Dez (Quase) Amores, a narradora é uma só, experimentando várias idades, cenários e homens: Bejair, Reginaldo, Henrique, Augusto, Euclides, Roger (o vizinho casado), Mauro, Bernardo Antônio, Nelson, Luiz, André Araújo… A autora se inspirou em romances seus e das amigas.
- Cada vez mais tem mulheres escrevendo sobre suas experiências, mas quase sempre de uma forma meio densa, séria. Dá para fazer isso com mais humor – ela afirma. – E eu sempre tive muita facilidade para falar bobagem.

Postado por Carlos André Moreira

Com algum atraso...

16 de junho de 2008 1

Se alguém leu a edição de sábado do jornal Zero Hora em papel e veio aqui procurando a íntegra da entrevista que publicamos com o roteirista inglês Tom Stoppard (foto de autoria de B.E. Kondrashkin, da agência russa KDeltaE), de autoria de Ubiratan Brasil, da Agência Estado (o Bira, sujeito tranqüilo e boa-praça com quem vivo encontrando nas coberturas de eventos literários por aí afora), culpe o editor deste blog, eu mesmo. O Gabriel Brust editou a página, me passou o texto da íntegra e o idiota aqui estava de folga no fim de semana e foi pra casa deixando o texto salvo apenas no computador do trabalho. Vai agora. Stoppard é uma das principais estrelas da Festa Literária Internacional de Paraty 2008.

Quando foi convidado para participar da próxima edição da Festa Literária Internacional de  Paraty, o dramaturgo e roteirista checo naturalizado inglês Tom Stoppard ameaçou agradecer e dizer não – o desprazer de estar longe de seus livros o faz recusar convites de lugares distantes. 
– Mas, cinco minutos depois, pensei: “Não posso morrer sem nunca ter visitado a América do Sul”.” Foi o suficiente para reconsiderar e confirmar presença, tornando-se o mais ilustre convidado da festa que acontece em julho. Aos 70 anos, Stoppard tornou-se famoso pelas histórias inteligentes e engenhosas que criou para o cinema, TV, rádio e, principalmente, teatro. Shakespeare Apaixonado, por exemplo, garantiu o Oscar de melhor roteiro que Stoppard dividiu com Marc Norman. Confira a entrevista:

Pergunta – Um roteirista brasileiro, que também é escritor, Marçal Aquino, disse em uma feira literária (Festival da Mantiqueira) que não considera roteiro de cinema uma peça literária. O que você pensa disso?
Tom Stoppard 
– Creio que pode ser considerado literatura, embora eu nunca tenha escrito roteiros originais – sempre fiz adaptações de obras ou participei do trabalho de outros. Mas acredito que os bons roteiros podem ser admirados como peça literária. Gosto de cinema, embora existem poucos filmes que eu respeite e adoro. Mas são esses que eu respeito principalmente como escritor.

Pergunta – E quais seriam esses filmes?
Stoppard
 – Alguns são pequenas jóias e assim não seriam se não partissem de um roteiro admirável: Chinatown, Quanto mais Quente Melhor, Os Suspeitos, Los Angeles: Cidade Proibida, A Vida dos Outros são alguns exemplos. Escrever roteiro para cinema, na verdade, exige uma habilidade natural e específica, diferente de quem escreve para teatro. No meu caso, acredito ter mais facilidade para a dramaturgia.

Pergunta – Em uma entrevista, você disse não enfrentar problemas para escrever diálogos. O que considera, então, difícil ao escrever?
Stoppard – Considero a estrutura muito difícil de criar. Diálogo, por alguma razão que não entendo, me vem naturalmente. ê interessante: a estrutura é algo que você pode estudar a forma, diferente do diálogo, pois é algo instintivo. E escrever o que uma pessoa diz para a outra é a parte do trabalho que mais me agrada. Sei que é um clichê, mas posso garantir que é verdadeiro dizer que, em alguns momentos, o diálogo surge naturalmente na minha escrita.

Pergunta – E, quando você escreve, as imagens da peça surgem na sua mente, assim como as falas dos personagens?
Stoppard –
Sim. As imagens sempre surgem na minha cabeça, mas cuido de não me influenciar demais por elas. Quando era mais jovem, eu me preocupava em detalhar como deveria ser o cenário, a sonoplastia, o trabalho artístico, enfim. Com o tempo, descobri que existem profissionais mais capazes para realizar esse trabalho. Hoje, em minhas peças, coloco apenas algumas pistas para inspirar os artistas.

Pergunta – O processo criativo é dolorido?
Stoppard –
Não, eu não diria isso. O que me incomoda é não encontrar um assunto para minhas peças. Nesse momento, comecei a escrever uma, mas a anterior foi finalizada dois anos atrás. É deprimente o período entre uma e outra. Afeta meu humor. Mas, no instante em que retomo a rotina, nada mais interessa que a nova peça. E o que sinto não é sofrimento, mas estar sob uma tensão, de evitar perder aquele momento criativo.

Pergunta – Por falar nisso, você escreveu trabalhos para cinema, televisão, rádio, mas sempre voltou para o teatro. Por quê?
Stoppard –
É uma questão interessante. Quando eu era mais jovem, o teatro inglês tornou-se o foco de muita atenção e isso incentivou muitas carreiras. Eu trabalhava  como jornalista e escrevia sobre teatro – não fazia críticas, mas reportagens. Conhecia atores, diretores, era algo muito excitante e ainda continua sendo. Decidi me aventurar por essa carreira pelo prazer da aventura e pelo desafio de criar uma história com capacidade de ser encenada. E hoje minha preferência pelo teatro se justifica pelo motivo de que o dramaturgo tem mais controle sobre sua peça que um roteirista sobre seu roteiro. Com raras exceções, não é novidade que astros de cinema gostem de mudar suas falas durante a filmagem. Escutei no rádio a entrevista de um roteirista que dizia exatamente isso. Apesar de se preocupar com cada vírgula de seu texto, ele percebia que, tão logo a cena era filmada, os atores mudavam quase tudo. Isso é difícil acontecer no teatro. Pode parecer vaidade, mas os dramaturgos são respeitados e percebidos como parte importante do processo.

Pergunta – Em um trabalho recente, a trilogia The Coast of Utopia, você fez muita pesquisa histórica. É prazeroso esse tipo de trabalho?
Stoppard –
Sim, muito. Para ser sincero, especificamente nessa trilogia, eu me obriguei a parar de ler para então começar a escrever, pois o tempo empregado em pesquisa já era grande. Atualmente, busco me ocupar com peças que não exigem investigação pois estou com uma idade em que não tenho tempo a perder. E uma peça de teatro normalmente não demanda tanto esforço como um romance – se você escrever uma página por dia, terá uma peça finalizada em três meses. Mas eu não tenho uma produção tão constante. Quando disse antes que a estrutura da peça é meu maior desafio, o mais dificultoso, na verdade, é encontrar o tema que desperte minha curiosidade.

Pergunta – E onde você busca esses fatos?
Stoppard –
Minha ilusão é encontrá-los em jornais e revistas – sou viciado em imprensa escrita, leio diariamente diversas publicações as quais vasculho em busca de idéias. Mas, ao final, nem sempre ali é uma boa fonte. Tenho mais sorte em conversas triviais com amigos, pois sempre fui atraído por assuntos abstratos. Gosto de idéias vindas de narrativas. Minha dificuldade é inventar histórias e personagens cujas características se encaixem nas idéias que realmente acredito serem interessantes.

Pergunta – Você colaborou no roteiro do filme Brazil, dirigido por Terry Gilliam. Qual foi sua participação na história?
Stoppard _
Criei a maioria dos diálogos. Gilliam escreveu o roteiro e havia maravilhosas  passagens descrevendo alguns sonhos que necessitavam de uma situação básica. Então, ele me convidou para criar uma estrutura e também acrescentar um pouco de graça. Assim, reinventei a trama, escrevi os diálogos com mais humor e devolvi para ele. Gilliam criou aquele mundo chamado Brazil e não eu. Lembro-me que o avisava sempre de que George Orwell tinha feito algo parecido antes e ele respondia: “tudo bem, tudo bem”. Foi só depois de terminada a filmagem que Gilliam admitiu nunca ter lido 1984 e de ter se surpreendido com a semelhança com Brazil.

Pergunta – Em seu livro On Directing Film, o dramaturgo, roteirista e cineasta americano David Mamet afirma que ninguém, em um estúdio de filmagem, sabe ler um roteiro. O que pensa disso?
Stoppard –
Entendo o que ele quer dizer. A leitura de um roteiro exige uma mente criativa, pois muitos desses trabalhos são difíceis de ler. Assim, espera-se uma pessoa com sensibilidade suficiente para entender as intenções. A experiência que conquistei no teatro me ensinou a ser o mais claro possível no texto, pois o pior acontece quando elenco e diretor não entendem suas pretensões. Creio que Mamet faz, ao dizer isso, uma distinção entre um ponto de vista subjetivo e outro objetivo. Nem sempre é fácil traduzir no papel o que se passa na sua imaginação. Daí a necessidade de se encontrar um meio termo que não prejudique a intenção original.

Postado por Carlos André Moreira

Em tempo de CPIs, escândalos e eleições à vista...

10 de junho de 2008 0

Capa de Diário de um Ano Ruim

Assim como durante a época dos reis teria sido ingênuo pensar que o filho primogênito do rei seria o mais preparado para governar, também em nossa época é ingênuo pensar que o governante eleito democraticamente será o mais preparado. A regra de sucessão não é uma fórmula para identificar o melhor governante; é uma fórmula para atribuir legitimidade a um ou outro e assim evitar o conflito civil. O eleitorado – o demos – acredita que sua tarefa é escolher o melhor, mas na verdade sua tarefa é muito mais simples: ungir um homem (vox populi vox dei), não importa qual. Contar votos pode parecer um meio de descobrir qual é a verdadeira (isto é, a mais alta) vox populi; mas o poder da fórmula de contagem de votos, assim como o poder da fórmula do primogênito homem, está no fato de que é uma fórmula objetiva, não ambígua, fora do campo da contestação política. Jogar uma moeda seria igualmente objetivo, igualmente não ambíguo, igualmente incontestável e igualmente se poderia afirmar (como já se afirmou) que representa a vox dei. Não escolhemos nossos governantes jogando uma moeda – jogar moedas está associado ao baixo nível da atividade do jogo – mas quem ousaria afirmar que o mundo estaria em pior estado se seus governantes tivessem, desde o começo dos tempos, sido escolhidos pelo método da moeda.

O trecho acima é uma palhinha antecipada de Diário de um Ano Ruim (Companhia das Letras, 250 páginas), mais recente romance do sul-africano J.M. Coetzee, que terá edição brasileira nas bancas a partir da semana que vem. Coetzee, escritor conhecido pela secura intelectual com que disseca suas criaturas e pelas desoncertantes experiências formais prossegue na trajetória de inovação que lhe rendeu o Nobel de literatura em 2003 neste romance que, assim como o autor já havia feito com Elizabeth Costello, borra as noções entre ensaio e ficção, ou antes, usa o ensaio como um elemento ficcional. Se em Elizabeth Costello a narrativa era conduzida por conferências que a protagonista, uma intelectual e escritora ativista da luta a favor dos animais, proferia numa universidade, neste Diário de Ano Ruim um dos elementos centrais da construção do romance é uma série de 31 ensaios e 24 anotações de diário de extensões variadas. 

Agrupados sob títulos simples que já servem também como antecipação de seus temas (Do Terrorismo, Da Origem do EstadoDa Matança de Animais, Da Anarquia e assim por diante), os textos são parte de um livro encomendado pela sua editora alemã ao protagonista. O personagem principal é, como Coetzee, um romancista e intelectual sul-africano residente na Austrália, e atende pelo nome de Sr. C. ou Señor C., apelidos apostos pelos vizinhos do luxuoso condomínio em que reside. Enquanto redige os ensaios, o narrador/escritor cruza com uma vizinha na lavanderia, uma linda jovem filipina chamada Anya, de sensualidade exuberante, a quem contrata para datilografar seus manuscritos. A intenção do Sr. C. é claramente seduzir a garota por meio da aproximação natural que esse trabalho proprocionaria, mas o fato é que os escritos do autor, eruditos ensaios permeados de questões políticas, são de um tédio mortal para a jovem – que mora no mesmo edifício 25 andares acima, em um apartamento que divide com um amante irlandês. O “señor C.” da história, contudo, não tem apenas pontos de coincidência biográfica com seu autor, mas é mais velho e tem posições intelectuais mais erráticas, algumas contrárias a coisas que o próprio Coetzee já comentou em suas raras entrevistas, o que acena para o leitor com a indubitável circunstância de que os ensaios do livro, embora consistentes, provocativos, alguns deles brilhantes e outros mais perto do lugar-comum da contestação intelectual, são tão ficcionais quanto os elementos narrativos propriamente ditos, e não expressão do pensamento de seu autor.

O que torna a leitura de Diário de um Ano Ruim uma experiência algo desconcertante é o fato de que cada página se divide em três partes que podem ser lidas de maneira independente. No alto, em corpo maior, os ensaios propriamente ditos. Abaixo, quase como notas de rodapé, estão dispostos os textos que apresentam o ponto de vista dele e dela para o desenvolvimento dessa tumultuada aproximação. Deixando ao leitor a possibilidade de ler cada fragmento alternadamente, ler primeiro o ensaio e mais tarde os fragmentos de história dele e dela ou mesmo fazer um pouco de cada coisa.

Coetzee em foto de data indefinida

Postado por Carlos André Moreira

A saga do Clone - 2

04 de junho de 2008 1

Lembram quando há pouco tempo escrevi aqui mesmo neste blog sobre dois livros que coincidentemente traziam estampados na capa um detalhe muito parecido da mesma imagem, uma pintura de Edward Hopper? Pois o autor brasileiro de um deles, Sergio Keuchgerian (tomara que estejam todas as letras no lugar), nos escreve para contar a história da capa de seu livro.

Segue a mensagem dele abaixo.

Oi Carlos,
Sou o Sergio Keuchgerian, autor do livro
Contos Indiscretos. Li o teu post a respeito da coincidência das capas com um outro livro que saiu em 99 pela Companhia das Letras. Para mim também foi uma surpresa, não sabia da existência do outro livro. Quando conversei com o editor sobre como seria a capa, cogitamos sobre a possibilidade de fazer uma fotografia. A idéia que eu havia dado era que a foto fosse feita com uma única pessoa seminua num quarto, sendo que ela seria fotografada do lado de fora desse quarto, com a porta semi-aberta dando a impressão para quem a visse, de que estava cometendo uma indiscrição ao observá-la. Foi então que o José Costa um dos que fizeram o projeto gráfico me chamou a atenção, dizendo que eu estava descrevendo uma das obras do Hopper. Fui procurar na internet e achei a Night Windows
, então, maravilhado com a beleza da obra, concordei em usá-la como capa. Enfim, coincidência, mas eu acho feliz, porque gostei muito do produto final, e os créditos estão na última página.
Acredito que é muito difícil para um capista saber “de cabeça” sobre outras capas já feitas por outras editoras, mesmo porque não há um banco de dados específico para isso, e o livro da Companhia das Letras (entrei no site deles para ver de quando era o livro) é de 99, quase dez anos.

Bem, é isso. Por outro lado, gostei do que voce escreveu sobre o meu livro, e aproveito a oportunidade para te agradecer. Talvez, ainda não está certo, eu farei um lançamento aí em Porto Alegre, cidade que gosto tanto e onde tenho bons e fiéis amigos, aí, quem sabe possamos nos conhecer pessoalmente e conversar mais a respeito.
Forte abraço,
Sergio K.

Abraço também. Sergio. Quando fores lançar teu livro por aqui, mantenha-nos informado.

Postado por Carlos André Moreira