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Mestres fora dos moldes

02 de julho de 2008 3

Quem leu a central do Segundo Caderno de hoje deve ter acompanhado a entrevista feita pelo nosso colega Rodrigo Breunig com o professor, crítico e escritor Luís Augusto Fischer. Fischer lança hoje às 19h na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country sua coletânea Machado e Borges: e outros ensaios sobre Machado de Assis, uma série de estudos nas quais Fischer aprofunda, com rigor acadêmico, sua obsessão de leitor com o gênio de Machado. Como espaço de jornal é um saco e a gente está sempre cortando material, vai abaixo a íntegra da entrevista, muito boa, diga-se de passagem. Divirtam-se

Zero Hora – Como surgiu sua vontade de investir mais na aproximação entre Machado e Borges?
Luís Augusto Fischer –
Talvez tenha sido numa das leituras que fiz do Literatura e subdesenvolvimento, artigo do Antonio Candido de grande inspiração, em que ele menciona que Machado não conseguiu ser lido fora do país em sua época, mas Borges sim. Ele não estende o comentário, mas aí deve ter entrado em ação a minha relativa intimidade com a obra dos dois, que eu leio regularmente há muitos anos, mais de 20, quase 30. Além disso, eu já ministrei cursos aproximando os dois, sempre a partir da idéia de formação de uma literatura tal como Candido define; com essa perspectiva armada, fica relativamente fácil ver que Machado é para o Brasil o que Borges é para a Argentina: são dois autores que lêem a tradição nacional respectiva e, apreciando criticamente o que já foi feito, rejeitam as restrições nacionalistas, sem nunca perderem de vista a matéria local com que trabalham. Fácil de dizer, assim de longe, mas difícil de executar artisticamente; e foi o que eles fizeram.

ZH – Um seus dos pontos de comparação dos dois é a “desconfiança no realismo”.
Fischer
– O caso é, como eu tento explicar com certo detalhe, que os dois poderiam ter enveredado por um caminho realista mais óbvio, acompanhando cada um a sua geração (Machado com os naturalistas do final do século 19, Borges com os neo-realistas dos anos 1930); mas nenhum deles enveredou por esse trilho, ao mesmo tempo mais fácil e mais perecível. Por quê? Mistérios da criação, em parte, mas em outra parte opção consciente, em consonância notável com o melhor do pensamento crítico de cada época. Machado por assim dizer parece que leu Freud (não leu, ao que tudo indica), no sentido de ter percebido esse novo abismo entre o autor e os personagens, abismo que não se restringe à figura do narrador tradicional, aquela voz que conta a história sem aparecer. Borges também não deve ter lido, pelo que consigo saber dele, mas igualmente faz sua literatura freqüentar esses novos desvãos, que têm tudo a ver com a (simplifiquemos) crise do sujeito burguês. É por aí a conversa.

ZH – O senhor lança a reflexão de que se Machado tivesse sido só contista “talvez sua sorte fosse outra” fora do Brasil. Essa sorte pode estar mudando, não?
Fischer
– Sim, já está mudando, porque agora o Machado contista parece estar ficando mais legível fora daqui, dada a evidência de traduções novas que começam a aparecer nos países centrais do Ocidente. E o caso é que também o romancista parece estar ficando mais compreensível, agora, talvez porque a mistura de ideário burguês iluminista com sociedade despreocupadamente desigual esteja ficando mais generalizada: no século 19, talvez só o Brasil praticasse essa patifaria de ter uma constituição liberal e ao mesmo tempo manter vivo o escravismo, mas hoje, em certa medida, até mesmo os antigos paladinos do liberalismo, como a Inglaterra, mantêm práticas sociais que excluem explicitamente certos grupos sociais, como é o caso dos imigrantes indesejados. Quer dizer: ok, Machado cresce por sua qualidade de texto, de invenção estilística, cada vez mais visíveis _ e nunca esqueçamos que ele escreveu num dialeto inculto do Ocidente, o português _, mas sobretudo porque ele terá sido o primeiro a flagrar criticamente o que era a realidade da vida burguesa na periferia do Ocidente, onde o couro comia literalmente a fantasia de igualdade proclamada pela ideologia burguesa.

ZH _ Em entrevista recente à Folha de S. Paulo, Roberto Schwarz disse que querer saber se Capitu traiu ou não o marido em Dom Casmurro, querer saber “se fulana foi ou não foi com beltrano”, é “uma curiosidade um pouco boba e malsã”. Essa curiosidade pode mesmo obstruir uma leitura mais funda da obra?
Fischer
_ Para o leitor mais superficial, esse pequeno mistério da Capitu vale ouro, ainda hoje, e contra isso não há o que fazer, e em certo sentido é até desejável que permaneça, porque assim mesmo é que se criam leitores, lato sensu, dentre os quais pode brotar o leitor de qualidade. A vantagem é que Machado tem substância para muito mais, e o leitor exigente ultrapassa essa pinimba da traição e vai encontrar uma larga e profunda interpretação do Brasil e do mundo daquela época ali, nas mesmíssimas páginas.

ZH _ Por mais que se lamente e que os anos passem, não temos edições confiáveis da obra de Machado de Assis. O que temos, como o senhor diz, são algumas edições com mais escândalos e algumas com menos. Neste ano do centenário de morte de Machado tem aparecido muita coisa. Que tal até aqui?
Fischer
_ Não li tudo, nem todas as edições, o que restringe o alcance do comentário. Começo pelo negativo: não é boa a edição das poesias completas pelo Cláudio Leal (editora Record), porque não fez mais que juntar o que se conhecia, sem peneirar vários equívocos que o tempo foi acumulando e sem explicar nada do que precisa. Na parte crítica, do que foi lançado recentemente, tem um livro muito interessante de Gabriela Kvacek Betella, que estou lendo ainda, Narradores de Machado de Assis (Nankin/Edusp), um trabalho de linha schwarziana sobre os dois últimos romances machadianos. Tem o livro do sempre interessante John Gledson, Por um novo Machado de Assis (Cia. das Letras); e tem a bela antologia de crônicas A Economia em Machado de Assis: O Olhar Oblíquo do Acionista (Jorge Zahar), organizada pelo, quem diria, Gustavo Franco, aquele mesmo. Um pouco antes saíram dois livros imperdíveis: um do Hélio de Seixas Guimarães, Os Leitores de Machado de Assis: o Romance Machadiano e o Público de Literatura no Século 19, cujo subtítulo diz tudo, e A Formação do Nome: Duas Interrogações sobre Machado de Assis, de Abel Barros Baptista, este um estudo desconstrucionista com que não concordo mas que é muito inteligente. Perdoada a imodéstia, posso dizer ainda que todos os romances do Machado receberão edição bem sólida pela L&PM, com notas e textos de apoio sobre o autor e a época, num trabalho que conta com dez competentes estudiosos do autor, que eu estou coordenando.

ZH _ Como o senhor escreve, Machado “matou a charada de sua época”. Quem vai matar a charada de nossa época?
Fischer _
Em romance, no que alcanço ver, Paul Auster, mais que outros. No Brasil, quem mais me entusiasma como reflexão estética sobre nosso tempo é o Chico Buarque. Mas isso é opinião de contemporâneo, quer dizer, muito limitada.

Comentários (3)

  • O tamanho de Borges | Mundo Livro diz: 14 de junho de 2011

    [...] e Sobre a Filosofia e Outros Diálogos); foi objeto de um ensaio de Luís Augusto Fischer em Machado e Borges (Arquipélago Editorial), um de Ana Cecília Olmos (Por que ler Borges, Editora Globo) e de outro [...]

  • Cesar diz: 21 de novembro de 2011

    Chico Buarque? Coloca opinião limitada nisso.

  • Cesar diz: 21 de novembro de 2011

    Perdão, não completei a primeira mensagem. Afora o fato de Machado ser meu autor brasileiro preferido, vejo que sua obra mais densa é uma das menos consideradas, “O Alienista”. Sobre captar o zeitgeist, contemporâneo de Machado temos um autor ainda mais profundo, que é o português Eça de Queirós. “A Cidade e as Serras” é o magnum opus do século XIX, embora outras obras do autor sejam muito mais famosas.

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