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Em tempos de Batman...

23 de julho de 2008 6

Me lembrei de falar de um livro que não chega a ser novo, foi lançado há três anos, e constitui uma leitura bem interessante para conciliar entretenimento e divulgação científica. Aproveito o gancho do Batman porque filmes de super heróis sempre me fazem lembrar dos dias de infãncia, nos quais, como um bom nerd, passava meus dias mais preocupado com o que iria acontecer no próximo número de Superaventuras Marvel do que quando seria a próxima festa (na minha cidade e naqueles tempos idos, a gente chamava de boate).

E um dos cacoetes mais clássicos que definem o que é ser um nerd leitor de quadrinhos é justamente ficar gastando tempo discutindo assuntos de vital importância para a humanidade como o quão verossímil ou fisicamente viável seriam os poderes de um super herói no mundo real — e isso que naquela época os gibis de herói ainda não tinham descoberto o marketing de se vender como ficção científica, uma jogada que veio com os filmes, e da qual os cientistas discordam veementemente. Como já comentamos no post sobre a morte de Arthur C. Clarke, há um tempo, uma ficção científica em que a “ciência” que embasa a aventura a não passa de chute só pode almejar a ser um outro ramo da literatura de fantasia

Mas como eu dizia, na minha época de guri (imagino que na de hoje também) era um assunto de suma importância discutir se o Flash realmente poderia vibrar suas moléculas para atravessar objetos sólidos, ou como o Super Homem cortava o cabelo se era invulnerável, ou como as ferramentas cabiam no modelo antigo do cinto de utilidades do Batman?

Pois dois autores, a escritora Lois Gresh e o jornalista e escritor de quadrinhos Robert Weinberg, levaram essa discussão a sério e publicaram A Ciência dos Super-Heróis (Ediouro, 2005, 232 páginas, R$ 39,90). É um daqueles livros que à primeira vista parece nerd demais para ser levado a sério, mas a leitura revela uma obra fantástica que usa os quadrinhos de super-heróis como pontos de partida para interessantes (agora sem ironia) reflexões sobre física, química, astronomia, biologia e outros ramos da ciência, de forma simples, abrangente e muito esclarecedora.

Seria provavelmente muito decepcionante se o livro ficasse apenas apontando coisas como: a história do super homem ser energizado pelo sol amarelo da Terra é bobagem, ele ser um alienígena chegado do espaço é pouco provável ou coisas assim. O livro faz tudo isso, claro, mas usa cada caso como um pretexto, e se detém na razão científica de por que isso é possível ou impossível: O Super Homem é usado como exemplo para uma informativa visão das teorias sobre vida extraterrestre (uma delas uma equação matemática proposta por um cientista para calcular o número provável de planetas habitados na nossa galáxia, outra delas uma teoria recente que rebate essa equação e defende que as circunstâncias que propiciaram a vida na Terra são tão raras que não espantaria se esse fosse um fenômeno único em todo o universo). Ah, sim, e luz é sempre luz, a impressão de “cor” de uma determinada estrela se dá pela quantidade de poeira ou atmosfera à sua volta, portanto um sol vermelho em Krypton ou amarelo na Terra não fariam diferença alguma.

Outro personagem citado é o Gigante, ou Golias (ao lado), um herói integrante dos Vingadores, principal grupo de heróis da Marvel, que já contou com Homem de Ferro e Capitão América, por  capaz de aumentar de tamanho, serve como um ilustrativo exemplo de como a gravidade age sobre a massa. O personagem Golias é inviável porque qualquer criatura que chegasse à altura que ele atinge quando se expande teria sua massa aumentada em proporção direta — e não há como, em um mundo com gravidade como a nossa, uma criatura de 20 metros ser bípede, o peso do tronco esmagaria as pernas.

O livro não é só uma coleção de desmitificações, ele usa também como exemplo para ensinar ciências os acertos das histórias em quadrinhos. Os mutantes X-Men, imaginados por Stan Lee têm poderes que são um exagero, mas a própria vida na Terra é resultado de mutações constantes (e ao chegar nesse ponto do livro os autores oferecem um detalhado e compreensível resumo das circunstâncias que levaram Darwin a chegar a suas conclusões sobre a origem das espécies).

E o Batman, justamente por não ter poderes, é um herói viável, e as engenhocas em seu cinto são tão prováveis que algumas delas já existem e fazem parte do equipamento de exércitos regulares: bombas de gás, corda retrátil para escaladas, minilanterna, sinalizador luminoso. Tanto que nas cenas do filme em cartaz atualmente, o equipamento usado pelo ator Christian Bale era em sua maior parte real.

Curiosamente, Gresh e Weinberg também apontam quem, na sua opinião, manejou melhor conceitos científicos para criar aventuras cativantes, repletas de ação e ainda assim impecáveis do ponto de vista da ciência. Para quem esperava alguma aventura escrita para os super-heróis, com sua pretensão mais “realista”, será uma surpresa saber que se trata de Carl Barks, desenhista e roteirista que, à frente do Pato Donald, criou uma série de numerosos coadjuvantes que deram brilho à família Pato, entre eles o Tio Patinhas.

Barks criava as histórias de caça ao tesouro da família de Patinhas usando idéias científicas realmente plausíveis, e uma delas, por mais fantasiosa que parecesse, era tão possível que um físico que cresceu lendo quadrinhos mais tarde desenvolveu um método de resgate de embarcações náuticas baseado numa delas.

Para retirar do fundo das águas um galeão espanhol naufragado, Huguinho, Zezinho e Luizinho sugerem ao tio que o encha de bolas de pingue-pongue, e ele passa a flutuar. E usando esferas de espuma com o mesmo conceito e com a mesma finalidade, anos depois, o tal cientista provou que Barks e sua imaginação estavam certos. O mais engraçado foi que ele tentou patentear o método e seu caso foi rejeitado justamente porque ele havia tirado a idéia de um gibi, e não desenvolvido um método original. Ah, sim, quem assiste ao Fantástico, da Globo, deve ter visto no ano passado os “caçadores de mitos” suspenderem um navio naufragado usando bolas de pingue-pongue para provara que era possível. Palmas para mestre Carl.

Viram como o livro é legal?

Comentários (6)

  • Michel diz: 28 de julho de 2008

    Carlos, desculpa se estou usando o espaço errado, mas queria te pedir um pequeno favor. Por acaso, tu teria um curso de português pra me indicar. Tentei encontrar teu e-mail e o e-mail do Cláudio Moreno, mas não encontrei. Obrigado desde já! abraço.

    Oba, Michel. Seguinte: curso de português… não sei, te sugiro consultar os classificados para ver quem tem aulas particulares ou ligar para os cursinhos pré-vestibulares. Quando ao Moreno, ele mantém uma página na internet (http://www.sualingua.com.br) na qual ele esclarece dúvidas e oferece lições de gramática. Acho que uma boa navegada por ali já vale um meio curso.
    Abraço
    Carlos André

  • leandro malósi dóro diz: 24 de julho de 2008

    Carlos, eu acho que com essa onde do filme, tu tinhas que tirar uma foto vestido de Batman, segurando nas mãos o Cavaleiro das Trevas, e colocar como lay-out do blog.

     

    Olha, Leandro, acho que só se resolverem fazer uma refilmagem da série anos 60 do Batman barrigudo.
    Carlos André Moreira

  • Marcelo diz: 24 de julho de 2008

    AONDE EU ENCONTRO ESSE LIVRO??NA SARAIVA E NA CULTURA NAO TEM!

  • Zimmermann diz: 28 de julho de 2008

    O bom (ruim?)é que essa infância do primeiro parágrafo permanece viva para alguns. Só é dividida com outras leituras mais “Literárias”, digamos.

     

    Olha, Zimmermann, acho que uma parcela de maravilhamento, noção que nos leva à infância, é sempre necessária na leitura de uma obra. E imaginação, outra característica que aprendemos a desenvolver quando piás.
    Carlos André Moreira

  • Vinicius diz: 24 de julho de 2008

    Alguém sabe onde encontrar este livro?

     

    Vinícius e também Marcelo. O meu exemplar eu comprei numa Saraiva há dois anos. Só se nesse período saiu completamente de catálogo, não sei. Se não tem a opção de encomendar na Saraiva ou na Cultura, sugiro uma consulta ao guia de sebos Estante Virtual (http://www.estantevirtual.com.br), por onde se pode encomendar livros raros ou simplesmente de segunda mão direto com sebos em todo o Brasil (sou usuário freqüente e é confirmado, entrega no prazo certo, podem confiar).
    Carlos André Moreira

  • dioberto diz: 29 de julho de 2008

    O livro só faz menção a quadrinhos, ou a outros livros de ficção científica. Uma grande e antiga série no mundo é a alemã “Perry Rhodan” que narra sobre ciência e tem muitos personagens como “quase” super-heróis. Mas acho que não está citado neste livro por se enquadrar como literatura de ficção, não é?

    Exato, Leonardo. O livro aborda a possibilidade e a base científica para que os poderes dos super-heróis dos quadrinhos sejam como são. Mas não fala da saga Perry Rhodan, como também não aborda os ciclos de Arthur C. Clarke ou as obras de Ray Bradbury, por exemplo.
    Carlos André Moreira

     

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