Começo aqui uma série que deveria ter iniciado há três semanas com outra lista de livros, não esta. E pondo em marcha uma seção temática que eu espero ter tempo e condições de levar adiante. Com vocês:
DEZ LIVROS de autores chineses contemporâneos
A Serviço do Povo, — Yan Lianke
Sob muitos aspectos, o comunismo foi a última religião monoteísta de proporções planetárias, com direito a fé contrária a fatos, cismas, íconografia própria e uma noção arraigada de pecado — no caso do socialismo, "vícios" como "individualismo" ou "decadentismo burguês". É com base nesse sutil conceito de fundo que Yan Lianke compõe esta sarcástica sátira ao regime maoísta — o livro foi banido na China mas ganhou o mundo por meio da internet. Um soldado revolucionário é alocado como cozinheiro particular de um importante oficial do exército chinês. Logo, começa um caso com a jovem mulher de seu superior, uma relação que ambos apimentam com a excitação que vêm do pecado - ambos descobrem que sentem mais tesão se a cada encontro clandestino praticam transgressões como rasgar páginas do Livro Vermelho ou destruir imagens do Camarada Mao. Tradução de André Telles. Record, 176 páginas, R$ 29.
A Montanha da Alma — Gao Xingjian
Este livro não chega a ser uma novidade, já que havia tido uma primeira edição no Brasil em 2001, pela Objetiva, com repercussão modesta. Com a recente maré montante de interesse pela China, este romance do escritor e dramaturgo Gao Xingjian, primeiro e até agora único escritor chinês a vencer o Nobel, em 2000, ganhou em 2007 uma segunda chance de comover o público. O irônico é que Xingjian, hoje exilado em Paris, publicou este livro primeiro em francês. Na época da premiação, o governo chinês acusou a Academia Sueca de provocação política, dada a condição de exilado do escritor. As razões do prêmio, contudo, não são apenas extraliterárias. Seu romance é caudaloso, alegórico e pleno de uma poesia melancólica. Basicamente, é a história de uma viagem pelo sul e pelo sudoeste da China, em episódios que formam um mosaico da China atual. O autor, que viveu parte da juventude sob o peso da Revolução Cultural e se diz influenciado pela literatura ocidental, mistura técnicas e vozes narrativas. Tradução de Marcos de Castro. Alfaguara, 436 páginas, R$ 47,90.
A Montanha e o Rio — Da Chen
Não é apenas a palavra "Montanha" no título o que une o autor deste livro, Da Chen, ao Nobel Gao Xingjian, citado anteriormente Outro fator é que Chen também é francamente influenciado pela literatura do Ocidente. A diferença é que se Gao faz a ponte entre a China, Joyce, Beckett e Dostoiévski, Da Chen é um desconcertante discípulo do que há de mais dramático na obra de Charles Dickens. Este A Montanha e o Rio é a saga de dois garotos unidos por até então desconhecidos laços de sangue. Tan é o filho de um aplicado assessor direto de Mao. De privilegiado filho da elite do revolucionária logo conhece a pobreza quando o pai cai em desgraça e se torna dissidente. Já Shento é um menino pobre, filho de uma camponesa com um homem que não assume a criança filha de uma relação não-oficial _ o pai de Tan. Shento enfrenta tragédias infantis, orfanatos de pesadelo até galgar posições no Exército chinês. Tradução de Paulo Andrade Lemos. Nova Fronteira, 500 páginas, R$ 49,90.
Balzac e a Costureirinha Chinesa — Dai Sijie
Provavelmente o livro mais conhecido desta leva recente das letras chinesas, ainda que não exatamente por motivos literários, e sim por haver sido transformado em um filme bastante elogiado, dirigido pelo próprio Dai Sijie adaptando sua obra. Também aqui o foco da história é o passado recente da China, focalizado no pano de fundo da Revolução Cultural. Baseado em experiências pessoais do escritor, enviado nos anos 1960 para um campo de "reeducação" no Interior, o romance conta a história de dois amigos enviados para trabalhar no campo para serem "curados" de sua mentalidade burguesa decadente pelo contato com os camponeses pobres. Lá, ambos envolvem-se com uma bela costureira da região, uma relação que mescla desejo e perigo depois que o trio acha, em um recanto oculto, uma mala cheia de livros clássicos da literatura européia, como Balzac e Flaubert. Tradução de Vera Lúcia dos Reis. Alfaguara, 168 páginas, R$ 29,90.
O que os Chineses não Comem — Xinran
Se existe mesmo um abismo a separar os povos orientais da cultura ocidental, ao menos na literatura pode-se dizer que as mulheres o estão cruzando primeiro. Foi assim que tivemos acesso a depoimentos de mulheres oprimidas por tradições machistas na Índia, em países muçulmanos como Afeganistão e Somália, e na China, com a precursora Jung Chang, de Cisnes Selvagens e com a radialista Xinran Hue. Tornada célebre no início da década com As Boas Mulheres da China, resultado de entrevistas e cartas recebidas de mulheres chinesas em um programa de rádio, Xinran, neste O que os Chineses não Comem, reúne artigos publicados no periódico inglês The Guardian apresentando aspectos da vida chinesa para os ocidentais. São crônicas nas quais a autora, que hoje vive exilada em Londres, usa de um tom pessoal, por vezes bastante emotivo, para narrar a experiência de viver em um país ocidental de costumes diversos dos seus. Tradução de Ricardo Gouveia. Companhia das Letras, 192 páginas, R$ 37,50.
O Olho de Jade — Diane Wei Liang
Embora escrito por uma dissidente exilada nos Estados Unidos, este livro se filia a um tipo diferente de contestação ao regime maoísta. Nascida em Pequim e distante de seu país por ter participado das manifestações de protesto na Praça da Paz Celestial, em 1989, Diane Wei Ling pensa as contradições da moderna sociedade chinesa por meio de um romance policial, gênero característico da literatura de consumo do Ocidente. A protagonista é a inusitada Mei Wang, primeira mulher a obter, na esteira da recente abertura econômica, licença de detetive particular. A pedido de um velho amigo da família, ela aceita a incumbência de rastrear o paredeiro de uma jóia de Jade da Dinastia Han, desaparecida durante os anos de destruição do passado da Revolução Cultural. Ao mergulhar na investigação, Mei Wang se vê imersa em uma trama que envolve o passado de sua família e da própria China. Os clichês do policial ganham imprevisto frescor quando aplicados à realidade chinesa contemporânea. Tradução de Marcelo Mendes. Record, 304 páginas.
Refugo de Guerra — Ha Jin
Ha Jin é outro escritor chinês forçado a emigrar de seu país após o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, e hoje, como Diane Wei Liang, mora nos Estados Unidos. Ele já havia tido seus romances O Ensandecido e A Espera lançados por aqui pela mesma editora, mas teve publicado este ano no Brasil este romance vigoroso, narrado pelos olhos de Yu Yuan, um militar chinês que combate na Guerra da Coréia para defender e apoiar a revolução comunista que daria mais tarde origem à Coréia do Norte. Disperso com seu pelotão e ferido por um estilhaço de granada, Yuan vai parar em um campo de prisioneiros na Coréia do Sul, e é pressionado a emigrar para Taiwan. Sua vontade, entretanto, é voltar para a China comunista, por razões familiares, o que lhe garante represálias de ambos os lados. Tradução de Luiz Antônio de Araújo, Companhia das Letras, 464 páginas, R$ 62.
A Longa Marcha — Sun Shuyun
Ao escrever este livro, a jornalista chinesa Sun Shuyun decidiu fazer uma grande reportagem para reconstituir um mito. No ano de 2004, Sun Shuyun refez o trajeto percorrido no início dos anos 1930 por Mao e seu exército desalojado de suas bases no Sul, no episódio conhecido como A Longa Marcha, até hoje relato nacional fundador da China comunista. Shuyun enfrenta o peso épico de uma retirada que durou dois anos e atravessou 10 mil quilômetros de um dos países mais extensos do planeta, acossada pela perseguição do exército oficial e buscando refúgio numa planície inóspita, onde chegaram apenas 40 mil dos 200 mil que começaram a fuga. Contrapôs ao mito cristalizado os depoimentos de sobreviventes da marcha. Tradução de Caroline Chang. Arquipélago Editorial, 336 páginas, R$ 44.
Viver — Yu Hua
Um romance que celebra a vida de maneira otimista e busca suas fontes na rica e milenar tradição oral da China, por meio de uma estrutura que lembra um pouco o encadeamento orgânico das histórias contadas de pessoa a pessoa. Um andarilho que percorre o interior da China em busca de histórias e relatos folclóricos depara com a exótica figura de um velho que se dispõe a contar a saga de sua família. O narrador, Fugui Xu, passa então a contar a acidentada história de sua vida: de homem de posses nos anos 1940 a sujeito falido pelo vício em jogo. De biscateiro miserável a outra vez camponês, com espaço para uma convocação para lutar na Guerra Civil que o mantém anos afastado de sua casa e de sua família. Uma história que tempera as tragédias vividas por Xu com o bom humor otimista e inabalável de seu protagonista. Tradução de Márcia Schmaltz. Companhia das Letras, 216 páginas, R$ 38.
Meu nome é número 4, de Ting-Xing Ye
Nascida em Xangai, ainda nos anos 1950, Ting-Xing Ye ficou órfã cedo, responsável por quatro irmãs mais novas e insistindo em continuar estudando. Com a eclosão da Revolução Cultural, foi enviada pra um campo de trabalhos forçados para ser "reeducada" numa fazenda-modelo. Casou-se, teve uma filha e anos mais tarde, visitando o Canadá como estudante de intercâmbio, decidiu pedir asilo no país _ o que a fez perder contato com a filha por quase 10 anos. É essa história o centro do relato autobiográfico de tintas fortes que ela relata neste número, cujo título faz referência a uma tradição da numerologia chinesa segundo a qual crianças de número 4 nascem para sofrer. Tradução de Alexandre Martins. Casa da Palavra, 224 páginas, R$ 35.
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