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Verissimo mundo

20 de agosto de 2008 1

Verissimo autografa na Feira do Livro de Porto Alegre em 2004. Foto: Adriana Franciosi/ZH

A próxima sexta é dia de fila quilométrica na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre (Túlio de Rose, 100, 2º piso). Depois de uma década sem compilar suas crônicas em livro, Luis Fernando Verissimo autografa às 19h30min seu livro novo, O Mundo é Bárbaro: e o que nós temos a ver com isso (Objetiva, 160 páginas, R$ 29,90), um volume que reúne 69 textos produzidos nos últimos oito anos e já publicados nos jornais nos quais o escritor é colunista: O Globo, Estado de São Paulo e Zero Hora. A obra de Verissimo nunca saiu de catálogo, e já mudou de editora três vezes nesse período, mas tudo o que veio a público em termos de livro de crônicas foram republicações mudando a ordem e o conceito temático de algumas crônicas antigas. Agora, são textos novos, produzidos de 2000 para cá.

Como vocês leram na matéria de hoje do Segundo Caderno, as crônicas de O Mundo é Bárbaro: e o que nós temos a ver com isso são textos de cunho mais político, voltados às grandes preocupações do mundo, como a tensão no Golfo, as eleições americanas, a ascensão da China como superpotência, os paradoxos sociais e morais brasileiros.

E como havíamos prometido na página 6 do Segundo Caderno de hoje vai abaixo uma das crônicas de Verissimo presentes no livro. Deleitem-se:

Começar de Novo

Há tempos li uma boa comparação: a China é como a internet. Todo o mundo sabe que uma coisa daquele tamanho, com tanto público, tem que ser um sucesso comercial e dar lucro. Mas ninguém ainda sabe exatamente como.

Não falta gente tentando descobrir. O tamanho do mercado potencial chinês, mais de 1 bilhão de pessoas, derrotou as restrições americanas ao velho inimigo comunista e suas violações de direitos humanos, pois, se não se perde muita coisa bloqueando Cuba, despreza-se quase um quarto da população mundial discriminando a China. E os chineses estão sendo tão pragmáticos quanto os americanos. Com sua abertura controlada para investimentos externos e multinacionais, quintuplicaram sua economia nos últimos 20 anos. Mas li que as esperanças mais otimistas, de gente que sonhava com fortunas instantâneas se conquistasse apenas meio por cento do mercado chinês, estão sendo frustradas. Descontando-se os 900 milhões de camponeses e os urbanos economicamente marginalizados, sobra uma classe média equivalente à dos Estados Unidos, com  uma renda média muito inferior e hábitos de poupança mais conservadores. Algumas empresas, como a Coca-Cola, claro, e a Motorola, estão dando certo no complicado mercado chinês, mas 60% dos investidores estrangeiros ainda não  ganharam nada, e os que ganham, ganham pouco. Uma das coisas com que os estrangeiros não contavam é que haveria empresas chinesas, mais acostumadas com a burocracia e a corrupção locais, disputando o mesmo mercado. De qualquer maneira, como no caso da internet, cedo ou tarde a lógica prevalecerá. E estaremos todos produzindo para vender na China — e comprar da China.

Que país de tamanho parecido com o nosso serviria como modelo para o Brasil, excluídos os próprios Estados Unidos? Para defender uma imitação da China, só fazendo como aquele enólogo francês contratado para produzir vinhos iguais aos da França na Califórnia que, depois de plantadas as videiras e instalados os equipamentos, disse: “Pronto, agora é só esperar 300 anos”. Além de 3 mil anos de civilização, precisaríamos passar por algumas revoluções para chegar ao mesmo ponto, depois de decidir se o sucesso valeria tanto sangue. (Desconfie sempre dos que pregam banhos de sangue, eles sempre se referem ao sangue dos outros.) A Índia parecia um exemplo do que se queria evitar, um Brasil levado às piores conseqüências. Hoje é um exemplo de desenvolvimento acelerado mas a partir de coisas que aqui ainda parecem remotas — como uma reforma agrária de verdade, por exemplo. O Canadá seria um bom modelo, mas grande parte do Canadá é só paisagem, sem gente. E o frio? A Rússia trocou o capitalismo de Estado pelo gangsterismo privado, também não serve. A Austrália pelo menos desmente aquelas pessoas que dizem que o problema do Brasil foi a qualidade da  nossa colonização por Portugal. Foi povoada por degredados e prostitutas e deu no que deu. A Argentina? Precisaríamos ser argentinos.

O grande modelo para o Brasil dar certo talvez seja o próprio Brasil — nenhum outro tem as mesmas características, história etc. É só começar de novo — desta vez com muito petróleo!

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (1)

  • PC, O PC diz: 20 de agosto de 2008

    Bem, Luis Fernando tem um defeito gravissimo. Andei pensando em escrever no meu blogue que se eu não fosse eu mesmo queria ser o LFV, mas torcendo pro Grêmio. É colorado, mas ninguém é perfeito. A Isimbayeva, por ex, não sabe que eu existo. Mas Seguitxi, o cara é demais. Ele escreve tudo o que eu penso mas não sei colocar no papel. Se eu fosse pra uma ilha deserta queria levar todos os livros do LFV. E é claro, a Patricia Poeta, que ninguém é de ferro pô. Valeu. Não dá pra publicar o livro ai?

    Bom, PC, não dá não, publicar o livro inteiro no blog violaria a propriedade intelectual do LFV e a propriedade editorial de sua casa publicadora. Mas, como sugeriste, foi aqui uma crônica inteira. Já comecei alguns contatos para tentar fazer o mesmo com contos de autores daqui, como pediste, mas pôr em meio eletrônico um livro inteiro que não seja de domínio público é complicado.
    Abraço.
    Carlos André

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