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A fluidez do medo

21 de agosto de 2008 2

A despeito de qualquer outra nobre intenção do autor, o filme Desejo e Reparação, baseado na obra de Ian McEwan, tem o poder de despertar no espectador uma reflexão rasa, mas quase inevitável para quem sai do cinema de mãos dadas e cega os olhos diante do ambiente iluminado, seguro e aparentemente feliz do shopping center. Depois de duas horas assistindo à tragédia particular de um casal, parece ficar flagrante o abismo que há entre aquele mundo da primeira metade do século 20 — quando a qualquer momento uma carta convocando para lutar em uma guerra poderia chegar e arruinar para sempre a trajetória de um amor — e o atual, em que provavelmente o único perigo enfrentado pelo casal que foi ao cinema é o de que a relação caia no tédio depois de mais alguns domingos repetindo aquele programa.

Esta aparente sensação de segurança do indivíduo diante de um mundo sujeito a poucas intempéries do tipo que nossos avós costumavam enfrentar – guerras intercontinentais, epidemias, fascismo – é, no entanto, uma armadilha, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Em Medo Líquido (Jorge Zahar, R$ 29,90, 240 páginas), publicado este ano, o autor que se tornou um best-seller ao aproximar a sociologia do cotidiano dá seqüência ao estudo do mundo atual à luz de sua teoria líquida.

Depois de escrever Modernidade Líquida, Amor Líquido, Tempos Líquidos e Vida Líquida — sempre tendo como norte a volatilidade e a instabilidade das relações atuais —, o polonês mira agora na insegurança. Para descrever a trajetória deste sentimento e decifrar por que continuamos apavorados, em pleno século 21, Bauman retrocede para além da II Guerra de Desejo e Reparação. Reimagina a experiência de se existir no século 16, que foi definida por Lucien Febvre como “peur toujour, peur partout” (medo sempre e em toda parte). O historiador francês vinculava a ubiqüidade do medo à escuridão do mundo, que começava do lado de fora da casa. A modernidade seria o grande salto à frente: com o avanço das ciências, chegaria o tempo do fim das surpresas, das calamidades, das catástrofes. Mas não foi bem assim: “O que deveria ser uma rota de fuga, contudo, revelou-se, em vez disso, um longo desvio. (…) Esta nossa vida tem se mostrado diferente do tipo de vida que os sábios do Iluminismo
e seus herdeiros avistaram e procuraram planejar”,constata Bauman.

Refletidas nas capas de revista dedicadas à saúde e nas “advertências globais” (gripe das aves, bug do milênio, ondas assassinas) que se multiplicam a cada dia, a sensação de medo, segundo Bauman, é indissociável do contexto descrito por ele em Modernidade Líquida — livro que reúne suas teses centrais:

Viver num mundo líquido-moderno conhecido por admitir apenas uma certeza — a de que o amanhã não pode ser, não deve ser, não será como hoje — significa um ensaio de desaparecimento, sumiço, extinção e morte.”

Os perigos atuais seriam basicamente de três tipos: aqueles que ameaçam o corpo e as propriedades, aqueles que ameaçam a durabilidade da ordem social (da qual dependem renda e emprego) e aqueles que ameaçam o lugar da pessoa no mundo (a posição na hierarquia social, a imunidade à exclusão social). O Estado, em vista dos mercados crescentemente extraterritoriais, não é mais capaz de cumprir seu dever de proteger os cidadãos das ameaças à existência.

Os medos também são classificados por Bauman em três tipos: o da natureza (terremotos, furacões, secas), o de outras pessoas (terroristas, criminosos, poluição) e um terceiro tipo, descrito como “uma zona em que as redes saem do ar, barris de petróleo secam, bolsas de valores entram em colapso e companhias desaparecem do dia para a noite levando consigo centenas de empregos”.

Neste contexto, os cartões de crédito seriam uma reação: “Vivemos a crédito: nenhuma geração passada foi tão endividada quanto a nossa. Viver à crédito tem seus prazeres utilitários: por que retardar a satisfação? (…) Se as cadernetas de poupança implicam a certeza do futuro, um futuro incerto exige cartões de crédito.”

Bauman interpreta ainda fenômenos recentes como o programa de televisão Big Brother e o terrorismo. Por fim, dedica um capítulo às maneiras de se lidar com o medo — capítulo que se revela desnecessário. O mérito de Bauman — reafirmado em mais este livro — é justamente o de não oferecer respostas prontas, mas deixá-las implícitas na dissecação que faz da realidade. Ao propor um grande divã da humanidade, nos faz pensar se não estamos, o tempo todo, exagerando um pouquinho.

Postado por Gabriel Brust

Comentários (2)

  • Andréia Alves Pires diz: 22 de agosto de 2008

    Há um projeto de escrita criativa colaborativa desenvolvido por escritores rio-grandinos que está dando certo. Se for possível, venha ver: http://jogospoeticosvirtuais.blogspot.com/O foco do trabalho é a experimentação do texto literário. O projeto está em fase inicial e ainda nao foi possível ampliar a capacidade hipertextual do blog, explorar o layout de forma mais personalizada. Obrigada pela atenção.

  • Marcelo Rocha diz: 9 de setembro de 2008

    O Bauman, de fato, é o grande sociólogo da contemporaneidade. A perspectiva de que a modernidade já é instaurada desde a célebre frase que abre o Manifesto Comunista: “Tudo que é solido desmancha no ar” e aí dá-se um paradigma da liquidez das relações sociais é excelente. Abraço.

    Exato, Marcelo.
    Ao contrário de outros pensadores, como Harvey ou Hassan, que vêem a pós-modernidade como o resultado do colapso da modernidade, ou seja, como um processo distinto, acho que a grande sacada do Bauman é justamente afirmar que são escalas diferentes do mesmo processo, que a “modernidade líquida” era, no fim das contas, o resultado final ao qual a modernidade, pelas suas propostas e estruturas, acabaria chegando de qualquer forma. Abraço.
    Carlos André
     

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