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Os sonhos e a fragilidade

29 de agosto de 2008 0

Eu precisava de hospedagem. Foi assim que o conheci. Eu queria alguém para dividir o aluguel do quarto comigo. Fomos apresentados por um conhecido comum, nos laboratórios químicos de St. Bart`s.
— Percebo que esteve no Afeganistão — foi isso que ele me disse, e meu queixo caiu e meus olhos se arregalaram.
— Incrível — comentei.
— Na verdade, não — continuou o estranho de jaleco branco que se tornaria meu amigo. — Olhando para o seu braço, vejo que o senhor foi ferido, e de modo peculiar. O senhor é bem bronzeado e tem postura de militar, e há poucos lugares do Império onde um militar pode se bronzear e também, considerando a natureza do ferimento no seu ombro e os costumes dos povos afegãos das cavernas, ser torturado.
Explicado assim, claro, parecia absurdamente simples e lógico. E realmente era. Eu tinha mesmo um bronzeado jambo. E de fato fora, como ele observou, torturado.
Longe de serem sensatos, os deuses e os homens do Afeganistão eram selvagens e se recusavam a ser governados por Whitehall, Berlim ou até Moscou. Eu fora enviado para aquelas colinas junto com o _º Regimento. Enquanto a luta ficou nas montanhas, combatemos em pé de igualdade, mas, quando descemos para a escuridão das cavernas, ficamos encrencados até o pescoço, em larga desvantagem.
Jamais vou esquecer a superfície espelhada do lago subterrâneo, nem a coisa que emergiu dele, seus olhos abrindo e fechando, e os sussurros melódicos que acompanhavam sua entrada em cena, envolvendo-a como o zumbido de moscas gigantescas.
Que eu tenha sobrevivido foi um milagre, mas sobrevivi, e voltei para a Inglaterra com meus nervos em frangalhos. O lugar onde aquela boca de sanguessuga me tocara ficou tatuado para sempre, uma pele branca feito barriga de sapo, no meu ombro, atualmente atrofiado. Eu já fora um exímio atirador. Agora não me restava nada além do medo do mundo subterrâneo, quase um pânico, que me fazia pagar de bom grado seis pence da minha pensão militar por uma charrete em vez de um penny para viajar de metrô.
Ainda assim, as névoas e a escuridão de Londres me confortavam, me acolhiam. Eu perdera minha moradia anterior porque gritava à noite. Eu estivera no Afeganistão, mas não estava mais lá.

***

O trecho acima é do conto Um Estudo em Esmeralda, no qual o escritor, roteirista de cinema e TV e mundialmente conhecido autror de quadrinhos Neil Gaiman tenta realizar um cruzamento no mínimo improvável entre dois universos que parecem misturar-se tão bem quanto água e azeite: o dos “antigos” de H.P. Lovecraft e o do Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle

Holmes, saberá qualquer um que tenha lido, ainda que distraidamente, um livro protagonizado por ele, é a encarnação do espírito racionalista vitoriano: um mestre das astúcias, gênio do raciocínio dedutivo e um dos poucos personagens que, criados na literatura, extravazaram sua condição até ganhar lugar no imaginário, ao ponto de ser conhecido mesmo por quem nunca o leu. Holmes encarna os ideais do cientificismo do século 19: qualquer mistério tem uma solução, desde que se investigue com cuidado os indícios certos pelo método adequado.

Como provavelmente um número bem menor de pessoas deve saber, Lovecraft opera no extremo oposto, e seus contos de horror abordam as sombrias charnecas do inconsciente, as camadas mais escuras da imaginação humana, onde coisas gosmentas com tentáculos viscosos e ventosas de toque gélico aguardam para tomar posse do mundo e dilacerar a frágil raça humana.

Gaiman recebeu a encomenda de um conto juntando os dois universos, e o resultado é a história que abre Coisas Frágeis, sua mais recente coletânea lançada no Brasil. Uma série de narrativas curtas nas quais Gaiman realiza o que pode ser considerada sua marca, a criação de atmosferas que fundem o horror, o gótico, a fantasia e partem de referências variadas, da literatura infantil clássica, como o conto O problema de Susan, no qual retoma um dos personagens de As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, até uma ilustração do mestre dos quadrinhos Frank Frazetta, cuja visão inspira Gaiman a criar Os fatos no caso da partida da sra. Finch, no qual uma visita ao que deveria ser um inofensivo e até decadente show circense termina de forma inesperada. Nestes contos, contudo, o desenho das personalidades dos personagens é um pouco menos rico do que na outra coletânea de narrativas curtas de Gaiman, a mágica Fumaça e Espelhos. Centrado mais no desenvolvimento da fábula narrativa e muito calcado em diálogos, algumas vezes os contos apresentam personagens de pouca densidade, como figuras rasas plasmadas diretamente dos quadrinhos — uma das histórias em particular, Lembranças e Tesouros, foi escrita originalmente como história em quadrinhos e depois transportada para a literatura, onde ganhou um pouco no aprofundamento da psique do personagem principal, embora mesmo isso nessa história pareça insuficiente. Em outros textos, como no próprio Um Estudo em Esmeralda do qual se lê um trecho nesta página, a inventividade da narrativa compensa com sobras essa profundidade algo cartunesca da psicologia dos personagens. E em A vez de outubro, uma história que claramente parece escavada dos tempos de Gaiman à frente da série de HQ Sandman, uma atmosfera poética e triste de uma infância perdida torna o conto um dos melhores da coletânea.

Ah, sim, um último comentário, que não deixa de trazer consigo uma nota irritante: como o próprio Gaiman, convidado da Flip deste ano, revelou na festa literária, a edição da Conrad traz só metade dos textos publicados originalmente nos Estados Unidos. Quem conhece o livro em inglês vai notar que bailaram nesse corte a facão contos como Os outros e poemas narrativos que são também marca característica de Gaiman. O corte não é explicado pela editora no livro nem ao menos justificado, uma vez que a própria Conrad lançou Fumaça e Espelhos há alguns anos com uma mescla de narrativas e poemas sem que o volume ficasse pior por isso. FIca a dica.

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