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Lirismo entre escombros

30 de agosto de 2008 5

Nosso primeiro autor gaúcho na série Contos da Quinzena tecnicamente é paulista, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre e sua obra, principalmente seus primeiros livros, reflete de modo indubitável essa ligação com a cidade.

QUEM É? Nascido em 1979 em São Paulo, Daniel Galera é autor de um livro de contos, dois romances (ou uma novela e um romance, se quiserem entrar em tecnicidades de forma que não levam a lugar nenhum) e um bom número de traduções. Como estamos em um blog, e blog normalmente é freqüentado por quem navega na internet (jura? dããã), seu nome não deve ser novidade para a maioria dos leitores, dado que dentre os autores de sua geração Galera é um dos mais conhecidos e comentados.
Seu nome começou a circular há uma década, como integrante do staff de COLunistas do Cardosonline, formado basicamente por uma turma de amigos que incluía ainda Daniel “Mojo” Pellizzari, Clarah Averbuck e o próprio criador e identidade do zini, André “Cardoso” Czarnobai, todos mais tarde autores publicados.

O QUE JÁ FEZ? No início dos anos 2000, em sociedade com Pellizzari e com o artista plástico Guilherme Pilla, fundou a Livros do Mal, editora pela qual publicou Dentes Guardados (2001), até agora sua única coletânea de contos, e a primeira edição da novela Até o dia em que o cão morreu, mais tarde adaptado para o cinema com o nome de Cão Sem Dono, mas aí já é outra história, estamos falando de livros.
Em 2006, saiu pela Companhia das Letras, sua atual editora, o romance Mãos de Cavalo, que depois ganhou edição na Itália, na Argentina e em Portugal. Seu próximo livro, com o título de Cordilheira, pode ser esperado para depois de novembro, mas ainda sem uma data daquelas, cravada, na bucha.

E A OBRA, QUALÉ? Gentil de sua parte ter perguntado isso. Relendo o livro Dentes Guardados para escolher um conto para esta seleção, já com a leitura do que ele publicou depois, percebi uma série de camadas sutis que na época do lançamento confesso que haviam me escapado. Uma delas é um certo tom alegórico, simbólico, que Galera foi paulatinamente abandonando nos contos para centrar-se numa representação mais aparentada à representação realista em suas narrativas longas seguintes. Seus contos em Dentes Guardados guardam uma unidade não muito fácil de encontrar em livros de estréia – e coletânea de contos, ainda por cima, que muitas vezes resulta em balaio de gatos. Há uma série de histórias que tratam da entrega ao sexo como mais um meio de buscar sentido a uma existência oprimida pelas tensões e pressões de quem é chamado a ingressar de uma vez no moedor de carne do mundo do trabalho. Não no sentido da entrega ao sexo como o apresenta Henry Miller, esse é só um elemento. Há também essa busca na bebida, na vida noturna, na violência, na aniquilação, pessoal ou alheia. E há contos que tratam de dilemas sentimentais das ligações afetivas modernas. Alguns deles profundamente líricos, como o belo Dafne Adormecida, ou o doloroso Alguma Psicologia.

E ONDE EU ACHO ISSO? Para sua felicidade, o primeiro livro, esgotado, está disponível na íntegra, para dowload gratuíto, no site oficial do escritor. Clica aqui. Os demais têm edição recente da Companhia, então te vira.

Agora, abaixo, está nosso Conto da Quinzena. Chama-se Amor Perfeito, é a história que abre a coletânea e sua escolha foi sugestão do próprio Galera, no e-mail em que gentilmente autorizou sua publicação neste espaço. Por tudo o que você leu antes, poderá ver que Galera é um autor que não tem medo da linguagem cotidiana aplicada ao corpo e suas interações, portanto aqueles que têm uma sensibilidade um pouco mais exacerbada para representações das paixões da carne, por favor, ou não leiam e esperem o próximo ou mantenham a discussão na caixa de comentários em alto nível.

O próximo Conto da Quinzena sai dia 14 de setembro.

Amor Perfeito
Ele tirou a minha virgindade. Transamos no meu quarto, noite suarenta de sábado em que meus pais estavam no sítio, uma penetração indolor, lenta e gostosa, e pelo resto da madrugada ele acariciou incansável o meu corpo, venerando tudo, meus peitos que eu temia serem pequenos demais, minha bunda que eu achava mole, meus pés com dedos tortos, eu tinha medo de como os homens julgariam meu corpo, era minha única ansiedade e ele desmentiu-a logo em nossa primeira noite de cama. Na primeira vez que fizemos sem camisinha, estranhei a sensação de ter aquela porra dentro de mim, sentei-me sobre os tornozelos pra que tudo escorresse de uma vez para fora, me sentindo ridícula, ele pôs um lenço de papel na palma da mão e colocou-a entre as minhas pernas, dizendo Ei assim tu vai manchar o teu edredon. Os gestos dele me surpreendiam, trazendo calma e conforto, sempre iam a favor das minhas expectativas. Dia desses num bar uma menina chegou vendendo rosas, e por um instante temi que ele fosse me oferecer uma rosa, atitude que eu teria considerado estúpida, odeio flores e odeio babaquices românticas, mas não, ele recusou a rosa e ainda me disse Eu espero que tu nunca espere que eu te dê rosas. Não concordamos em tudo, na verdade temos gostos muito antagônicos para várias coisas, filmes e marcas de cerveja, por exemplo, mas ele nunca mostrou-se preocupado em mudar minhas opiniões, aceitando minha personalidade, meus erros e meus estados de espírito com absoluta tolerância, anulando a vergonha que tive certa vez por chorar na frente dele com o gesto de lamber meu rosto e engolir minhas lágrimas, compartilhando meus momentos de angústia com abraços silenciosos, e numa noite em que saí sozinha e traí ele pela primeira vez, percebi que tinha uma chance de testar sua tolerância. Contei tudo, e para meu espanto ele apenas moveu as pálpebras macias e me disse que achava natural o desejo fora do relacionamento, que estava chateado mas que minha traição não influía no seu amor por mim. Insisti, descrevi detalhes do rapaz, dos beijos e carícias na pista de dança e isto, ao invés de abalá-lo, excitou-o. Acabamos transando, e eu gostei. Foi a partir daquele dia que a tolerância dele tornou-se irritante. Me convenci de que eu devia provocá-lo, eu necessitava de um pouco de ódio, tumulto, nosso amor era certo demais. Só que não funcionou: aturou meus porres escandalosos, meus arrotos em público, respondeu minhas agressões verbais à altura, acatou todos os meus comportamentos. Porque me amava. Me tratava tão bem, reagia tão perfeitamente às minhas expectativas, que o amor dele passou a me dar tédio, tornou-se irritante de tão pleno, de tão incorrigível. Daí resolvi terminar, mandei ele à merda. É claro que até nisso ele foi compreensivo. Eu estava prestes a acender o terceiro cigarro quando ele finalmente reagiu, e foi para me dar um abraço. Respeitou meus sentimentos, disse entender que seu amor incondicional me agredisse. Mas não era pra ele entender!, não era pra aceitar, porra!, era pra sentir ódio, pra me odiar, parti pra cima daquele filhodaputa, atirei telefone, copos, livros, cadeira, tudo pra cima dele, ele devolveu, me bateu com força, me xingou, e cada tentativa minha de machucá-lo ele respondeu, cuspi nele e ele me cuspiu, aranhei o rosto dele com ferocidade, ele me chutou pelo chão da sala, senti dor, berrei como uma porca e percebi horrorizada que até mesmo naquele momento, por deus, ele estava fazendo o que eu esperava dele, ele estava me dando o que eu queria.

Comentários (5)

  • xerxenesky diz: 30 de agosto de 2008

    Li esse conto pela primeira vez logo que o livro saiu, quando eu tinha 16 anos, e o impacto foi indescritível.

  • Luana diz: 30 de agosto de 2008

    Faltou dizer na biografia que o Galera é mó gato!

  • PC, O PC diz: 5 de setembro de 2008

    Já o downlodei e estou no terceiro conto. Muito tri. Vou aos poucos descobrindo o contiúdo do referido. O cara é bom. Escova de dente com alface das tartarugas, por enquanto sexo, espero que depois venham as drogas e por fim o rock n roll. Se não vier, também não tem problema. Bem, na falta doque dizer ou fazer vou ouvir Simon and Garfunkel´s… tchis

  • Rafael Terra diz: 1 de setembro de 2008

    Adoro esse livro. Ah, tolerância demais é muito irritante mesmo =/

  • Jussara Kruger Mariano diz: 25 de junho de 2009

    Menino!! Amei! A coisa vai num crescendo até exaurir. De forma límpida, clara e contundente! E o pior, é que tem muita mulher que é assim!

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