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Posts de agosto 2008

Lirismo entre escombros

30 de agosto de 2008 5

Nosso primeiro autor gaúcho na série Contos da Quinzena tecnicamente é paulista, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre e sua obra, principalmente seus primeiros livros, reflete de modo indubitável essa ligação com a cidade.

QUEM É? Nascido em 1979 em São Paulo, Daniel Galera é autor de um livro de contos, dois romances (ou uma novela e um romance, se quiserem entrar em tecnicidades de forma que não levam a lugar nenhum) e um bom número de traduções. Como estamos em um blog, e blog normalmente é freqüentado por quem navega na internet (jura? dããã), seu nome não deve ser novidade para a maioria dos leitores, dado que dentre os autores de sua geração Galera é um dos mais conhecidos e comentados.
Seu nome começou a circular há uma década, como integrante do staff de COLunistas do Cardosonline, formado basicamente por uma turma de amigos que incluía ainda Daniel “Mojo” Pellizzari, Clarah Averbuck e o próprio criador e identidade do zini, André “Cardoso” Czarnobai, todos mais tarde autores publicados.

O QUE JÁ FEZ? No início dos anos 2000, em sociedade com Pellizzari e com o artista plástico Guilherme Pilla, fundou a Livros do Mal, editora pela qual publicou Dentes Guardados (2001), até agora sua única coletânea de contos, e a primeira edição da novela Até o dia em que o cão morreu, mais tarde adaptado para o cinema com o nome de Cão Sem Dono, mas aí já é outra história, estamos falando de livros.
Em 2006, saiu pela Companhia das Letras, sua atual editora, o romance Mãos de Cavalo, que depois ganhou edição na Itália, na Argentina e em Portugal. Seu próximo livro, com o título de Cordilheira, pode ser esperado para depois de novembro, mas ainda sem uma data daquelas, cravada, na bucha.

E A OBRA, QUALÉ? Gentil de sua parte ter perguntado isso. Relendo o livro Dentes Guardados para escolher um conto para esta seleção, já com a leitura do que ele publicou depois, percebi uma série de camadas sutis que na época do lançamento confesso que haviam me escapado. Uma delas é um certo tom alegórico, simbólico, que Galera foi paulatinamente abandonando nos contos para centrar-se numa representação mais aparentada à representação realista em suas narrativas longas seguintes. Seus contos em Dentes Guardados guardam uma unidade não muito fácil de encontrar em livros de estréia – e coletânea de contos, ainda por cima, que muitas vezes resulta em balaio de gatos. Há uma série de histórias que tratam da entrega ao sexo como mais um meio de buscar sentido a uma existência oprimida pelas tensões e pressões de quem é chamado a ingressar de uma vez no moedor de carne do mundo do trabalho. Não no sentido da entrega ao sexo como o apresenta Henry Miller, esse é só um elemento. Há também essa busca na bebida, na vida noturna, na violência, na aniquilação, pessoal ou alheia. E há contos que tratam de dilemas sentimentais das ligações afetivas modernas. Alguns deles profundamente líricos, como o belo Dafne Adormecida, ou o doloroso Alguma Psicologia.

E ONDE EU ACHO ISSO? Para sua felicidade, o primeiro livro, esgotado, está disponível na íntegra, para dowload gratuíto, no site oficial do escritor. Clica aqui. Os demais têm edição recente da Companhia, então te vira.

Agora, abaixo, está nosso Conto da Quinzena. Chama-se Amor Perfeito, é a história que abre a coletânea e sua escolha foi sugestão do próprio Galera, no e-mail em que gentilmente autorizou sua publicação neste espaço. Por tudo o que você leu antes, poderá ver que Galera é um autor que não tem medo da linguagem cotidiana aplicada ao corpo e suas interações, portanto aqueles que têm uma sensibilidade um pouco mais exacerbada para representações das paixões da carne, por favor, ou não leiam e esperem o próximo ou mantenham a discussão na caixa de comentários em alto nível.

O próximo Conto da Quinzena sai dia 14 de setembro.

Amor Perfeito
Ele tirou a minha virgindade. Transamos no meu quarto, noite suarenta de sábado em que meus pais estavam no sítio, uma penetração indolor, lenta e gostosa, e pelo resto da madrugada ele acariciou incansável o meu corpo, venerando tudo, meus peitos que eu temia serem pequenos demais, minha bunda que eu achava mole, meus pés com dedos tortos, eu tinha medo de como os homens julgariam meu corpo, era minha única ansiedade e ele desmentiu-a logo em nossa primeira noite de cama. Na primeira vez que fizemos sem camisinha, estranhei a sensação de ter aquela porra dentro de mim, sentei-me sobre os tornozelos pra que tudo escorresse de uma vez para fora, me sentindo ridícula, ele pôs um lenço de papel na palma da mão e colocou-a entre as minhas pernas, dizendo Ei assim tu vai manchar o teu edredon. Os gestos dele me surpreendiam, trazendo calma e conforto, sempre iam a favor das minhas expectativas. Dia desses num bar uma menina chegou vendendo rosas, e por um instante temi que ele fosse me oferecer uma rosa, atitude que eu teria considerado estúpida, odeio flores e odeio babaquices românticas, mas não, ele recusou a rosa e ainda me disse Eu espero que tu nunca espere que eu te dê rosas. Não concordamos em tudo, na verdade temos gostos muito antagônicos para várias coisas, filmes e marcas de cerveja, por exemplo, mas ele nunca mostrou-se preocupado em mudar minhas opiniões, aceitando minha personalidade, meus erros e meus estados de espírito com absoluta tolerância, anulando a vergonha que tive certa vez por chorar na frente dele com o gesto de lamber meu rosto e engolir minhas lágrimas, compartilhando meus momentos de angústia com abraços silenciosos, e numa noite em que saí sozinha e traí ele pela primeira vez, percebi que tinha uma chance de testar sua tolerância. Contei tudo, e para meu espanto ele apenas moveu as pálpebras macias e me disse que achava natural o desejo fora do relacionamento, que estava chateado mas que minha traição não influía no seu amor por mim. Insisti, descrevi detalhes do rapaz, dos beijos e carícias na pista de dança e isto, ao invés de abalá-lo, excitou-o. Acabamos transando, e eu gostei. Foi a partir daquele dia que a tolerância dele tornou-se irritante. Me convenci de que eu devia provocá-lo, eu necessitava de um pouco de ódio, tumulto, nosso amor era certo demais. Só que não funcionou: aturou meus porres escandalosos, meus arrotos em público, respondeu minhas agressões verbais à altura, acatou todos os meus comportamentos. Porque me amava. Me tratava tão bem, reagia tão perfeitamente às minhas expectativas, que o amor dele passou a me dar tédio, tornou-se irritante de tão pleno, de tão incorrigível. Daí resolvi terminar, mandei ele à merda. É claro que até nisso ele foi compreensivo. Eu estava prestes a acender o terceiro cigarro quando ele finalmente reagiu, e foi para me dar um abraço. Respeitou meus sentimentos, disse entender que seu amor incondicional me agredisse. Mas não era pra ele entender!, não era pra aceitar, porra!, era pra sentir ódio, pra me odiar, parti pra cima daquele filhodaputa, atirei telefone, copos, livros, cadeira, tudo pra cima dele, ele devolveu, me bateu com força, me xingou, e cada tentativa minha de machucá-lo ele respondeu, cuspi nele e ele me cuspiu, aranhei o rosto dele com ferocidade, ele me chutou pelo chão da sala, senti dor, berrei como uma porca e percebi horrorizada que até mesmo naquele momento, por deus, ele estava fazendo o que eu esperava dele, ele estava me dando o que eu queria.

Água negra e lamacenta

29 de agosto de 2008 3

Quem abrir sua Zero Hora deste sábado encontraá um artigo assinado pelo nosso colega Gustavo Brigatti sobre o livro Blackwater: a ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo, de Jeremy Scahill, uma alentada reportagem sobre as milícias mercenárias privadas que, em sem trabalho de terceirização da guerra, acabam por alarmar alguns setores devido ao poder de fogo que acabam por amealhar. Como o próprio Gustavo menciona na matéria, é um problema que vem desde a Antigüidade – alguém aí lembra de Anábase, de Xenofonte, pro exemplo, no qual um exército de gregos mercenários é contratado pelo persa Ciro para ajudá-lo a tomar o trono, nas mãos de seu irmão, Artaxerxes II? Em pleno território persa, os gregos vencem uma batalha renhida contra os persas, mas a vitória se torna irrevelante porque Ciro morre em combate, deixando os gregos sem pai nem mãe, sem pagamento e sem uma rota de saída do território persa.

Mas eu falava era de Blackwater. Com tanto poder e contratos amealhados nas zonas de guerra norte-americanas, a Blackwater se tornou uma multinacional da guerra terceirizada, levantando questões pertinentes sobre a quem mercenários devem lealdade, quem responde pelos abusos cometidos por uma força militar privada a serviço de uma nação? Como pometemos nas páginas do caderno de Cultura, vai abaixo um trecho do livro, edição da Companhia das Letras, 552 páginas, R$ 52:

O mundo era um lugar muito diferente em 10 de setembro de 2001, quando Donald Rumsfeld subiu ao pódio do Pentágono para fazer um de seus primeiros longos discursos como secretário da Defesa do presidente George W. Bush. Para a maioria dos americanos, a Al Qaeda não existia, e Saddam Hussein ainda era o presidente do Iraque. Rumsfeld já havia ocupado aquele cargo uma vez – sob o presidente Gerald Ford, entre 1975 e 1977 -, mas voltara ao posto em 2001 com idéias ambiciosas. Naquele dia de setembro do primeiro ano da administração Bush, Rumsfeld dirigiu-se aos funcionários do Pentágono encarregados de supervisionar os altos negócios dos contratos de defesa – gerenciando as Halliburtons, DynCorps e Bechtels. O secretário estava diante de um ruidoso grupo de ex-executivos da Enron, Northrop Grumman, General Dynamics e Aerospace Corporation – gente que ele havia inserido como seus altos delegados no Departamento de Defesa – e fez uma verdadeira declaração de guerra.

“O assunto de hoje é um adversário que representa uma ameaça, uma séria ameaça à segurança dos Estados Unidos da América”, trovejou Rumsfeld. “Esse adversário é um dos últimos bastiões do planejamento central no mundo de hoje. Seu governo se faz com base em planos qüinqüenais. De uma única capital, ele tenta impor suas exigências por meio de fusos horários, continentes, oceanos e mais além. Com brutal coerência, sufoca o pensamento livre e esmaga novas idéias. Desorganiza a defesa dos Estados Unidos e põe em risco as vidas de homens e mulheres de uniforme.” Fazendo uma breve pausa em prol do efeito dramático, Rumsfeld – ele próprio um veterano da Guerra Fria – disse então a sua nova equipe: “Talvez esse adversário lembre a antiga União Soviética, mas ela é um inimigo que não existe mais: hoje, nossos inimigos são mais sutis e implacáveis. Talvez vocês imaginem que eu esteja descrevendo um dos últimos ditadores decrépitos do mundo. Mas os dias desses ditadores também estão quase terminados, e eles não são páreo para a força e o tamanho do adversário a que me refiro. Esse adversário está mais perto de casa. É a burocracia do Pentágono.” Rumsfeld estava propondo uma mudança geral na administração do Pentágono, a substituição da velha burocracia do Departamento de Defesa por um novo modelo, baseado no setor privado. O problema, explicou ele, era que, diferentemente dos negócios, “os governos não podem morrer; por isso, precisamos encontrar outros incentivos que façam a burocracia se adaptar e melhorar”. O que estava em jogo, declarou, era assustador – “uma questão de vida e morte, em última instância, para todos os americanos”. Naquele dia, Rumsfeld anunciou uma grande iniciativa para modernizar a capacidade de intervenção do setor privado nas guerras empreendidas pelos Estados Unidos, e previu que sua iniciativa encontraria feroz resistência. “Alguns poderão perguntar: `Como pode o secretário de Defesa atacar o Pentágono diante de seus próprios funcionários?`”, continuou Rumsfeld, dirigindo-se a sua platéia. “A esses, respondo que não tenho intenção de atacar o Pentágono; quero libertá-lo. Nós precisamos salvar esta instituição de si mesma.”

Na manhã seguinte, o Pentágono seria literalmente atacado, quando o vôo 77 da American Airlines – um Boeing 757 – chocou-se contra sua face oeste. Rumsfeld ficaria famoso por ajudar a resgatar corpos dos escombros. Mas não demoraria muito para que ele, o grande mestre do militarismo, aproveitasse a quase inimaginável oportunidade oferecida pelo 11 de setembro para acelerar sua guerra pessoal, exposta apenas um dia antes. O mundo havia mudado de maneira irreversível, e num instante o futuro da mais poderosa força militar do planeta se tornara uma tela em branco, na qual Rumsfeld e seus aliados poderiam pintar sua obra-prima. A nova política do Pentágono dependeria muito do setor privado, daria ênfase a operações secretas, a sofisticados sistemas de armamentos e ao grande uso de forças especiais e de prestadores de serviço. Isso ficou conhecido como a Doutrina Rumsfeld. “Precisamos promover uma abordagem mais empresarial: uma abordagem que incentive as pessoas à pronta ação, e não à reação, e a se comportarem menos como burocratas e mais como capitalistas empreendedores”, escreveu Rumsfeld, no verão de 2002, num artigo para a revista Foreign Affairs intitulado “Transformando os militares”. A abordagem “minimalista” de Rumsfeld abriu a porta para uma das mais significativas tranformações na guerra moderna – o amplo uso de prestadores de serviço, ou contratados, em todos os aspectos da guerra, inclusive em combate.

Entre os que logo receberam chamados da administração para se juntar a uma “guerra global ao terror”, a ser lutada de acordo com a Doutrina Rumsfeld, havia uma companhia pouco conhecida que funcionava em um campo particular de treinamento militar perto de Great Dismal Swamp, um pântano da Carolina do Norte. Seu nome era Blackwater USA. Depois da grande tragédia do 11 de setembro, praticamente da noite para o dia uma empresa que mal existia até poucos anos antes se tornaria peça central na guerra global desencadeada pelo império mais poderoso da história. “Trabalho no ramo de treinamento há quatro anos e estava começando a ficar um pouco cínico quanto à seriedade com que as pessoas encaram a segurança”, disse o proprietário da Blackwater, Erik Prince, ao entrevistador da Fox News, Bill O`Reilly, pouco depois do 11 de setembro. “Agora, meu telefone não pára de tocar.”

Mas a história da Blackwater não começa no 11 de setembro, nem com seus executivos ou mesmo com sua fundação. De certa forma, ela resume a história da guerra moderna. Em essência, a Blackwater é o coroamento da obra de uma vida inteira daqueles que formaram o cerne da equipe de guerra da administração Bush.

Durante a Guerra do Golfo, em 1991, Dick Cheney – grande aliado de Rumsfeld – era secretário da Defesa. Na época, dez por cento das pessoas posicionadas na zona de guerra estava ali por força de um contrato privado, uma porcentagem que Cheney tinha o firme propósito de aumentar. Antes de deixar o cargo, em 1993, ele encomendou um estudo a uma companhia que acabaria por dirigir: a Halliburton. Tratava-se de um estudo sobre como privatizar rapidamente a burocracia militar. Quase da noite para o dia, a Halliburton criaria sozinha uma indústria de prestação de serviços militares aos Estados Unidos no exterior, com um potencial de lucros aparentemente infinito. Quanto mais agressivamente os Estados Unidos expandissem seu alcance militar, melhor para os negócios da Halliburton. Era um protótipo para o futuro. Nos oito anos seguintes do governo Bill Clinton, Cheney trabalhou no American Enterprise Institute, influente grupo neoconservador de pesquisas interdisciplinares que liderou a investida por uma aceleração no processo de privatização do governo e das Forças Armadas norte-americanas. Por volta de 1995, Cheney estava no comando da divisão da Halliburton que se tornaria o maior prestador de serviços de defesa aos Estados Unidos. O presidente Clinton apoiou em grande parte esses planos de privatização, e a empresa de Cheney – assim como outras prestadoras de serviços – fechou lucrativos contratos durante o conflito dos Bálcãs, nos anos 90, e na guerra do Kosovo, em 1999. Em meados da década de 90, uma empresa de consultoria militar baseada na Virgínia, a Professional Resources Incorporated, dirigida por graduados oficiais aposentados, foi autorizada pela administração Clinton a treinar tropas croatas para sua guerra separatista contra a Iugoslávia dominada pelos sérvios; um contrato que em última análise desequilibrou a balança naquele conflito. Esse contrato foi o prenúncio de um tipo de envolvimento do setor privado que se tornaria padrão na guerra ao terror. Mas a privatização foi apenas parte de um programa mais abrangente. Cheney e Rumsfeld foram membros-chave do Projeto para um Novo Século Americano (PNAC), iniciado em 1997 pelo ativista neoconservador William Kristol. O grupo fez pressão para que Clinton promovesse uma mudança de regime no Iraque, e seus princípios, que advogavam “uma política de força militar e clareza moral”, formariam as bases de grande parte da política externa da administração Bush.

Em setembro de 2000, apenas meses antes de seus membros passarem a integrar o núcleo central do governo Bush, o Projeto para um Novo Século Americano lançou um relatório chamado Rebuilding America`s Defenses: Strategy, Forces and Resources for a New Century (Reconstruindo as defesas dos Estados Unidos: estratégia, forças e recursos para um novo século). Ao expor a visão do PNAC sobre a revisão da máquina de guerra norte-americana, o relatório reconhecia que “o processo de transformação, ainda que portador de mudanças revolucionárias, provavelmente será longo, caso não haja algum evento catastrófico ou catalisador – como um novo Pearl Harbor”. Um ano depois, os ataques do 11 de setembro forneceriam o necessário catalisador: uma justificativa sem precedentes para o avanço desse programa radical, moldado por um pequeno núcleo de agentes neoconservadores que haviam acabado de assumir o poder oficial.

Paralelamente às guerras do período posterior ao 11 de setembro, desenrolou-se um subenredo freqüentemente ignorado: o da terceirização e da privatização que esses conflitos possibilitaram. Desde o momento em que a equipe de Bush tomou o poder, o Pentágono abarrotou-se de ideólogos como Paul Wolfowitz, Douglas Feith, Zalmay Khalilzad e Stephen Cambone, bem como de ex-executivos de grandes empresas – muitas delas grandes fabricantes de armamentos -, como o subsecretário de Defesa Pete Aldridge (Aerospace Corporation), o ministro do Exército Thomas White (Enron), o ministro da Marinha Gordon England (General Dynamics) e o ministro da Aeronáutica James Roche (Northrop Grumman). A nova liderança civil do Pentágono chegou ao poder com dois objetivos principais: a mudança de regime em nações estratégicas e a implementação da operação de privatização e terceirização mais abrangente da história militar dos Estados Unidos – uma revolução nos assuntos militares. Depois do 11 de setembro, essa campanha não pôde mais ser detida.

Postado por Carlos André Moreira

Os sonhos e a fragilidade

29 de agosto de 2008 0

Eu precisava de hospedagem. Foi assim que o conheci. Eu queria alguém para dividir o aluguel do quarto comigo. Fomos apresentados por um conhecido comum, nos laboratórios químicos de St. Bart`s.
— Percebo que esteve no Afeganistão — foi isso que ele me disse, e meu queixo caiu e meus olhos se arregalaram.
— Incrível — comentei.
— Na verdade, não — continuou o estranho de jaleco branco que se tornaria meu amigo. — Olhando para o seu braço, vejo que o senhor foi ferido, e de modo peculiar. O senhor é bem bronzeado e tem postura de militar, e há poucos lugares do Império onde um militar pode se bronzear e também, considerando a natureza do ferimento no seu ombro e os costumes dos povos afegãos das cavernas, ser torturado.
Explicado assim, claro, parecia absurdamente simples e lógico. E realmente era. Eu tinha mesmo um bronzeado jambo. E de fato fora, como ele observou, torturado.
Longe de serem sensatos, os deuses e os homens do Afeganistão eram selvagens e se recusavam a ser governados por Whitehall, Berlim ou até Moscou. Eu fora enviado para aquelas colinas junto com o _º Regimento. Enquanto a luta ficou nas montanhas, combatemos em pé de igualdade, mas, quando descemos para a escuridão das cavernas, ficamos encrencados até o pescoço, em larga desvantagem.
Jamais vou esquecer a superfície espelhada do lago subterrâneo, nem a coisa que emergiu dele, seus olhos abrindo e fechando, e os sussurros melódicos que acompanhavam sua entrada em cena, envolvendo-a como o zumbido de moscas gigantescas.
Que eu tenha sobrevivido foi um milagre, mas sobrevivi, e voltei para a Inglaterra com meus nervos em frangalhos. O lugar onde aquela boca de sanguessuga me tocara ficou tatuado para sempre, uma pele branca feito barriga de sapo, no meu ombro, atualmente atrofiado. Eu já fora um exímio atirador. Agora não me restava nada além do medo do mundo subterrâneo, quase um pânico, que me fazia pagar de bom grado seis pence da minha pensão militar por uma charrete em vez de um penny para viajar de metrô.
Ainda assim, as névoas e a escuridão de Londres me confortavam, me acolhiam. Eu perdera minha moradia anterior porque gritava à noite. Eu estivera no Afeganistão, mas não estava mais lá.

***

O trecho acima é do conto Um Estudo em Esmeralda, no qual o escritor, roteirista de cinema e TV e mundialmente conhecido autror de quadrinhos Neil Gaiman tenta realizar um cruzamento no mínimo improvável entre dois universos que parecem misturar-se tão bem quanto água e azeite: o dos “antigos” de H.P. Lovecraft e o do Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle

Holmes, saberá qualquer um que tenha lido, ainda que distraidamente, um livro protagonizado por ele, é a encarnação do espírito racionalista vitoriano: um mestre das astúcias, gênio do raciocínio dedutivo e um dos poucos personagens que, criados na literatura, extravazaram sua condição até ganhar lugar no imaginário, ao ponto de ser conhecido mesmo por quem nunca o leu. Holmes encarna os ideais do cientificismo do século 19: qualquer mistério tem uma solução, desde que se investigue com cuidado os indícios certos pelo método adequado.

Como provavelmente um número bem menor de pessoas deve saber, Lovecraft opera no extremo oposto, e seus contos de horror abordam as sombrias charnecas do inconsciente, as camadas mais escuras da imaginação humana, onde coisas gosmentas com tentáculos viscosos e ventosas de toque gélico aguardam para tomar posse do mundo e dilacerar a frágil raça humana.

Gaiman recebeu a encomenda de um conto juntando os dois universos, e o resultado é a história que abre Coisas Frágeis, sua mais recente coletânea lançada no Brasil. Uma série de narrativas curtas nas quais Gaiman realiza o que pode ser considerada sua marca, a criação de atmosferas que fundem o horror, o gótico, a fantasia e partem de referências variadas, da literatura infantil clássica, como o conto O problema de Susan, no qual retoma um dos personagens de As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, até uma ilustração do mestre dos quadrinhos Frank Frazetta, cuja visão inspira Gaiman a criar Os fatos no caso da partida da sra. Finch, no qual uma visita ao que deveria ser um inofensivo e até decadente show circense termina de forma inesperada. Nestes contos, contudo, o desenho das personalidades dos personagens é um pouco menos rico do que na outra coletânea de narrativas curtas de Gaiman, a mágica Fumaça e Espelhos. Centrado mais no desenvolvimento da fábula narrativa e muito calcado em diálogos, algumas vezes os contos apresentam personagens de pouca densidade, como figuras rasas plasmadas diretamente dos quadrinhos — uma das histórias em particular, Lembranças e Tesouros, foi escrita originalmente como história em quadrinhos e depois transportada para a literatura, onde ganhou um pouco no aprofundamento da psique do personagem principal, embora mesmo isso nessa história pareça insuficiente. Em outros textos, como no próprio Um Estudo em Esmeralda do qual se lê um trecho nesta página, a inventividade da narrativa compensa com sobras essa profundidade algo cartunesca da psicologia dos personagens. E em A vez de outubro, uma história que claramente parece escavada dos tempos de Gaiman à frente da série de HQ Sandman, uma atmosfera poética e triste de uma infância perdida torna o conto um dos melhores da coletânea.

Ah, sim, um último comentário, que não deixa de trazer consigo uma nota irritante: como o próprio Gaiman, convidado da Flip deste ano, revelou na festa literária, a edição da Conrad traz só metade dos textos publicados originalmente nos Estados Unidos. Quem conhece o livro em inglês vai notar que bailaram nesse corte a facão contos como Os outros e poemas narrativos que são também marca característica de Gaiman. O corte não é explicado pela editora no livro nem ao menos justificado, uma vez que a própria Conrad lançou Fumaça e Espelhos há alguns anos com uma mescla de narrativas e poemas sem que o volume ficasse pior por isso. FIca a dica.

Contos daqui aqui

28 de agosto de 2008 4

Faz algum tempo o leitor que se intitula PC, o PC, deixou uma sugestão na caixa de comentários e eu achei tão boa que resolvi pô-la em prática.

A partir deste sábado, ao meio dia, entra no ar aqui neste blog uma série que pretende apresentar aos nossos leitores a cada 15 dias um conto completo de um autor gaúcho, bem como uma breve apresentação biobibliográfica. A idéia é levar até vocês por aqui um pouco da literatura dos escritores gaúchos que estão por aí, produzindo, atuando, fazendo a cena literária. 

Óbvio que tudo isso sempre necessita da autorização dos autores, etc, então, para garantir a continuidade da série, a idéia é que ela seja publicada de 15 em 15 dias, de dois em dois sábados (ajuda na logística, fica mais seguro manter o processo em andamento e evita que eu tenha de pular uma ou outra edição. Desculpem, folks, mas infelizmente tenho de, com o tempo que disponho, apresentar metas plausíveis).

Portanto, acessem o blog a partir de meio-dia de sábado para acompanhar o Conto da Quinzena

Postado por Carlos André Moreira

Voltando

28 de agosto de 2008 0

Ok, andamos numa pausa de contingência, então o ritmo meio que desacelerou aqui neste espaço. Agora, este blog vai ficar outra vez movimentado, posso garantir. Abração a todos.

Postado por Carlos André Moreira

A fluidez do medo

21 de agosto de 2008 2

A despeito de qualquer outra nobre intenção do autor, o filme Desejo e Reparação, baseado na obra de Ian McEwan, tem o poder de despertar no espectador uma reflexão rasa, mas quase inevitável para quem sai do cinema de mãos dadas e cega os olhos diante do ambiente iluminado, seguro e aparentemente feliz do shopping center. Depois de duas horas assistindo à tragédia particular de um casal, parece ficar flagrante o abismo que há entre aquele mundo da primeira metade do século 20 — quando a qualquer momento uma carta convocando para lutar em uma guerra poderia chegar e arruinar para sempre a trajetória de um amor — e o atual, em que provavelmente o único perigo enfrentado pelo casal que foi ao cinema é o de que a relação caia no tédio depois de mais alguns domingos repetindo aquele programa.

Esta aparente sensação de segurança do indivíduo diante de um mundo sujeito a poucas intempéries do tipo que nossos avós costumavam enfrentar – guerras intercontinentais, epidemias, fascismo – é, no entanto, uma armadilha, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Em Medo Líquido (Jorge Zahar, R$ 29,90, 240 páginas), publicado este ano, o autor que se tornou um best-seller ao aproximar a sociologia do cotidiano dá seqüência ao estudo do mundo atual à luz de sua teoria líquida.

Depois de escrever Modernidade Líquida, Amor Líquido, Tempos Líquidos e Vida Líquida — sempre tendo como norte a volatilidade e a instabilidade das relações atuais —, o polonês mira agora na insegurança. Para descrever a trajetória deste sentimento e decifrar por que continuamos apavorados, em pleno século 21, Bauman retrocede para além da II Guerra de Desejo e Reparação. Reimagina a experiência de se existir no século 16, que foi definida por Lucien Febvre como “peur toujour, peur partout” (medo sempre e em toda parte). O historiador francês vinculava a ubiqüidade do medo à escuridão do mundo, que começava do lado de fora da casa. A modernidade seria o grande salto à frente: com o avanço das ciências, chegaria o tempo do fim das surpresas, das calamidades, das catástrofes. Mas não foi bem assim: “O que deveria ser uma rota de fuga, contudo, revelou-se, em vez disso, um longo desvio. (…) Esta nossa vida tem se mostrado diferente do tipo de vida que os sábios do Iluminismo
e seus herdeiros avistaram e procuraram planejar”,constata Bauman.

Refletidas nas capas de revista dedicadas à saúde e nas “advertências globais” (gripe das aves, bug do milênio, ondas assassinas) que se multiplicam a cada dia, a sensação de medo, segundo Bauman, é indissociável do contexto descrito por ele em Modernidade Líquida — livro que reúne suas teses centrais:

Viver num mundo líquido-moderno conhecido por admitir apenas uma certeza — a de que o amanhã não pode ser, não deve ser, não será como hoje — significa um ensaio de desaparecimento, sumiço, extinção e morte.”

Os perigos atuais seriam basicamente de três tipos: aqueles que ameaçam o corpo e as propriedades, aqueles que ameaçam a durabilidade da ordem social (da qual dependem renda e emprego) e aqueles que ameaçam o lugar da pessoa no mundo (a posição na hierarquia social, a imunidade à exclusão social). O Estado, em vista dos mercados crescentemente extraterritoriais, não é mais capaz de cumprir seu dever de proteger os cidadãos das ameaças à existência.

Os medos também são classificados por Bauman em três tipos: o da natureza (terremotos, furacões, secas), o de outras pessoas (terroristas, criminosos, poluição) e um terceiro tipo, descrito como “uma zona em que as redes saem do ar, barris de petróleo secam, bolsas de valores entram em colapso e companhias desaparecem do dia para a noite levando consigo centenas de empregos”.

Neste contexto, os cartões de crédito seriam uma reação: “Vivemos a crédito: nenhuma geração passada foi tão endividada quanto a nossa. Viver à crédito tem seus prazeres utilitários: por que retardar a satisfação? (…) Se as cadernetas de poupança implicam a certeza do futuro, um futuro incerto exige cartões de crédito.”

Bauman interpreta ainda fenômenos recentes como o programa de televisão Big Brother e o terrorismo. Por fim, dedica um capítulo às maneiras de se lidar com o medo — capítulo que se revela desnecessário. O mérito de Bauman — reafirmado em mais este livro — é justamente o de não oferecer respostas prontas, mas deixá-las implícitas na dissecação que faz da realidade. Ao propor um grande divã da humanidade, nos faz pensar se não estamos, o tempo todo, exagerando um pouquinho.

Postado por Gabriel Brust

Verissimo mundo

20 de agosto de 2008 1

Verissimo autografa na Feira do Livro de Porto Alegre em 2004. Foto: Adriana Franciosi/ZH

A próxima sexta é dia de fila quilométrica na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre (Túlio de Rose, 100, 2º piso). Depois de uma década sem compilar suas crônicas em livro, Luis Fernando Verissimo autografa às 19h30min seu livro novo, O Mundo é Bárbaro: e o que nós temos a ver com isso (Objetiva, 160 páginas, R$ 29,90), um volume que reúne 69 textos produzidos nos últimos oito anos e já publicados nos jornais nos quais o escritor é colunista: O Globo, Estado de São Paulo e Zero Hora. A obra de Verissimo nunca saiu de catálogo, e já mudou de editora três vezes nesse período, mas tudo o que veio a público em termos de livro de crônicas foram republicações mudando a ordem e o conceito temático de algumas crônicas antigas. Agora, são textos novos, produzidos de 2000 para cá.

Como vocês leram na matéria de hoje do Segundo Caderno, as crônicas de O Mundo é Bárbaro: e o que nós temos a ver com isso são textos de cunho mais político, voltados às grandes preocupações do mundo, como a tensão no Golfo, as eleições americanas, a ascensão da China como superpotência, os paradoxos sociais e morais brasileiros.

E como havíamos prometido na página 6 do Segundo Caderno de hoje vai abaixo uma das crônicas de Verissimo presentes no livro. Deleitem-se:

Começar de Novo

Há tempos li uma boa comparação: a China é como a internet. Todo o mundo sabe que uma coisa daquele tamanho, com tanto público, tem que ser um sucesso comercial e dar lucro. Mas ninguém ainda sabe exatamente como.

Não falta gente tentando descobrir. O tamanho do mercado potencial chinês, mais de 1 bilhão de pessoas, derrotou as restrições americanas ao velho inimigo comunista e suas violações de direitos humanos, pois, se não se perde muita coisa bloqueando Cuba, despreza-se quase um quarto da população mundial discriminando a China. E os chineses estão sendo tão pragmáticos quanto os americanos. Com sua abertura controlada para investimentos externos e multinacionais, quintuplicaram sua economia nos últimos 20 anos. Mas li que as esperanças mais otimistas, de gente que sonhava com fortunas instantâneas se conquistasse apenas meio por cento do mercado chinês, estão sendo frustradas. Descontando-se os 900 milhões de camponeses e os urbanos economicamente marginalizados, sobra uma classe média equivalente à dos Estados Unidos, com  uma renda média muito inferior e hábitos de poupança mais conservadores. Algumas empresas, como a Coca-Cola, claro, e a Motorola, estão dando certo no complicado mercado chinês, mas 60% dos investidores estrangeiros ainda não  ganharam nada, e os que ganham, ganham pouco. Uma das coisas com que os estrangeiros não contavam é que haveria empresas chinesas, mais acostumadas com a burocracia e a corrupção locais, disputando o mesmo mercado. De qualquer maneira, como no caso da internet, cedo ou tarde a lógica prevalecerá. E estaremos todos produzindo para vender na China — e comprar da China.

Que país de tamanho parecido com o nosso serviria como modelo para o Brasil, excluídos os próprios Estados Unidos? Para defender uma imitação da China, só fazendo como aquele enólogo francês contratado para produzir vinhos iguais aos da França na Califórnia que, depois de plantadas as videiras e instalados os equipamentos, disse: “Pronto, agora é só esperar 300 anos”. Além de 3 mil anos de civilização, precisaríamos passar por algumas revoluções para chegar ao mesmo ponto, depois de decidir se o sucesso valeria tanto sangue. (Desconfie sempre dos que pregam banhos de sangue, eles sempre se referem ao sangue dos outros.) A Índia parecia um exemplo do que se queria evitar, um Brasil levado às piores conseqüências. Hoje é um exemplo de desenvolvimento acelerado mas a partir de coisas que aqui ainda parecem remotas — como uma reforma agrária de verdade, por exemplo. O Canadá seria um bom modelo, mas grande parte do Canadá é só paisagem, sem gente. E o frio? A Rússia trocou o capitalismo de Estado pelo gangsterismo privado, também não serve. A Austrália pelo menos desmente aquelas pessoas que dizem que o problema do Brasil foi a qualidade da  nossa colonização por Portugal. Foi povoada por degredados e prostitutas e deu no que deu. A Argentina? Precisaríamos ser argentinos.

O grande modelo para o Brasil dar certo talvez seja o próprio Brasil — nenhum outro tem as mesmas características, história etc. É só começar de novo — desta vez com muito petróleo!

Postado por Carlos André Moreira

O preço da persuasão

19 de agosto de 2008 5

Amanda Root como Anne Elliott na adaptação cinematográfica do livro, de 1997

Última obra publicada da autora inglesa Jane Austen (1775 — 1817), o romance Persuasão (Landmark, 240 páginas, R$ 33,50), que andava meio difícil de ser encontrado nas prateleiras do Brasil, tem agora nova edição. A nova tradução ficou a cargo de Fábio Cyrino, também diretor editorial da mesma Landmark que recentemente publicou uma versão nova de Orgulho e Preconceito. Ambas as edições saindo em edição bilíngüe, justapondo a versão em português e o original da autora que é considerada uma das mais elegantes estetas da palavra em língua inglesa.

Persuasão foi publicado apenas em 1818, um ano após a morte da escritora. Assim como em suas outras obras, Emma, Razão e Sensibilidade e a que é hoje considerada sua obra-prima, a já mencionada Orgulho e Preconceito, para citar apenas algumas, em certa medida Persuasão traz as características marcantes da obra de Jane: as protagonistas são mulheres da sociedade britânica do período, muitas vezes precisando optar entre um casamento de conveniência e uma paixão pouco recomendável por questões de fortuna ou de classe.

O texto sutil e leve da britânica também a tornou uma das autoras preferidas do cinema em tempos recentes. O próprio Persuasão ganhou uma versão recente, de 1997.
— As personagens de Jane Austen buscam o amor, o romance, não têm grandes compromissos. Mas é possível ver sob essa primeira camada de leitura o retrato de outros temas, como o choque da burguesia e da nobreza. Ela escreveu em um período de grandes transformações sociais na Inglaterra, passando pela migração rural para a grande cidade, o fim de uma nobreza aristocrática do campo — comenta o tradutor Fábio Cyrino.

O enredo de Persuasão é em si mesmo um exemplo desse retrato sutil do período nas entrelinhas de uma história romântica. A protagonista, Anne Elliott, pertence a família nobre, porém financeiramente falida. Na juventude, apaixona-se por um capitão da marinha, Frederick Wentworth. Um homem sem berço mas com
muita ambição, uma representação do burguês que se faz por si mesmo que tomava conta do cenário no período, em substituição à aristocracia já sem condições financeiras de manter por si própria seu ocioso padrão de vida. Ainda
assim, a origem humilde do rapaz provoca a imediata desaprovação da família de Anne, que a força a interromper o romance. Anos depois – irreparavelmente solteira pela intransigência da família, ela reencontra seu antigo pretendente. Agora a situação de sua família arrivista está nas mãos de um curador, Admiral Croft, que vem a ser o cunhado de Wentworth, agora promovido e em boa situação financeira devido a seus feitos na guerra contra Napoleão. A ciranda de relações entre os personagens não termina aí. Wentworth agora está cortejando uma vizinha dos Elliott.

Em termos estilísticos, contudo, Persuasão não é nem de longe o melhor trabalho de Jane Austen. Era bastante conhecido seu obsessivo hábito de voltar diversas vezes ao manuscrito, retrabalhando não apenas a linguagem mas as cenas, a estrutura mesma do romance. Foi algo que ela não teve tempo de fazer com Persuasão, obra póstuma, publicada em 1817, no ano posterior a sua morte.

Postado por Carlos André Moreira

Um capa e espada para o século 21

18 de agosto de 2008 0

O que o século 17 pode ter a dizer ao século 21? É essa a pergunta que faz ao leitor
a série de romances de capa-e-espada protagonizada pelo espadachim Capitão Diego Alatriste y Tenório, criado em 1996 pelo escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte, que já tem seis livros lançados em sua terra natal, dois deles traduzidos para o Brasil: O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, ambos pela Companhia ds Letras.

Arturo Pérez-Reverte é conhecido do leitor brasileiro apreciador de obras de fantasia por livros como A Carta Esférica ou O Clube Dumas (que foi adaptado para o cinema como O Último Portal, com Johnny Depp). Na Espanha, as aventuras de Alatriste, que além dos seis episódios ainda deve ganhar outros três nos próximos anos, são uma espécie de fenômeno pop nacional: viraram história em quadrinhos (a imagem que ilustra este post saiu de uma delas, a adaptação “oficial” do primeiro livro, feita por Carlos Giménez e Joan Mundet), bonecos, jogos de tabuleiro, até mesmo, em 2002, uma série de estampas de selos do correio espanhol. E, recentemente, foi adaptado em um filme, dirigido por Agustín Díaz Yanes e estrelado pelo “Aragorn” Viggo Mortensen, interpretando em espanhol.

Tecnicamente, o que de cara já surpreende pelo anacronismo, Alatriste filia-se ao chamado gênero de literatura capa-e-espada (muito popular no século 19), aquele que reúne espadachins heróicos e galantes, amores tumultuosos, aventuras tortuosas e conspirações. Alatriste é um ex-militar e hoje mercenário que vive uma vida instável, sem recursos na Espanha dos anos 1600 — o esplendoroso período conhecido por Século de Ouro, mas que não oculta uma decadência subterrânea que ainda levará à queda do poderoso império espanhol. Pobre, porém altivo, Alatriste serviu nas guerras espanholas contra os holandeses em Flandrers, onde provou sua bravura e sua habilidade com a espada, mas um homem como ele, impetuoso, pouco político e de grande coragem física, é um incauto nas batalhas políticas tão ou mais cruentas que tomam lugar na corte, e o outrora valente capitão é hoje um mercenário como tantos outros, com a algibeira sempre vazia e alugando sua destra espada a quem melhor pagar. Por vezes, vale-se da caridade da mulher que o ama, uma prostituta chamada Caridad, La Lebrijana.

Os dois volumes já lançados no Brasil, O Capitão Alatriste e Limpeza de Sangue, têm estrutura semelhante. A história é sempre narrada do ponto de vista do jovem pajem de Alatriste, Iñigo Balboa, órfão, filho de um ex-companheiro de armas de Alatriste e que foi entregue ao herói para ser criado por ele em nome da amizade que unia os dois homens. O enredo também segue uma seqüência similar de episódios: nos dois, atendendo ao pedido de um amigo, Alatriste aceita um trabalho que se revela mais do que aparenta.

No primeiro volume, contratado por homens misteriosos para assassinar dois desconhecidos, Alatriste não realiza o serviço que lhe foi encomendado, topa com uma intriga internacional e se enreda nos gabinetes da monarquia, contrariando a poderosa Igreja Católica. No segundo volume, um pedido para que Alatriste invada uma casa e recupere uma jovem raptada revela-se uma cilada que leva o herói aos porões da Inquisição.

O inusitado em Alatriste é que suas aventuras, escritas para lembrar os clássicos capa-e-espada espanhóis como Tirso de Molina e Manuel Fernández González, entremeiam duelos e traições com digressões anacrônicas sobre a Inquisição, a religiosidade, o poder, a política e a honra, algumas que poderiam ser aplicadas como comentários da nossa realidade contemporânea.

Um tributo moderno à história do passado.

Postado por Carlos André Moreira

O novo Paul Auster

15 de agosto de 2008 0

Confira na edição de sábado do Segundo Caderno da Zero Hora uma matéria sobre Homem no Escuro, o novo livro do norte-americano Paul Auster. Por hora, fique aí com um trecho do livro, que está chegando às lojas. (Dica 1: para entender o contexto do trecho, leia a reportagem da edição de sábado. Dica 2: o diálogo é assim mesmo, sem travessões ou aspas para identificar as falas.)

Como sabe o meu nome?

Você é do meu pelotão, seu pateta.

E aquele buraco? O que eu estava fazendo lá dentro?

É o procedimento normal. Todos os recrutas chegam até nós desse jeito.

Mas eu não me alistei. Não entrei para o exército.

Claro que não. Ninguém faz isso. Mas é assim mesmo que acontece. Uma hora a gente está lá, vivendo a nossa vida, e de repente está no meio da guerra.

Brick fica tão confuso com as afirmações de Tobak que nem sabe o que dizer.

É assim mesmo, matraqueia o sargento. Você é o otário que eles apanharam para a grande missão. Não me pergunte por quê, mas o estado-maior acha que você é o melhor homem para a missão.

Talvez porque ninguém conheça você, ou talvez porque você tenha esse… esse o quê, mesmo?… esse seu jeitinho manso e ninguém vai desconfiar que você é um assassino.

Assassino?

Isso mesmo, assassino. Mas eu prefiro usar a palavra libertador. Ou então criador da paz. Chame do jeito que quiser, o fato é que sem você a guerra não vai terminar nunca.

Brick gostaria de cair fora dali rapidamente, mas, como não estava armado, não foi capaz de pensar em mais nada para fazer senão continuar a representar seu papel. E quem é que eu tenho de matar?, pergunta.

Não é tanto quem, mas o quê, responde o sargento enigmaticamente.

A gente nem tem certeza do nome dele. Pode ser Blake. Pode ser Black. Pode ser Bloch. Mas temos um endereço, e, se a esta altura ele já não tivesse escapulido, você não teria dificuldade alguma. Vamos levar você até um contato lá na cidade, você vai usar um disfarce, e em poucos dias tudo deve estar terminado.

E por que esse homem merece morrer?

Porque ele é o dono da guerra. Ele inventou a guerra, e tudo o que acontece ou vai acontecer está na cabeça dele. Elimine essa cabeça, e a guerra pára. É muito simples.

Simples? Você fala como se ele fosse Deus.

Deus, não, cabo, apenas um homem. Fica sentado numa saleta o dia inteiro escrevendo, e tudo o que ele escreve vira verdade. Os relatórios do serviço secreto dizem que ele anda atormentado pela culpa mas não consegue parar. Se o sacana tivesse coragem para estourar os miolos, nós não estaríamos aqui tendo esta conversa.

Texto de Gabriel Brust