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Posts de setembro 2008

Cumprindo promessas

30 de setembro de 2008 0

Me atrasei com a publicação do Conto da Quinzena desta… quinzena (dã) porque resolvi mudar a pauta devido a um motivo especial. Estará no ar esta madrugada de terça, ok?

Abraço.

Postado por Carlos André Moreira

Bate-bola literário

25 de setembro de 2008 1

Ano passado, um jovem blogueiro chamad Lucas Murtinho teve uma das idéias mais luminosas para pôr a leitura na pauta da internet: criou a Copa de Literatura Brasileira. Selecionou um determinado número de romances publicados no ano, organizou-os numa tabela de “jogos” e entregou cada uma a um “juiz”, algum blogueiro que fala de literatura na rede. O sujeito lia os dois livros, comparava, escrevia um texto esmiuçando suas opções e dava a vitória a um dos livros, que avançava no mata-mata para as chaves seguintes, onde passaria pelo mesmo processo com os vencedores dos outros “jogos”.

Ao fim da copa, o gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil venceu com Música Perdida.

A boa repercussão da brincadeira garantiu a continuidade do projeto e já começou a Segunda Edição da Copa de Literatura Brasileira, que você acompanha neste link. São 16 romances disputando o título, e o interessante é que, para esta edição, finalistas da edição passada foram chamados como “juízes” das etapas finais: além de Assis Brasil, Sérgio Rodrigues e André Sant`Anna.

Por enquanto, estamos apenas no primeiro jogo da primeira fase e já surgiu a primeira polêmica. O jurado Nelson de Oliveira, autor de romances e contos de forte viés exerimental no tratamento da linguagem e do enredo — e eterno culpado pela geração que começou a publicar nos últimos 10 anos ganhar o adjetivo “transgressor” como um carimbo na testa —, comparou O Sol se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho, e O Amor não Tem bons Sentimentos, de Raimundo Carrero. Provando que nessa copa, como no futebol de verdade, o que decide é um detalhe nem sempre justo, Oliveira baseou-se na, digamos, familiaridade maior entre seu estilo “histriônico e carnavalesco” e o de Carrero para dar a este a vitória (eu, sujeito que odeia Carnaval com todas as suas forças, tomaria a decisão contrária). E já começaram a pipocar as manifestações de insatisfação com o texto demasiado sintético com que Oliveira justifica suas escolhas. O fato é que a brincadeira fantástica da Copa de Literatura está de volta. Acessem o site, acompanhem os concorrentes, as partidas e o histórico da copa anterior.

Quem tiver vontade, que torça, também.

Postado por Carlos André Moreira

Pink Borges

24 de setembro de 2008 12

Como dizem lá na minha terra: “com essa me caiu os butiá do bolso”.

Em entrevista concedida há pouco mais de uma semana para a BBC, María Kodama, a viúva do escritor argentino Jorge Luis Borges, revelou que o homem que traduziu Kipling, que estudava o Beowulf na língua saxônica original e que criou alegorias intelectuais de refinamento estético desconcertante gostava de ouvir… Pink Floyd.

Sim, claro, exagerei para que a frase ficasse melhor, afinal, uma das facetas da obra de Borges é justamente unir a forma da exegese intelectual refinada com a paródia de gêneros populares e popularescos como a poesia gauchesca, a história policial e o romance de espionagem, todos retrabalhados com o gênio do escritor em um momento ou outro.

Mas para quem acreditava que um sujeito que poderia morar a vida numa biblioteca se daria melhor com a música clássica, Kodama advertiu, no trecho da entrevista que eu traduzi abaixo:

Que tipo de música Borges escutava?
Ele dizia que era um surdo musical, porque tinha ouvido apenas para a música da palavra. E dizia coisas como por exemplo que Beethoven não o agradava, o que produzia horror sagrado em todos os especialistas. Mas ele gostava de Brahms, Bach, a música antiga, medieval, a música folclórica, a milonga e os “tangos de la guardia vieja”, como dizia. Achava que Gardel havia arruinado o tango.

Por quê?
Porque o havia tornado “sentimental e chorão”. Contudo, me dizia que os “tangos de la guardia vieja” eram como as milongas: tinham letras divertidas, de duplo sentido. Gostava disso e, mais tarde, de coisas divertidas como os Beatles, os Rolling Stones, Pink Floyd.

Pink Floyd?
Sim, encantavam-no. Tanto é assim que o hino para seu aniversário não era o “Happy birthday”, mas The Wall.

Como ele descobriu a banda?
Não sei. O filme The Wall é formidável, e o vimos uma infinidade de vezes. Em um momento creio que sabia de memória os diálogos. Ele gostava desse tipo de música porque dizia que era uma coisa de enorme força, terrível mas vital.

E os Rolling Stones?
Encantavam-no, também dizia que tinham uma força incrível. Um dia estávamos no hotel Palace de Madri, esperando que viessem nos buscar para a ceia, e vejo que Mick Jagger se aproxima. Se ajoelha, pega a mão de Borges e diz: “Mestre, sou seu admirador”. Borges, um pouco assombrado, não o via, diz: “E você quem é, senhor?. E ele responde: “Sou Mick Jagger”. E Borges diz: “Ah, um dos Rolling Stones”. Mick Jagger quase desmaia e pergunta: “Como, mestre, o senhor me conhece?”. E Borges diz: “Sim, graças a María”.  Eu havia contado a Borges que em um filme que se chama Performance aparece uma grande fotografia de Borges e crio que também Mick Jagger lendo Borges.

 

Sem esquecer, obviamente, que Kodama sempre foi uma personagem controversa na biografia de Borges, criticada por amigos mais antigos do autor como alguém que assumia um protagonismo algo xarope na vida do autor argentino e afastava-o da família e amigos. Ainda assim, fica o registro. A entrevista completa, em espanhol, pode ser lida aqui.

 

Postado por Carlos André Moreira

Saem vencedores do Jabuti

23 de setembro de 2008 0

A Câmara Brasileira do Livro divulgou ontem os três vencedores em cada uma das 20 categorias do Prêmio Jabuti, a mais tradicional premiação literária do Brasil, que completou 50 anos este ano. O vencedor da categoria Romance, confirmando uma expectativa que já havia se formado desde que a lista de finalistas de cada categoria havia sido divulgada, foi O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, dilacerante relato da convivência de um pai com seu filho com Síndrome de Down. O gaúcho Moacyr Scliar foi escolhido o terceiro colocado na categoria Biografia por sua obra misto de memória e biografia O Texto, ou: A Vida. A mesma categoria foi vencida por Marco Antônio de Carvalho, com Um Cigano Fazendeiro do Ar, relato sobre a vida de Rubem Braga — incluindo os meses que o maior cronista brasileiro passou em Porto Alegre.

Os melhores livros do ano nas categorias Ficção e Não-Ficção serão conhecidos na cerimônia de premiação, dia 31 de outubro, na Sala São Paulo.  Foram analisadas 2.141 obras _ 4% a mais que em 2007, quando participaram 2.052 publicações. A premiação total do Jabuti 2008 é de R$ 120 mil _ que o primeiro lugar de cada uma das 20 categorias recebe R$ 3 mil. Os autores dos melhores livros do ano de Ficção e Não-Ficção recebem R$ 30 mil cada um.

O primeiro vencedor do Jabuti, foi o romance Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado. Nesses 50 anos, também foram premiados autores como Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Celso Furtado, João Cabral de Melo Neto, Nélida Piñon, João Ubaldo Ribeiro, Ruy Castro, Milton Hatoum, Lygia Fagundes Telles, Cecília Meirelles, Otto Maria Carpeaux, Celso Lafer, Gilberto Freyre, Dalton Trevisan, Ferreira Gullar, Antonio Candido, Cassiano Ricardo, Milton Santos, Ruth Rocha, Haroldo de Campos, Raduan Nassar, Paulo Duarte, o patrono da Feira do Livro, Charles Kiefer, entre outros.

Postado por Carlos André Moreira

Efeito Tela Grande...

22 de setembro de 2008 4

Como é de se esperar que façam, editoras aproveitam qualquer oportunidade para aumentar um pouco a venda de seus livros, e isso inclui aproveitar a ferramenta monumental de marketing que é um filme baseado em um determinado livro. Pense um pouco o leitor: quantas obras recentes o considerado já viu nas prateleiras com edições novas reproduzindo a imagem do cartaz do filme?

Dou uma ajuda. Peguemos uma das maiores editoras do Brasil, a Record, e vejamos quantos livros ela pôs no mercado nos últimos anos com capas que remetem diretamente a imagens ou ao cartaz de um filme baseado na obra? as edições novas de Dália Negra, de James Ellroy, de o Perfume, de Patrick Süskind, e de Cassino Royale, de Ian Fleming.  E primeiras edições de Notas sobre um Escândalo, de Zoë Heller, e de Fora de Rumo, um livro que eu não li, de um autor que não me lembro, mas que me reputaram muito ruim e que gerou um filme particularmente horrível com Jennifer Aniston e Clive Owen.

A L&PM lançou há alguns anos, em formato pocket, Netto Perde sua Alma, de Tabajara Ruas. com uma foto de Werner Schünemann como o general farroupilha, ligando o filme ao livro.

E a Companhia das Letras colocou na capa de Olga um frame da adaptação para o cinema dirigida há alguns anos por Jayme Monjardin, substituindo a foto de Olga Benário pelos grandes olhos tristes de Camila Morgado no filme.

Quando veio a Porto Alegre lançar sua biografia de Paulo Coelho, a propósito, Fernando Morais, o autor de Olga, comentou que o efeito “tela grande” é realmente assombroso na venda de um livro. Depois do lançamento de Olga, o filme, sucesso de público do cinema brasileiro recente, Olga, o livro, que nunca esteve fora de catálogo e sempre vendia, de acordo com Morais, uns 70 ou 80 exemplares por mês, pulou para a casa das centenas de exempares vendidos mensalmente logo depois da estréia da produção.

Claro que, como todo recurso desses, a taxa de sucesso vai depender de fatores que dizem respeito ao livro E ao filme. A Martins Fontes há alguns anos estampou uma cena épica do filme de Peter Jackson na capa da edição completa de O Senhor dos Anéis juntando os três livros da saga de J.R.R. Tolkien em um único volume, mas aí trata-se, obviamente, de uma superprodução de cinema-pipoca associada a um dos livros mais objeto de culto de nerds mundo afora. O Perfume e Dália Negra, já citados, eram livros cult antes de virar filme.

E agora, aproveitando a onda da adaptação de Fernando Meirelles para Ensaio sobre a Cegueira, a Companhia das Letras lançou novas edições do livro com diferentes capas que retratam “frames” do longa, aguardadíssimo por aqui antes mesmo de estrear pela popularidade de José Saramago no Brasil (a rigor o único autor português contemporâneo realmente famoso por estas bandas, além de único autor em português a ganhar o Nobel) e pela onda que se faria de qualquer modo pela adaptação estar nas mãos de Meirelles, diretor de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel (que, a propósito, também foram relançados pela Companhia e pela Record, respectivamente, com capas que remetem a cenas dos filmes). Um deles mostra Julianne Moore, a “mulher do médico” no escuro, à luz de um fósforo ou isqueiro, no que é provavelmente uma cena dentro do hospital para onde os contaminados pela “epidemia branca” são confinados ou mais adiante, em algum dos prédios pelos quais o bando de desgarrados perambula depois de todo mundo deixar o sanatório para encontrar um cenário de desolação – o mesmo cenário no qual a trupe de cegos se movimenta, guiados por ela, na outra capa, que traz uma das cenas filmadas em São Paulo.

A Companhia já havia liberado essas edições novas em junho, antes mesmo de o filme estrear, apostando na curiosidade provocada pelo livro. E pelo que temos visto das listas de mais vendidos que as livrarias nos mandam, tem funcionado. Ensaio sobre a Cegueira está no topo do ranking da Livraria Cultura e é o nono na lista da Saraiva – a da Saraiva não discrimina ficção e não-ficção, a da Cultura sim. De qualquer forma, ótimos resultados para uma obra que já tem uma década de lançamento mas que, provavelmente graças ao filme, está conquistando novos leitores.

 

Vaga Divagação

22 de setembro de 2008 4

Entro nas Lojas Americanas para comprar um copo em substituição de outro que eu quebrei ao lavar e, ao passar pela mirrada estante de livros do estabelecimento, vejo A Misteriosa Chama da Rainha Loana, de Umberto Eco, em promoção por R$ 10. Tá certo que não é O Nome da Rosa, mas é um livro com uma proposta artística clara.

Na prateleira de cima, O Vencedor Está Só, de Paulo Coelho, está por R$ 39.

Tento não ver nesse simples arranjo de estante um sinal dos tempos, mas é difícil

Postado por Carlos André Moreira

Luz Perigosa

22 de setembro de 2008 0

Abimael Guzmán Reinoso nasceu em 3 de dezembro de 1934 em Mollendo, Arequipa. Como seus pais não eram casados um com o outro, foi registrado como “filho natural” de Abimael e Berenice. Mas Berenice se mudou para duas ruas adiante de onde morava o pai do menino, para uma casinha amarela de madeira, com dois quartos, que o senhor Abimael visitava durante as noites.

Todas as fontes dizem que Berenice morreu quando o filho tinha uns 10 anos. Mas Susana diz que ela não morreu? abandonou-o. E o menino tinha 8. Segundo Susana, “Berenice não era má, e sim uma mulher muito sofrida que havia querido se garantir na vida”. Para uma mulher na Arequipa daquela época, “se garantir na vida” significava ter um filho de um homem rico para lhe exigir casamento. Berenice não foi a única a outorgar descendência ao senhor Abimael. Mas ele, embora concordasse em colaborar com os gastos das crianças, teve para todas as mães a mesma resposta: “Não tenho culpa se as mulheres fazem projetos comigo, deveriam me consultar antes.”

Por fim, Berenice encontrou outro com quem se casar, um homem que morava em Puno, 4 mil metros acima do nível do mar. Berenice achou que o filho não resistiria à altitude. Ou, talvez, que ela mesma não resistiria ao filho. E decidiu se mudar sem ele. Abimael foi entregeue a um tio que morava em El Callao, e que o receberu com as seguintes palavras: “Bem, tomara que sua mãe afinal encontre a felicidade.” Essa é quase a última coisa que o menino soube dela. Durante os três anos seguintes, receberu duas cartas. Depois, mais nada.

Em compensação, o garoto continuou em contato com o pai. O senhor Guzmán lhe enviava dinheiro para as despesas, que eram poucas, porque Abimael estudava num colégio público e vivia num bairro barato. Suas cartas dessa época eram relatórios financeiros dignos de um contador: “gastou-se tanto nisto, tanto naquilo”, o senhor me deve 12 soles”. Ele nunca estava contente nem se queixava. Nunca fazia nenhuma menção aos seus sentimentos nem falava de sua vida ou do colégio. E tampouco alguém lhe perguntava sobre isso.

 

Uma das figuras mais controversas e ao mesmo tempo mais presentes da recente história do Peru é o líder revolucionário Abimael Guzmán, comandante e idealizador do Sendero Luminoso, grupo de inspiração marxista que partiu para o terrorismo e deu origem a uma guerra civil não-declarada que custou 15 anos e 70 mil mortes.

É esse personagem que o escritor peruano Santiago Roncagliolo recupera em A Quarta Espada (Objetiva, 296 páginas. R$ 37,90, Tradução de Joana Angélica D`Avila Melo) misto de ensaio, investigação histórica e reportagem, resultado de três anos de apuração. Roncagliolo já havia escrito o romance policial Abril Vermelho, sobre o qual já escrevemos aqui no blog, no qual abordava, tangencialmente, o tema sempre presente na ficção peruana contemporânea: o Sendero de Guzmán e sua guerrilha. Nesta pesquisa, um perfil ao estilo do melhor jornalismo literário, Roncagliolo recupera a trajetória deste professor universitário que se considerava a “quarta espada” do comunismo (depois de Lênin, Stálin e Mao) e que, por sua saúde debilitada, não participava dos combates pessoalmente, mas inflamou o Peru com apenas sua liderança e uma ideologia. Roncagliolo, apesar de não ser uma figura simpática a Guzmán, um maníaco responsável por centenas de mortes e pela tiranização das aldeias que pretendia libertar, também não livra a cara do do governo peruano de direita. Para ele, a atuação das Forças Armadas peruanas, tão selvagem quanto o radicalismo marxista do Sendero, foi tão responsável pelo massacre dos anos de guerra quanto a guerrilha Guzmán.

Postado por Carlos André Moreira

Charles Kiefer é o patrono da 54ª Feira do Livro

16 de setembro de 2008 3

Charles Kiefer/Adriana Franciosi, Banco de Dados - 12/07/2007

Foi divulgado agora há pouco em um café da manhã no Bistrô do Margs o novo dono da Praça da Alfândega. A Câmara Rio-Grandense do Livro, entidade promotora da Feira do Livro de Porto Alegre, anunciou Charles Kiefer como o novo patrono do evento.

O anúncio foi feito pelo presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, o editor João Carneiro. O novo patrono foi escolhido por um colegiado de notáveis dentre uma lista com cinco finalistas - uma novidade para as eleições anteriores, quando o número de finalistas era de 10. Os cinco patronáveis da Feira deste ano foram obtidos através de votação entre os associados da Câmara da Livro, o que inclui livreiros e editores. O nome do patrono saiu de uma segunda votação, feita por um conselho cultural composto por figuras de destaque, pessoas ligadas à universidade, ex-patronos e dirigentes da Câmara, a quem foi pedido que votassem em três candidatos cada um, escolhendo-se daí o mais votado. Além de Charles Kiefer, também concorriam como patronáveis Carlos Urbim, Jane Tutikian, José Clemente Pozenato e Juremir Machado da Silva.

O novo patrono é um dos grandes nomes da literatura local mas também por sua atuação no incentivo e na formação de novos autores. Charles Kiefer nasceu em Três de Maio em 1958, e estreou na ficção já com um sucesso editorial de público e crítica, a novela Caminhando na chuva, de 1982, continuamente reeditada e sempre presente em currículos escolares Rio Grande afora.

Kiefer também se destaca pela versatilidade. Sua obra abarca romances, contos, poesia e ensaio. Mas é por sua produção ficcional que o escritor é mais conhecido, em romances como A Face do Abismo, Quem Faz Gemer a Terra? ou Valsa Para Bruno Stein, recentemente adaptado para as telas com Ingra Liberato e Walmor Chagas como o personagem título. Como já foi dito, Kiefer também transita pelo conto, que praticou nos volumes Dedos de pianista ou sua obra mais recente na literatura adulta, Logo tu Repousarás Também. Sua obra vem sendo relançada nacionalmente nos últimos anos pela Editora Record, que já colocou no mercado novas edições de Valsa para Bruno Stein, sobre um homem que se apaixona pela mulher de seu filho, Quem Faz Gemer a Terra?, romance narrado pelo ponto de vista do sem-terra acusado de degolar um PM no conflito na Praça da Matriz e O Escorpião da Sexta-feira, exercício no romance policial narrado por um serial killer. Também pela Record saiu seu livro mais recente, o infanto-juvenil Aventura no Rio Escuro.

O novo patrono recebeu o cargo das mãos de Antônio Hohlfeldt, que, em tom bem-humorado, fez o elogio de seu sucessor. Kiefer tinha que ministrar uma aula às 10h de sua oficina literária, na Livraria Palavraria, em Porto Alegre, e queria abreviar o ritual posterior ao anúncio para chegar a tempo. Hohlfeldt o interrompeu:

— Não, não, não vai embora. Tem de caminhar pela praça e ir sentar lá no colo do Quintana – numa referência à estátua de bronze do poeta, nas proximidades da Rua da Praia, local no qual os patronos sempre posam para uma sessão de fotos.

A Feira do Livro de Porto Alegre, que este ano realiza sua 54ª edição, vai de 31 de outubro a 16 de novembro.

Postado por Carlos André Moreira

A versão da versão

16 de setembro de 2008 0

Terry é a espora. A farpa debaixo de minha unha. Para falar a verdade, estou começando esta carnificina, que é a verdadeira história de minha vida arruinada (quebrando uma promessa solene, ao rabiscar um primeiro livro nesta minha idade avançada), como uma resposta às torpes acusações que Terry McIver me faz em sua autobiografia prestes a ser publicada: que fala de mim, de minhas três esposas, também conhecidas como a Tróica de Barney Panofsky, da natureza de minha amizade com Boogie, e, naturalmente, do escândalo que levarei comigo até o túmulo como uma corcova. O “som de duas mãos batendo palmas”, O tempo e suas febres, que logo vai ser lançado por “O Grupo” (desculpe, o grupo), uma pequena editora de Toronto, subsidiada pelo governo, que também publica um periódico mensal, A Boa Terra, impresso em papel reciclado, não tenha dúvida.
Terry McIver e eu, ambos nascidos e criados em Montreal, nos encontrávamos em Paris no começo da década de 50. O pobre Terry mal era tolerado pelo meu grupo, um bando de jovens escritores sem dinheiro, arrojados e campeões de obras recusadas por editores, mas confiantes de que tudo era possível – fama, admiradoras à beira do desmaio de tanta adoração, e a fortuna esperando logo ali na esquina, como o legendário camelô das gomas de mascar Wrigley de minha meninice. O tal camelô, segundo se dizia, abordava crianças na rua para as presentear com uma nota de um dólar, desde que tivessem um invólucro da goma de mascar Wrigley no bolso. Nunca topei com o generoso enviado do sr. Wrigley, mas a fama bafejou muitos do meu grupo: o arrebatado Leo Bishinsky; Cedric Richardson, embora sob um outro nome; e, naturalmente, Clara. Clara, que atualmente goza de uma fama póstuma de ícone feminista, forjada na bigorna da insensibilidade machista chauvinista. Minha bigorna, como elas dizem.
Eu era uma anomalia. Não, uma anomia. Um empresário nato. Jamais ganhara prêmios na Universidade McGill, como Terry, nem estudara em Harvard ou Columbia, como alguns dos outros. Eu mal dera conta do curso secundário, tendo passado mais tempo nas mesas da Academia de Bilhar de Mount Royal que nas aulas, jogando sinuca com Duddy Kravitz. Não sabia escrever. Não pintava. Não tinha a menor pretensão artística, a menos que assim se considere o sonho que eu acalentava de ser cantor e dançarino de music hall, agitando meu chapéu de palha para a boa gente da platéia ao me retirar elegantemente do palco, dando lugar a Peaches, a Ann Corio, a Lili St. Cyr ou a alguma outra dançarina exótica, que levaria seu número a uma apoteose de tambores, quando então se veria de relance um peito nu, bem antes de o striptease se tornar comum em Montreal.
Eu era um leitor voraz, mas seria um erro ver nisso uma prova de minha virtude. Ou sensibilidade. Na verdade, sou obrigado a confessar, com a discreta anuência de Clara, a baixeza de minha alma. Minha horrível inclinação para a competição mesquinha. O que me animava não era
A morte de Ivan Ilitch de Tolstoi, nem O agente secreto de Conrad, mas a velha revista Liberty, cujos artigos se iniciavam sempre com uma notinha informando quanto tempo se levaria para lê-los: digamos, cinco minutos e trinta e cinco segundos. Depois de colocar meu relógio de pulso de Mickey Mouse na mesa da cozinha forrada com uma toalha de linóleo xadrez, eu corria os olhos pela matéria em, digamos, quatro minutos e três segundos, e me considerava um intelectual. De Liberty passei a Mr. Moto, um romance em brochura de John Marquand, comprado por uma pechincha na barbearia Jack & Moe, na esquina da Park Avenue com a Laurier, no coração do bairro operário judeu de Montreal, onde cresci. Um bairro que elegera o único comunista (Fred Rose) a integrar o Parlamento, que produziu dois pugilistas passáveis (Louis Alter, Maxie Berger), a legião de médicos e dentistas de praxe, um famoso dono de cassino, mais advogados implacáveis do que seria desejável, bom número de professores primários e milionários da indústria têxtil, uns poucos rabinos e pelo menos um suspeito de homicídio.
Eu.

Como a própria memória humana, A Versão de Barney (Companhia das Letras, R$ 58, 570 páginas) é fragmentada e inconstante. Seu autor, Mordecai Richler, pode ter se valido de uma tema um tanto gasto na literatura, mas possui charme e estilo que fazem de seu livro uma quase-auto-biografia não menos que deliciosa.

Sim, Barney Panofsky é Mordecai Richler. Mas por razões que não fazem diferença, o escritor optou por contar sua história usando um personagem fictício. Quer dizer, razões não faltam e elas aparecem logo nas primeiras páginas. Alternando capítulos que contam sua atual situação com flashbacks, Barney não poupa ninguém. Amigos, familiares, conhecidos e desafetos recebem o mesmo tratamento sarcástico, permeado de humor negro e alguma mágoa. Logo, nomes verdadeiros não fariam muito bem à saúde financeira de Richler.

Melhor, então, deixar que a ficção toque o barco. As notas de rodapé corrigindo lapsos de memória e informações incorretas foram escritas pelo filho de Barney – e não de Mordecai. Nada, repetindo, que prejudique a leitura. Leitura que flui tão rápida quanto o fluxo de pensamento de Panofsky e suas desventuras como judeu errante na Paris pós-II Guerra, mais tarde rico produtor de enlatados para a TV no Canadá e, acima de tudo, sujeito apaixonado pela vida.

E suspeito de assassinar um dos seus melhores amigos e mentor, não dá para esquecer.

O caso, junto com seus três casamentos, é o fio condutor do livro. Ao final, no prólogo escrito pelo mesmo filho que faz as notas de rodapé, não dá para saber se Barney/Mordecai matou ou não. Motivos ele tinha. E capacidade também, posto apenas alguém tão honestamente entregue aos seus próprios sentimentos seria capaz de amar e odiar com o mesmo impulso infantil.

A própria motivação do catatau de quase 600 páginas mostra um pouco desta faceta: rebater a recém-lançada biografia de um antigo amigo e desafeto. Nela, Barney não aparece de forma muito lisonjeira, como faz constar em excertos publicados em alguns capítulos. Quer dizer, um livro para confrontar outro livro. Ou um segundo olhar sobre si mesmo, se preferirem.

Mas logo — e o próprio personagem admite — a razão de ser das linha escritas por Mordecai se revela outra. Aos poucos, percebe-se que Barney utiliza sua mordacidade para esconder as feridas que só ele conhece. Seu humor passa ser o típico “rir para não chorar”. Nessa toada, acaba machucando, às vezes definitivamente, as pessoas que mais lhe querem bem.

Longe, entretanto, de ser um longo mea culpa. O próprio Barney não permitiria isso e faz questão de ressaltar, capítulo sim, capítulo não, que fez sempre tudo o que quis. Mas como não pode voltar atrás – e ele o faria se pudesse – assume integral responsabilidade pelos seus atos, bons ou ruins. Nada permanece escondido. Nenhuma falha de caráter, injustiça, erro de julgamento, grosseria ou sacanagem qualquer cometida por ele.

Daí, talvez, pode ser que o leitor comece a torcer para, quem sabe, o personagem tenha alguma espécie de final redentor. Que, claro, não vem. Afinal, a história já está contada. E Barney está apenas dando a sua versão, sem nenhum interesse em saber qual delas é a mais plausível. Como sua memória, comida aos poucos pelo Alzheimer, ele não tem tempo para isso.

Breve obituário de um escritor suntuoso

15 de setembro de 2008 2

Essa não deixa de ter seu grau de surpresa. O escritor norte-americano David Foster Wallace, 46 anos, foi encontrado morto em casa em Claremont, na Califórnia, na sexta-feira, segundo a polícia local, que deu a entender que o escritor se matou.

Além de escritor, Wallace era ensaísta e durante este ano cobriu a campanha presidencial do candidato republicano John McCain para a revista Rolling Stones. Era também professor de escrita criativa no Pomona College, um centro de estudos liberais nos arredores de Los Angeles.

Wallace ficou conhecido com seu primeiro livro, The Broom of the System, mas foi alçado à fama em 1996 com a publicação de Infinite Jest, uma paródia gigantesca do futuro dos EUA por meio dos personagens de uma academia de tênis e de um centro de reabilitação para drogados. O experimentalismo metanarrativo e as imensas ambições do livro logo granjearam comparações entre o jovem autor e gente do calibre de Don DeLillo e Thomas Pynchon. Seu nome era pouco conhecido do grande público aqui no Brasil — onde Infinite Jest ainda nem foi publicado — mas tinha um bom número de leitores em Portugal. E mesmo aqui no Brasil fez algumas cabeças entre o pessoal atento às novidades da ficção internacional. Numa entrevista ao Cultura por ocasião do lançamento de Mãos de Cavalo, o mesmo Galera que vocês leram mais abaixo no primeiro conto da quinzena disse que Wallace foi uma inspiração para decidir o tipo de romance que queria escrever: uma história na qual a descrição minuciosa — feita “com volúpia”, foi o termo do Galera — conduzisse a trama com peso maior ou igual que as ações.

É o tipo de escrita que podemos encontrar no único de seus livros traduzidos no Brasil, por exemplo: o livro de contos Breves Entrevistas com Homens Hediondos, lançado pela Companhia das Letras. Livro do qual este blogueiro promete um trecho quando chegar em casa — o livro não está aqui comigo. Um olhar que, masi do que descrever, analisa cientificamente os personagens como se fossem cobaias em uma experiência. O tom é de distãncia, sarcasmo, e até de perplexidade com os atos e pensamentos humanos mais comuns, o que contribui para o estranhamento buscado pelo autor.

>>>ATUALIZANDO: Segue, então, um dos contos do livro.

Mais um exemplo da porosidade de certas fronteiras (XI)

David Foster Wallace

Como em todos aqueles outros sonhos, eu estou com alguém que conheço mas não sei como conheço e agora a pessoa de repente me mostra que eu estou cego. Literalmente cego, sem visão, etc. Ou então é na presença dessa pessoa que eu de repente me dou conta de que estou cego. O que acontece quando eu entendo isso é que eu fico triste. Me deixa incrivelmente triste eu estar cego. A pessoa de alguma forma sabe como eu fiquei triste e me avisa que chorar vai machucar meus olhos de alguma forma, e fazer a cegueira ficar ainda pior, mas eu não consigo evitar. Sento e começo a chorar muito mesmo. Acordo chorando na cama e chorando tanto que não consigo enxergar nada nem distinguir nada, nada. Isso me faz chorar ainda mais. Minha namorada fica preocupada, acorda, me pergunta o que foi e passa um minuto ou mais antes de eu entender pelo menos que estava sonhando e que estou acordado e que não estou cego de verdade mas só chorando sem nenhuma razão, daí conto o sonho para a minha namorada e faço ela entender. Aí o dia inteiro no trabalho estou incrivelmente consciente da minha visão, dos meus olhos e de como é bom ser capaz de ver cores, a cara das pessoas e saber exatamente onde eu estou e como isso tudo é frágil, o mecanismo do olho humano e a capacidade de ver, como se pode perder isso com facilidade, com estou sempre vendo gente cega por aí com suas bengalas e caras estranhas e fico sempre pensando que seria interessante passar uns segundos olhando para elas e nunca pensando que elas têm nada a ver comigo ou com os meus olhos e agora é apenas uma coincidência uma sorte eu enxergar em vez de ser um daqueles cegos que vejo no metrô. E o dia inteiro no trabalho cada vez que essa história me volta começo a lacrimejar de novo, pronto para chorar e só não choro porque a divisão entre os cubículos é baixa e todo mundo ia me ver, iam ficar preocupados e o dia inteiro depois do sonho é assim, cansativo para danar e eu bato o ponto cego e vou para casa, tão cansado, com tanto sono que nem consigo abrir os olhos e quando chego em casa vou direto para a cama e durmo até sei lá às quatro da tarde e apago mais ou menos.