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Raiva ensolarada

15 de outubro de 2008 4

— Uma carona, moça?
As mãos postas segurando a sombrinha rosa, o molho de chaves e o dinheirinho enrolado.
— Que foi?
Radiante de bluzinha verde e cabelo preso.
— Que olho de gata mais lindo. Sai da chuva. Vamos de carro.
— Não te conheço.
Quase inocente, um tantinho provocante.
— Vem, chove demais, querida.
— É louco, sou noiva.
Um tumulto no peito, a mão suada no trinco.
— Experiência nova antes de casar? Por que não?
Ela não sabia, tinha de ir ao Carrefour, estava no horário de serviço. Apressado, anotou o número do telefone no canto do folheto de propaganda.
— Oi linda, sabe quem é?
— Nem idéia.
Ao fundo, a tevê ligada a todo volume.
— Deu o telefone ontem.
— Ah, oi, ligou duas vezes. Não levei o celular.
— Tá no serviço? Sozinha?
— Tou eu e o bebê.
Arrepio na espinha ao lembrar dos gêmeos, cada um babujando num dos peitos da esposa.
— Bebê
— Não é meu.
— Quero te ver agora.
— Nem pensar, meu noivo…
— Não fica sabendo.
— Sou fiel.
— Uma coisa diferente, qual é o mal?
— Pois é.
Então, em quinze minutos, no Carrefour. Mas não podia deixar o bebê.
— Traz junto. O carro tem cadeirinha.

 

A emulação é sempre um problema crítico, porque cria uma zona de imprecisão no julgamento de uma obra. Se um autor imita o estilo de outro, e consegue reproduzir ainda que em parte o original, os méritos decorrentes disso são dele ou da qualidade do autor clonado? E um imitador não muito bem sucedido será um autor original por ter conseguido agregar suas próprias qualidades ao trabalho do outro ou justamente por não ter logrado reproduzir seu modelo?

Tais questões vêm à tona durante a leitura de Raiva nos Raios de Sol (Não Editora, 96 páginas, R$ 25), livro que o publicitário porto-alegrense Fernando Mantelli autografa hoje na Livraria Cultura do Bourbon Shopping. É a segunda incursão de Mantelli na narrativa curta — já venceu o Açorianos na categoria conto pela sua obra anterior, Feliz Fim do Mundo (2001). Nos 20 contos presentes em Raiva nos Raios de Sol, é patente a intenção de Mantelli de escrever à moda de Dalton Trevisan em muitos momentos e à de Rubem Fonseca em alguns outros. O irônico é que as melhores narrativas do livro são justamente aquelas nas quais o autor se afasta o bastante de seus modelos para escrever bons contos de Fernando Mantelli.

A sessão homenagem-paródia é mais acentuada na primeira metade do livro. O conto Esperança Branca, que narra uma luta de boxe, é claramente tributário de histórias de Rubem Fonseca como O Desempenho. Já em textos como O Bom Marido, A Danação do Vampiro (de onde foi tirado o trecho acima), Medo e Delírio em Alvorada e De Repente, um Verão, Dalton é uma presença nada discreta. Estão lá todas as obsessões do recluso autor de Curitiba: vampiros patéticos e libidinosos, noivas devassas sob a fachada puritana, diminutivos e uma violência que perpassa as relações como forma desviante de buscar um contato, ainda que brutal, com o próximo. Este último elemento, a propósito, é o único que não parece deslocado quando transplantado do universo de Dalton para os contos do livro.

Esse tratamento da violência torna-se mais bem-sucedido à medida que Mantelli vai se libertando de seus modelos formais e produz histórias com voz própria perturbadoras, como Faca na Garganta, O Pino do Verão e O Poço do Elevador. Há também momentos de tristeza dilacerante escondidos em meio à tragédia dos personagens, como em Filme de Amor e A Fúria, e há até espaço, em um livro em que a raiva é, como seu título promete, tão presente e densa, para um bem-vindo humor absurdo como em O Exorcista.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (4)

  • Djegovsky diz: 16 de outubro de 2008

    Sinceramente, tenho pena de quem tenta imitar Dalton Trevisan.
    Ah, o trecho do livro me deu uma vontade enorme de NÃO lê-lo.

  • Giuliano diz: 6 de novembro de 2009

    Ao contrário do comentário do diego lopes, creio que imitar o vampiro é dar crédito à tradição da narrativa breve. Veja a paródia homenageadora que Silviano Santiago presta à Graciliano Ramos “Em Liberdade”; e nem por isso o livro perde, de certo modo, e ainda custa dizer isso, a originalidade. Escritores são grandes leitores e costumam eleger seus escritores preferidos, fazer o quê? Não é o autor que pede para chamá-lo de Dalton, no conto o grão de milho? Muito bom o ensaio, assino embaixo.

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