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30 de outubro de 2008 0

Dando seqüência à sua vocação inegável para papa-prêmio, o romance O Filho Eterno (Record, 224 páginas, R$ 34), de Cristóvão Tezza, foi anunciado agora há pouco como o grande vencedor do prêmio Portugal Telecom, uma das maiores premiações literárias do país. Pelo primeiro lugar, Tezza vai ganhar R$ 100 mil.

Em segundo lugar, empatados, ficaram Beatriz Bracher, com Antônio, e António Lobo Antunes, com Eu Hei-de Amar uma Pedra. Em terceiro, Bernardo Carvalho, com O Sol se Põe em São Paulo.

Tezza já havia ganho o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, no fim do ano passado, e neste ano papou o Jabuti de romance (e ainda concorre para levar melhor livro de ficção, prêmio que será anunciado em breve) e agora leva uma das premiações que mais pagam no Brasil a um único vencedor.

Para quem ficou com curiosidade de saber um pouco mais sobre esse livro que além de tudo é uma narrativa comovente, honesta e muito perturbadora, divido com vocês o texto que escrevi para o Caderno da Feira do ano passado, na qual o escritor catarinense radicado no Paraná esteve presente lançando o livro, na época ainda recém-publicado.

PAI APRENDIZ

CARLOS ANDRÉ MOREIRA
Ao longo de 14 romances e quase 20 anos de carreira, o escritor catarinense  radicado no Paraná Cristóvão Tezza construiu reputação literária com obras compostas em tom assumidamente confessional – mas não biográfico.
Isso até o seu romance mais recente, que o escritor autografa hoje na Feira do Livro. O Filho Eterno já é o maior sucesso literário de Tezza, com uma narrativa
que, mais do que confessional, surge de uma experiência assumidamente autobiográfica: o árduo aprendizado afetivo de um pai que precisa aceitar seu filho deficiente.

- Foi a maior repercussão que já tive com um livro, e não apenas da crítica, mas dos próprios leitores. Todo dia chega e-mail de alguém – conta o autor, por telefone, de Curitiba.

O escritor de 55 anos desembarca em Porto Alegre para cumprir uma agenda na Feira que inclui um encontro sobre o ensino de Língua Portuguesa (Tezza também é docente da matéria) e os autógrafos de O Filho Eterno. O romance parte da experiência de Tezza como pai de um portador de Síndrome de Down.

— Levei tempo para me decidir a escrever. Foi difícil pegar o tom da linguagem, acertar o começo do livro. Depois que comecei e resolvi esse problema em particular, ele foi às cegas, começou a se reescrever meio sozinho, embora eu ainda tenha levado o um ano e meio regulamentar que demoro para escrever um livro.

O Filho Eterno conta a história pelo ponto de vista de um jovem pai que, aos 28 anos, na década de 1980, vê seu primeiro filho nascer com Down. E o Down desse texto é apenas a adaptação polida da linguagem bem menos cuidadosa que se usava na época: mongolóide. É uma adaptação que o próprio romance não faz. Corajosamente, Tezza assume a brutalidade dos sentimentos que a chegada do filho deficiente provoca no pai narrador, evitando criar uma história edificante de telefilme americano. Revolta e rejeição são as primeiras coisas que o pai consegue sentir, além de uma absurda esperança de que o progresso tecnológico da medicina de alguma forma torne seu filho “normal”. A honestidade e a delicadeza com que Tezza vai acrescentando camada a camada as novas percepções do narrador quanto ao filho (esperança, responsabilidade, afeto, resignação, amor) não mascaram os momentos de fraqueza do pai nesse difícil aprendizado afetivo.

— Um bom narrador tem de ter boa dose de crueldade. Se você se propõe a fazer literatura, tem de ir o mais fundo que alcançar. Mas não considero meu livro cruel, ele é a construção de uma afetividade que passa por emoções contraditórias. Uma coisa completamente humana — pondera.

Acertar o tom dessa narrativa foi algo que ele conseguiu fazer ao mirar-se no modelo estilístico de um dos romances do Nobel sul-africano J.M. Coetzee, Juventude, relato de formação também com tintas autobiográficas e um narrador inconveniente de tão sincero consigo e com os outros.

— Li o romance e fiquei com ele na cabeça uns dois ou três anos — diz.

O Filho Eterno marca também uma nova fase na carreira de Tezza, que teve relançados pela Record três de seus primeiros livros: Aventuras Provisórias, O Fantasma da Infância e sua obra de estréia, Trapo. O Filho Eterno também teve acertada este mês sua publicação na Itália, em julho de 2008, e na França, em agosto de 2008.

— O Filho Eterno está me abrindo muitas portas e por mais tempo. Desde o Trapo, vivo a experiência, que é a de muitos autores, de lançar um romance, ter boa repercussão, aí passa um ano e o livro desaparece.

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