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Posts de outubro 2008

Frase a esmo

31 de outubro de 2008 0

No corredor central, o homem de meia idade, cabelos pretos e eriçados, começando a recuar na testa, passa por mim dando instruções ao celular.

— Tá, assim, ó. Vou te esperar ali naquele troço vermelho no meio da Feira, um que parece um cone de trânsito invertido.

Sei não se o interlocutor vai conseguir achá-lo.

Apesar de ser cônico, o topo da central de informações não parece um cone de trânsito especificamente. E tem muito pouco de vermelho.

Postado por Carlos André Moreira

Loyola e Laurentino vencem o Jabuti

31 de outubro de 2008 1

Ignácio de Loyola Brandão em Porto Alegre em 2005 no anúncio da programação da Jornada de Literatura. Foto: Arivaldo Chaves.

Foram anunciados nesta noite de sexta-feira os dois grandes vencedores do Prêmio Jabuti — a premiação mais tradicional da literatura brasileira, que completou 50 anos agora em 2008. O veterano escritor Ignácio de Loyola Brandão, autor de livros de contos e de oito romances, dentre os quais alguns sempre apontados como essenciais para a literatura contemporânea, como Zero, Não Verás País Nenhum e O Beijo não Vem da Boca, teve seu livro infantil O Menino que Vendia Palavras escolhido como Livro do Ano na Categoria Ficção, num resultado que pegou de surpresa o próprio autor. Ele, como boa parte da imprensa especializada, apostava em O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, primeiro lugar n a categoria Melhor Romance e vencedor de outros prêmios importantes, como já tratamos aí embaixo.

Já na categoria Não-Ficção, o Livro do Ano foi 1808, reportagem histórica que recuperou a vinda da Família Real portuguesa para o Brasil há 200 anos. Esse foi um dos temas mais abordados nos lançamentos deste ano, mas o jornalista do grupo Abril Laurentino Gomes conseguiu adiantar-se à avalanche relacionada às efemérides lançando o livro primeiro (ele chegou a vir à Feira do Livro do Ano passado para autografar o livro recém-lançado).

Loyola Brandão é um habitué do Rio Grande do Sul, presença constante na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, realizada de dois em dois anos. O Menino que Vendia Palavras, lançado pela Editora Objetiva, conta a história de um garoto que, ao descobrir que seus colegas sempre recorrem a seu pai, homem culto e inteligente, tem a idéia de aprender o significado das palavras para vendê-las aos colegas. É narrado em um tom leve e bem humorado, um humor que, na obra infantil, tem uma clave lírica, bem menos sarcástica que a literatura adulta produzida pelo autor de O Ganhador.

1808 é uma obra montada a partir de pesquisa em outras fontes, narrando a vinda e o estabelecimento de Dom João para o Brasil, e defendendo até mesmo algumas teses que contrariam o entendimento já estabelecido no imaginário popular sobre Dom João e sua esposa, Carlota Joaquina. Para Laurentino Gomes, Dom João, que passou para a História como bobo, fraco, covarde, apalermado e até corno, na verdade se revelou um monarca à altura do que dele se exigiam as circunstâncias ao fugir com a Família Real para o Brasil, tendo sido um rei europeu que atravessou o caminho de Napoleão e ainda assim manteve seu reino. Apesar de seu temperamento hesitante, Dom João conseguiu cercar-se de assessores hábeis que ajudaram-no a manter a unidade de um reino pequeno e sem força militar no meio da tempestade napoleônica.

Laurentino Gomes na Praça da Alfândega, quando veio autografar 1808 na Feira do Livro do ano passado. Foto: Jefferson Botega

Postado por Carlos André Moreira

Desvendando Mistérios

31 de outubro de 2008 3

Partilhe conosco desta brincadeira literária. Na coluna que este seu blogueiro está assinando na contracapa do nosso caderno da Feira, vocês vão encontrar parte do seguinte trecho (não coube tudo e eu cortei):

Pegai vosso mapa e contemplai-a. Vede em que verdadeiro desvão do mundo está situada; vede como fica afastada do continente, mais solitária que o farol de Eddystone. Contemplaia-a _ um simples outeirinho, uma saliência arenosa; praia pura e simples, sem interior. Há mais areia lá do que se poderia gastar durante vinte anos, em lugar dos mata-borrões. Criaturas galhofeiras dir-vos-ão que têm de plantar mato, pois este não cresce lá espontaneamente; que importam cardos do Canadá; que têm de buscar além dos mares qualquer batoque, para bloquear vazamento em barril de azeite; que pedaços de madeira são tratados em Nantucket como os pedacinhos da verdadeira cruz em Roma; que as pessoas plantam lá cogumelos diante de casa, para tomarem a sombra no verão; que uma folha de capim constitui um oásis; três folhas, num dia inteiro de caminhada em pradaria; que usam sapatos para areia movediça, mais ou menos como os lapões usam sapatos para a neve; que o mar os fecha, cinge, cerca, envolve e ilha tão completamente, que em suas próprias cadeiras e mesas poderão encontrar-se de vez em quando pequenos mariscos grudados, como se fosse carapaças das tartarugas do mar.

Sabe de que livro é esse trecho acima? E o seu autor? Pois chute aí nos comentários. A janela é de vocês.

Postado por Carlos André Moreira

Banca vende cordel na Feira

31 de outubro de 2008 0

Mariana aparece à direita/Danilo Fantinel

A banca da Patricius Livraria trouxe parte do Nordeste brasileiro a Porto Alegre. Nesta edição da Feira do Livro, o pessoal apresenta em seu estande várias edições dos livros de cordel de Abraão Batista, de Juazeiro do Norte.

A vendedora Mariana disse que trabalha com folclore nordestino há algum tempo e que o público tem muito interesse neste tipo de literatura – especialmente no próprio cordel. No entanto, esta é sua primeira vez na Feira do Livro.

– Dei a sorte de, neste ano, Pernambuco ser o Estado convidado da Feira. Então falei com o Abraão e ele mandou bastante material. Conheci o autor na Bienal do Rio – comentou.

Para Mariana, o sucesso do cordel por aqui se deve à raridade do material. Ela ressaltou que as pessoas conhecem pouco sobre este tipo de expressão literária, muito ligada às tradições orais nordestinas (como o repente), e destacou que as xilogravuras chamam muito a atenção dos leitores.

A banca estava bem cheia quando falei com Mariana. O que me chamou a atenção – e isso deve ocorrer com todo mundo que passa por ali – é a forma de exposição das pequenas publicações: com capinhas coloridas, elas ficam presas a um barbante, como se fossem tradicionais bandeirinhas de São João.

Além disso, Mariana recomendou a leitura de História do Brasil em Cordel, de Mark Curran, que vasculha os acontecimentos entre a Guerra de Canudos e a era Collor.

                              

Neste domingo, o músico e escritor de cordel Allan Sales, de Pernambuco, fará uma apresentação às 15h30min na feira. Bom momento para conhecer um pouco mais desta arte.

Postado por Danilo Fantinel

E começou a Feira

31 de outubro de 2008 0

Se tem alguma primeira dica que eu posso dar para vocês é: venham para a Praça agora mesmo. O clima está ameno, os corredores estão com pouca gente e as bancas ainda estão com seus estoques quase intactos.

 

E confiram mais atualizações ao longo da tarde e amanhã, no caderno especial que estamos preparando para o jornal.

Postado por Carlos André Moreira

Público já está presente antes da abertura oficial

31 de outubro de 2008 2

Fátima à esquerda/Danilo Fantinel

A 54ª Feira do Livro de Porto Alegre abre oficialmente às 18h de hoje, mas muitos amantes dos livros não perderam a chance de garimpar as publicações que estão à venda nas bancas já a partir do início desta tarde. O bom movimento de público está de acordo com a boa expectativa da vendedora Fátima Batista, que espera muitas vendas nos próximos 16 dias do evento.

Fátima é professora do ensino fundamental e participa da festa literária da Capital pela primeira vez. Ela já trabalhou em duas feiras semelhantes em Viamão, sua cidade natal, onde o evento ocorre em julho. Em Porto Alegre, a professora está trabalhando com livros infantis.

– Acho que é importante você ter um acesso e um conhecimento do mundo infantil para que possa indicar boas leituras às crianças. Os meninos adoram ler. É assim que aproveito minha profissão, e também aprendo muito com eles.

Enquanto falávamos, Fátima e a vendedora Martielle atendiam alguns clientes. O trânsito de pessoas está se intensificando com o passar das horas aqui na Feira. O evento ainda não está totalmente lotado, o que é ótimo para quem quer visitar as bancas com calma.

Clique aqui e confira as imagens do primeiro dia da Feira do Livro 2008

Postado por Danilo Fantinel

Concisão e equilíbrio

30 de outubro de 2008 3

Aproveitando o clima de Feira que já se sente no ar, calhou de o nosso autor desta já habitualmente atrasada quinzena estar no elenco de escritores com sessão de autógrafos marcada para o maior evento literário do Estado. Nosso Conto da Quinzena traz uma história de Leonardo Brasiliense, que, apesar do sobrenome, é gaúcho – e além de tudo meu conterrâneo, mas juro que não foi isso que pautou minha escolha desse escritor em particular para esta semana.

QUEM É?: Brasiliense é de São Gabriel, que vem a ser também a minha cidade natal (o que é irrelevante) e a do ganhador do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2005 Amilcar Bettega (o que já é interessante). Nascido em 1972, tem formação em Medicina pela UFSM e atualmente trabalha na Receita Federal. À parte isso, tem desenvolvido uma obra que se pauta pela investigação da brevidade, com livros recentes que investem no conto e no formato ainda mais conciso do miniconto.

O QUE JÁ FEZ? Ex-aluno da oficina de criação literária do escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, Brasilense estreou na literatura de ficção em 2000, com a publicação de Meu Sonho acaba Tarde, coletânea dividida em duas seções bem demarcadas de conto e miniconto, que ganhou edição pela WS editora. O segundo livro de contos de Brasiliense, Des(a)tino, saiu em 2002, pela Sulina, e seu livro mais recente de narrativas curtas na literatura adulta de ficção é a também coletânea de contos Olhos de Morcego, que tem autógrafos na Feira do Livro no dia 1º, às 20h30min, no Pavilhão de Autógrafos da Feira do Livro. À parte essa produção direcionada para adultos, Brasiliense escreveu também um livro infanto-juvenil, Adeus Conto de Fadas, editado pela 7Letras, mesma casa publicadora do Olhos de Morcego. Com Adeus Conto de Fadas, dedicado a retratar a voz e as características do adolescente moderno por meio de micro-histórias, Brasiliense recebeu em 2007 o Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do Brasil, na categoria Melhor Livro Juvenil.

E A OBRA, QUALÉ? Acho que você já me perguntou isso antes, mas mesmo assim vamos lá. Como eu havia comentado de passagem ali em cima, Brasiliense faz investigações sobre a brevidade, testando os limites expressivos da narrativa extremamente curta. Sua produção transita entre a vinheta, o corte seco do miniconto, e contos um pouco mais extensos, nos quais há uma grande preocupação com o desenho de uma psique do personagem em contraposição a uma situação ou ambiente. A linguagem é elegante, direta, sem tantos vôos experimentais em termos de forma, mas com achados que se manifestam em uma inventividade do enredo e no acompanhamento minucioso, por vezes descarnado, do que vai no íntimo dos seus personagens.

E ONDE EU ACHO ISSO? Adeus Conto de Fadas e Olhos de Morcego, por serem os mais recentes, estão ainda no catálogo da editora 7Letras, e podem ser obtidos em qualquer livraria. Para se chegar aos dois primeiros, contudo, sugiro uma visita ao site da editora WS, por exemplo, para ter um vislumbre de como obter Meu Sonho Acaba tarde, primeiro livro do autor, de onde, inclusive, saiu o conto que apresentaremos aqui neste espaço. O autor tem um site pessoal, e ali pode ser um bom caminho para ter acesso ao escritor e descobrir como anda a disponibilidade de seus dois primeiros livros de ficção.

Agora, abaixo, vai nosso Conto da Quinzena- de novo atrasado. Chama-se Lili e o Monstro, e foi adaptado para o cinema em um curta-metragem de 2003 pelo diretor Sérgio Assis Brasil. Como disse o próprio autor no e-mail em que gentilmente autorizou a publicação,“É o primeiro conto do Meu sonho acaba tarde, e não por acaso é o primeiro conto que escrevi (depois de passar os dois primeiros anos só escrevendo minicontos)”.

O prócimo Conto da Quinzena, a propósito, sai dia 10 de novembro (oremos…).

* * *

Lili e o monstro

Gente que vive só há muito por aí. É o que mais se vê, quando se olha a sério, sem fingir que a sombra do outro exclua a solidão, ou que isso tenha alguma coisa a ver com felicidade.

Uns assim andam por gosto. Outros também, como Lili.

Era uma vez Lili, portanto, que vivia só, faz de conta que o destino o quis.

Morava numa pequena casa de dois cômodos. Havia a sala-cozinha, apertada, onde Lili seguidamente batia-se de ficar roxa, em quinas, trambolhos, tranqueiras – suas pernas eram de cima a baixo esverdeadas. Havia mais o quarto-lavatório, menor, sem guarda-roupas por não caber, servindo-se a tanto sua mala embaixo da cama, e nem muito cheia.

Havia, sobretudo, os sons de Lili respirando, andando, abrindo o armário, a porta e às vezes falando para si própria.

Foi numa noite, já alta noite e chuvosa, que se deu início à história.

Precisamente, na sala-cozinha.

Começou com morte. Não a morte em si, na hora e testemunhada, mas apareceu o corpo de uma barata, seco, no chão. As pernas para cima, semi-encurvadas, como sempre morre humilhada a barata.

E Lili, que fazer? Varrer para fora não ia, tarde da noite e com chuva, o cadaverzinho seco, exclamativo. Deixava para o outro dia. Para ela não faria diferença, para a barata não faria diferença. Agora tinham isso em comum. De manhã, não havia corpo de barata onde quer que se procurasse. Lili olhou por toda a casa – coisa não muito difícil, com franqueza. Mas fez uma busca, sim, por todos os dois cômodos, até dentro da mala.

Na dúvida, pensou primeiro que o inseto estivesse vivo. Mas pose de barata quando morre é inconfundível! Teria varrido o bicho e não lembrava? Seria novidade; uma das poucas não-decepções de si era a memória, infelizmente.
Sem nada mais a pesar, considerou o assunto por de menor importância. Suspirou e seguiu o dia, mais um dia, véspera de outro dia.

Não interessa dizer com exatidão quanto tempo, para dar relevância ao fato, posto que no realizar da vida de Lili, pouco e arrastado, qualquer coisa, pequena que fosse, valia a narrativa… Mas ia tempo, algum tempo, e passara-se o seguinte: Lili arrumava a cama e ouviu um remexe na sala-cozinha: estrebuchava um rato gordo, decerto comera o veneno deixado no biscoito-chamariz, embaixo da mesa, e morria por ali. Animal roliço e, via-se, guloso; de pernas tortas, tamanho o peso, um ratazão.

Lili cansada, pronta a se deitar, teve preguiça: “Amanhã recolho o coitado e ponho no lixo, amanhã, só amanhã”. Sequer teve nojo, até o nojo deixava para amanhã.
Madrugadinha, ela se levantava para trabalhar. Como sempre, saiu da cama para lavar o rosto e tirou remela ainda se acordando. Quando o Sol apontasse, já contaria meio caminho da cidade. Era assim de segunda a sábado. Às vezes, cochilava no ônibus; às vezes, a cabeça pendida sobre o ombro ou escorada no vidro sujo do ônibus, ela sonhava.

Antes de ir, porém, havia o rato…

Que rato que nada! Qual o espanto, não ver nem pêlo que sobrasse do dito, nada, o chão limpo.

Lembrou a barata, ela também desaparecida no mistério, no desconhecido nefasto mistério, ao qual Lili não dera nenhuma importância na época. Mas agora precisava reconsiderar, carecia lembrar a barata…

Tomada por uma frouxura, sentou-se pesada – o quanto era possível a seu corpo mínimo -, sentou-se numa cadeira, cadeira de palha gasta felpuda. Zonza, avistou a si mesma no vidro do armarinho: sua cara distorcida, menos gente no reflexo; fiel, contudo, ao que vinha do espírito: o medo.

Medo de não estar sozinha. Ou pior: medo de estar sozinha. Medo de espiar a tranca da porta. Cerrada. Não entrara ninguém, não saíra ninguém. Medo.
Que pavor lhe incutia a idéia de uma companhia, um bicho escondido em sua casa, comendo os animais deixados mortos na sala-cozinha; e grande haveria de ser, comera o rato gordo, muito gordo; monstruoso, esse bicho, escondido sabe-se onde naquela casinha tão diminuta, que não havia mesmo lugar de esconderijo na casinha pequenininha de Lili. E que pavor lhe incutia este outro pensamento: sonambulara, ela, ou pordeus, enlouquecera? Seria possível que não o bicho, o monstro, mas ela própria tivesse comido o rato e também a barata, num desatino, e protegido isso da mais tênue lembrança?

Súbito, uma gargalhada veio-lhe desde o ventre e foi presa na boca, Lili mordendo a língua. Saiu daí suspirada uma lágrima, o que a deixou furiosa: não era certo chorar. Não estava triste. Porque o choro é filho da tristeza, e ela não estava triste. Estava era com medo. Teve raiva do seu choro errado. Quem chora ou ri numa hora errada, quando o mundo em volta pede o contrário, está louco. Teve medo de ter enlouquecido, e de repente subia outra gargalhada e maior, e Lili mordeu a língua.

* * *
Mi, mi, mi… Chovia demais. Lili colocara um pires com leite no degrau da porta, chamava o gatinho marrom da vizinha. Ele se protegia da chuva sob a escada, os olhinhos brilhavam arregalados e redondos. Mi, mi, mi, ela o chamava.
Com os olhares cruzando-se, o engodo era mais difícil. Esses bichos enxergam dentro da nossa alma. Ela teria que o conquistar. Então sorriu, sorriu com sinceridade.

Agora o gato lambia o leite, e Lili fazia-lhe cafuné.

Pegou-o no colo e entraram. Ele bocejando, enfastiado.

Anoiteceu.

Lili, sentada na cama, observava o gatinho passar da sala-cozinha ao quarto-lavatório e voltar à sala-cozinha, como perguntando – se é que não o fazia – onde estava e por quê. Ora ele se esfregava em suas pernas. Ora pulava sobre a cama. Miava, retornando à sala-cozinha.

O gato miava muito e, com a barriga cheia, não era de fome. Mas qual diferença? Lili não se importava. Talvez nem estivesse ouvindo. Na verdade, botava-lhe atenção no tamanho: animalzinho pouco, ela ponderava, não serviria. Precisava de um maior.

Em momento algum ela teve pena do gatinho. Se o soltou foi porque não lhe servia. Precisava de um bicho maior.

No dia seguinte, deitada na cama, sem remorso ela contemplava o esforço duma tarde inteira. Faltara ao trabalho, obstinada. Sentia as carnes doídas, tamanha a força gasta no desvario. Força maior do que imaginava ter, maior que ela.

Era satisfeita, ao menos, no quê da experiência: queria saber do quanto era capaz o bicho, o monstro, medir-lhe em todo aspecto, seu porte, sua fome, e tinha ali para tanto um belo e enorme cachorro. Chamara-o para dentro de casa com mais facilidade que o gato, bastou estalar os dedos. Quebrara-lhe o pescoço numa luta feia e demorada, saíra com marcas, arranhões nos braços e no rosto. De sua cama, tinha os olhos fixos no cachorro estendido no chão da sala-cozinha, donde os outros desapareceram. Esperaria a noite toda para ver o monstro. Se preciso, esperaria o resto da vida, pacientemente, fixamente, tão imóvel quanto o cachorro morto.

Três, quatro horas, quatro-e-meia… piscava… ainda havia o cachorro, lá estava ele, estendido… ela esperaria… o encontro… piscava… quatro-e-quarenta-e-cinco…

Anda por uma rua cheia de gente. Todos vêm no sentido contrário. Esbarram nela. É uma tarde de sol intenso. Há muita gente nessa rua. Difícil caminhar assim. Ele está no meio dessa gente. Lili sente sua presença, olha para todos os lados e não o vê. Mas ele está ali, ela sente, provavelmente observando-a. E ser observada, reconhecida, faz com que ela sinta-se gente no meio daquela gente, pela primeira vez. Mais: ele sabe até o que ela pensa. “Por que não aparece? Por que se esconde?” Ela corre, bate-se nas pessoas, tropeça e cai. Não há mais ninguém na rua. Silêncio. A calçada é quente. Ela está caída, com a bochecha na calçada quente, os olhos fechados. Ele se aproxima. Ela sente que ele se aproxima, e não tem coragem de abrir os olhos. Sente que ele está bem à sua frente. Mas não tem coragem…

Pula da cama já amanheceu não há o cachorro mais.

Lili chora.

Assim, chorando, vai à sala-cozinha.

E se deita.

Estica braços e pernas, bem abertos.

***

Gente que vive só há muito por aí. E a solidão, mesmo quando regra, consegue, em alguns momentos, ser maior.

Levou mais um

30 de outubro de 2008 0

Dando seqüência à sua vocação inegável para papa-prêmio, o romance O Filho Eterno (Record, 224 páginas, R$ 34), de Cristóvão Tezza, foi anunciado agora há pouco como o grande vencedor do prêmio Portugal Telecom, uma das maiores premiações literárias do país. Pelo primeiro lugar, Tezza vai ganhar R$ 100 mil.

Em segundo lugar, empatados, ficaram Beatriz Bracher, com Antônio, e António Lobo Antunes, com Eu Hei-de Amar uma Pedra. Em terceiro, Bernardo Carvalho, com O Sol se Põe em São Paulo.

Tezza já havia ganho o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, no fim do ano passado, e neste ano papou o Jabuti de romance (e ainda concorre para levar melhor livro de ficção, prêmio que será anunciado em breve) e agora leva uma das premiações que mais pagam no Brasil a um único vencedor.

Para quem ficou com curiosidade de saber um pouco mais sobre esse livro que além de tudo é uma narrativa comovente, honesta e muito perturbadora, divido com vocês o texto que escrevi para o Caderno da Feira do ano passado, na qual o escritor catarinense radicado no Paraná esteve presente lançando o livro, na época ainda recém-publicado.

PAI APRENDIZ

CARLOS ANDRÉ MOREIRA
Ao longo de 14 romances e quase 20 anos de carreira, o escritor catarinense  radicado no Paraná Cristóvão Tezza construiu reputação literária com obras compostas em tom assumidamente confessional – mas não biográfico.
Isso até o seu romance mais recente, que o escritor autografa hoje na Feira do Livro. O Filho Eterno já é o maior sucesso literário de Tezza, com uma narrativa
que, mais do que confessional, surge de uma experiência assumidamente autobiográfica: o árduo aprendizado afetivo de um pai que precisa aceitar seu filho deficiente.

- Foi a maior repercussão que já tive com um livro, e não apenas da crítica, mas dos próprios leitores. Todo dia chega e-mail de alguém – conta o autor, por telefone, de Curitiba.

O escritor de 55 anos desembarca em Porto Alegre para cumprir uma agenda na Feira que inclui um encontro sobre o ensino de Língua Portuguesa (Tezza também é docente da matéria) e os autógrafos de O Filho Eterno. O romance parte da experiência de Tezza como pai de um portador de Síndrome de Down.

— Levei tempo para me decidir a escrever. Foi difícil pegar o tom da linguagem, acertar o começo do livro. Depois que comecei e resolvi esse problema em particular, ele foi às cegas, começou a se reescrever meio sozinho, embora eu ainda tenha levado o um ano e meio regulamentar que demoro para escrever um livro.

O Filho Eterno conta a história pelo ponto de vista de um jovem pai que, aos 28 anos, na década de 1980, vê seu primeiro filho nascer com Down. E o Down desse texto é apenas a adaptação polida da linguagem bem menos cuidadosa que se usava na época: mongolóide. É uma adaptação que o próprio romance não faz. Corajosamente, Tezza assume a brutalidade dos sentimentos que a chegada do filho deficiente provoca no pai narrador, evitando criar uma história edificante de telefilme americano. Revolta e rejeição são as primeiras coisas que o pai consegue sentir, além de uma absurda esperança de que o progresso tecnológico da medicina de alguma forma torne seu filho “normal”. A honestidade e a delicadeza com que Tezza vai acrescentando camada a camada as novas percepções do narrador quanto ao filho (esperança, responsabilidade, afeto, resignação, amor) não mascaram os momentos de fraqueza do pai nesse difícil aprendizado afetivo.

— Um bom narrador tem de ter boa dose de crueldade. Se você se propõe a fazer literatura, tem de ir o mais fundo que alcançar. Mas não considero meu livro cruel, ele é a construção de uma afetividade que passa por emoções contraditórias. Uma coisa completamente humana — pondera.

Acertar o tom dessa narrativa foi algo que ele conseguiu fazer ao mirar-se no modelo estilístico de um dos romances do Nobel sul-africano J.M. Coetzee, Juventude, relato de formação também com tintas autobiográficas e um narrador inconveniente de tão sincero consigo e com os outros.

— Li o romance e fiquei com ele na cabeça uns dois ou três anos — diz.

O Filho Eterno marca também uma nova fase na carreira de Tezza, que teve relançados pela Record três de seus primeiros livros: Aventuras Provisórias, O Fantasma da Infância e sua obra de estréia, Trapo. O Filho Eterno também teve acertada este mês sua publicação na Itália, em julho de 2008, e na França, em agosto de 2008.

— O Filho Eterno está me abrindo muitas portas e por mais tempo. Desde o Trapo, vivo a experiência, que é a de muitos autores, de lançar um romance, ter boa repercussão, aí passa um ano e o livro desaparece.

Aviso

28 de outubro de 2008 2

Estamos oficialmente em clima de Feira do Livro. Aguardem novidades em breve.

E não, não esqueci do Conto da Quinzena, entra no ar hoje de madrugada.

Postado por Carlos André Moreira

Mistério e entretenimento

24 de outubro de 2008 1

Já ouvi falar que a literatura policial é menos importante do que qualquer outro gênero. Eu mesma tinha um certo preconceito — não que não gostasse. Esse sentimento ou pensamento é mais ou menos como ter que ler livros obrigatoriamente. Quando estava na faculdade, a moda era ler livros proibidos. Quem não tinha curiosidade por alguma leitura política engajada? Mas, era comprensível, já que estávamos saindo de um regime militar imposto goela abaixo, que nos cerceava em todos os nossos direitos. Daí líamos tudo! Enfadonhos catatais de páginas, muitas vezes mal escritos e repetitivos, mas que não podiam deixar de ser lidos sob o risco de sermos alijados ou suspeitos nos nossos círculos de convivência. Hoje, ainda bem, temos escolha. Podemos nos dar o luxo de ler até frivolidades e comentar. Muito bom, viva a democracia. Mas, vamos ao gênero policial: dia desses apostei num romance que recomendo, pois reúne suspense, bom texto e riqueza de personagens. Trata-se de O Mistério dos Jarros Chineses, de William C. Gordon, um advogado que se inspirou em personagem e crimes que passaram pelo seu escritório e pelas histórias ouvidas no bar em que foi proprietário durante 25 anos. A história se passa em Chinatown, bairro chinês de São Francisco, Califórnia, EUA. Além de ter aqueles ingredientes tradicionais de um policial — mortos, suspeitos, lugares e pessoas esquisitas – , o livro é um passeio pelas ruas, pelos estabelecimentos. Quase se sente o cheiro de fumaça, de café e de bebida, e ainda traz de brinde informações sobre a arte chinesa e sobre os costumes dessa gente que habitava São Francisco nos idos anos 60.

A quem interessar, o autor é marido de Isabel Allende, escritora chilena, e, para falar a verdade, foi um dos motivos que me levou à leitura, além de ser sua estréia na literatura, o que para mim é instigante começar pelo primeiro livro do autor. E ele estará na Feira do Livro de Porto Alegre para um debate no dia 5 de novembro, às 19h30min, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, com a participação do romancista policial Peter Robinson.

Texto de Leonice Schmorantz