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Posts de novembro 2008

Não desistam da gente ainda

26 de novembro de 2008 1

Postagens novas em breve. E neste fim de semana, teremos mais um Conto da Quinzena.

Stay Tuned.

Postado por Carlos André Moreira

O rato se despede

17 de novembro de 2008 2

Senhores, foram duas semanas deveras divertidas, e é com cansaço mas com pena que este rato se despede de sua identidade animal (não sei por que, mas esta frase não caiu legal) da Feira.

A última frase publicada aí embaixo faz pouco, como dois leitores já mataram nos comentários e uns outros tantos de vocês já deve ter adivinhado, é de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Este rato gostaria de aproveitar o espaço para agradecer a Patrícia Rocha, Luís Bissigo, Eduardo Veras, Marcelo Gonzatto, Gabriel Brust, Luiz Zini Pires, repórteres que, ao trabalharem em pautas do caderno da Feira, liberaram algumas vezes este rato para caçar capas bregas e assunto para uma coluna na Feira enquanto eles faziam parte do trabalho pesado. O agradecimento é extensivo a Daniel Feix e ao “tiranete de sorriso doce” (a frase pode ser meio frufru, mas não é minha, é do Renato Mendonça, do blog Caco) Ticiano Osório — a identidade civil do escritor fictício Dario Vilefor.

A Capa Brega foi  um lance tão divertido e tão bacana de fazer que este rato promete fazer continuar a série aqui no blog, mas ainda não defini periodicidade.

Ah, sim, este rato/editor está saindo de férias, mas atualizará o blog ainda.

Tudo de bom pra vocês.

Postado por Carlos André Moreira

O autor que não amava seus leitores

16 de novembro de 2008 3

Quando o rapper norte-americano 50 Cent surgiu, o fato de ter sobrevivido a 11 tiros e ainda possuir um dos projéteis alojado na boca rivalizava em atenção com sua música. Até porque sua música era irrelevante. O mesmo acontece com Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Praticamente nenhuma reportagem ou resenha a respeito da trilogia do sueco Stieg Larsson vem desacompanhada de alguma citação sobre a estupenda vendagem da obra. Sua própria editora, inclusive, ressalta as cifras cobrindo parte da capa da brochura com uma fita onde lê-se o número de exemplares vendidos em todo mundo.

É o velho jogo psicológico do “se todo mundo leu, eu também tenho que ler”. Ou a teoria de que “se vendeu tanto, só pode ser bom”. Funcionou com O Código da Vinci e também com Harry Potter. E como ambos, Os Homens… vai virar filme.

Eu não contribuí para deixar o defunto mais rico — Larsson morreu antes de ver sua obra impressa, vítima de um ataque cardíaco fulminante em 2004. Peguei emprestado, li e, tal como um rap de 50 Cent, foi difícil chegar até o final. Mas consegui entender porque o livro vendeu tanto.

Os Homens que Não Amavam as Mulheres vendeu tanto da mesma forma que 50 Cent vende. Porque é raso. É frouxo. É óbvio, e não apresenta nenhum tipo de perigo. Sua batida, perdão, sua narrativa é fluida e ágil, e de fato prende a atenção. Mas isso justifica o oba oba todo feito sobre a obra? Qualé…

Trata-se de um romance policial dos mais anódinos, de fazer qualquer Sidney Sheldon parecer um gênio. Temos um crime. Uma investigação. Tramas paralelas que não deixam dúvidas quanto ao seu cruzamento em algum momento. Personagens, esteriotipados ao extremo, que têm suas histórias contadas em flashbacks. Capítulos inteiros de um tecnicismo totalmente desnecessário. E — a cereja do bolo — um final previsível e decepcionante.

Mas tem mais. Tem o instinto panfletário de Larsson. Além de jornalista político _ praticamente a mesma profissão do protagonista Mikael Blomkvist — o escritor era também ativista, com foco nos direitos humanos e na defesa de mulheres e crianças. Dois pontos centrais da trama de Os Homens…, o que o torna um mal-acabado manifesto denuncista. Tanto que o escritor faz questão de imprimir dados a respeito de violência sexual e doméstica sofrida por mulheres até na abertura dos capítulos. Sem contar na própria história, muitas vezes seguidas de frases de efeito.

Não, não acabou. Não obstante o tom panfletário, Larsson parece ter feito escola com algum novelista brasileiro. Certos enigmas se resolvem de maneira tão simplória ou absurda que dá a impressão que o escritor foi um grande fã de videogame que, nos momentos críticos dos jogos, recorria a códigos secretos para avançar. E ele faz o mesmo no livro, arranjando quase sempre uma solução fácil e rápida que leva o leitor adiante. Funciona aos 13 anos. Depois, qualé…

Ao final, tudo se explica de maneira tão.. tão… tão… argh, que dá vontade de bater na própria testa e pensar alto “ah, não, me engaram de novo”. É, enganaram. Mas se serve de consolo, você não está sozinho. E tem mais dois volumes igualmente gordos chegando. É, o sueco planejou uma trilogia. Azar de quem acredita em números.

Sim, a capa da edição nacional não faz nenhum sentido. Ao que tudo indica, os gênios da Companhia das Letras se inspiraram na idéia da edição em língua inglesa, onde o livro é vendido como The Girl With the Dragon Tattoo — referência ao desenho que uma das personagens tem nas costas. Ah, bom.

Comentário do editor deste blog. É o único idioma até agora em que o título do primeiro dos livros originais perdeu “homens” para ganhar “girl”. Será que as editoras inglesas acham que seus leitores porão sua masculinidade em risco se comprarem um livro com o título que o autor da obra escolheu para ela? (Carlos André)

Postado por Gustavo Brigatti

Sol atrai o público no último dia da Feira

16 de novembro de 2008 0

Danilo Fantinel

Se a madrugada e a manhã foram de mau tempo na Capital gaúcha, com a chuva chorando o final de 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, o início da tarde do maior evento literário a céu aberto da América Latina está sendo celebrado por um forte sol – que, sim, se esconde entre nuvens em alguns minutos, mas sempre volta para agradar a quem está presente na Praça da Alfândega.

Por volta das 13h30min de hoje, o movimento já começava a se intensificar entre as alamedas da praça e em frente aos estandes de livreiros. A área de alimentação (foto) já tinha movimento daqueles que preferem fazer uma refeição antes da tradicional maratona atrás dos livros.

Nesta tarde, a programação conta com espetáculos infantis, como o Mini Circo (no Teatro Sancho Pança – Armazém B do Cais do Porto, às 15h) e o teatro de bonecos Romeu e Julieta (com o Grupo Pregando Peça, também no Sancho Pança, às 17h).

Para quem curte música, uma boa dica para este domingo na Feira é o espetáculo com os artistas pernambucanos do Grupo Fim de Feira, que contará com a a participação de Josildo Sá e Chico Pedrosa. Será no Espaço Pernambuco Nação Cultural, ao lado do estande de Pernambuco, às 15h30min.

E para os adultos a grande dica do dia é o evento Un amour de Sarau, coordenado pela Aliança Francesa. O sarau dedicado à França, país a ser homenageado pela Feira em 2009, será realizado no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.

Além disso, às 18h, ocorrerá a divulgação dos vencedores do prêmio Fato Literário 2008. Promoção do Grupo RBS em parceria com o Banrisul e o governo do Estado, a cerimônia chega a sua sexta edição. No ano passado, foram premiados o escritor Sérgio Faraco, o projeto de leitura para crianças do Hospital da PUCRS e o projeto Ler em Casa, de Picada Café.

* Veja a programação completa do último dia da feira do Livro no hagah

Postado por Danilo Fantinel

Um trecho (o último, na verdade)

15 de novembro de 2008 1

Bom, seus malditos ratos de livraria, vocês conseguiram outra vez. Um bom número acertou que o trecho que foi para o jornal de sexta era de Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas. Vamos, então, ao último derradeiro trecho final, bem facinho para que vocês possam todos acertar e se sentir felizes e guardar boas lembranças desta Feira. Foi ótimo ter vocês com a gente nesta cobertura (e continuem nos visitando, que o Mundo Livro continuará em atividade):

O senhor ri certas risadas… Olhe, quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente — depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão.

 

 

Postado por Carlos André Moreira

O melhor (e o pior) da Feira

15 de novembro de 2008 4

Fim de Feira é também hora de um balanço do que passou e até de premiação – tem Fato Literário no domingo. Este rato, inspirado nisso e motivado pelo Grammy Latino que passou na TV (horror, horror), resolveu ele próprio conceder seus prêmios ao que viu de melhor na Praça durante estes 15 dias:

Troféu A Distância Entre Nós: para as barracas da Feira, com um espaço indiscutivelmente maior entre uma e outra, proporcionando conforto na hora de vasculhar as caixas e estandes.

Troféu E a Loucura das Multidões: para os campeões de fila. Apesar da freqüência de público ter sido visivelmente menor, algumas filas de tamanho razoável se formaram para autógrafos como os de David Coimbra, Anonymus Gourmet, Martha Medeiros, o senador Pedro Simon e o jornalista Luis Cláudio Cunha, autor de O Seqüestro dos Uruguaios.

Troféu O Sol é para Todos: para o clima. Nas duas semanas de Feira, houve poucos dias de calor realmente forte – e só houve chuva realmente digna desse nome no primeiro fim de semana.

Troféu O Cheiro do Ralo: para os banheiros qúimicos em menor número do que em outras edições.

Troféu Ilusões Perdidas: nos primeiros dias, apesar do movimento na Feira ser perceptivelmente menor, os livreiros da Praça comentavam que a impressão era de que as vendas estavam melhores do que no ano passado. A divulgação dos números oficiais logo esfriou o otimismo.

Troféu O Processo: para a ronha da LIC. Depois de o pedido de recursos ter sido rejeitado uma vez e de a Câmara haver impetrado um recurso, a autorização para
captar verba com isenção de imposto estadual só foi liberada a quatro dias do fim do evento.

Troféu O Jardineiro Fiel: para o xerife Júlio La Porta, circulando pela Feira com sua já bem conhecida onipresença.

Troféu Levantado do Chão: para o bar da Feira, instalado em um deck que delimita o terreno. Teve quem reclamou. Teve quem adorou.

Troféu Animal Agonizante: Paulo Coelho sempre lançou livros antes da Feira, foi sucesso de venda e ainda assim emplacou vendagens significativas na Praça. Com o Vencedor Está Só, não aconteceu o mesmo.

Troféu A Idade da Razão: para o patrono Charles Kiefer, que completou 50 anos durante a Feira.

Troféu Os Irmãos Karamázov: para os próprios Irmãos Karamázov, cuja tradução nova, direta do russo, por Paulo Bezerra para a Editora 34, ficou pronta em
plena feira.

Troféu A Trégua: NÃO vai para parte do público que, tarde da noite de quinta-feira, buscou um autógrafo de Eduardo Galeano na Assembléia Legislativa. O escritor uruguaio ficou mais de duas horas assinando livros, até que pediu uma trégua. Muitos leitores reclamaram como se Galeano tivesse autografado por dois minutos.


Troféu O Pequeno Polegar:
para Eduardo Galeano, mais exatamente para o minicaderninho que o autor de Espelhos utiliza para anotar idéias e palavras
quando está na rua. O uruguaio mostrou a miniatura para Ruy Carlos Ostermann no Encontros com o Professor, quinta à noite, na Assembléia Legislativa.

Postado por Carlos André Moreira

Um trecho

14 de novembro de 2008 11


Mostrando intimidade com a obra de García Márquez, um bom número de leitore de nossso blog matou que o trecho de quinta era de O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez. Outros acertaram o autor, mas não a obra.

Vamos dificultar um pouquinho mas não muito:

“Não conheço sua história inteira. Ninguém jamais a conhecerá, com exceção do próprio Fedro, e ele já não pode falar. Porém, a partir de seus escritos, do que outras pessoas disseram e de fragmentos de minha própria memória, será possível construir uma imagem aproximada daquilo sobre o que ele falava.”

Sabe de que livro é? E o autor? Opine nos comentários.

Postado por Carlos André Moreira

O espólio cinematográfico de Jane Austen

13 de novembro de 2008 4

Anne Hathaway como Jane Austen em cena do filme Amor e Inocência. Foto: Divulgação

Não restam grandes livros de Jane Austen a serem adaptados para o cinema. Depois do belíssimo filme Orgulho e Preconceito (o melhor livro e a melhor adaptação na opinião desta que vos escreve), de Razão e Sensibilidade, Emma e até Mansfield Park, esgotou-se a leva mais conhecida da obra da escritora. Tirando adaptações feitas para TV, faltariam superproduções apenas para os ainda mais obscuros A Abadia de Nothanger e Persuasão (se valer citação, este foi mencionado no água-com-açúcar A Casa do Lago, com Sandra Bullock).

Então, surge nas prateleiras da locadora o DVD Becoming Jane, que aqui no Brasil, seguindo o hábito das traduções incompreensíveis, foi batizado de Amor e Inocência: uma versão para lá de romanceada da juventude da autora. Não é um filme inesquecível nem chega perto de Orgulho e Preconceito (2005), de Joe Wright (eu avisei que era fã), mas reproduz com graça a atmosfera de Austen e das idiossincrasias da sociedade britânica do século 18. Para quem é fã, há o atrativo extra de identificar as citações. Além das literais – na história, Jane, interpretada por Anne Hathaway, começa a escrever Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade e acompanhamos a criação de trechos conhecidos das duas obras – há aquelas mais sutis. A Jane da tela assemelha-se à personagem Elizabeth Bennet, e seu amado é um misto do nobre e orgulhoso Fitzwilliam Darcy com o conquistador Wickham. Mas essas são apenas algumas das referências, e o DVD lista outras como bônus.

Está lá inclusive a manjada explicação de por que Jane Austen sempre brindou seus personagens com finais felizes.

Um registro histórico e literário? Longe disso. Mas um convite aos fãs da escritora para perambular por seu mundo por duas horas em uma produção de roteiro previsível, mas atenta aos detalhes e fiel ao espírito irônico, crítico e romântico de Austen. Ao menos da Jane Austen que julgamos conhecer.

A propósito: há pelo menos outros dois lançamentos austinianos previstos para cinema. Sense and Sensibilidad é uma adaptação contemporânea, ambientada em Los Angeles, e Jane Austen Handheld, mais uma versão para Orgulho e Preconceito. A conferir.

Ah, uma última observação. Vai abaixo o textinho  sobre o filme que o nosso colega Marcelo Perrone, crítico de cinema e um dos titulares do blog Primeira Fila, escreveu para uma recente página com os destaques em lançamentos de DVD:

Esta cinebiografia de Jane Austen conta a história da escritora britânica com a mesma estrutura narrativa dos célebres romances da autora de Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade, entre outros. Curiosamente, Jane (Anne Hathaway), que fez de suas heroínas apaixonadas personagens clássicas, nunca se casou. Mas presume-se que, por volta de 1795, ela tenha se interessado por um jovem estudante irlandês (James McAvoy). Amor e Inocência (Becoming Jane, EUA 2007) mostra os percalços dessa relação – frustrada pela interferência da família dela —, que teria inspirado Jane na sua futura criação literária.

Postado por Patrícia Rocha

O trecho do dia

13 de novembro de 2008 9

Nossos leitores estão cada vez mais afiados. Cinco acertaram que o trecho de ontem era do clássico infanto-juvenil Os meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár, escritor húngar. O livro tem uma edição estalando de nova à venda nas brancas da praça, mas a minha eu comprei em um sebo por cinco pilas, então sugiro que, quem possa, faça o mesmo.

Vamos, então, ao trecho de amanhã, para o qual prevejo um bom número de acertadores (Antes disso, só uma provocação aos guglistas: minha colega de redação Patrícia Rocha, enquanto revisava a página do Rato desta quinta-feira, matou a charada sem precisar de outra ferramenta de busca que a própria memória. Conseguem também vocês?).

“Embora ouvisse cada vez menos com o ouvido direito e se apoiasse numa bengala com castão de prata para dissimular a incerteza dos seus passos, continuava usando com a compostura dos seus anos moços o terno completo de linho com o colete atravessado pela corrente de ourou. A barba de Pasteur, cor de nácar, e o cabelo da mesma cor, muito bem alisado e com o repartido nítido no centro, eram expressões fiéis do seu caráter.”

Sabe de que livro é o trecho acima? E o seu autor? Opine nos comentários.

Postado por Carlos André Moreira

O Bar da Feira em um sábado à noite

12 de novembro de 2008 5

Imagem do dia 8 de novembro de 2008 no bar da Feira/Tadeu Vilani

Por André Roca, editor assistente de Esportes do clicRBS

Recebi uma missão. Teria de escrever sobre o bar da Feira. Aliás, o Bar da Feira, assim mesmo, com bê em caixa alta, tamanho o sucesso do local. Comecei a preparar um material, até que, nesta segunda, li o texto da Patrícia Rocha na Zero Hora. Credo!, pensei. Se a Patrícia Rocha escreveu sobre o Bar, não me resta mais nada a fazer. Porque o texto da Patrícia Rocha é muito, mas muito bom! Duvidou? Então lê a matéria dela.

Para minha sorte, já tinha feito umas observações, resultado de uma incursão ao famoso bar num sábado à noite. Antes preciso dizer que saí de casa com outro destino, neste dito sábado, mas acabei lá, na Praça da Alfândega. Por isso, estava sem papel e caneta em mãos. E, também por isso, fui logo fazendo um pedido ao atendente de uma as lanchonetes do lugar:

- Garçom, uma caneta, por favor.

- Tome, senhor.

- Você não entendeu, garçom. Preciso da sua caneta, por muito, mas muito tempo.

- Desculpe, senhor. Não servimos canetas no Bar da Feira.

- Mas a Feira não é das letras, garçom?

- É dos livros, senhor! E os livros já vêem impressos, senhor.

Senti-me ultrajado.

Tentei comprar a caneta de uma vizinha de mesa, mas ela se negou e ainda ameaçou chamar o segurança. Deve ter pensado que era uma cantada. As pessoas andam nervosas hoje em dia, e as mulheres, principalmente, acham que tudo é cantada! Até pensei em mostrar a aliança para acalmá-la (olha aqui, ó… ), mas aí vi que ela, a aliança, estava na mão direita, hábito que tenho por me sentir deveras incomodado com esse adorno. Uma incomodação física, diga-se. De tempos em tempos, troco a aliança de mão, ou morro! Sério, dá uma agonia que só passa depois de trocar a aliança de mão. Outro dia, no médico do exame periódico, ele comentou:

- Olha só, é noivo!

Tive de explicar toda a história. Ainda bem, ele disse que faz o mesmo, ou eu sairia de lá com alguma observação na ficha profissional: POSSÍVEL PSICOPATA – NÃO CONTRARIAR.

Não mostrei a aliança pra moça. Superei a rejeição e resolvi que aguçaria ainda mais olhos e ouvidos, e assim que tivesse material, correria para colocar tudo no computador… em casa, claro! Eis o que resultou:
 
Primeira observação: Maconha?
Antes de o garçom chegar, sentei-me em um lugar com vista para quase todas as mesas. Observava a movimentação, quando notei um camarada nas proximidades com um papel-seda em mãos, preparando o que parecia ser um baseado. Ele ajeitou o conteúdo com cuidado, levou até a boca, lambeu uma das extremidades do papel e começou a embrulhar. Maconha, pensei, certo que é maconha!
Nisso, chegam mulher filho do cidadão. Ela faz um comentário:
– Meu avô fumava “palêio” – disse, fazendo referência ao modo como o vovozinho em questão costumava chamar o palheiro, o cigarro dos mais antigos.
E o garoto, na frase mais lúcida da noite:
– Ei, você vai morrer se fumar!
Toma! Nos dedos!
O homem largou o cigarro na mesa, ao lado de um pacote que, só ai identifiquei, era de tabaco.
 
Segunda observação: Cadê o romance?

Fui ao Bar preparado para presenciar amores eternos surgirem. Exagero? Para quem não sabe, o Patrono Charles Kiefer começou a namorar a Marta, sua mulher, lá.

> Charles Kiefer conta como começou o namoro

> Marta dá a versão feminina para a história

E, para um escritor, creio, os amores são sempre eternos. Afinal, durem ou não na realidade, fornecerão por uma vida material para tramas e dramas no mundo da ficção. E se o Patrono namorou no Bar, bom, estão liberados os flertes entre a plebe. E teria eu chance melhor de testemunhar um novo romance aflorar no Bar da Feira do que em um sábado à noite? Claro que não! E vai que o Patrono da Feira de 2020 está por ali, só no bico da futura primeira-dama dos livros.

Comecei procurando uma dupla que, assim como Marta e Charles deveriam estar no passado, aparentassem aquele ar de “quero você”. Mas as coisas hoje, oito anos depois, já estão um pouco diferentes. Naquela época, o Bar ficava em uma área mais central da Feira, muito próximo ao pavilhão dos autógrafos. Era um ponto de encontro natural de escritores, intelectuais, jornalistas, professores etc. Um ambiente fértil para se tirar histórias para uma coletânea de contos e crônicas. Um local em que o amor pelas letras aproximava os amantes. E era um bar no significado mais popular do nome, comandado por uma casa noturna, e sem um cardápio muito variado de comes, mas com um apelo muito forte nos bebes.
Hoje, mais afastado do miolo do evento, o Bar encolheu, mas ganhou em elegância e requinte, e ainda ampliou as opções de lanche.

As bebidas seguem por lá, mas já não são o chamariz para o público. Público, aliás, que naquele sábado à noite era formado, basicamente – mas não exclusivamente -, por trabalhadores da Feira. Ao toque da sineta que anunciou o fim do expediente, por volta de 21h36min, as barracas foram fechadas. Enquanto alguns iam descansar, outros foram para o Bar contar as histórias de mais um dia vendendo cultura.

Mas a voracidade daquele pessoal, naquele momento, não era por romance. Eles estavam com fome, mesmo. E sede, muita sede. Devoravam pizzas, pastéis e copos de cerveja, muitos copos de cerveja. Levantei, percorri o espaço por entre as mesas, desci do deque, subi de novo, e… nada! Se algo ali vai acabar em namoro, certamente a história vai se desenrolar em outro ambiente.

Terceira observação: Sem tesão, não há solução!
Já tinha desistido de ver um romance. Levantei-me, girei os calcanhares e comecei a descer a pequena escada. Foi ai que escutei a frase que renovou as esperanças do pobre repórter:
- Sem tesão `naum` dá!
Parei imediatamente. Que frase! Só poderia ser algum machista insistindo para levar alguma donzela para o caminho tortuoso de um amor leviano. Achei minha história! Virei-me e…
Era um grupo de amigos, homens, falando de trabalho. Bom, mas ele tem razão. Sem tesão não há solução, já disse Roberto Freire em um livro que não li, portanto, não posso recomendar.

Quarta observação: Onde tem Jack Johnson tem beijo na boca!
Sem um case, comecei a refazer o caminho até o carro. Já passava das 22h. Eu caminhava pelas ruelas da Feira do Livro quando, lá longe, escutei um Jack Johnson! Jack Johnson, cara! Sinal de romance! Onde tem Jack Johnson tem beijo na boca. Pelo menos uma mão no pescoço vai estar rolando, pensei de novo. E lá fui, seguindo a melodia.
O som vinha do bar do Margs. Um bar já em outro nível, com champanhe sendo servido e música ao vivo coisa e tal. Ali, sim, encontrei pessoas mais arrumadas, perfumadas, prontas pro crime. Ali, encontrei pessoas mais preocupadas com a leitura da compra recente do que com o estômago vazio. Mas, apesar do Jack, não tinha romance também. Foram algumas horas, neste sábado, em que o amor alheio me evitou. Talvez por timidez, vai saber!

Por fim: Doces para o fim da noite
Com uma pauta que não deu certo e sem ter sobre o que escrever, voltei ao Bar da Feira e comprei um pacote de doces de Pelotas, que lá no Bar tem uma lancheria que vende só doces de Pelotas. Pedi os mais calóricos. Devo ter comprado umas 35 mil calorias. Iria comer por todas as mulheres que não conseguiram um romance naquele sábado, pois os barbados não merecem minha consideração.
Olhei uma última vez em volta e, não sei explicar, senti orgulho. Orgulho desse filho da Feira do Livro que chega aos 24 anos sem nem de longe lembrar aquele Bar que surgiu em 1984, quando o evento pai celebrava uma maioridade balzaquiana. Mas que continua sendo um lugar de histórias. É só parar para observar, e contar do seu jeito!

> Leia mais histórias da Feira no site especial

Postado por André Roca (colaborou Diego Guichard)