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As chaves do prêmio

17 de dezembro de 2008 2

No fim eu ia comentar isso antes, mas estava de férias quando saiu o resultado e fui deixando e agora enquanto preparava a retrospectiva que vocês leram hoje no jornal eu me lembrei. Pois bem, como a maioria de vocês, meus bem informados leitores, já devem estar sabendo, saiu recentemente o resultado da 1ª edição do Prêmio São Paulo de Literatura, o certame que mais paga a um autor no Brasil: R$ 200 mil, e que, como a maioria dos prêmios deste ano, foi parar nas mãos de Cristóvão Tezza, pelo Filho Eterno. Mas não era dele que eu ia falar.

Uma das coisas que diferenciam esse recém-criado Prêmio São Paulo é que ele abertamente separa a competição entre autores estreantes e autores veteranos, premiando a melhor estréia literária, e nesta primeira edição o prêmio foi para a jovem Tatiana Salem Levy pelo romance A Chave de Casa, publicado no fim do ano passado. Pois bem, para que vocês saibam um pouquinho mais quem é Tatiana Salem Levy e qualé a do romance, fui recuperar ali nos meus arquivos a crítica que publicamos sobre o livro na Zero Hora, em 19 de março de 2008. Assinada por este seu blogueiro aqui mesmo. Divirtam-se:

Uma neta de judeus turcos residente no Brasil recebe do avô, moribundo, uma chave da casa na qual a família residia em Esmirna, na Turquia. O velho faz um pedido, que ela realize por ele o sonho de retorno ao lar. Esse é o ponto de partida do romance A Chave de Casa (Record, 208 páginas R$ 32), da estreante Tatiana Salem Levy, publicado primeiramente em Portugal e que ganhou faz pouco edição brasileira.
A Chave de Casa (sem nenhuma relação com o recente filme italiano As Chaves de Casa) é uma história de exílios. Cruzam-se, nos vaivéns de tempo e espaço da narrativa, várias instâncias. O avô da protagonista emigra da Turquia para o Brasil, fugindo de um amor não concretizado em sua terra. Terra para a qual a jovem retorna — ambos são criaturas desenraizadas, e o pedido do avô para que a neta busque seu passado é um pretexto para que ela própria se lance à procura de si e esqueça seus próprios naufrágios: a morte da mãe, o fracasso em uma relação com um homem violento, etapas narradas em capítulos desconexos, dispostos sem linearidade, antes procurando uma conexão afetiva do que de causa e efeito.
O uso de uma chave como elemento catalisador de uma busca é um signo algo  óbvio — só para citar um romance recente, também uma chave dá início à trama narrativa de Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, do americano Jonathan Safran Foer, no qual um menino filho de um homem morto no atentado de 11 de setembro encontra uma chave em um dos paletós do pai e sai em busca da solução desse último mistério. E pode-se dizer que os mesmos elementos resgatam os livros de uma premissa clichê: a linguagem, que se entrega com elegância à emoção, e o fato de que a chave é apenas um ponto de partida, um pretexto para o desenvolvimento da viagem.
O livro é digno de atenção por mais de um motivo, mas talvez o principal deles seja que é uma estréia feita de riscos. Na barafunda espaço-tempo criada pela autora, seria fácil o leitor se perder, mas a trama é conduzida com mão firme. Se a linguagem às vezes se perde em excessos poéticos e em alguns lugares- comuns (já na primeira página, uma seqüência especialmente lírica é afetada por um “nasci com os dois pés na cova”), à medida que o romance avança, o texto vai ganhando em qualidade e ritmo. Uma bela reflexão sobre as tentativas frustradas de retorno de quem tem dificuldade em saber por que partiu.

Comentários (2)

  • Mundo Livro » Arquivo » Conversa de Primos diz: 9 de novembro de 2010

    [...] (com o microfone na foto, de autoria de Bruno Alencastro/CRL) autora do impactante A Chave de Casa (sobre o qual você pode ler mais aqui) comentou na mesa realizada ontem na 56ª Feira do Livro o quanto o livro Primos (Record, 2010), [...]

  • Mundo Livro » Arquivo » Conhecendo os 20 mais diz: 10 de julho de 2012

    [...] Tatiana Salem Levy Outra das grandes autoras em atividade no Brasil, estreou com um belo e seguro romance, A Chave de Casa (Record, 2007), vencedor da primeira edição do Prêmio São Paulo, seguido por Dois Rios, romance que ela publicou neste ano. Já esteve na Feira do Livro de Porto Alegre na época em que estava divulgando a coletânea Primos, com narrativas de escritores brasileiros de ascendência árabe e judaica no mesmo volume (leia aqui a cobertura da mesa que ela dividiu com Cíntia Moscovich, Fabrício Carpinejar e Moacyr Scliar). Você pode ler aqui também uma resenha de seu primeiro romance, A Chave de Casa. [...]

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