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Pedaços de pedras

23 de dezembro de 2008 1

Então, como se sente? Você realmente esperava queGuerra nas Estrelas fosse decolar assim?
De jeito nenhum. Eu esperava que Loucuras de Verão fosse esse filme de sucesso moderado e fizesse mais ou menos US$ 10 milhões — que pode ser considerado, em Hollywood, um sucesso —, e então fiquei pasmo quando se tornou esse enorme sucesso. esse arrasa-quarteirão. E aí eles disseram: “Bem, puxa vida, como você vai superar esse aí?”. E eu disse: “Sim, eu acertei no alvo, foi um golpe de sorte”, Nunca achei que fosse acontecer de novo. Depois de Loucuras, na verdade, eu estava quebrado. Eu estava com centenas de dívidas com tantas pessoas que ganhei muito menos dinheiro no loucuras do que no THX 1138 (primeiro filme dele). Entre estes dois filmes, mais ou menos quatro ou cinco anos da minha vida, e após os impostos e tudo o mais, eu vivia com cerca de US$ 9 mil por ano. Foi realmente muita sorte minha mulher estar trabalhando como assistente de montagem. Isso foi a única coisa que nos manteve. Então, finalmente, eu consegui um acordo por uma soma insignificante de dinheiro para desenvolver Guerra nas Estrelas.

Um bom material jornalístico depende de uma história interessante, de um texto de qualidade, de informações relevantes e/ou saborosas e de um trabalho consistente de edição. Muitas vezes, falta alguma coisa nessa mistura, e sabemos que um material informativo era muito bom quando ele sobrevive à mais porca das edições. É o caso da coletânea As Melhores Entrevistas da Rolling Stone, organizada por Jann S. Wenner e Joe Levy (Larousse). É a reunião em livro de 40 grandes entrevistas publicadas entre 1968 e 2005 pela revista que se tornou bíblia do rock e do comportamento americano. Estão lá Pete Townshend, Ray Charles, Kurt Cobain, Jack Nicholson, Patti Smith, Keith Richards, John Lennon, Bob Dylan, Bono Vox, Johnny Cash, George Lucas (no trecho acima, publicado em 1977, analisando ainda meio estupefato o que havia acontecido após o estouro de Guerra nas Estrelas e as dificuldades até ali), Phil Spector, Brian Wilson, Mick Jagger, entre outros.

Um repertório inegavelmente consistente de entrevistas feitas pela publicação ao longo dos anos, mas jogadas no livro de qualquer jeito. A única informação adicional sobre as entrevistas, além das perguntas e respostas, é a data de publicação. Ou seja: não há menções ao contexto da entrevista, não há o “olho”, que em jargão jornalístico é como se chama aquele texto de apresentação no qual o repórter dá alguns detalhes saborosos de como o papo se desenrolou, não há sequer uma contextualização da vida do artista na época, em que ponto sua carreira estava, o que já havia feito até então, tudo sai direto das perguntas e respostas, que nem sempre repassam a vida inteira do cara (principalmente nas mais recentes).

À parte isso, a tradução de Emanuel Mendes Rodrigues tem toda a pinta de um trabalho apressado, no qual se perde qualquer noção de elegância textual (o trecho mesmo de Lucas que vocês lêem na abertura do post padece de um excesso de pronomes pessoais desnecessários em português e da abundância da construção “esse filme” para um filme que ainda não havia aparecido na conversa. É uma fórmula comum em inglês mas deselegante e um tanto truncada em nossa língua). Mais adiante, na entrevista com Spike Lee, o primeiro filme de sucesso do cineasta ganha o nome de Lute pela Coisa Certa, quando o nome comercial do filme no Brasil era, como muitos aí devem saber, Faça a Coisa Certa. E o tradutor ainda sapeca na continuidade da mesma frase que o filme foi uma “examinação” de diferenças superficiais que mantêm os negros à margem da sociedade americana.

E ainda assim, com esse trabalho editorial pobre e leniente, com essa tradução desleixada, as entrevistas reunidas no livro são um assombro. Estão lá Pete Townshend, o líder do The Who, exorcizando a infância difícil e o trauma do seu proeminente narigão; Jim Morrison analisando a repercussão de algumas de suas declarações bombásticas e mostrando-se, em vez do malucaço que todo mundo acha, um artista com uma esperta percepção de mídia e um talento para manipular seus entrevistadores; John Lennon dizendo que George Harrison era um ótimo guitarrista, mas que ele, Lennon, preferia seu próprio estilo, que não era tão bom mas fazia a guitarra “falar”. David Letterman assumindo que seus relacionamentos são prejudicados porque ele é “bêbado e chato”. Entrevistas nas quais o entrevistado se obriga a se desnudar diante do entrevistador, seja pela cumplicidade (no caso da maioria), seja no caso do confronto eventual (como a já citada entrevista de Spike Lee).

Comentários (1)

  • Raquel diz: 28 de dezembro de 2008

    Não sei se vocês do blog já conhecem e participam, mas mesmo assim deixo a dica: http://www.bookcrossing.com/
    Liberte um livro! Vamos aumentar a troca de livros em Porto Alegre!

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