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A voz do Lobo

31 de dezembro de 2008 0

Chegava sempre antes da sineta quando ia buscar a minha filha e tirando a madrinha da aluna cega a cochichar cumprimentos em tom de desculpa sem que eu a entendesse
(de tão exagerada na infelicidade dava vontade de gritar
— Afaste-se de mim não me aborreça)
não havia ninguém ao portão de modo que o recreio vazio excepto uma árvore de que nunca soube o nome com as folhas demasiado pequenas para o tronco e se calhar composta de várias árvores diferentes
(as mãos do meu pai minúsculas no fim de braços enormes, se calhar composto de vários homens diferentes)
o escorrega a que faltavam tábuas com o letreiro Não Usar e a porta e as janelas trancadas, derivado à impressão que ninguém lá dentro compreendi a madrinha da aluna cega, disse-lhe sem palavras
— Não é exagerada perdão
e como deixei de ter filha cessei de respirar, não só a porta e as janelas trancadas, compartimentos desertos, poeira, o edifício das escola afinal abandonado e velho, a madrinha da aluna cega aproximou-se carregando cheiros antigos e nisto que alívio a sineta
(— Pieguice minha és exagerada sim)
a sacudir as folhas da árvore
(ou os braços do meu pai)
os dedos cessaram de atormentar o fecho da mala e o coração diminuiu nas costelas, os pulmões graças a Deus respiram, estou aqui, quantas vezes ao acordar-me surpreendia que os móveis fossem os mesmos da véspera e recebia-os com desconfiança, não avreditava neles, por ter dormido era outra e no entanto os móveis obrigavam-me às recordações de um corpo a que não queria voltar, que desilusão esta camilha, esta cadeira, eu, cochichar à madrinha da aluna cega o que me cochichava a mim, pedir desculpa sem que me liguem e a porta e as janelas abertas, a professora nas escadas, as primeiras crianças ao portão, pais
(não o meu pai)
ao portão comigo, não o meu pai que não lhe sobrava tempo
— Não te mexas que me dás nos nervos
a conversar com o empregado ou a falar ao telefone da secretária do jornal cheia de cartas, retratos, ganharia muito dinheiro você pai
(não acredito)
não finja que não alcança o que lhe digo
— Pões-me nervoso tu
morreu há uma data de anos, passa da meia-noite
(— Tardíssimo filha)
e não finja que não alcança o que lhe digo, meia-noite nesta vivendinha do Pragal, daqui a pouco sons húmidos de foca no primeiro andar e a senhora
— Pões-me nervosa tu
era o meu pai que eu punha nervoso apesar de calada
(Ainda aí estás que mania)
a senhora o meu nome
— Ana Emília
a chapinha no colchão e os rebentos do arbusto de groselha ao comprido do muro, a sineta da escola acelerava o tempo, as folhas da árvore a pularem sílabas muito depressa
— Ana Emília
na porta a aluna cega, a minha filha, as gémeas e a ruiva gorda que era preciso empurrar na ginástica, a empregada da limpeza destrancava as janelas e nem compartimentos desertos nem poeira, nenhum defunto todo direito de gravata branca a espiar-me, somente mapas, carteiras, restos de números a giz, a testa de meu pai um lençol de cama por fazer…

Cruzamento é uma boa palavra para definir o efeito produzido pela prosa do mestre português António Lobo Antunes: em sua voz única e ao mesmo tempo exasperante, fragmenta-se a narrativa e os pontos de vista, e cruzam-se vozes diversas, tempos e momentos diferentes, o que o personagem narra e o que ele pensa, frases que dialogam e muitas vezes se confrontam dispotas na página quase como numa pauta musical, como vocês podem ver no trecho acima, de Ontem não te vi em Babilónia, mais recente livro do autor a sair no Brasil. O fluxo narrativo de consciência é interrompido a intervalos por ilações entre parênteses que representam o pensamento mais íntimo do personagem e que muitas vezes contraria e desmente a narrativa fragmentada que a primeira voz está montando.

Lobo Antunes tem uns 10 livros já lançados aqui no mercado literário nacional (e ainda encontráveis, embora dispersos por mais de uma editora ou selo: alguns mais antigos, com Fado AlexandrinoO Esplendor de Portugal pela Rocco e os mais recentes, como Boa Tarde às coisas aqui em baixo e Eu Hei-de Amar Uma Pedra pela Objetiva e pelo selo desta mesma Alfaguara – que também andou disponibilizando novas edições dos primeiros romances do autor, como Os cús-de-Judas, Conhecimento do Inferno e Memória de Elefante). O autor português é presença confirmada na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo deste ano, e se você leu a matéria que publicamos na edição conjunta de hoje, deve ter vindo aqui para conferir um trecho da obra. Pois aí está. Ontem não te vi em Babilónia é um coral de vozes insones que, da meia noite às cinco da manhã, repassam suas trajetórias da forma fragmentada característica de Antunes, montando camada a camada ao longo do calhamaço de 434 páginas uma história que não é uma totalidade, e sim um mosaico de cacos que enganam ao refletir a luz de outros fragmentos.

Postado por Carlos André Moreira

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