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Posts de dezembro 2008

A voz do Lobo

31 de dezembro de 2008 0

Chegava sempre antes da sineta quando ia buscar a minha filha e tirando a madrinha da aluna cega a cochichar cumprimentos em tom de desculpa sem que eu a entendesse
(de tão exagerada na infelicidade dava vontade de gritar
— Afaste-se de mim não me aborreça)
não havia ninguém ao portão de modo que o recreio vazio excepto uma árvore de que nunca soube o nome com as folhas demasiado pequenas para o tronco e se calhar composta de várias árvores diferentes
(as mãos do meu pai minúsculas no fim de braços enormes, se calhar composto de vários homens diferentes)
o escorrega a que faltavam tábuas com o letreiro Não Usar e a porta e as janelas trancadas, derivado à impressão que ninguém lá dentro compreendi a madrinha da aluna cega, disse-lhe sem palavras
— Não é exagerada perdão
e como deixei de ter filha cessei de respirar, não só a porta e as janelas trancadas, compartimentos desertos, poeira, o edifício das escola afinal abandonado e velho, a madrinha da aluna cega aproximou-se carregando cheiros antigos e nisto que alívio a sineta
(— Pieguice minha és exagerada sim)
a sacudir as folhas da árvore
(ou os braços do meu pai)
os dedos cessaram de atormentar o fecho da mala e o coração diminuiu nas costelas, os pulmões graças a Deus respiram, estou aqui, quantas vezes ao acordar-me surpreendia que os móveis fossem os mesmos da véspera e recebia-os com desconfiança, não avreditava neles, por ter dormido era outra e no entanto os móveis obrigavam-me às recordações de um corpo a que não queria voltar, que desilusão esta camilha, esta cadeira, eu, cochichar à madrinha da aluna cega o que me cochichava a mim, pedir desculpa sem que me liguem e a porta e as janelas abertas, a professora nas escadas, as primeiras crianças ao portão, pais
(não o meu pai)
ao portão comigo, não o meu pai que não lhe sobrava tempo
— Não te mexas que me dás nos nervos
a conversar com o empregado ou a falar ao telefone da secretária do jornal cheia de cartas, retratos, ganharia muito dinheiro você pai
(não acredito)
não finja que não alcança o que lhe digo
— Pões-me nervoso tu
morreu há uma data de anos, passa da meia-noite
(— Tardíssimo filha)
e não finja que não alcança o que lhe digo, meia-noite nesta vivendinha do Pragal, daqui a pouco sons húmidos de foca no primeiro andar e a senhora
— Pões-me nervosa tu
era o meu pai que eu punha nervoso apesar de calada
(Ainda aí estás que mania)
a senhora o meu nome
— Ana Emília
a chapinha no colchão e os rebentos do arbusto de groselha ao comprido do muro, a sineta da escola acelerava o tempo, as folhas da árvore a pularem sílabas muito depressa
— Ana Emília
na porta a aluna cega, a minha filha, as gémeas e a ruiva gorda que era preciso empurrar na ginástica, a empregada da limpeza destrancava as janelas e nem compartimentos desertos nem poeira, nenhum defunto todo direito de gravata branca a espiar-me, somente mapas, carteiras, restos de números a giz, a testa de meu pai um lençol de cama por fazer…

Cruzamento é uma boa palavra para definir o efeito produzido pela prosa do mestre português António Lobo Antunes: em sua voz única e ao mesmo tempo exasperante, fragmenta-se a narrativa e os pontos de vista, e cruzam-se vozes diversas, tempos e momentos diferentes, o que o personagem narra e o que ele pensa, frases que dialogam e muitas vezes se confrontam dispotas na página quase como numa pauta musical, como vocês podem ver no trecho acima, de Ontem não te vi em Babilónia, mais recente livro do autor a sair no Brasil. O fluxo narrativo de consciência é interrompido a intervalos por ilações entre parênteses que representam o pensamento mais íntimo do personagem e que muitas vezes contraria e desmente a narrativa fragmentada que a primeira voz está montando.

Lobo Antunes tem uns 10 livros já lançados aqui no mercado literário nacional (e ainda encontráveis, embora dispersos por mais de uma editora ou selo: alguns mais antigos, com Fado AlexandrinoO Esplendor de Portugal pela Rocco e os mais recentes, como Boa Tarde às coisas aqui em baixo e Eu Hei-de Amar Uma Pedra pela Objetiva e pelo selo desta mesma Alfaguara – que também andou disponibilizando novas edições dos primeiros romances do autor, como Os cús-de-Judas, Conhecimento do Inferno e Memória de Elefante). O autor português é presença confirmada na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo deste ano, e se você leu a matéria que publicamos na edição conjunta de hoje, deve ter vindo aqui para conferir um trecho da obra. Pois aí está. Ontem não te vi em Babilónia é um coral de vozes insones que, da meia noite às cinco da manhã, repassam suas trajetórias da forma fragmentada característica de Antunes, montando camada a camada ao longo do calhamaço de 434 páginas uma história que não é uma totalidade, e sim um mosaico de cacos que enganam ao refletir a luz de outros fragmentos.

Postado por Carlos André Moreira

Entrando em acordo

30 de dezembro de 2008 0

Este post vai para aqueles amantes da literatura que vão ter de se esforçar bastante para se acostumar a ler as aventuras de Eneias na epopeia Eneida, de VIrgílio, ou a saga de Ulisses na Odisseia, ou as proezas dos que lutaram em Troia, assim mesmo como está escrito, sem o acento no ditongo aberto. O mesmo vai acontecer a partir de primeiro de janeiro com a coletânea de contos Patuleia, de João Antônio, com Os Últimos Dias de Pompeia, de Lord Bulwer Lytton, com a Medeia, de Eurípides, com a recente edição em português de O Caçador de Androides, de Philip K. Dick, e isso que eu falei apenas de obras consagradas e, por enquanto, deixei de lado os autores que estão fazendo sua estreia na literatura. Com o fim do trema, extinto para sempre a não ser em palavras e nomes estrangeiras (como o do alemão Heinrich Böll, por exemplo, ou o também alemão Heiner Müller, mais próximo de nós já que Müller é um sobrenome comum de muita gente que reside no Brasil), teremos de nos acostumar também com coisas como O Americano Tranquilo, de Graham Greene, ou qualquer obra que analise a arte clássica da Eloquência.

Como vocês puderam ver no trecho acima, deliberadamente cheio de casos que são afetados pela nova ortografia oficial do idioma português que entra em vigor a partir de 1º de janeiro, algumas das obras com as quais nós, leitores, nos formamos, e que nos acostumamos a ver escritas de um modo, agora serão escritas de outro. Zero Hora, bem como outras publicações periódicas de grande circulação, já começa a usar a nova ortografia a partir deste dia 1º de janeiro, o que vale também para este blog, portanto não estranhem se encontrarem neste espaço alterações como as apresentadas no início deste texto, variações sutis para os títulos com os quais vocês já estavam acostumados

Na prática, muda pouca coisa no acordo, e muita gente que se vira razoavelmente bem no idioma vai poder passar um bom tempo sem usar nenhuma das palavras alteradas, mas as principais mudanças são as seguintes:

* Eliminação do trema, como já dissemos antes (menos, repetindo, em sobrenomes ou palavras estrangeiras e seus derivados).
Logo, todos os livros infantis com Pinguim já vão mudar, de cara. E são muitos. Ou edições novas do Homem Delinquente, de Cesare Lombroso.

* Alteração nas regras de acentuação para ditongos abertos ei e oi em paroxítonas e para hiatos com vogais.
É aí que entram os títulos que comentamos antes e outros ainda, como O Voo da Madrugada, de André Sant`Anna, Joias de Família, de Zulmira Ribeiro Tavares, e até para muito livro vagabundo de autoajuda, como Ideias para sua Carreira ou coisa parecida. Mas atenção: as oxítonas conservam o acento, então O Senhor dos Anéis, de Tolkien, o Capítulo dos Chapéus, de Machado de Assis, e Entre os Fiéis, de V.S. Naipaul, não mudam nada.

* alterações no hífen.
Essas não tem lá muito como sistematizar em uma norma única e mais simplificada, a chave é mesmo saber caso a caso. Toda palavra composta em que o segundo termo tem H leva hífen, e portanto o Super-Homem de Nietzsche continua com seu hífen onde sempre esteve. Mas quando a primeira palavra termina com a mesma vogal que inicia a segunda palavra do composto, o hífen também passa a ser obrigatório, e, portanto, aquele aparelho em que o detetive Espinosa, o policial recorrente dos livros de Luiz Alfredo García-Roza, esquenta sua lasanha congelada horrorosa, o micro-ondas, agora se grafa assim.

Alguns poderiam dizer que essa regra evitaria choque de letras iguais em uma palavra composta, mas o fato é que quando não separou o que estava junto, o acordo juntou o que estava separado – e ainda dobrou letras. Quando prefixos terminados em vogal encontram palavras começadas em R ou S, cai o trema, junta-se as duas e dobra-se o r ou o s. Assim, as obras militantes Deus: um delírio, de Richard Dawkins, e Deus não é Grande, de Christopher Hitchens, passam a ser definidas como manifestos antirreligiosos.

Quem estiver duvidando, que vá ao texto oficial do acordo, aqui e averigue.

O mais engraçado é que o acordo não unifica muito, no fim das contas. As grandes diferenças de pronúncias e acentuação entre Portugal e Brasil (aqui se diz bebê e lá bebé, lá usam Amazónia, aqui Amazônia, lá é gémeo, aqui é gêmeo) continuam, porque não há como alterar o que é resultado de pronúncia diferente, e portanto o acordo estabelece formas duplas de ortografia, uma tão válida quanto a outra. O último livro de António Lobo Antunes publicado no Brasil, Ontem não te vi em Babilónia, não teria modificação alguma no título ou no nome do autor.

Bem vindo ao Admirável Português Novo, meu companheiro neoanalfabeto (assim, sem hífen e tudo junto).

Postado por Carlos André Moreira

A despedida de Harold Pinter

29 de dezembro de 2008 2

Harold Pinter na entrevista após a concessão do Nobel, em 2005. Foto: AP

Poema
(Para A)

Quando eu morrer vou sentir tanto sua falta
O sorriso mais adorável
A maciez de seu corpo em nossa cama

Minha noiva eterna
Quando eu morrer não se esqueça
Você está sempre viva em meu peito e minha cabeça

O poema acima é de autoria do dramaturgo, escritor e laureado pelo Nobel de Literatura Harold Pinter, e é dedicado a sua esposa, Antonia Fraser. Os versos estão na terceira edição da revista Granta, publicação literária inglesa que desde 1979 veicula textos, poemas, artigos, contos e trechos de romances em andamento de grandes autores. Começou a ser publicada aqui no Brasil no fim de 2007, quando a Alfaguara passou a sair no país como selo da editora Objetiva. Este terceiro número traz o material publicado lá fora como o número 100 da revista, uma edição comemorativa que juntou alguns dos maiores nomes que já passaram pela revista, como Martin Amis, Julian Barnes, Doris Lessing, Hanif Kureish, Ian McEwan, Salman Rushdie, Mario Vargas Llosa e o próprio Harold Pinter, que contribui com esse poema com a tristeza de uma despedida.

Pinter morreu aos 78 anos no último dia 24, em Londres, cidade onde nasceu e onde vivia com a esposa. As palavras do poema não são de modo algum “proféticas”, são antes a reflexão sobre algo que atormentava o escritor nos últimos anos: a luta contra o câncer. Ele precisou remover cirurgicamente um câncer no esôfago em 2002 e há dois anos lutava contra uma manifestação da doença no fígado.

Postado por Carlos André Moreira

Pedaços de pedras

23 de dezembro de 2008 1

Então, como se sente? Você realmente esperava queGuerra nas Estrelas fosse decolar assim?
De jeito nenhum. Eu esperava que Loucuras de Verão fosse esse filme de sucesso moderado e fizesse mais ou menos US$ 10 milhões — que pode ser considerado, em Hollywood, um sucesso —, e então fiquei pasmo quando se tornou esse enorme sucesso. esse arrasa-quarteirão. E aí eles disseram: “Bem, puxa vida, como você vai superar esse aí?”. E eu disse: “Sim, eu acertei no alvo, foi um golpe de sorte”, Nunca achei que fosse acontecer de novo. Depois de Loucuras, na verdade, eu estava quebrado. Eu estava com centenas de dívidas com tantas pessoas que ganhei muito menos dinheiro no loucuras do que no THX 1138 (primeiro filme dele). Entre estes dois filmes, mais ou menos quatro ou cinco anos da minha vida, e após os impostos e tudo o mais, eu vivia com cerca de US$ 9 mil por ano. Foi realmente muita sorte minha mulher estar trabalhando como assistente de montagem. Isso foi a única coisa que nos manteve. Então, finalmente, eu consegui um acordo por uma soma insignificante de dinheiro para desenvolver Guerra nas Estrelas.

Um bom material jornalístico depende de uma história interessante, de um texto de qualidade, de informações relevantes e/ou saborosas e de um trabalho consistente de edição. Muitas vezes, falta alguma coisa nessa mistura, e sabemos que um material informativo era muito bom quando ele sobrevive à mais porca das edições. É o caso da coletânea As Melhores Entrevistas da Rolling Stone, organizada por Jann S. Wenner e Joe Levy (Larousse). É a reunião em livro de 40 grandes entrevistas publicadas entre 1968 e 2005 pela revista que se tornou bíblia do rock e do comportamento americano. Estão lá Pete Townshend, Ray Charles, Kurt Cobain, Jack Nicholson, Patti Smith, Keith Richards, John Lennon, Bob Dylan, Bono Vox, Johnny Cash, George Lucas (no trecho acima, publicado em 1977, analisando ainda meio estupefato o que havia acontecido após o estouro de Guerra nas Estrelas e as dificuldades até ali), Phil Spector, Brian Wilson, Mick Jagger, entre outros.

Um repertório inegavelmente consistente de entrevistas feitas pela publicação ao longo dos anos, mas jogadas no livro de qualquer jeito. A única informação adicional sobre as entrevistas, além das perguntas e respostas, é a data de publicação. Ou seja: não há menções ao contexto da entrevista, não há o “olho”, que em jargão jornalístico é como se chama aquele texto de apresentação no qual o repórter dá alguns detalhes saborosos de como o papo se desenrolou, não há sequer uma contextualização da vida do artista na época, em que ponto sua carreira estava, o que já havia feito até então, tudo sai direto das perguntas e respostas, que nem sempre repassam a vida inteira do cara (principalmente nas mais recentes).

À parte isso, a tradução de Emanuel Mendes Rodrigues tem toda a pinta de um trabalho apressado, no qual se perde qualquer noção de elegância textual (o trecho mesmo de Lucas que vocês lêem na abertura do post padece de um excesso de pronomes pessoais desnecessários em português e da abundância da construção “esse filme” para um filme que ainda não havia aparecido na conversa. É uma fórmula comum em inglês mas deselegante e um tanto truncada em nossa língua). Mais adiante, na entrevista com Spike Lee, o primeiro filme de sucesso do cineasta ganha o nome de Lute pela Coisa Certa, quando o nome comercial do filme no Brasil era, como muitos aí devem saber, Faça a Coisa Certa. E o tradutor ainda sapeca na continuidade da mesma frase que o filme foi uma “examinação” de diferenças superficiais que mantêm os negros à margem da sociedade americana.

E ainda assim, com esse trabalho editorial pobre e leniente, com essa tradução desleixada, as entrevistas reunidas no livro são um assombro. Estão lá Pete Townshend, o líder do The Who, exorcizando a infância difícil e o trauma do seu proeminente narigão; Jim Morrison analisando a repercussão de algumas de suas declarações bombásticas e mostrando-se, em vez do malucaço que todo mundo acha, um artista com uma esperta percepção de mídia e um talento para manipular seus entrevistadores; John Lennon dizendo que George Harrison era um ótimo guitarrista, mas que ele, Lennon, preferia seu próprio estilo, que não era tão bom mas fazia a guitarra “falar”. David Letterman assumindo que seus relacionamentos são prejudicados porque ele é “bêbado e chato”. Entrevistas nas quais o entrevistado se obriga a se desnudar diante do entrevistador, seja pela cumplicidade (no caso da maioria), seja no caso do confronto eventual (como a já citada entrevista de Spike Lee).

A maratona continua...

22 de dezembro de 2008 2

O que faz o estimado leitor em uma noite quente de sábado? Sai para tomar um choppinho ao ar livre com os amigos, aposto. Ou aproveita para desopilar o fígado assistindo a algum blockbuster, curtindo o ar condicionado do shopping center. De repente até prestigiar a fanfarra do grêmio recreativo da escola do afilhado mandando ver no coreto da praça. Qualquer coisa, enfim, menos ficar em casa. Certo?

Errado. Para mim, pelo menos, e especificamente o último sábado. Eu até tinha algo para fazer, leitores, e até fiz, vá lá, mas como nem sempre (raramente?) as coisas saem conforme o planejado, terminei esparramado em meu sofá-cama azul, ladeado por um copo de qualquer coisa com muito gelo e o nosso fiel Jogos Sagrados.

Temo dizer isso agora, logo de início, não sei, poderá soar como um “eu te amo”, “você é a mulher da minha vida” ou “nunca conheci ninguém como você” no primeiro encontro — o que nunca surte o efeito que desejamos, vocês sabem — mas o fato é que começo a me afeiçoar pelo tijolaço do Vikram Chandra.

Ele está sempre lá, sobre a minha mesa, esperando, pesado e impávido como uma estatueta de buda. Jogos Sagrados é minha estatueta de buda, caríssimos, e percebo que sem querer faço uma tentativa de sincretismo religioso que atinge seu limite máximo. Não irei além, por favor, leitores. Até acendo um incenso de vem em quando, gosto de queimar velas e tal, mas nada mais, ok? Senão logo estarei conversando com a maçaroca de folhas, e daí pra passar uma temporada no hospício não vai demorar muito.

Se bem que JS (isso está ficando perigosamente íntimo…) me compreende como poucos, não posso negar. Ele passou de mobília a companheiro de copo, ora vejam. Todo elegante com sua porção espiralada, capa amarela padrão coberta por um grossa proteção plástica _ ele é o que chamamos de prova, não sei se vocês sabem o que é, e se não sabem eu explico outra hora e ainda boto umas fotos. Meio quietão, é verdade — assim como qualquer estatueta de buda, convenhamos.

De tanto que nos entendemos, matei dois capítulos naquela noite quente de sábado. Tenho ganas de dizer a vocês o que está acontecendo, mas não sei o quanto isso é legal, já que alguém pode querer ler o romance e eu fico aqui adiantando toda a história. Eu, particularmente, não me importo que me contem o final de livros ou filmes, mas há quem veja nisso o equivalente a tirar doce da boca de criança. Bom, também não me importo em tirar doce da boca de criança, mas isso não vem ao caso agora…

Ficamos assim, então. Para o próximo post, vocês me dizem se querem que eu conte ou não o que está rolando de acordo com a minha leitura. Nada aprofundado, apenas en passant, para situar vocês sobre a quantas anda a maratona. Se ninguém responder, bom, dou como consentida a idéia e começo a contar a história.

Postado por Gustavo Brigatti

Maratona Tijolão Literário, o começo

18 de dezembro de 2008 1

A despeito da ressaca que ainda combalia meu magro corpo, resultado de uma noite de excessos etílicos, atirei-me nesta manhã à primeira leitura de Jogos Sagrados. E antes de terminar a primeira página tomei a decisão de arrancar as últimas. Explica-se: é no final do livro que está o glossário absolutamente necessário para ir adiante no romance policialesco. Vikram Chandra não economiza termos, expressões e ditos populares em sua grafia original, e no mínimo a cada duas linhas é necessário consultar o dicionário que ele esperta e gentilmente embutiu.

O problema nem é tanto parar a leitura para procurar o significado de chutiya, dudh-ki-tanki ou chole-bature, (que obviamente eu não irei traduzir aqui por pura e simples fanfarronice), mas sim correr até as últimas folhas sob o risco de, sem querer, topar com o derradeiro parágrafo do romance de fato. Então, arranquei bonitinho as 16 páginas finais (calma, não sou um mutilador de livros, estou lendo a prova de revisão que as editoras nos mandam) e as deixei ao meu lado, junto do copo onde fervia uma providencial aspirina sabor limão, para consultas rápidas e precisas — tá, nem tão precisa assim, porque mesmo com o favor de compilar as palavras mais utilizadas no seu idioma nativo, Chandra deixa escapar um chappal ou kurta sem mais explicações. Mas o Google taí pra isso, né não?

Pelo primeiro capítulo, o que dá pra sacar é que Vikram escreve dentro do mais perfeito padrão. Seu texto é limpo, com parágrafos bem divididos, economia na descrição de locais e diálogos curtos. Bem diferente — pelo menos por enquanto — da estética do cinema indiano, representada pela sua exagerada, caricata e densa Bollywood. A indústria do cinema indiano inclusive já ganhou algumas citações por parte de Sartaj, o policial protagonista da trama, brevemente apresentado durante uma ou outra cena de ação ou auto-análise.

O segundo capítulo introduzirá, ao que tudo indica, o gângster Ganesh Gaitonde, que eu já sei que morre. E como eu sei? Por que o autor teve o genial idéia de fazer um rol dos personagens antes de começar a história propriamente dita — expediente comum em peças de teatro, mas que eu nunca havia visto antes num romance. Segue exatamente assim:

Ganesh Gaitonde: famoso gângster e líder mafioso hindu, chefe da Companhia-G de Mumbai.
Anjali Mathur: agente do serviço de informações do governo que investiga a morte de Ganesh Gaitonde.

Vikram, meu querido, vem cá que eu preciso te contar uma coisa. Agora presta muita atenção, que eu vou dizer só uma vez, pausadamente e bem perto do teu ouvido: NÃO FAZ MAIS ISSO!!! Botar spoiler no próprio livro, pombas? Não quero acreditar que a morte do tal chefão do crime organizado seja capital para o desenrolar da trama, mas apenas o estopim de algo inevitável cujo conhecimento antecipado não irá alterar o curso da leitura. Mas se for, bom, o que está feito, está feito, e só nos resta ir em frente.

Postado por Gustavo Brigatti

Reflexões sobre o escrever - 2

18 de dezembro de 2008 1

Cada um traz dentro de si todo um reservatório de frases, epítetos e locuções prontas que resultam de pura imitação. Elas nos livroam do trabalho de pensar porque as tomamos como soluções válidas e apropriadas. Na maior parte das vezes, reagimos ao que nos acontece usando palavras quer não são nossas. Não somos os seus reais autores [...] É por isso que não devemos acreditar rápido demais em nossas próprias palavras.

Paul Valéry em The Outlook foi intelligence (1935). A citação foi retirada do recente O Livro das Citações, de Eduardo Gianetti, que saiu este ano pela Companhia das Letras.

Postado por Carlos André Moreira

O legítimo Mundo Livro

18 de dezembro de 2008 0

Essa eu peguei no blog do Sérgio Rodrigues, o Todo Prosa, cujo link vocês encontram na coluna da direita deste blog – e que por sua vez encontrou o tema do post no blog de livros da New Yorker.

Neste link você encontra uma animação bem bacana na qual cidadãos de papel caminham por uma cidade cheia de livros. Foi feita para comemorar uma efeméride editorial, os 25 anos do selo The 4th State, do conglomerado Harper Collins.

Ah, sim, vai ser inevitável para os amantes de livros assistir ao videozinho mais de uma vez, porque a vista toda hora divaga para os títulos dos livros que compõem os edifícios e os quarteirões “temáticos” da cidade.

Bom passeio.

Postado por Carlos André Moreira

Retrospectiva ampliada

17 de dezembro de 2008 1

Fiquem atentos, gurizada. Ainda antes do fim ano entram no ar os primeiros textos da nossa retrospectiva literária do blog — estou revendo as fichas de leitura deste ano para ver se teremos 50 grandes livros ou se dessa vez serão menos, o critério é sempre que tenham sido livros que eu recomendaria sem precisar justificar muito.

Postado por Carlos André Moreira

As chaves do prêmio

17 de dezembro de 2008 2

No fim eu ia comentar isso antes, mas estava de férias quando saiu o resultado e fui deixando e agora enquanto preparava a retrospectiva que vocês leram hoje no jornal eu me lembrei. Pois bem, como a maioria de vocês, meus bem informados leitores, já devem estar sabendo, saiu recentemente o resultado da 1ª edição do Prêmio São Paulo de Literatura, o certame que mais paga a um autor no Brasil: R$ 200 mil, e que, como a maioria dos prêmios deste ano, foi parar nas mãos de Cristóvão Tezza, pelo Filho Eterno. Mas não era dele que eu ia falar.

Uma das coisas que diferenciam esse recém-criado Prêmio São Paulo é que ele abertamente separa a competição entre autores estreantes e autores veteranos, premiando a melhor estréia literária, e nesta primeira edição o prêmio foi para a jovem Tatiana Salem Levy pelo romance A Chave de Casa, publicado no fim do ano passado. Pois bem, para que vocês saibam um pouquinho mais quem é Tatiana Salem Levy e qualé a do romance, fui recuperar ali nos meus arquivos a crítica que publicamos sobre o livro na Zero Hora, em 19 de março de 2008. Assinada por este seu blogueiro aqui mesmo. Divirtam-se:

Uma neta de judeus turcos residente no Brasil recebe do avô, moribundo, uma chave da casa na qual a família residia em Esmirna, na Turquia. O velho faz um pedido, que ela realize por ele o sonho de retorno ao lar. Esse é o ponto de partida do romance A Chave de Casa (Record, 208 páginas R$ 32), da estreante Tatiana Salem Levy, publicado primeiramente em Portugal e que ganhou faz pouco edição brasileira.
A Chave de Casa (sem nenhuma relação com o recente filme italiano As Chaves de Casa) é uma história de exílios. Cruzam-se, nos vaivéns de tempo e espaço da narrativa, várias instâncias. O avô da protagonista emigra da Turquia para o Brasil, fugindo de um amor não concretizado em sua terra. Terra para a qual a jovem retorna — ambos são criaturas desenraizadas, e o pedido do avô para que a neta busque seu passado é um pretexto para que ela própria se lance à procura de si e esqueça seus próprios naufrágios: a morte da mãe, o fracasso em uma relação com um homem violento, etapas narradas em capítulos desconexos, dispostos sem linearidade, antes procurando uma conexão afetiva do que de causa e efeito.
O uso de uma chave como elemento catalisador de uma busca é um signo algo  óbvio — só para citar um romance recente, também uma chave dá início à trama narrativa de Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, do americano Jonathan Safran Foer, no qual um menino filho de um homem morto no atentado de 11 de setembro encontra uma chave em um dos paletós do pai e sai em busca da solução desse último mistério. E pode-se dizer que os mesmos elementos resgatam os livros de uma premissa clichê: a linguagem, que se entrega com elegância à emoção, e o fato de que a chave é apenas um ponto de partida, um pretexto para o desenvolvimento da viagem.
O livro é digno de atenção por mais de um motivo, mas talvez o principal deles seja que é uma estréia feita de riscos. Na barafunda espaço-tempo criada pela autora, seria fácil o leitor se perder, mas a trama é conduzida com mão firme. Se a linguagem às vezes se perde em excessos poéticos e em alguns lugares- comuns (já na primeira página, uma seqüência especialmente lírica é afetada por um “nasci com os dois pés na cova”), à medida que o romance avança, o texto vai ganhando em qualidade e ritmo. Uma bela reflexão sobre as tentativas frustradas de retorno de quem tem dificuldade em saber por que partiu.