Chegava sempre antes da sineta quando ia buscar a minha filha e tirando a madrinha da aluna cega a cochichar cumprimentos em tom de desculpa sem que eu a entendesse
(de tão exagerada na infelicidade dava vontade de gritar
— Afaste-se de mim não me aborreça)
não havia ninguém ao portão de modo que o recreio vazio excepto uma árvore de que nunca soube o nome com as folhas demasiado pequenas para o tronco e se calhar composta de várias árvores diferentes
(as mãos do meu pai minúsculas no fim de braços enormes, se calhar composto de vários homens diferentes)
o escorrega a que faltavam tábuas com o letreiro Não Usar e a porta e as janelas trancadas, derivado à impressão que ninguém lá dentro compreendi a madrinha da aluna cega, disse-lhe sem palavras
— Não é exagerada perdão
e como deixei de ter filha cessei de respirar, não só a porta e as janelas trancadas, compartimentos desertos, poeira, o edifício das escola afinal abandonado e velho, a madrinha da aluna cega aproximou-se carregando cheiros antigos e nisto que alívio a sineta
(— Pieguice minha és exagerada sim)
a sacudir as folhas da árvore
(ou os braços do meu pai)
os dedos cessaram de atormentar o fecho da mala e o coração diminuiu nas costelas, os pulmões graças a Deus respiram, estou aqui, quantas vezes ao acordar-me surpreendia que os móveis fossem os mesmos da véspera e recebia-os com desconfiança, não avreditava neles, por ter dormido era outra e no entanto os móveis obrigavam-me às recordações de um corpo a que não queria voltar, que desilusão esta camilha, esta cadeira, eu, cochichar à madrinha da aluna cega o que me cochichava a mim, pedir desculpa sem que me liguem e a porta e as janelas abertas, a professora nas escadas, as primeiras crianças ao portão, pais
(não o meu pai)
ao portão comigo, não o meu pai que não lhe sobrava tempo
— Não te mexas que me dás nos nervos
a conversar com o empregado ou a falar ao telefone da secretária do jornal cheia de cartas, retratos, ganharia muito dinheiro você pai
(não acredito)
não finja que não alcança o que lhe digo
— Pões-me nervoso tu
morreu há uma data de anos, passa da meia-noite
(— Tardíssimo filha)
e não finja que não alcança o que lhe digo, meia-noite nesta vivendinha do Pragal, daqui a pouco sons húmidos de foca no primeiro andar e a senhora
— Pões-me nervosa tu
era o meu pai que eu punha nervoso apesar de calada
(Ainda aí estás que mania)
a senhora o meu nome
— Ana Emília
a chapinha no colchão e os rebentos do arbusto de groselha ao comprido do muro, a sineta da escola acelerava o tempo, as folhas da árvore a pularem sílabas muito depressa
— Ana Emília
na porta a aluna cega, a minha filha, as gémeas e a ruiva gorda que era preciso empurrar na ginástica, a empregada da limpeza destrancava as janelas e nem compartimentos desertos nem poeira, nenhum defunto todo direito de gravata branca a espiar-me, somente mapas, carteiras, restos de números a giz, a testa de meu pai um lençol de cama por fazer...
Cruzamento é uma boa palavra para definir o efeito produzido pela prosa do mestre português António Lobo Antunes: em sua voz única e ao mesmo tempo exasperante, fragmenta-se a narrativa e os pontos de vista, e cruzam-se vozes diversas, tempos e momentos diferentes, o que o personagem narra e o que ele pensa, frases que dialogam e muitas vezes se confrontam dispotas na página quase como numa pauta musical, como vocês podem ver no trecho acima, de Ontem não te vi em Babilónia, mais recente livro do autor a sair no Brasil. O fluxo narrativo de consciência é interrompido a intervalos por ilações entre parênteses que representam o pensamento mais íntimo do personagem e que muitas vezes contraria e desmente a narrativa fragmentada que a primeira voz está montando.
Lobo Antunes tem uns 10 livros já lançados aqui no mercado literário nacional (e ainda encontráveis, embora dispersos por mais de uma editora ou selo: alguns mais antigos, com Fado Alexandrino e O Esplendor de Portugal pela Rocco e os mais recentes, como Boa Tarde às coisas aqui em baixo e Eu Hei-de Amar Uma Pedra pela Objetiva e pelo selo desta mesma Alfaguara – que também andou disponibilizando novas edições dos primeiros romances do autor, como Os cús-de-Judas, Conhecimento do Inferno e Memória de Elefante). O autor português é presença confirmada na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo deste ano, e se você leu a matéria que publicamos na edição conjunta de hoje, deve ter vindo aqui para conferir um trecho da obra. Pois aí está. Ontem não te vi em Babilónia é um coral de vozes insones que, da meia noite às cinco da manhã, repassam suas trajetórias da forma fragmentada característica de Antunes, montando camada a camada ao longo do calhamaço de 434 páginas uma história que não é uma totalidade, e sim um mosaico de cacos que enganam ao refletir a luz de outros fragmentos.
Postado por Carlos André Moreira

O poema acima é de autoria do dramaturgo, escritor e laureado pelo Nobel de Literatura Harold Pinter, e é dedicado a sua esposa, Antonia Fraser. Os versos estão na terceira edição da revista Granta, publicação literária inglesa que desde 1979 veicula textos, poemas, artigos, contos e trechos de romances em andamento de grandes autores. Começou a ser publicada aqui no Brasil no fim de 2007, quando a Alfaguara passou a sair no país como selo da editora Objetiva. Este terceiro número traz o material publicado lá fora como o número 100 da revista, uma edição comemorativa que juntou alguns dos maiores nomes que já passaram pela revista, como Martin Amis, Julian Barnes, Doris Lessing, Hanif Kureish, Ian McEwan, Salman Rushdie, Mario Vargas Llosa e o próprio Harold Pinter, que contribui com esse poema com a tristeza de uma despedida.
Então, como se sente? Você realmente esperava queGuerra nas Estrelas fosse decolar assim?
O que faz o estimado leitor em uma noite quente de sábado? Sai para tomar um choppinho ao ar livre com os amigos, aposto. Ou aproveita para desopilar o fígado assistindo a algum blockbuster, curtindo o ar condicionado do shopping center. De repente até prestigiar a fanfarra do grêmio recreativo da escola do afilhado mandando ver no coreto da praça. Qualquer coisa, enfim, menos ficar em casa. Certo?
Ele está sempre lá, sobre a minha mesa, esperando, pesado e impávido como uma estatueta de buda. Jogos Sagrados é minha estatueta de buda, caríssimos, e percebo que sem querer faço uma tentativa de sincretismo religioso que atinge seu limite máximo. Não irei além, por favor, leitores. Até acendo um incenso de vem em quando, gosto de queimar velas e tal, mas nada mais, ok? Senão logo estarei conversando com a maçaroca de folhas, e daí pra passar uma temporada no hospício não vai demorar muito.
A despeito da ressaca que ainda combalia meu magro corpo, resultado de uma noite de excessos etílicos, atirei-me nesta manhã à primeira leitura de Jogos Sagrados. E antes de terminar a primeira página tomei a decisão de arrancar as últimas. Explica-se: é no final do livro que está o glossário absolutamente necessário para ir adiante no romance policialesco. Vikram Chandra não economiza termos, expressões e ditos populares em sua grafia original, e no mínimo a cada duas linhas é necessário consultar o dicionário que ele esperta e gentilmente embutiu.
O segundo capítulo introduzirá, ao que tudo indica, o gângster Ganesh Gaitonde, que eu já sei que morre. E como eu sei? Por que o autor teve o genial idéia de fazer um rol dos personagens antes de começar a história propriamente dita — expediente comum em peças de teatro, mas que eu nunca havia visto antes num romance. Segue exatamente assim:
No fim eu ia comentar isso antes, mas estava de férias quando saiu o resultado e fui deixando e agora enquanto preparava a retrospectiva que vocês leram hoje no jornal eu me lembrei. Pois bem, como a maioria de vocês, meus bem informados leitores, já devem estar sabendo, saiu recentemente o resultado da 1ª edição do Prêmio São Paulo de Literatura, o certame que mais paga a um autor no Brasil: R$ 200 mil, e que, como a maioria dos prêmios deste ano, foi parar nas mãos de Cristóvão Tezza, pelo Filho Eterno. Mas não era dele que eu ia falar.



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