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Posts de janeiro 2009

Heroína e Rock’n’Roll

31 de janeiro de 2009 2

Sexo, drogas e rock`n`roll, não necessariamente nesta ordem nem na mesma proporção. Eis o que se espera quando um roqueiro decide mapear suas memórias e maiores loucuras, como fez o baixista da banda americana Mötley Crüe, Nikki Sixx(foto), em Heroína e Rock`n`roll. Sixx assina o livro em parceria com Ian Gittins – que escreve sobre música e cultura popular para diferentes publicações, incluindo The New York Times —, e conta a sua história a partir dos diários que manteve ao longo do ano de 1987, quando a banda lançou seu quarto álbum, Girls, Girls, Girls. Uma gravação em estúdio permeada por cocaína e heroína, como revela o autor.

Como prometido na resenha publicada no caderno Cultura deste sábado, confira um trecho da publicação de 448 páginas, lançada pela editora Larousse:

Álcool, ácido, cocaína… foram somente casos. Só quando conheci a heroína conheci o amor verdadeiro.
Depois que o Mötley Crüe ficou verdadeiramente grande, passei a ganhar muito dinheiro, e já sabia o que fazer com ele. Naturalmente, gastei-o com o que mais queria: drogas. Antes da banda, vivia somente para a música. Depois dela, apenas para as drogas. Talvez a banda tenha, realmente, me proporcionado recursos para me tornar dependente, mas… quer saber? Acho que teria me viciado de qualquer jeito.
Nosso destino são nossas escolhas, mas sempre há quem escolha o pior caminho. Tenho algumas ideias de por que escolhi fazer essa viagem:
1. Minha infância foi uma droga. Meu pai nos abandonou quando eu tinha três anos e nunca mais voltou.
2. Minha mãe tentou me amar, mas havia sempre um namorado novo. Como eu estava sempre no caminho, ela me mandou viver com meus avós.
3. Nasci dependente. Não surpreende que tenha crescido sentindo raiva, desamor e precisando, de qualquer, jeito, de vingança.
Vingança contra quem? Contra o mundo? Contra mim mesmo?
Sempre sigo em frente quando não sei aonde estou indo. Um pouco antes de encontrar Tommy Lee, Vince Neil e Mick Mars, eu sabia que integraria o Mötley Crüe. Sabia que nos apresentaríamos e como nos comportaríamos (pessimamente, é óbvio!).
Em relação aos assuntos sobre os quais o Mötley Crüe falava, música e mulheres, música e drogas… música e violência, queríamos ser os melhores, os mais sórdidos, a mais barulhenta banda de rock do planeta. E estávamos no caminho certo.

Postado por Luis Bissigo

Turvou a água

29 de janeiro de 2009 0

Em agosto do ano passado, vocês leram em Zero Hora e aqui no blog sobre o lançamento do livro-reportagem Blackwater: a ascensão do exército mercenário mais poderoso do mundo, do americano Jeremy Scahill, que mergulhou nas entranhas do principal exército particular contratado para operar na campanha militar que os Estados Unidos movem no Iraque. Scahill chamava a atenção, entre outras coisas, para o fato de que os Estados Unidos estavam ocupando um país estrangeiro com um exército composto na maioria por soldados profissionais particulares, o que tornava aquele exército sozinho uma das forças militares mais poderosas do planeta. E como a existência desses “empreendedores da guerra” contratados para lutar no estrangeiro podia ameaçar até mesmo a noção de democracia e o Estado que é o orgulho dos americanos desde sua revolução de independência.

Pois bem, Scahill neste momento deve estar sentindo aquele tipo de satisfação própria de quem estava batendo na tecla certa. Pela notícia que chegou aqui via jornal inglês The Guardian, a Blackwater perdeu seu suculento contrato com o governo em decorrência de um massacre a civis iraquianos em 2007 — e que Scahill já denunciava no livro. Abaixo, um trecho da notícia traduzida (para ler o original, em inglês, aperte no link):

Firma de Segurança americana
perde licença para operar no Iraque

A Blackwater Worldwide, a empresa americana de segurança cujos homens mataram 17 civis iraquianos em uma praça de Bagdá, está proibida de operar no Iraque, depois que o governo iraquiano recusou-se a renovar a licença da empresa. 
Um porta-voz do ministério do Interior, General Abdul-Karim Khalaf, disse que a decisão foi motivada pelo que ele qualificou de “conduta imprópria e uso excessivo da força” por parte dos guardas durante o incidente de 2007, que também deixou dezenas de feridos. (…)
A ordem, tornada pública ontem (29 de janeiro) significa que os guardas da Blackwater não estão mais autorizados a proteger as instalações americanas, incluindo a enorme e nova embaixada em Bagdá e as bases militares dos Estados Unidos ao redor do país.

O massacre é ponto central da narrativa de Scahill em seu livro, como vocês podem ler no texto abaixo, a resenha do livro publicada no Caderno Cultura, de Zero Hora, em 30 de agosto de 2008, e que eu republico aqui no blog para quem não leu ou não se lembra mais. E para ler um trecho do livro, basta clicar aqui.

Os mercadores da morte no Oriente
Gustavo Brigatti

Mercenários são, por definição, soldados de aluguel. Gente que luta por uma
causa que não a sua em troca de remuneração. Sem ideologia, moral ou regras. E existem desde que existem as guerras, antes mesmo da concepção moderna de dinheiro.
Mas nunca foram tão importantes e fortes como agora, a ponto de redefinirem a maneira como as próprias guerras acontecem. E ainda ameaçar a noção de democracia dos EUA.
Quem faz o alerta é o jornalista Jeremy Scahill, autor de Blackwater – A Ascensão do Exército Mercenário mais Poderoso do Mundo (Companhia das Letras, 552 páginas, R$ 52). O extenso e meticuloso trabalho do norte-americano desconstrói a teia de relações políticas, familiares, militares e principalmente religiosas que fez de Erik Prince, o jovem herdeiro de um império de bugigangas para automóveis, o proprietário do maior contingente militar particular da história moderna.
Não que Prince seja o grande personagem da narrativa, que começa com o massacre de 17 civis iraquianos em Bagdá em setembro do ano passado. O ex-seal da Marinha dos EUA é apenas o rostinho bem barbeado por detrás de uma companhia que se beneficia das ligações privilegiadas de seus membros para faturar milhões de dólares em contratos com a Casa Branca. Levar, assim, a guerra de George W. Bush aonde ela não poderia ir ostentando a bandeira de listras e estrelas.
Desde o Egito dos faraós, mercenários têm sido usados por dois motivos básicos, que ficam claros no livro de Scahill. Primeiro, o baixo custo político. Travar uma guerra é sempre desgastante para a imagem de um país e seus mandatários no exterior, e piora internamente quando os jovens de suas fileiras começam a tombar. Com exércitos de aluguel, as baixas não são contabilizadas, evitando piquetes de viúvas e mães desconsoladas em frente à prédios públicos. Também é quase impossível responsabilizar um país pelos abusos que uma empresa privada — mesmo que contratada por ele — cometa contra civis inocentes.
No caso específico da Guerra do Iraque, os próprios EUA se encarregaram de imunizar seus mercenários. Um dia antes de deixar o país, entregando supostamente a soberania deste às autoridades iraquianas, o embaixador Paul Bremer emitiu um decreto que impede processos judiciais contra servidores contratados pelos  Estados Unidos. Até hoje, nenhum deles, incluindo os responsáveis pelo massacre de setembro em Bagdá, foram punidos de qualquer maneira. O máximo que acontece são cancelamento de contrato e repatriação dos suspeitos.
O segundo motivo é o baixo custo financeiro. Por um preço fixo, empresas de segurança privada como a Blackwater fazem desde o transporte de utensílios de cozinha até proteção com armamento pesado de prédios governamentais. Além de escoltarem autoridades diplomáticas na zona de guerra — sua principal serventia nos atuais conflitos no Oriente Médio. O grande porém é que este último mote teve sua lógica sensivelmente alterada depois da invasão ao Iraque em 2003.
A busca por Sadam Hussein era tudo o que a Blackwater precisava para saltar de um mero estande de tiro fundado em 1997 para um exército de 2,5 mil soldados sediado num quartel general de 3 mil hectares. Seus principais líderes hoje são ex-espiões internacionais do serviço secreto norte-americano, com um passado de reputação duvidosa e acesso aos alto escalões governamentais pela porta dos fundos.
A empresa, segundo Scahill, tem hoje meio bilhão de dólares em contratos com o governo norte-americano para atuar não somente no Iraque e outras zonas de guerra estrangeiras, mas também em solo americano. Uma semana depois da passagem do furacão Katrina, que devastou Nova Orleans, por exemplo, o governo Bush fechou contratos de mais de US$ 70 milhões com a Blackwater — quando tudo o que as vítimas do desastre precisavam era de comida e água. A empresa também treina os guardas que patrulham a fronteira com o México.
No Iraque, a Blackwater possui aproximadamente mil homens, vindos de todas as partes do mundo. Incluindo ex-oficiais chilenos que participaram ativamente dos grupos de extermínio do general Augusto Pinochet durante o período de ditadura militar no Chile, colombianos treinados pelos EUA para lutar contra narcotraficantes e guerrilheiros hondurenhos.
Com isso, a expansão não apenas da Blackwater, mas de outras companhias militares privadas, levanta uma questão tão antiga e pertinente quanto a própria origem dos mercenários. A quem eles devem sua lealdade? Erik Prince e seus comandados, alinhados ideológica e politicamente com os Estados Unidos de George W. Bush, juram fidelidade a seu país-sede. Mas apenas talvez por ele ser seu maior contratante e, sem medo de errar, dependente crônico de seu serviços.
Não que a confortável situação em que se encontra a Blackwater e outros mercadores da morte no Iraque possa ser alterada de maneira considerável. O candidato republicano John McCain já avisou que, se ganhar as eleições presidenciais em outubro, a guerra no Iraque poderá durar “até uma centena de anos”, garantindo assim a aposentadoria dos filhos de Erik Prince. O democrata Barack Obama, mesmo não nutrindo simpatia pela farra dos contratados no Oriente Médio — e tendo inclusive tentado regulamentar a situação jurídica dos mercenários para que pudessem ser punidos — sabe que pouco pode fazer.

Postado por Carlos André Moreira

Vikram é gente que faz

28 de janeiro de 2009 1

Sujeito que quer dar certo, Vikram Chandra acabou de inaugurar um hotsite para Jogos Sagrados (www.sacredgames.net). E diferente da capa “meio nada a ver” que fizeram para a edição brasileira, eu gostei dessa ai do lado, meio pulp, modernosa, cheia de estilo — e por sinal usada pela editora HarperCollins nas edições mais baratas da obra.

O mais legal do site é que ele também te leva para o glossário(sacredgames.typepad.com/glossary) de Jogos Sagrados. E ao contrário do livro, na internet ele é ilustrado — o que também pode ser divertido, já que o primeiro verbete que Vikram esclarece vem acompanhado de uma foto da rainha-mãe Elizabeth (que por si só esclarece muita coisa, mas enfim…). E ele ainda abre para comentários.

O hotsite também dá acesso ao site oficial de Vikram (www.vikramchandra.com), o blog do livro (sacredgames.typepad.com), disponibiliza uma lista de livrarias virtuais, além de áudio de entrevista com o autor e um trailer apresentando o catatau.

Ah, sim, o glossário traz as definições em inglês, of course.

Postado por Gustavo Brigatti

Quase no meio do tijolo

28 de janeiro de 2009 2

— Tá entendendo alguma coisa desse livro, mestre?
— Tá brincando? Bunker e serviço secreto na Índia? Esse cara acha que engana quem?

Companheiros de viagem, vejam a página 400 apontar logo ali, imensa e branca como uma Moby Dick tatuada de caracteres e cheirando a paan fresco, preparem seu arpões, segurem seus chapéus e toda força nessa hélices, porque haverá terra onde não havia e é pra lá que rumamos e… chega de confundir  os livros.
O importante é que estamos quase na metade de nossa peregrinação e por isso nada melhor que uma pequena e necessária recapitulação das nossas noites, tardes e madrugadas indianas. Para aqueles que chegaram agora e para aqueles que nos acompanham, um rápido flashback de Jogos Sagrados:

— Ganesh Gaitonde, chefão do crime organizado indiano, comete suicídio ao se ver cercado pela polícia em Mumbai. Antes, enquanto negocia uma possível rendição, o bhai conta parte de sua história para o investigador sikh Sartaj.

— A morte do criminoso, que normalmente seria tratada como mais um caso a ser investigado pela polícia local, rapidamente atrai o interesse das agências de segurança de primeiro escalão do governo indiano. É quando entra Anjali, agente do serviço secreto governamental que faz questão de manter Sartaj no caso.

— As investigações sobre a morte de Gaitonde levam à descoberta de uma rede de prostituição chefiada por Jojo Mascarenas, encontrada morta junto com o capo. Na casa dela a polícia encontra grande quantidade de dinheiro que, descobre-se mais tarde, é produto de uma quadrilha de falsificadores paquistaneses que K.D. Yadav, um tio de Anjali, cabeça do serviço secreto indiano, investigou há décadas.

— E mais: a casa onde Gaitonde estava escondido era na verdade um bunker, construído a partir de plantas de abrigos nucleares. Alguém duvida que estaremos na iminência de um conflito nuclear igual ao que se desenha atualmente entre Índia e Paquistão? Vikram Chandra é um homem do nosso tempo, amigos, e ele não alivia.

Agora, um ano se passou desde o assassinato do parceiro de Sartaj, Katekar, durante uma batida policial. Neste ínterim, fomos apresentados à história de vida da mãe de Sartaj, expulsa de casa junto com a família durante um khoo; à boa parte da ascensão de Ganesh ao poder e sua relação com Parulkar, que hoje é o chefe de Sartaj; à entrada e treinamento de K.D. no serviço secreto indiano e como ele se envolveu com Ganesh; e um pouco da vida particular de Sartaj e Katekar, bem como sua rotina de policiais na metrópole indiana, flagrantes de violência, abuso de poder, corrupção ativa e passiva e o quanto tudo isso é extremamente necessário no contexto em que estão inseridos.

 

>>> Leia aqui os posts anteriores da Maratona Tijolão Literário

Postado por Gustavo Brigatti

Agora São Paulo vai te pegar lá fora

28 de janeiro de 2009 1

Se vocês leram a matéria principal da página central do Segundo Caderno de hoje, depararam com um texto sobre o livro Desculpem, sou novo aqui, de Carlos Moraes, gaúcho de Lavras radicado há anos em São Paulo. Desculpem, sou novo aqui, parte de experiências autobiográficas do autor para fazer ficção. O narrador é, como o autor, um ex-padre, gaúcho, que, após cumprir uma temporada preso em um quartel no interior do Rio Grande do Sul, parte para tentar a vida na São Paulo do início dos anos 1970.

O livro pode ser considerado a continuação do primeiro livro de Moraes, Agora Deus vai te pegar lá fora, lançado pela mesma editora deste, Record, em 2005. Os livros, embora independentes, têm um diálogo de extremos. No primeiro, o personagem preso numa cadeia — nenhum Carandiru, na verdade, uma cadeia de interior — ia aprendendo os códigos do lugar e desenvolvendo uma rotina de convivência com os outros personagens exóticos também lá presos por outros motivos. Mas o cenário é sempre o mesmo. Em Desculpem, sou novo aqui, a dinâmica é outra, o horizonte se abre, e as novas experiências e amizades do personagem vão sendo delineadas aos poucos.

Como prometido na reportagem que vocês leram, continuamos aqui com um pouco mais do primeiro livro, que saiu já há algum tempo e é uma leitura bem bacana. Divido com vocês um texto publicado no Caderno Cultura em 16 de abril de 2005, assinado pelo jornalista e escritor Lourenço Cazarré:

Memórias de um padre subversivo
No romance Agora Deus vai te pegar lá fora,
Carlos Moraes diverte-se em contar histórias

No início dos anos 70, condenado por crime contra a segurança nacional, um padre é jogado na cadeia pública de uma cidadezinha da fronteira gaúcha que, além de outras excentricidades, tem cinco quartéis do Exército. Na verdade, melancólicas guarnições que, há 200 anos, esperam um ataque dos argentinos. Felizmente, depois da recente quebradeira, os gardelons não têm mais dinheiro nem para a brilhantina, quanto mais para os rojões.

Em cana, o padre José Silveira lamenta que a cidadezinha pródiga em espadas e canhões não tenha um zoológico. O problema é que todos os desocupados — e eles são inúmeros na sonolenta cidade pampiana — nada tendo de melhor para fazer dirigem-se em romaria à cela do “prisioneiro político”.

Como gaúchos, claro, não buscam nem bênção, nem rezas ou conselhos. Querem papear. Querem, em torno de um chimarrão, contar histórias e, principalmente, vantagens. É claro que um romance com este enredo só poderia se transformar numa hilariante seqüência de pequenas histórias, de causos de gente modesta perdida numa cidadezinha incógnita. Este é o mote de Agora Deus vai te pegar lá fora, delicioso romance do jornalista gaúcho Carlos Moraes, recentemente lançado pela Record (288 páginas, R$ 34,90). Assassinos ou vigaristas, beatas ou abigeatários (ladrões de gado), todos os personagens têm a simpatia e a compreensão do autor. Enfim, um livro transbordante de humanidade numa época marcada por uma escrita raivosa e vulgar.

Embora indiferente às lutas políticas da época, o padre José Silveira é condenado depois de minuciosa investigação. Os arapongas nada encontram de desabonador na vida afetiva do religioso, que não teve amantes e nem resvalou, como tantos, para a pedofilia. Porém, pesa muito contra ele um sermão em que — como lamentou um amigo — ele “botou Moscou no meio”.

É uma história que se passa, ao fim da II Guerra, na então capital da ficção soviética. O povo russo, ao ver soldados alemães aprisionados, começa a xingá-los. Porém, quando notam que não passam de meninos, jogam pedaços de pão para eles. Mas continuam a vaiar os oficiais.

Entre os juristas de farda, aquele sermão é prova inconteste de que o padre é um inimigo da pátria, um subversivo, adjetivo de amplíssimo espectro, em voga na década de 70, que serviu para mandar muita gente para a tortura. Enjaulado, o padre Silveira trata de repassar sua vida. Descobre que a modestíssima missão que lhe foi dada no seminário — redimir a humanidade inteira — é, digamos, infactível. Escreve para Roma e pede seu desligamento da batina e, ao mesmo tempo, fica aguardando o julgamento de recurso que impetrou junto ao Tribunal Militar, em Brasília. Enquanto isso, toma chimarrão, joga muito futebol e torce desbragadamente por um time — o mais vagabundo — de Porto Alegre.

De leitura agradabilíssima, Agora Deus vai te pegar lá fora é um livro com começo, meio e fim. E muito bem escrito. Trata-se de obra que, certamente, não seduzirá doutorandas em literatura. É um livro para ser saboreado pelos que, como aquele velho catacego de Buenos Aires, acham que a literatura serve apenas para divertir e entreter. Enfim, para os que sabem que livros — como os sermões — não mudam nem o mundo nem as pessoas.

Postado por Carlos André Moreira

Coelho Morre

27 de janeiro de 2009 1

Essa chegou agora por agência. Morreu hoje aos 76 anos o romancista John Updike, um dos últimos remanescentes de uma geração de titãs literários norte-americanos, que ajudou a descortinar o brutal outro lado do grande sonho americano e flagrou em primeira mão uma revolução comportamental em andamento na América. De acordo com o editor Alfred Knopf, que divulgou a informação, Updike morreu de câncer de pulmão.

Updike, nascido em 1932 em Reading, na Pensilvânia, e morador de Beverly Farms, em Massachussets, já havia recebido o prêmio Pulitzer e era conhecido por ser, em seus romances, um cronista erudito de seu tempo, na grande tradição do realismo romanesco europeu. Pelas suas páginas passaram as mudanças que os Estados Unidos sofreram no campo do sexo, as transformações numa sociedade em que o divórcio se tornou comum, as dúvidas de toda uma geração frente à sexualidade livre e à busca quase obrigatória de prazer.

O autor escreveu romances, contos, poesia e foi um grande crítico literário, em uma carreira que, iniciada nos anos 1950, se encerra com mais de 50 livros publicados. Sua obra mais conhecida e aclamada foi o ciclo de quatro romances conhecido como A Tetralogia do Coelho, — eleito em 2006 por um grupo de notáveis convocados pelo The New York Times como o terceiro entre os melhores romances escritos nos 25 anos anteriores.

Composta ao longo de 30 anos em uma prosa ao mesmo tempo elegante e plena de ironia, a Tetralogia do Coelho é uma devastadora saga da mediocridade classe-média americana, por meio do retrato de Harry Angstrom, o Coelho, personagem que vai de astro de basquete a vendedor de carros japoneses, endinheirado,
separado e sem diálogo com os filhos. Aqui no Brasil os romances que compõem a tetralogia têm os nomes de  Coelho Corre (1960), Coelho em Crise (1971), Coelho Cresce (1981) e Coelho Cai (1990). Pelos dois últimos Updike recebeu duas vezes o Pulitzer.

Ele também abordou o mundo das pequenas vaidades literárias na série que tem como protagonista o escritor e alter ego Henry Bech (a mais recente dessas obras saiu faz uns anos com o título de Bech no Beco, pela Companhia). E sua obra chegou a ser descoberta pelo cinema, com The Witches of Eastwick, que por aqui a Rocco publicou com o nome de O Sabá das Feiticeiras, e que foi adaptado no filme As Bruxas de Eastwick, com Jack Nicholson, Susan Sarandon e MIchelle Pfeiffer.

Updike escreveu até mesmo um romance sobre o Brasil, na verdade uma releitura no Rio de Janeiro contemporâneo da clássica trama de Tristão e Isolda, publicado também aqui com o título de… Brazil — para os fãs do autor, como eu, o romance carregava um quê de decepção. A escrita elegante e com completo domínio narrativo de Updike estava lá, como sempre esteve, mas ficava claro que o olhar agudo do autor, tão pródigo em desnudar a sociedade de seu país, não tinha o mesmo poder percuciente quando aplicado ao nosso, e transformou o Rio naquela coisa meio de sempre: praia, sexualidade, vôlei de areia e por aí vai. O último romance de Updike a chegar ao Brasil foi Cidadezinhas, publicado em dezembro de 2008.

Postado por Carlos André Moreira

A infância da Besta

27 de janeiro de 2009 0

Norman Mailer em 2007, poucos meses antes de sua morte. Foto: Kathy Willens / AP

Muito já se leu que O Castelo na Floresta, último romance do gigante americano da ficção Norman Mailer, é uma biografia de Adolf Hitler. Não de todo. O pequeno Adolf está ausente ou tem pouca importância até depois da metade do livro, e a  narrativa se ocupa mais da formação e das paixões do pai, Alois, do que do próprio Adolf Hitler. Tanto que o volume se encerra por volta de 1903, data em que Alois morre de um colapso motivado por seu alcoolismo. Nessa altura, Hitler estava prestes a completar 13 anos e já havia sido reprovado duas vezes na escola, que logo abandonaria.

Mailer interrompe sua narrativa da vida de Hitler tão cedo porque planejava uma trilogia sobre o personagem, e sua família já informou que deixou material escrito do segundo volume, cuja publicação ainda será estudada dependendo de quanto o autor avançou na história. O Castelo na Floresta, contudo, é um livro que pode ser lido de forma autônoma, e ao mesmo tempo ganha novas ressonâncias se comparado com o romance anterior de Mailer, também ele uma ficionalização sobre a vida de um personagem “histórico”: o Jesus Cristo retratado em O Evangelho Segundo o Filho (1998).

Os dois livros servem, talvez intencionalmente, como espelhos. Se, no primeiro, Jesus contava sua história apresentando-se como um trabalhador colhido a contragosto em um plano divino além de seu controle, em O Castelo na Floresta Hitler é descrito como o produto final de uma família plena de relações brutais e casos de incesto — também acompanhados de perto por agentes de um plano exterior ao humano. O narrador primeiro se apresenta como Dieter, um oficial de alta confiança do chefe da S.S. nazista, Heinrich Himmler, para mais adiante revelar ligações com um tipo de organização mais poderosa. Dieter é na verdade um demônio de escalão intermediário alistado no exército do “Maligno” em sua eterna luta contra o “Criador” pelo controle da Terra. E o menino Hitler se revela desde cedo uma presa cobiçada pelas hostes do Mal, razão pela qual o narrador da história está tão familiarizado com sua vida. Se no Evangelho… Mailer discutia a dicotomia entre as naturezas humana e divina do Cristo, agora é a dualidade entre o humano e o infernal que está em questão.

Boxeador na juventude, Mailer ainda escreve como quem chama seu tema para a briga. Aproveita as lacunas da documentação na biografia de Hitler e de sua família para apresentar sua versão da história doméstica do menino austríaco. Em sua monumental biografia em dois volumes Hitler, o historiador Joachim Fest informa que a certidão de nascimento do pai de Hitler, Alois, dava-o como criança “ilegítima” de pai desconhecido. No primeiro volume da biografia, Fest enumera três pais possíveis. Mailer transforma dois deles em meio-irmãos da mãe de Adolf, na  primeira de uma série de ligações incestuosas que marcará a família e culminará na própria mãe do garoto, Klara, possível sobrinha do pai de seu filho.

Na história de Mailer, Klara não apenas era filha de uma meia-irmã de Alois como também sua própria filha, resultado de uma ligação incestuosa de juventude, o que tornaria Hitler um produto de escândalos de sangue comparáveis à da família grega dos Labdácidas, a de Édipo, Jocasta e Antígona. Escândalos de sangue que, na tradição clássica, redundam em tragédia. Com a interferência do demônio, os incestos da família Hitler gestam uma tragédia não para uma linhagem, mas para a humanidade — e a cena da concepção de Hitler, na qual o pênis flácido de Alois era comparado a um “rolo de excremento“, valeu a Mailer a concessão póstuma do “Bad Sex Awards” de 2008, um prêmio bem-humorado concedido à pior cena de sexo dos livros lançados no ano anterior.

É uma platitude dizer que as escolhas narrativas de um escritor condicionam o resultado da obra. Mas não deixa de ser verdade, mesmo no que diz respeito a um estilista vigoroso como Mailer. A opção por esse narrador que se apresenta textualmente como “um oficial das fileiras do melhor serviço de inteligência que jamais existiu” é uma aposta arriscada porque se equilibra no gume de uma dualidade instável. Por um lado, arrolar Hitler como um “cliente” das hostes do Maligno é tomar o caminho fácil de atribuir um caráter sobrenatural ao mal nazista, como se a endossar a idéia de que infâmia tão absoluta só poderia ser cometida além (e fora) da simples condição humana. Uma tese que parece deslocada quando pensamos no sucesso artístico obtido por obras recentes que se pautam justamente na negação dessa premissa, como o filme A Queda, de Oliver Hirschbiegel, com Bruno Ganz, ou o romance As Benevolentes,de Jonathan Littell, nos quais as razões do horror são humanas, demasiado humanas.

Por outro lado, Mailer vai na contramão. Não humaniza os malfeitores, e sim o mal em si. Transformar as hordas infernais em um serviço de inteligência, duplicando a S.S. de Himmler, é um dos grandes achados de Mailer nesse romance. Por meio da voz iconoclasta desse espírito maléfico que é tão burocrata em suas funções quanto qualquer funcionário humano na maquinaria estatal nazista, o romancista pode dar vazão à ironia e à verve de que lançou mão em seu clássico Os Degraus do Pentágono. Os demônios admiram a criatividade da obra de Deus. Este, por sua vez, não é onisciente e onipotente, mas depende de um serviço de inteligência de anjos similar à agência de demônios da qual seu inimigo lança mão.E ao fim do livro, Hitler mantém algo de seu grande enigma, já que o narrador escolhido por Mailer é um funcionário de segundo escalão, que por vezes recebe ordens diretas de seu infernal comandante, mas não priva de sua intimidade, confiança ou conhecimento.

Mailer pode ter entrado na mente de Jesus, mas não ousa se apossar da consciência de Satã. Indício de que, mesmo para algumas das melhores mentes do planeta, os aspectos essenciais do mal permanecem um mistério.

Postado por Carlos André Moreira

Capa Brega da Semana

26 de janeiro de 2009 4

Por um momento, ali com a correria de fim de um ano e começo de outro, andei negligenciando algumas das seções fixas deste blog. É hora de retornar com elas, e nada melhor do que começar, enquanto ainda é segunda, pela nossa estimada Capa Brega da Semana, e quebrando paradigmas para provar que as capas bregas não são coisa do passado, não, não senhor, elas ainda são produzidas hoje na nossa contemporaneidade pós-moderna, como o livro que vocês podem ver na imagem ao lado: A Ledora de Rendas, mais uma daquelas obras que apelam para o estelionato dos bons sentimentos alheios com uma trama na qual dramas e segredos familiares são desenterrados em uma jornada profunda que é também a do personagem em busca de si mesmo.

Lançado agora, agorinha mesmo pela Rocco, A Ledora de Rendas foi escrito e editado de forma independente pela americana Brunonia Barry, que, o material da editora, informa, já escreveu “roteiros para vários estúdios de Hollywood”, embora não apareça o nome de nenhum filme que tenha sido produzido de um roteiro desses. Tendo um pouco de boa-vontade, a gente vai no IMDB e, ao pesquisar o nome da moça, descobre que a única coisa associada a ela é justamente a pré-produção de um filme baseado neste A Ledora de Rendas, cujos direitos foram comprados. Nenhum roteiro aparece com o nome da moça.

A história aproveita os casos da mitológica cidade portuária de Salem, nos Estados Unidos, onde vários julgamentos por bruxaria no século 17 entraram para o folclore histórico americano, e os cruza com a narrativa de uma mulher que herdou de sua tia-avó a “capacidade de ler o futuro em tramas de rendas” (cuma?)

O título em português, a propósito, se não atenta, a bem dizer, contra o idioma, agride a simples estética com esse “ledora” que parece uma agulha de tricô entrando no ouvido. Opção da tradutora Débora Landsberg (ou, o que é mais provável, da editora, como comentou nosso leitor Ronaldo Passarinho), uma vez que o original em inglês é “The Lace Reader“. Ah, sim, e tem também a capa que vocês veem ao lado.  Aqui temos de novo esse motivo repisado do personagem-olhando-pela-janela-em-pose-meditativa-contra-um-dramático/romântico/solene-contraluz. Personagens perto de janelas são clichês de ideias tão recorrentes quanto as frases-feitas mais banais.

Para melhorar,  o relise que a Rocco distribuiu com o livro ainda abre com a seguinte frase que dá o tom do negócio: “O que você faria se pudesse ler o futuro em tramas de rendas”? Olha, a ideia é tão absurda que eu não sei o que faria, mas acho que uma coisa seria comprar uma cortina de renda para o diacho dessa janela que aparece na capa.

Vocês não?

Herança de Lucía Moreira Salles para fãs de Wilde

26 de janeiro de 2009 3

Oscar Wilde (1854 — 1900), em foto tirada por volta de 1882 por Napoleon Sarony

Pouco antes de morrer, vítima de câncer, Lucía Moreira Salles, viúva do banqueiro Walther Moreira Salles, teve em mãos um dos apenas 525 exemplares de uma edição inestimável. Lúcia, que morreu na noite de sábado e foi enterrada hoje em Porto Alegre, onde nasceu, foi uma das idealizadoras da edição limitada de um livro com fac-símiles de cartas que o escritor irlandês Oscar Wilde endereçou a seu amante, Lord Douglas, e dos manuscritos de contos, como O Gigante Egoísta.

Lucía, que desenvolvia projetos benemerentes no Brasil e era membro do International Council, do MoMA, foi uma mulher que combinou elegância, sofisticação e cultura. Primeira modelo gaúcha a fazer sucesso no Exterior, ainda nos anos 1960, a musa de Valentino também era conhecida por seu conhecimento literário. Deixou de herança esse precioso achado.

Ela e o marido Walther adquiriram a coleção com os originais em Londres, na década de 1980. Há dois anos, por sugestão de um amigo, ela entrou em contato com Merlin Holland, único neto de Wilde, e, juntos, eles planejaram a edição numerada, que será lançada em fevereiro, com distribuição prevista somente para amigos e bibliotecas ao redor do mundo. Lucía e Merlin assinam cada cópia, que ela dedicou à memória do marido, morto em 2001. Há dois meses, Lucía havia doado o álbum com os originais à Morgan Library, de Nova York, onde serão expostos de abril a agosto.

Postado por Patrícia Rocha

Revista nova no pedaço

26 de janeiro de 2009 2

É sempre legal quando são abertos novos espaços locais para a crítica literária, principalmente quando ela vem em um formato tão dispendioso quanto o da revista. Aqui no Estado temos casos como os da Aplauso, bravamente a cada mês trazendo reportagens e crítica, e da revista Norte, além, é claro, das publicações acadêmicas. Há também iniciativas de coletivos que não apenas publicam obras para a discussão como são responsáveis por eventos que agitam a cultura local, como o Vaia, por exemplo.

O grande nó de uma revista literária costuma ser o alto custo de impressão, o que sempre diminui o número de páginas da publicação por questões financeiras — a menos que haja anúncio. Sem publicidade, uma revista com mais de 70 páginas impressas é um delírio caro.

A menos que essas páginas não sejam impressas, como é o caso da revista literária que foi colocada no ar no site da Não Editora no fim do ano passado, e eu, como andei sem muito tempo para navegar por aí, só vi agora. A Não Editora é uma casa publicadora que com apenas um ano lançou coisas bem bacanas, como os romances Areia dos Dentes, de Antônio Xerxenesky, O Professor de Botânica, de Samir Machado de Machado, e o Pó de Parede de Carol Bensimon que eu listei na nossa lista de melhores do ano.

A Cadernos de Não-Ficção número 1 (capa na imagem que ilustra este post) é um portento de 78 páginas, com cinco artigos consistentes (aquilo que no jargão da imprensa seria “de fundo”) sobre literatura contemporânea e um dossiê de 28 páginas sobre o escritor americano recentemente falecido David Foster Wallace, com textos de Daniel Galera, Alexandre Rodrigues, Gabriela Linck, Bruno Kümmel e José Carlos Silvestre. Algo que seria bastante dispendioso em papel, mas que está lá, na internet, para quem quiser ler.

Neste link você encontra o site para baixar a revista (um arquivo de 9M) ou para abrir uma versão em flash, folheável, para ler no computador sem precisar salvar.

Vida longa à Cadernos de Não-Ficção e boa leitura.

Postado por Carlos André Moreira