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Posts de fevereiro 2009

A morte e a injustiça

27 de fevereiro de 2009 3

Um bom romance policial é sempre construído em torno de uma interrogação. O título de Quem Matou Palomino Molero?, de Mario Vargas Llosa, (Arx, 176 páginas), é também uma pergunta, mas não é a ela que o escritor procura responder. A busca pelo assassino oculta outra questão: até que ponto um indivíduo pode lutar contra a corrupção?

O Palomino Molero do título é um jovem recruta da aeronáutica na pequena cidade peruana de Talara, nos anos 1950. Romântico, apaixonado e cantor de talento, Molero é encontrado morto com sinais de cruel tortura. Começa assim uma investigação da Guarda Civil, comandada por um tenente responsável por um precário posto policial e seu assistente, o soldado Lituma. A solução do crime envolve um caso de amor proibido e o inevitável confronto dos dois guardas com as leis não escritas que sustentam o poder no país.

Ao construir o livro, Vargas Llosa usa a estrutura de um romance de detetives, mas Quem Matou Palomino Molero? será uma decepção se lido por esse ângulo. O elenco de personagens é tão reduzido que o leitor não tardará a intuir os culpados pela morte brutal. Llosa aproveita o fiapo de história para, aí sim, abordar outra vez um tema que lhe é caro: um painel da vida em uma aldeola peruana, paralisada no atrasado, acrescido da inquietação sobre o quanto a estrutura burocrática e de poder serve para manter privilégios e não para fazer justiça de qualquer espécie, social ou policial.

O soldado Lituma já aparecia em A Casa Verde, livro de 1966 considerado um dos melhores do autor, reaparecendo depois em Lituma nos Andes, de 1993. Por ironia, é o fato de revisitar o excelente A Casa Verde que dilui a força de Palomino…. Em comparação com o clássico de 1966, Palomino… é literatura ligeira, escrita com a usual competência, mas obra de um Llosa menos inspirado.

A loira e o presidente

26 de fevereiro de 2009 0

Marilyn Monroe e seu marido, o astro do beisebol Joe DiMaggio / Foto de Alfred Eisenstaedt

DiMaggio é chifrado, e muito! Marilyn passa seu tempo ensaiando partituras com o simpático músico Hal Schaefer e conversando depois do sexo. Fala do medo terrível que tem de ser como a mãe, louca, e conta detalhes dos ciúmes de DiMaggio. Schaefer, que é bissexual, ouve. Estranha aventura, mas uma aventura calma, quase meiga. É um amante que sabe escutar. Com a sexualidade satisfeita, restam esses momentos de confidências, entre os lençóis amarrotados…
Depois o mundo volta a se apropriar de Marilyn. Durante os preparativos para
O Pecado Mora ao Lado, o diretor, Billy Wilder, faz testes de figurino. Para uma cena íntima, Marilyn deve vestir um baby-doll transparente. Grande conhecedor da intimidade feminina — havia sido gigolô anteriormente —, Billy Wilder se aproxima da atriz e pede que tire o sutiã.
— Não se usa sutiã por baixo de um baby-doll — ele explica.
— Não estou usando — responde Marilyn.
Para verificar, Wilder encosta a mão. Fica impressionado:
— Seios miraculosos. Um desafio às leis da gravidade.
É bem verdade, um cirurgião havia dado retoques milimétricos no nariz, nos dentes, no queixo e nos seios. Um trabalho de ourives. Marilyn é perfeita. Tem o corpo mais cobiçado do mundo, é a mulher que desencadeia tumultos assim que se apresenta em público. É o sexo encarnado. Impossível vê-la sem pensar…naquilo. Destrói os pontos de reflexão na cabeça dos homens. Eles automaticamente passam a raciocinar pelo instrumental básico. É uma regressão instantânea ao cérebro reptiliano.
Quando se programa para a sedução, Marilyn é um sol. No privado, a luz se apaga. A sensualidade também. Sob os projetores, ela é a rainha do mundo. No claro-escuro, uma pobre coitada.
Os mais próximos, entre os quais Marlon Brando, notam que Marilyn aparece às vezes com algumas marcas roxas. DiMaggio tem a mão pesada. Quando ele se casou com Marlyn, um bookmaker organizou apostas: o casamento duraria mais do que um ano? No Toots Shor, o restaurante favorito de DiMaggio, apostou-se, sem nada se dizer ao principal interessado. E as noitadas continuaram como antes: discussões sobre esporte, conversas alcoolizadas, risos de homens quando se encontram entre amigos. Toots, o dono, xinga todo mundo, tem um humor sujo e sempre um caneco de cerveja na mão. Ele adora DiMaggio, se conheceram há anos e comem a mesma comida infecta que o cozinheiro inventa. Alguns clientes gostam do lugar, mas encomendam pizzas de fora, pois o menu é intragável. Quando Marilyn vem, o que é raro, as conversas param. Apenas um murmúrio de admiração paira no ar. Ela se senta, ouve e depois os rapazes voltam a conseguir articular frases.
Que tédio! Enquanto o marido fuma seus Camels, sem uma palavra, os outros enumeram aos berros estatísticas do beisebol. Às vezes Sinatra passa para beber. Dorothy Kilgallen também faz incursões, em busca de mexericos sociais. Foi ela quem fez a primeira grande entrevista com o Yankee Slugger, em 1944, e, por isso, DiMaggio gosta da jornalista, com seu nariz pontudo e seu queixo inexistente.
Em setembro de 1954, Marilyn chega a Nova York. O acontecimento é alardeado, anunciado, impresso. Em 15 de setembro, uma cena de
O Pecado Mora ao Lado será filmada na esquina da 52th Street com a Lexington Avenue, em frente ao Trans-Lux Theatre. Os jornais martelam a notícia: Marilyn vai provocar o maior engarrafamento da cidade, apesar da hora tardia, meia-noite. Ela descansa, ensaia o texto com seu assistente e, no fim da tarde, passa no Toots Shor. Ao sair, em seguida, para jantar no El Morocco com DiMaggio, a multidão já está presente, impaciente, barulhenta. O jogador de beisebol é desconfiado. Gosta de manter distância. Marilyn, não. Ela distribui autógrafos, aperta mãos, sorri, balança os quadris, cheia de trejeitos. Ser um bibelô magnífico é o seu emprego.
DiMaggio volta para o Toots Shor, enquanto Marilyn se dirige à Lexington Avenue. O Journal American, devidamente informado pelos assessores de imprensa do filme, havia anunciado: “É um espetáculo gratuito. A filmagem na rua é aberta ao público, apesar de os trajes de Miss Monroe serem, segundo dizem, bem reveladores.” À meia-noite, 1.500 espectadores estão na rua, excitadíssimos. A iluminação foi disposta em marquises de prédios. Projetores colossais banham a esquina. Curiosos sobem nos telhados. Fotógrafos espalham-se judiciosamente por todo lugar. Billy Wilder, com o chapéu de lado, o cigarro dependurado, dá instruções, com certa impaciência. Marilyn está atrasada. Wilder se queixa:
— Ela está tendo aulas no Actor`s Studio, com Lee Strasberg? Não digo que não seja bom professor, mas, se é para ir à escola, por que não vai ter aulas na Patek Philippe, na Suíça, para ser pontual? Todo o sucesso de Marilyn vem de não saber representar. Se começar a se levar a sério, ela está acabada. Trabalhar com Marilyn é uma guerra de trincheiras: a gente espera, espera…
Wilder é enérgico, trepidante, às vezes brusco. Sabe exatamente o que quer.
E quer Marilyn, no set.
Imediatamente.
Walter Winchell, parecendo apressado, chega ao Toots Shor. Os frequentadores cumprimentam o jornalista. DiMaggio não se encontra.
— Onde ele está?
— No bar do hotel Saint Regis.
Winchell sente que a noite pode lhe proporcionar um bom artigo e corre para o Saint Regis. Localiza DiMaggio e chama:
— Vamos lá, Joe. Vamos assistir à filmagem.
O outro olha para o fundo do copo, observa as marcas úmidas no balcão e responde soturno:
— Não. Ela fica nervosa e eu fico nervoso também.
— Vamos lá, Joe. Você precisa aparecer. isso vai me render uma matéria.
Joe DiMaggio empurra o copo, se estica e segue Winchell.

***

JFK foi avisado: a operação é complicada. Precisa fazer um transplante ósseo e inserir uma placa metálica. Se uma infecção acontecer, a morte é quase certa. Ele dá entrada no New York hospital emagrecido, preocupado. Após alguns dias sob observação, duas equipes de médicos trabalham: são endocrinologistas e cirurgiões. A operação não chega a ser um sucesso. Mergulhado em um semicoma, JFK mal se dá conta de que o consideram perdido. Ocorreu a temida infecção. A família chama um padre, e o paciente recebe a extrema-unção. Arrasado, Joe Kennedy senta-se e começa a chorar.
Dissimula-se a doença de Addison e nada é dito à imprensa. Fala-se apenas de um ferimento de guerra, do heroísmo de Kennedy no PT 109 e fica-se à espera. Curiosamente, o doente não parece animado por nenhuma imensa vontade de viver. Está esgotado. Jackie vem vê-lo, traz de presente uma pistola de chumbinho para atirar nas bolas de encher que ela solta no quarto. As enfermeiras estão encantadas. Também se divertem com as outras visitantes, que passam rapidamente, sem que Jackie saiba. Uma das enfermeiras é particularmente bonita. JFK se interessa e inicia uma conversa. Jackie, em um canto, sorri. A enfermeira ergue sua touca e…é Grace Kelly! Ah, uma brincadeira e tanto!
O que Jackie não sabe é que Grace Kelly foi bastante cortejada por Joe Kennedy, nem tanto tempo atrás. Mas acabou preferindo Oleg Cassini, para tristeza do embaixador.
Dias se passam, com uma sucessão de médicos, e o paciente se interessa por uma única coisa: as últimas fofocas.
O prognóstico vital não é dos melhores. Para levantar o moral, Jack prega um cartaz de Marilyn de pé, vestindo shorts, com as pernas abertas.
Um detalhe: o cartaz está ao contrário.

***

Quando Winchel e DiMaggio chegam à Lexington Avenue, o caos é geral. Centenas de pessoas se empurram, policiais a cavalo tentam manter pelo menos uma aparência de ordem, flashes pipocam. Impossível continuar. DiMaggio já estava girando nos calcanhares, mas Winchell foi falar com um guarda. Ele dá uma olhada e reconhece o astro do beisebol, o herói de Nova York. Uma escolta inteira uniformizada abre caminho, isto é, uma verdadeira avenida, para o Yankee Slugger. Em volta, a multidão grita:
— Mais alto! Mais alto!
Enquanto os dois visitantes têm a impressão de que o Mar Vermelho se abre diante deles, a febre cresce, a tensão aumenta. Ao chegar à primeira fila, DiMaggio vê a cena.

A cena.
Aquela que vai ficar para sempre.
Aquela que está gravada em mármore.
Marilyn, com um vestido pregueado, está de pé sobre uma grade do metrô. De ombros nus, um sorriso magnífico nos lábios, a garganta exposta, olha para seu colega, Tom Ewell, que, com uma expressão de Droopy, do desenho animado, e as mãos nos bolsos, tenta manter um ar blasé. Mas a esquina inteira é pura eletricidade. Nova York está em sobrevoltagem. Ouve-se a voz de Billy Wilder:
— Ação!
Um metrô passa e, no barulho dos trilhos, três imensos ventiladores escondidos sob a grade se põem a funcionar. O vestido de Marilyn se infla, se ergue, sobe para as costas, ela gira a cabeça com um gesto divertido de falso pudor, com as pernas descobertas, as coxas à mostra, as mãos juntas, em tentativa desenvolta de manter um resto de pudor. É uma imagem mágica, um dos ícones do século XX.
Apenas DiMaggio não aprecia. Sua mulher quase nua, diante de milhares de espectadores? Ela está sem meias, usa apenas uma calcinha branca — na verdade duas, superpostas, para evitar a transparência. Mais excitante do que um verdadeiro striptease. Um sujeito, animado, grita:
— Mais, Marilyn, mais!
A cena é retomada uma, duas, dez vezes. Jornais do mundo inteiro haviam enviado fotógrafos
DiMaggio está desesperado. Vê a roupa de baixo de sua mulher, nota que a câmera parece focar a parte inferior da barriga, ouve um espectador comentar:
— Não disse que é uma loura “de verdade”?
DiMaggio está furioso. VIra-se e diz: “Basta.” E vai embora.
A filmagem durou cinco horas.
A cereja do bolo é que Wilder não pôs filme nas câmeras. Trata-se de um espetáculo publicitário. A cena de verdade seria filmada no estúdio.
Voltando para o Toots Shor, o dono do lugar, vendo o ídolo com a expressão abalada, lhe diz:
— O que você pode esperar, Joe? É uma puta!
DiMaggio não poria mais os pés no restaurante do amigo.
Alguns dias depois, Marilyn anuncia o divórcio. O casamento durou 286 dias. Na saída do tribunal, alguém entrega um envelope a Marilyn. Lá dentro, uma só palavra. Marilyn desdobra o papel e lê: “Puta”, escrito com cocô.
Mas o ciúme de DiMaggio e o sentimento de posse seriam eternos.
Assim que o divórcio é assinado, ele contrata um detetive para espionar Marilyn. Fred Otash, o dobermann dos detetives particulares, manteria o olho no buraco da fechadura até a morte de Marilyn.

Ela estaria sempre sob alta vigilância.

O trecho acima é de Marilyn e JFK (Objetiva, 216 páginas, R$ 33,90, tradução de Jorge Bastos), do jornalista e crítico de cinema francês François Forrestier. Em uma prosa direta, frase secas e diretas, Forrestier conta um dos casos de amor mais trepidantes do século 20 em ritmo ficcional, alternando, como vimos acima, capítulos que acompanham as vidas paralelas de Jonh Fitzgerald Kennedy, filho de família irlandesa endinheirada que viria a ser um dos presidentes míticos dos Estados Unidos, e Norma Jean Baker, que, com o nome de Marilyn Monroe, foi a mulher mais desejada de seu tempo e uma das musas do século 20 (e de qualquer época, a bem dizer). Vocês lerão um pouco mais sobre o livro em texto do Luiz Zini Pires no próximo Caderno Cultura.

Prazeres da leitura (e do Leitor)

25 de fevereiro de 2009 6

Indicado a cinco Oscar — entre eles melhor filme, melhor diretor (Stephen Daldry) e melhor atriz (Kate Winslet, que recebeu a estatueta) —, O Leitor, filme adaptado do romance alemão de Bernard Schlink, conta uma poderosa história sobre paixão, decepção e culpa, com a literatura ocupando o centro do palco. Na Alemanha do pós-guerra, o adolescente Michael Berg começa um caso com uma mulher com o dobro de sua idade, Hannah Schmitz – uma aventura que o marcará para sempre. À medida que os encontros entre ambos vão se tornando mais frequentes, Hanna e Michael desenvolvem um ritual particular no qual, antes do sexo, ele lê para ela, primeiro os livros que está estudando na escola, e depois clássicos da literatura que ele mesmo escolhe na biblioteca, numa lista que inclui Odisseia, Huckleberry Finn, Guerra e Paz e até quadrinhos. Aproveitando tanto a proximidade da cerimônia quanto o lançamento da edição em português de O Leitor, que a Record está colocando nas livrarias na esteira do filme (tradução de Pedro Süssekind), ZH elaborou um breve guia de leitura para os livros citados no filme.

Emília Galotti
O primeiro livro que o jovem Michael lê para Hannah é uma peça clássica da dramaturgia alemã que ele está estudando na escola. Escrita por Gotthold Ephraim Lessing em 1772, narra, em um imaginário reino italiano, a história da personagem-título, jovem plebeia que pede ao pai que a mate para livrá-la do assédio de um nobre magistrado. Teve duas traduções recentes no Brasil, uma de 1999, de Marcelo Backes, pela Mercado Aberto, em uma coleção de clássicos coordenada na época pelo próprio Backes; e uma de 2006, de Fátima Saadi, para a coleção Grandes Dramaturgos da editora Peixoto Neto.

Odisseia
O clássico de Homero sobre a jornada do rei de Ítaca, Odisseu, tentando contra poderes terrenos e divinos voltar para casa após a guerra de Troia, é, no filme, o primeiro livro com o qual os amantes estabelecem a rotina de seu ritual erótico: “Vamos mudar a ordem das coisas, menino. Primeiro você lê, depois fazemos amor“, Hanna diz, a certa altura. Anos mais tarde, o livro inaugurará outro ritual entre ambos. A  tradução mais recente é de Donaldo Schüler para a L&PM, em três volumes, formato bolso. Já publicamos uma extensa entrevista com o tradutor Donaldo Schüler (também responsável por verter para o português a íntegra do Finneganns Wake, de Joyce, considerado “intraduzível”), aqui mesmo no blogue, quem quiser ler é só clicar aqui.

A Dama do Cachorrinho
Um dos mais belos contos do escritor russo Anton Tchekhov — por si só autor de alguns dos melhores contos da literatura universal. Em uma estação de veraneio em Ialta, Dmítri Gurov, burguês casado, que trabalha em um banco, se envolve com uma mulher também casada que passeia com seu cão pelo balneário. No livro O Leitor, Schlink não menciona um conto específico de Tchekhov entre as obras que Michael lê para Hannah. No filme, A Dama do Cachorrinho está em um dos momentos mais tocantes da adaptação. Tem uma edição recente lançada em 1999 em tradução de Boris Schnaiderman pela Editora 34, e está também entre os 37 contos compilados no fim do volume Lendo Tchekhov, de Janet Malcolm, editado pela Ediouro em 2005, um estudo biográfico sobre o tempo e os lugares por onde o autor passou em sua vida (1860 – 1904) e as relações desses elementos com as obras do autor. Quem quiser saber mais sobre Tchekhov, pode ler mais aqui mesmo no blog.

Guerra e Paz
O clássico de Tolstói está presente em um momento chave da relação entre Hannah e Michael – uma cena de conflito que já prenuncia as terríveis descobertas que ele fará no futuro sobre a mulher que amou. Monumental panorama literário, Guerra e Paz, do conde russo Liev Tolstói, acompanha dezenas de vidas transformadas pelas guerras napoleônicas — e flagra com maestria o momento em que a figura de Napoleão, central para a Europa, transforma as antigas relações da sociedade russa, retratada com sensibilidade de gênio. Há uma tradução recente de Silvana Salerno para a Companhia das Letras e outra de João Gaspar Simões para a L&PM, em quatro volumes em formato bolso, sobre a qual você também já leu aqui no blog.

O Amante de Lady Chatterley
Embora as sessões de leitura sejam parte do jogo erótico entre Hanna e Michael, quando o rapaz finalmente aparece com um livro erótico de fato provoca um estranhamento que, no filme, é responsável por um momento de leve humor — juntos na banheira, ela primeiro reprova a escolha, depois pede que ele continue. Proibido na Inglaterra de origem até 1960, o romance de D.H. Lawrence aborda, de forma explícita, as aventuras e descobertas eróticas de uma mulher inglesa, casada com um homem tornado inválido no retorno da I Guerra Mundial, e o caso tórrido e libertador que vive com um homem de uma classe econômica mais baixa, o guarda-caça de sua casa no campo. Há pelo menos quatro traduções no Brasil.

Tintim
Numa sequência que está no filme mas não no livro, e que dá uma mostra do variado cardápio de leituras dos amantes, Michael aparece lendo para Hannah uma das aventuras em quadrinhos do repórter Tintim, criado pelo desenhista belga  Hergé. A Companhia das Letras tem traduções recentes dos álbuns de Tintim, inclusive de As Sete Bolas de Cristal, a aventura lida no filme.

Publicado originalmente como uma central de livros de ZH em 18 de fevereiro.

Capa Brega (e clonada?) Da Semana

24 de fevereiro de 2009 0

Fiquei na dúvida sobre se o livro ao lado, Sexo no Capitólio, de Jessica Cutlermerecia ter a capa (de resto uma beeela capa, não acham?) incluída na nossa biblioteca brega. Mas ao bater o olho e examinar a imagem bem mais detidamente (por motivos profissionais, é claro), algo me pareceu familiar (sem piadinhas do estilo “nunca viu?”, ok?). Foi confirmar e voilà: a capa inegavelmente lembra, ao menos para mim, a outra capa que vocês vêem logo abaixo, a do romance chinês A Serviço do Povo, de Yan Lianke, sobre o qual já escrevi, inclusive, aqui neste mesmo blog, quando fiz uma lista de 10 romances de autores chineses.

Ambos são lançamentos recentes. A Serviço do Povo saiu no ano passado, na esteira das Olimpíadas, e Sexo no Capitólio está sendo publicado agora, os dois pela mesma editora, a Record. Há semelhanças no enquadramento (o do romance chinês se distancia um pouco mais, deixando entrever o umbigo, os cabelos, as belas clavículas e a linha da cintura), na, digamos, indumentária da modelo e até no elemento que remete ao símbolo de poder satirizado na obra, o adesivo redondo do Mao é maior, mas a estrelinha localiza-se na mesma altura do pingente do capitólio.

Mas as semelhanças terminam por aí. Os dois livros são lídimos representantes dos estados sociais dos países de origem. A Serviço do Povo foi escrito por um jovem chinês, banido e proibido pelo regime de Pequim, mas ganhou leitores e edições no Exterior graças à internet. É um romance no qual o sexo, visto como elemento cômico, é um elemento de sátira a uma realidade opressiva mediada pela seriedade dos mitos erigidos para glorificar a “vitória do povo”. Na história, um soldado do Exército Vermelho é desviado de função e colocado como cozinheiro particular de um importante oficial — casado com uma mulher jovem que, é claro, logo se torna amante do rapaz recém-chegado. À excitação da transgressão matrimonial clandestina, o casal logo alia a violação das normas políticas e revolucionárias, ao descobrir que que sentem mais tesão se a cada encontro clandestino praticarem atos “contrarrevolucionários” como rasgar páginas do Livro Vermelho ou destruir imagens do Camarada Mao.

Se o sexo é elemento de transgressão individual contra a repressão no livro chinês, o recente livro de Jessica Cutler é um produto acabado da era ocidental das celebridades. Cutler foi assessora de um senador americano e manteve por um bom tempo um blog, o The Washingtonienne, no qual relatava todos os promenores de suas… digamos… interações políticas com políticos, lobistas, assessores e por aí afora. Os amantes eram identificados apenas por iniciais:W: cara casado que me paga por sexo. Chefe de seção em uma das agências governamentais, nomeado por Bush”,  “K = tiozinho querido que não quer nada além de sexo anal, continuo tentando terminar com ele, mas o dinheiro é muito bom”; “RS = meu novo colega com quem estou envolvida em um escândalo sexual de gabinete. O atual favorito.

Quando a identidade da “washingtoniana” se tornou pública, em 2004, desmascarada por outro blog (não há solidariedade mesmo na blogosfera), Cutler, em vez de ter a carreira arruinada e o nome sujo, ganhou um contrato polpudo para lançar um livro — este, uma versão romanceada do que ela já havia lançado aos quatro ventos em seu blog. Não que a grana vá ajudar muito, já que o “atual favorito” do trecho acima está processando a garota, hoje com 30 anos e na época do escândalo com 26.

Detalhe: a capa do romance de Yan Lianke foi produzida para a edição brasileira, há mais de seis meses, enquanto a do romance de Jessica Cutler é uma reprodução da capa original americana, que por sua vez foi publicada lá fora em 2005. Se há ligação entre as duas capas? não sei.

Postado por Carlos André Moreira

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23 de fevereiro de 2009 1

— Olhe bem, querida. Acha que está maior?
— Posso ser sincera?

Carnaval, pândegos leitores. A festa da carne. Apreciam, os destemidos leitores desta jornada, metafórica e/ou literalmente, a carne? Regozijam-se com os prazeres dela? Pois nosso capo do crime indiano, Ganesh Gaitonde, protagonista de Jogos Sagrados sim. E muito. Logo, as complicações também não são poucas.

Encontramos Gaitonde agora plenamente estabelecido numa espécie de forte flutuante, um iate transformado em base operações. À deriva nos mares orientais, ele controla operações na Índia, Tigres Asiáticos e parte do mundo árabe. Muitas vezes em quid pro quo com o famigerado serviço secreto indiano, por quem foi recrutado no capítulo anterior.

O motivo do bhai permanecer num barco é óbvio, afinal, quem tem, tem medo. Ainda mais agora, que ele começou a se meter com um novo tipo de negócio: o cinema. Certo, ele é um entusiasta da sétima arte, assiste a filmes compulsivamente, mas ganha um paan quem adivinhar o que o levou a bancar um milionário longa bollywoodiano destinado a fracassar.

Mulher, leitores. Mulher. Mas não qualquer mulher. É “a” mulher. Zoya Mirza é o nome dela, recém-chegada do interior do país e apresentada a Gaitonde por intermédio de sua cafetina, Jojo. Segundo a aliciadora, a garota é diferente de todas as outras que normalmente envia para ele e merece um investimento. O godfather hesita, mas resolve apostar — até porque gastar dinheiro com mulher é seu esporte preferido.

E ele não economiza. Sob as orientações da própria Zoya, paga os melhores cirurgiões plásticos para corrigir pequenos defeitos, vai estudar teatro, dança, canto, línguas e etiqueta. Não sai de casa sem os melhores perfumes e a melhor seda. Tudo para, em pouco tempo, se tornar uma estrela publicitária em ascensão, e daí para azarona em concursos de beleza e grande promessa do cinema indiano.

Evidentemente que Gaitonde tem sua parte em sexo. E a coisa vai bem até que, como todo homem aproximando-se da meia idade, bate aquela insegurança. Zoya é inacreditável, quer dizer, pode ter quem quiser agora. Por que se contentaria com um criminoso meia-boca (e às vezes meia-bomba…) como ele, navegando a milhas de distância da civilização? E isso perturba a tal ponto que ele começa a duvidar do tamanho do próprio… lauda*. Chega mesmo a notar que o bicho diminui, olha que quadro triste.

Desesperado, entra na internet atrás de tratamentos para ganhar alguns centímetros. O sujeito pesquisa em tantos sites de sacanagem que é certo que sua caixa de e-mails deve estar agora cheia daqueles spams “enlarge you penis” ou  “big cock supreme in seven days“. Bom, de cara descarta as bombas de vácuo e pesos, decidindo-se por “exercícios de alongamento”. É sério, ele pagou por isso. O que, convenhamos, daria margem para duvidarmos da inteligência de Gaitonde e de sua capacidade para gerir uma organização criminosa ultramarina, mas pensem um minuto.

Por mais poderoso que seja, Gaitonde ainda é homem. E até o mais metrossexual dos David Beckhams se preocupa, pelo menos uma vez na vida, com o tamanho do próprio lauda. Principalmente quando confrontado com o tipo de mulher que habitava apenas seu sonhos molhados. A insuspeita leitora dessa maratona — e que eventualmente bate os olhos em revistas femininas durante visitas ao consultório dentário — pode ter no máximo uma noção do tamanho (eita…) da encrenca. Mas quem é homem sente no osso o drama e não é mole (ops…) não.

Tá, voltando ao nosso cabisbaixo (chega de piadinhas, né?) chefão. Ele sente que consegue um belo centímetro de meio de comprimento e cai matando em Zoya. Tá tudo dando certo, ele se prepara para pegar seu tapete voador quando batem em sua porta. Ele vai atender cego de ódio, certo que vai matar uns dois ou três por isso, mas logo entende o motivo da interrupção. Na TV, aviões atingem um par de torres nos EUA. E não é filme. Discretamente, Gaitonde sente uma pontada de inveja do sujeito que fez aquilo. Certamente, ele deve ter se empenhado mais nos “exercícios de alongamento”. De volta ao trabalho, enfim.

* Gíria vulgar para pênis, caros.

Postado por Gustavo Brigatti

Favelado, milionário e reeditado

23 de fevereiro de 2009 4

A essa altura até quem acordou só agora com ressaca da noite de carnaval já deve ter sabido que o grande vencedor da Festa do Oscar, ontem, foi o filme Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire), adaptação do inglês Danny Boyle para o romance do indiano Vikas Swarup Q & A, que foi lançado em 2006 no Brasil com o nome de Sua Resposta vale um Bilhão (no caso um bilhão de Rúpias, o maior prêmio, na história, já pago a qualquer vencedor de um programa televisivo de perguntas e respostas no estilo Show do Milhão). No filme, como no livro, Ram Mohammad Thomas, jovem garçom sem estudo e morador de uma favela, é preso por suspeita de fraude após haver respondido corretamente todas as perguntas do programa — mesmo pobre e sem escolaridade formal, o que desperta suspeitas de fraude. Usando essa “história-moldura” a exemplo das narrativas antigas (em especial As Mil e Uma Noites), vamos então sendo apresentados a episódios específicos da vida de Ram no qual, por coincidência, determinada situação, pessoa ou circunstância apresentou-o à resposta certa para as perguntas que responderia mais tarde. Com essa estrutura, Swarup, 45 anos, diplomata de carreira, repassa também um pouco da história da Índia moderna.

Lançada em primeira edição no Brasil pela Companhia das Letras, a capa do livro mudou para esta segunda edição que sai na esteira do sucesso do filme — e que, como é praxe no mercado editorial brasileiro, aproveita para chamar toda a atenção do mundo para o fato de que aquele é “o livro que deu origem ao filme”, como vocês vêem na imagem do lado: a cena do filme se tornou dominante e o recurso de distribuir quatro frases na capa como se fossem alternativas de uma pergunta de múltipla escolha é usado para que o título dado ao livro apareça com o mesmo tamanho do nome do filme (parece que no fim é isso o que conta, não é mesmo?). Confesso que o esquema de cores da capa nova também me desagradou um pouco, acho que eu preferia a sobriedade da anterior (que vocês vêem mais abaixo). 

Mas para vocês terem uma ideia dessa história que está ganhando o mundo, vai abaixo um trecho do livro, com tradução de Paulo Henriques Britto.

Estou preso. Por ter ganhado num programa de perguntas e respostas da TV.
Vieram me pegar ontem à noite bem tarde, quando até os cães sem dono já tinham ido dormir. Arrombaram minha porta, me algemaram e me carregaram para um jipe, que aguardava com uma luz vermelha piscando.
Não houve confusão. Nenhum morador saiu de seu barraco. Apenas a velha coruja do tamarindeiro piou quando me levaram preso.
Em Dharavi, é tão comum ocorrer uma prisão quanto alguém ser vítima dos batedores de carteira no trem. Não há dia em que algum infeliz morador não seja levado para a delegacia. Uns são arrastados pelos policiais, gritando e esperneando. Outros vão embora em silêncio. Acham natural a vinda da polícia, talvez até a esperem. Para eles, a chegada do jipe com a luz vermelha piscando é de fato um alívio.
Olhando para trás, talvez tivesse sido melhor se eu tivesse esperneado e gritado. Protestado que era inocente, criado caso, mobilizado os vizinhos. Não que isso fosse mudar alguma coisa. Mesmo que conseguisse acordar alguns dos moradores, eles não teriam movido um dedo para me defender. Com os olhos pesados de sono, teriam assistido ao espetáculo fazendo algum comentário banal, como “lá vai mais um”, bocejando e voltando para a cama na mesma hora. O fato de eu ser levado embora da maior favela da Ásia não alteraria suas vidas em absoluto. De manhã, haveria a mesma fila na bica de água, a mesma luta cotidiana para não perder o trem das sete e meia.
Nem sequer se dariam ao trabalho de tentar descobrir o motivo da minha prisão. Pensando bem, quando os dois policiais invadiram meu barraco, nem eu mesmo tentei. Quando toda a sua existência é “ilegal”, quando você vive a um passo da miséria num panorama de devastação urbana em que cada centímetro quadrado de espaço é disputado, em que é necessário entrar em fila até para cagar, ser preso parece inevitável. Você é condicionado a acreditar que um dia chegará um mandado de prisão com seu nome nele, e que mais cedo ou mais tarde virá um jipe com uma luz vermelha piscando para pegá-lo.
Alguns dirão que a culpa foi minha. Que eu não tinha nada que me meter num programa de perguntas e respostas. Vão me apontar o dedo e lembrar o que dizem os velhos de Dharavi: nunca se deve cruzar a linha que separa os ricos dos pobres. Ora, onde já se viu um garçom sem um tostão participar de um teste de inteligência? O cérebro não é um dos órgãos que temos permissão de utilizar. Nós só devemos usar as mãos e as pernas.
Ah, se eles me vissem respondendo àquelas perguntas! Tendo testemunhado meu desempenho, passariam a me encarar com mais respeito. É uma pena o programa ainda não ter ido ao ar. Mas assim mesmo espalhou-se a notícia de que eu havia ganhado alguma coisa. Como numa loteria. Quando os outros garçons ficaram sabendo, resolveram dar uma grande festa para mim no restaurante. Cantamos, dançamos e bebemos até altas horas. Pela primeira vez, nosso jantar não foi a comida rançosa de Ramzi. Pedimos
biryani de frango e seekh kebabs do hotel cinco estrelas da Marine Drive. O barman, um velho encarangado, me ofereceu a filha dele em casamento. Até o gerente mal-humorado sorriu para mim, tolerante, e finalmente me pagou os salários que estava me devendo. Naquela noite, não me chamou de vagabundo. Nem de cachorro danado.
Agora é Godbole que me xinga, e de coisas ainda piores. Estou sentado de pernas cruzadas dentro de uma cela de três metros por dois, com uma porta de metal enferrujada e uma janelinha quadrada com uma grade, pela qual entra um raio de sol empoeirado. A cadeia é quente e úmida. Moscas zumbem em torno dos restos de uma manga madura demais, esmigalhada no chão de pedra. Uma barata tristonha se arrasta até minha perna. Começo a sentir fome. Meu estômago ronca.

Postado por Carlos André Moreira

Leituras para o seu carnaval

20 de fevereiro de 2009 1

Atendendo a sugestão do nosso leitor Gabriel, vai abaixo um pequeno guia de leitura para quem, diferentemente deste jornalista ralado, vai viajar neste carnaval e pretende pôr a leitura em dia. Tem de tudo, uma salada intencionalmente variada, do entretenimento ao cabeça — não tem os clássicos, mas esses eu espero que vocês não dependam da minha recomendação para levar para o feriado, não é mesmo?

O Mirante, de Michael Connelly
Um dos grandes nomes do policial contemporâneo, Connelly apresenta mais uma aventura de seu detetive recorrente, o melancólico e obcecado Harry (abreviatura de Hieronymous, exatamente como o pintor) Bosch. Chamado para investigar o assassinato de um médico dentro de um automóvel no mirante que dá título à história, Bosch se envolve com o FBI numa trama de terrorismo. A história pode ser lida de modo independente, mas ao mesmo tempo faz relações entre outros personagens e livros da série — em especial Echo Park, também publicado pela objetiva, e os outros da época em que Conelly era publicado pela coleção negra da Record, principalmente Correntezas da Maldade e O Poeta: Trad. Cássio de Arantes Leite. Objetiva.

Museu, de Veronique Roy
Este livro pode ser enquadrado com facilidade no gênero “Quero Ser Código Da Vinci” — seguindo a fórmula que fez sucesso com Dan Brown, de misturar thriller, religião, e crimes macabros dentro de um museu. Escrito por uma ex-arquivista
do Museu de História Nacional de Paris, conta a história de uma dupla de pesquisadores enviados para examinar um suposto meteorito alienígena que logo revela mais mistérios do que à primeira vista, colocando a dupla na trilha de um questionamento metafísico: o homem é criação divina ou um acidente cósmico? Ah, sim, outro elemento de O Código Da Vinci também presente aqui é que nesse meio tempo os personagens vão ter de lidar com crimes macabros dentro do museu. Tradução de Flávia Nascimento. Bertrand Brasil, 378 páginas.

O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle
Com a popularidade do filme, muita gente até esquece que tudo começou com este livro, do mesmo autor de A Ponte do Rio Kwai, que está sendo lançado pela Ediouro em seu selo de livros de bolso BestBolso. No ano 2500, uma missão composta por um físico, um jornalista e um professor (franceses, e não americanos, como no filme) parte em direção à estrela  vermelha Betelguese, no sistema Órion e encontra uma sociedade de símios na qual os humanos são animais, escravos e bestas de carga — os que não foram capturados, regrediram à vida em um estado praticamente selvagem. Tradução de André Telles. Pocket Ouro, 210 páginas.

Sartre: Uma Biografia, de Anne Cohen-Sokal
Nova edição daquela que é considerada uma das mais completas biografias de Jean-Paul Sartre. Lançada pela primeira vez em 1985, esta nova edição revista inclui novas informações adicionadas pela autora sobre o legado de Sartre no século 21. Tradução de Milton Persson. L&PM, 616 páginas.

O Santo Sujo, de Humberto Werneck
Jayme Ovalle é o legítimo caso de personagem maior que sua parca obra. Compositor e poeta, amigo e influência para um círculo respeitável que incluía Vinícius de Moraes e Fernando Sabino, foi um grande frasista e conversador genial, além de uma personalidade absolutamente desconcertante, capaz de chorar para tentar vencer uma discussão e de pintar os cabelos, brancos, com graxa preta de sapato. Embora fosse considerado pelos seus pares uma inteligência viva e iluminada, não deixou uma obra à altura, apenas alguns poemas em inglês (língua que ele não falava, a propósito), e um punhado de canções. O livro recupera esse personagem quase inacreditável. Cosac Naify, 400 páginas.

Os Devaneios do Caminhante Solitário, de Jean-Jacques Rousseau
Bom livro para quem vai se isolar do mundo e do carnaval neste feriado. Última obra do filósofo iluminista francês, grande inspiração do pensamento artístico romântico. Publicado só depois da morte de Rousseau, em 1778, reúne as últimas reflexões do filósofo já no fim da vida. Rousseau examina, com mais lirismo do que análise, os impulsos que o levaram a se afastar da sociedade de seu tempo. Tradução de Julia da Rosa Simões. L&PM Pocket, 144 páginas.

Nos Penhascos de Mármore, de Ernst Jünger
Em tempos de Tom Cruise interpretando no cinema um nazista que chefiou uma tentativa fracassada de golpe contra Hitler, este livro se torna bastante apropriado. Pouco conhecido do grande público no Brasil, embora já tenha sido objeto de estudos acadêmicos de, entre outros, Antônio Candido, Ernst Jünger (1895 – 1998) é um dos maiores nomes da prosa alemã do século 20, e começa só agora a ser publicado no Brasil. Este é um romance de feição alegórica no qual dois irmãos estudiosos da natureza pesquisam, isolados, os insetos de uma região, enquanto uma guerra toma forma em volta deles, deflagrada pelas ambições maníacas de um ditador. Jünger lutou no exército nazista, e seu romance pode ser lido como um retrato disfarçado e crítico da Alemanha de Hitler. Tradução de Tercio Redondo. Cosac Naify, 197 páginas.

Associação Judaica de Polícia, de Michael Chabon
Há um tipo peculiar de ficção que se poderia chamar de “Histórico-alternativa” por falta ou ignorância de um nome melhor. É a que vai ao passado, elege um momento histórico em particular, e imagina o que teria acontecido se aquele momento em particular tivesse se desenrolado de outra forma. Um dos melhores exemplos pode ser encontrado no clássico de Philip K. Dick O Homem do Castelo Alto, no qual o autor apresentava sua visão alternativa da história humana se o eixo, e não os aliados, houvesse vencido a II Guerra Mundial. Neste livro, Chabon, o mesmo autor de As Aventuras de Cavalier & Clay, faz o mesmo com o Israel, e imagina que os árabes que declararam guerra so estado judeu em 1948 venceram. A fim de evitar mais estragos e para afastar a sombra de um novo holocausto, os Estados Unidos oferecem o território do Alasca em concessão por 50 anos. A história começa em 2007, quando está chegando a época da “reversão” do território aos americanos, o que de novo deixará os judeus sem um território. No meio desse panorama político imaginário, um detetive de polícia melancólico e em decadência, Meyer Landsman, começa a investigar o assassinato de um viciado em heroína que morava no mesmo prédio que ele. A trama que o detetive vai deslindando logo o põe em contato com a máfia e com um plano secreto para a reconquista militar de Jerusalém. Tradução de Luis Antônio de Araújo. Companhia das Letras, 472 páginas.

Poesia, de Jorge Luís Borges
Este livro está aqui por três motivos, porque é um livrão daqueles que o cara só tem tempo de destrinchar no feriadão, porque é um livro de Borges e porque é uma boa tentativa de fazer o leitor conhecer uma faceta menos difundida da obra do grande mestre argentino, a de poeta. Uma coletânea dos sete últimos livros de poesia escritos por Borges, de 1969 a 1985, que em seus versos partilha, com lirismo confessional, reflexões e sentimentos profundos e a sensibilidade de um grande espírito. E não, aquele poema Instantes que muitos leram na internet não está aqui — pelo motivo muito simples de que não é do Borges. Tradução de Josely Batista Vianna, Companhia das Letras, 648 páginas.

Postado por Carlos André Moreira

Veja o filme, mas leia o livro

19 de fevereiro de 2009 6

Eu estava para comentar isso há dois dias, mas estava trabalhando numa reportagem de duas páginas para o Caderno Cultura e só pude falar disso agora. A essa altura, todos vocês já devem ter lido a carta que a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, mandou ao colunista de Zero Hora Paulo Sant`Anna, um “desabafo”, nas palavras do colunista, sobre as dificuldades que a governadora diz enfrentar desde o início do seu mandato. Muita gente com real cohecimento da matéria já comentou o conteúdo político da carta, que por sua vez foi publicada há dois dias e já virou notícia velha. Resolvi, então, comentar só um detalhe da missiva (vocês podem ler na íntegra no blog do Sant`Anna, neste link) — mais especificamente um ponto no qual a governadora compara-se a dois personagens de filmes (na verdade, os dois filmes são adaptações de livros, mas a governadora não menciona esse fato nem parece haver lido as obras originais pelo que se deduz de sua carta). Vamos falar especificamente do trecho em que a governadora cita A Letra Escarlate, filme com Demi Moore e Gary Oldman, adaptado do romance clássico do norte-americano Nathaniel Hawthorne:

O primeiro é A Letra Escarlate. A mulher de que trata o filme teve que desfilar com a marca ‘A’ de adúltera pela aldeia onde vivia, porque se casou de novo, pois havia ficado ‘viúva’ até o marido aparecer de novo da floresta, depois de praticar maldades inomináveis. Ela desfilou, chorou, perdeu, com a infinita paciência que tem a mulher para entender como o ‘homem’ da nossa civilização age quando se trata de posse, poder e sexo. Ao final, tudo se esclareceu. E ela não estava amarga, não havia feito nada que considerasse errado durante todo aquele período de provação, e viveram na mesma aldeia depois do pedido de desculpas público, da restauração, do líder da mesma.

Bom, desculpe a governadora, mas é por aqui que eu deduzo que ela não leu essa parada MESMO. Primeiro, porque nem mesmo no filme, que já tomava liberdades para caramba com a trama do livro original, as coisas terminam assim tão bem quanto ela dá a entender em seu resumo.

Publicada em 1850, A Letra Escarlate é um dos primeiros grandes romances psicológicos norte-americanos, e em suas páginas trava-se magistralmente a luta entre os impulsos e vontades do indivíduo e a repressão exercida pela coletividade puritana. A história se passa na Boston do século 17, onde, num vilarejo puritano, uma mulher jovem, Hester Prynne, é condenada a usar sempre bordada sobre suas roupas a marca “A” de adúltera. O fato é que ela não é condenada porque “se casou de novo, pois havia ficado ‘viúva’ até o marido aparecer de novo da floresta”. Como a frase está meio truncada, vamos dar uma esclarecida: Hester Prynne é mandada pelo marido para viver na colônia enquanto ele está ausente, resolvendo pendências na Europa antes de viajar para o Novo Mundo para se reunir a ela. O fato é que ele não aparece, e ela, morando sozinha, engravida meses depois de sua chegada — o adultério, portanto, é real, e a prova é a criança, Pearl. Em um primeiro momento, pensa-se em mandar para longe a “cria do pecado”, mas o jovem ministro local, Arthur Dimmensdale, convence o conselho de elders da vila que cuidar da filha do pecado é parte da penitência devida pos Hester. Assim, mãe e filha ficam juntas. Como ela se recusa a revelar o nome do pai de sua filha para que ambos sejam penalizados juntos, é marcada com a infâmia, e ela não revela o nome de seu amante porque ele é o próprio reverendo Dimmensdale, que, embora preservado em sua reputação pelo silêncio de Hester, tortura-se diariamente pela própria covardia de deixá-la assumir sozinha seu pecado. É nesse momento que o marido finalmente aparece, prático de medicina, e com o nome falso de Roger Chillingworth. Bem mais velho que a esposa e tomado pelo rancor, Chillingworth não se identifica como o marido traído, e logo percebe que o amante é o pobre reverendo, fato que utiliza para, sorrateiramente, fustigar o já abatido ânimo do pastor.

Uma obra de tons sombrios, portanto, que Hollywood transformou em um filme água-com-açúcar dos mais inanes. E que não termina nessa comunhão universal que a missiva da governadora deixa a entender. Depois de planejar uma fuga com a amante e a filha em um navio que está para aportar na cidade, tendo já arranjado uma passagem para ambos, Dimmensdale é informado por Hester que o marido sabe do plano e pretende desmascá-los diante da aldeia reunida para a missa de saudação à chegada do navio (é uma colônia isolada, qualquer navio é motivo de festa). O pastor, então, faz seu mais comovente sermão, chama a filha e a amante ao palanque e rasga as próprias vestes, mostrando um A como que marcado a fogo em seu peito, supostamente pelo demônio e pela culpa. Depois disso, morre. Hester não recebe pedido de desculpas nem deixa de usar a letra. E isso se não me falha a memória também era assim no filme.

Ou não? Faz tempo que vi.

Postado por Carlos André Moreira

Inverno Nuclear

17 de fevereiro de 2009 2

Tão achando o quê? O Sartaj aqui pode tá véio, mas ainda descola uma gatinha

Se meu editor do Mundo Livro tivesse a força metafísica de um deus furioso, eu certamente estaria reduzido à pó uma hora destas. Sim, atrasei o combinado. E como ouvi certa vez numa casa de reputação duvidosa, “o combinado não é caro”.
E desta vez nem posso culpar minha propalada e protuberante procrastinação (quase um trava-língua, credo…). Acontece que estive ocupado com… videogame. E que por incrível que pareça, possui alguma relação com esse nosso Jogos Sagrados que não ficam apenas no campo das palavras. Games, jogos, sacaram?

Tá, tô enrolando, então vamos lá. O lance é que passei o final de semana debruçado sobre o jogo Mercenários 2. Nele, encarno o, hã, mercenário sueco Mattias Nilsson, que se aventura pela Venezuela de um ditador que acabou de chegar ao poder. Em dado momento, preciso invadir o bunker dele fazendo uso de uma bomba atômica. E para conseguir o artefato, posso recorrer tanto aos préstimos da ONU (cof, cof, cof) quando da China (ahá!). Já tenho o bicho, só falta chegar até o lugar marcado com xis no meu GPs.

E paranóia atômica é para onde Jogos Sagrados ruma agora. Tudo leva a crer que os pobres indianos de Bombaim (ou Mumbai, Vikram Chandra usa os dois às vezes numa mesma frase) dormem sobre uma imensa bomba nuclear. O abrigo atômico de Gaitonde era coisa séria e o serviço secreto indiano está crente que o chefão realmente construiu e escondeu uma ogiva sobre a cidade.

Mas nada confirmado ainda, apenas especulações que começam a surgir quando a história pregressa de Gaitonde avança para se cruzar, logo mais adiante, com os acontecimentos de agora. Sim, e será nesse xis — nova e literalmente falando — que ou o livro acaba, ou abre para uma nova e derradeira etapa.

Até lá, ao que tudo indica, o bhai do crime indiano começará sua jornada espiritual e envolvimento com o movimento… islâmico. Justo ele, que acabou de se converter ao hinduísmo e envergou o manto de chefão secular.

Enquanto isso, as investigações de Sartaj o levam inexoravelmente para o alto círculo de estrelas bollywoodianas (acho que é a primeira vez que escrevo isso. Que sinal…) e aos braços miúdos de Mary Mascarenhas*, irmã da cafetina Jojo (encontrada morta com Gaitonde, lembram?). O cara está ficando velho e, como ele mesmo admite, já foi mais rápido nesse negócio. Mas os tempos são outros e o sagrado jogo de sedução que se descortina é o pouco de diversão que o detetive tem hoje. Nada mal, vá.

* Comentário do seu editor metafísico: Mascarenhas”!? Quer dizer que depois de engolir serviço secreto indiano e chefão do crime escondido em bunker contra radiação nuclear teremos agora uma atriz de cinema indiano com nome de expedicionário da FEB? Brigatti, tu tá me tirando. (Carlos André)

Postado por Gustavo Brigatti

Essa eu estava devendo

13 de fevereiro de 2009 0

Havia prometido para nossos leitores do Caderno Cultura um trecho do livro Foi Apenas um Sonho, de Richard Yates, recentemente adaptado para as telonas com Kate Winslet e Leonardo DiCaprio nos papéis principais. O livro, que ganhou edição em português pelo selo Alfaguara do grupo Objetiva, retrata, em uma prosa sóbria porém vibrante, o casal Frank e April Wheeler, jovens, com uma vida financeiramente estabilizada, cumprindo as expectativas da sociedade de seu tempo: casa, casal de filhos, casa no subúrbio — e sufocando por isso. Boêmios
e românticos, ambos só se casaram porque April engravidou, e antes que pudessem se dar conta já estavam lá reproduzindo de modo angustiante todos os
passos do caminho da feliz vida burguesa americana nos anos 1950. A “Rua da Revolução” que poderia ser o título original se a editora não quisesse aproveitar a carona do filme, é o lugar em que vivem, no subúrbio de Nova Jersey, e onde o casal gesta o plano de sua própria revolução, tão ingênua e otimista que seu malogro anunciado comove, mas não vou entrar em muitos detalhes.

Selecionei o trecho abaixo, com extensão justa para dar uma ideia mais precisa da elegância do estilo de Yates, escritor americano pouco conhecido no Brasil e hoje um tanto relegado mesmo em sua terra de origem. Boa leitura.

E agora, conforme sempre fazia quando se esforçava para se lembrar de quem era, a mente de Frank voltou aos primeiros anos do pós-guerra, a um quarteirão caindo aos pedaços da rua Bethune, naquela parte de Nova York onde o frágil extremo oeste do Village se desfaz em armazéns silenciosos à beira d`água, onde a brisa salgada da noite e os apitos que vêm do rio enchem o ar com promessas de viagens. Aos vinte e poucos anos, sob mantos orgulhosos de “ex-combatente” e “intelectual”, mantos usados com a mesma bravura com que vestia o paletó de tweed e a roupa cáqui, ele possuíra uma das três chaves de um conjugado naquela rua. As outras duas chaves, e o direito “ao uso do local a cada segunda e terceira semanas”, pertenciam a dois colegas da Universidade de Columbia, cada um responsável pelo pagamento da terça parte do aluguel de 27 dólares. Os outros dois, um ex-piloto de combate e um ex-fuzileiro, eram mais velhos e se mostravam mais à vontade com assuntos mundanos do que Frank — parecia que os dois tinham reservas inesgotáveis de garotas dispostas a fazer uso do local —, mas não demorou muito até que Frank, para sua própria surpresa, começasse a fazer o mesmo que eles; era um tempo de progresso intenso, fantástico, em vários sentidos, de uma autoconfiança crescente e estonteante. O sonhador solitário dos mapas ferroviários nunca chegara a pular num trem de carga, mas era cada vez mais improvável que algum Krebs pudesse voltar a chamá-lo de bobão. O exército o recrutara aos 18 anos, o empurrara para a ofensiva na última primavera da guerra na Alemanha e lhe propiciara um giro tão perturbador quanto emocionante pela Europa durante mais um ano, antes de liberá-lo; e a vida desde então apenas o fortalecera. Os filamentos soltos do seu caráter — traços que o mantinham sonhador e solitário em meio aos colegas de escola e mais tarde em meio aos companheiros de farda — pareciam, subitamente, ter se consolidado num todo consistente e interessante. Pela primeira vez na vida era admirado, e o fato de que garotas pudessem querer ir para a cama com ele era só um pouco mais surpreendente do que a outra descoberta feita àquela época: homens, inclusive homens inteligentes, gostavam de ouvi-lo falar. Seu rendimento acadêmico raramente ficava acima da média, mas seu desempenho nada tinha de mediano nas conversas regadas a cerveja, noite adentro, nas quais ele era o foco das atenções — conversas que de modo geral acabavam com um murmúrio de assentimento, acompanhado de toques nas têmporas, e expressões de que Wheeler “sabia das coisas”. Tudo o que ele precisava, dizia-se, era de tempo e liberdade para se encontrar. Diversas carreiras estavam previstas para ele, e o consenso apontava que atuaria em algum setor “das ciências humanas”, mesmo que não fosse nas artes; seria, contudo, algo que exigiria dedicação contínua e inabalável, algo relacionado à sua estada precoce na Europa, por ele definida como a única região do mundo onde valia a pena viver. E, caminhando pelas ruas ao alvorecer depois de uma dessas longas conversas, ou deitado na cama, no apartamento de rua Bethune, em noites em que podia usar o conjugado, mas não tinha consigo uma garota, ele quase nunca alimentava dúvidas quanto ao seu mérito excepcional. As biografias dos grandes homens não revelavam esse mesmo tipo de busca juvenil, esse mesmo tipo de revolta contra os pais e os métodos empregados pelos pais? Em certo sentido sentia-se até grato por não ter uma área específica de interesse: ao evitar objetivos específicos, evitava limitações específicas. Naquele momento, o mundo, a própria vida, seria o seu campo de interesse.

Postado por Carlos André Moreira