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As memórias ilhadas de Hatoum

04 de março de 2009 2

Quem leu hoje a central de livros do Segundo Caderno deparou com um artigo sobre o novo livro de Milton Hatoum, A Cidade Ilhada, 13 relatos curtos de um escritor que se notabilizou pelos seus romances. Conforme prometido, vai abaixo a íntegra da entrevista com o autor, que precisou ser editada no jornal impresso por questões de espaço:

ZH — O senhor se consagrou como romancista. O que o fez explorar as extensões mais breves do conto?
Milton Hatoum 
— Na verdade, eu comecei como contista inédito (risos). Nos anos 1970, publiquei um livrinho de poesia e depois escrevi alguns contos. Eram todos plágios deliberados de Poe, Borges, Katherine Mansfield, eu ainda não tinha encontrado minha voz. Um dia, comecei a escrever um conto mais extenso que se expandiu e se tornou meu primeiro romance, Relato de um Certo Oriente. Depois tentei outro romance, que ficou inédito, depois o Dois Irmãos. Parecia que eu tinha mais material para romances, mas continuei escrevendo contos, publicando aqui e ali. Um dos contos desse livro eu li no Congresso da Abralic, aí em Porto Alegre, em 2004. Reescrevi todos os que eu tinha publicado ou apresentado. Juntei nessa coletânea muita coisa que havia escrito desde 1990, ou seja, 18 anos. É muito tempo para publicar um livrinho de 120 páginas, mas é esse o meu ritmo.

ZH — Na maioria dos contos, o que é narrado vem da memória do protagonista, algo que também estava presente em seus romances. O senhor é um escritor da memória?
Hatoum —
Esses contos refletem vários momentos da minha vida, filtrados pela memória. Alguns contos se passam fora do Brasil, retratam períodos na França, em Palo Alto, na Califórnia, saem um pouco de Manaus… A memória é o material mais rico para um escritor, porque ela torna o tempo tempo difuso, nebuloso. É difícil escrever sobre um assunto totalmente descolado da memória.

ZH — Mas o senhor teria algo a escrever sobre o presente?
Hatoum —
Eu deixo para o presente as crônicas que escrevo para o Caderno 2, do Estadão ou para o Terra Magazine. Para mim é difícil escrever um relato de ficção sobre o presente. Acho que o passado nos ajuda a mentir com conhecimento de causa. Já tem uma experiência anterior que é propícia à invenção. É uma maneira de você trazer para o presente aquilo que foi vivenciado. Na realidade que a gente vive, no tempo que a gente vive, isso é importante. Nesse livro, por exemplo, o primeiro conto, Varandas da Eva, passa-se numa Manaus do passado, muito próxima ao rio, e, para contrastar, o último, Dançarinos na Última Noite, fecha com uma Manaus mais perto da de hoje, a dos doleiros, da zona franca. E atualmente estou escrevendo contos que se passam numa Manaus também mais próxima da de hoje.

ZH — A maioria das histórias de A Cidade Ilhada começa com um artifício narrativo, o protagonista narra um episódio e logo desvia a história para outro, que ocupa a posição principal. Essas camadas também tentam emular os labirintos da memória?
Hatoum —
Sim, mas também há uma coisa subjacente a essas memórias em tempos distintos que é a própria maneira de escrever o conto contemporâneo. No ensaio Formas Breves o Ricardo Piglia fala em atrair o leitor para um assunto, capturá-lo com uma coisa e no fim o que é narrado é outra coisa, uma história paralela que aos poucos se revela. Em um dos contos do livro, A Carta de Bancroft, o protagonista narra primeiro um encontro com um sino-americano, depois as pesquisas na biblioteca que o levam a encontrar uma carta de Euclides da Cunha na qual Euclides conta um sonho que antecipa a sua própria morte. É um labirinto típico do conto contemporâneo, camadas que vão se sobrepondo.

ZH — O senhor também busca essa característica com recursos como a retomada de alguns personagens de romances anteriores e a repetição de alguns personagens ao longo dos contos?
Hatoum —
Sim, há um diálogo entre os romances e os contos, um diálogo temático e um trânsito de personagens de uma narrativa para outra. Há um personagem, por exemplo o Tio Ran, do Cinzas do Norte, que ficou martelando tanto na minha cabeça que ele volta em duas histórias, Varandas da Eva e Dois Tempos. Mas isso é comum na literatura, lá o Balzac já fazia, Zola, nos contos do Pedro Páramo, do Juan Rulfo. No fundo a gente trabalha no nosso próprio microcosmo ficcional, muito cerrado, os personagens vão e voltam.

ZH — Então é o caso de dizer que Balzac, no auge do realismo, usava esses procedimentos para representar o mundo à sua volta, e que hoje os mesmos recursos são usados para que o escritor consiga retratar seu próprio universal?
Hatoum 
— O José Castello publicou uma resenha no globo sobre A Cidade Ilhada dizendo: “Manaus não existe”. Muita gente acha que eu escrevo sobre a Manaus empírica, a que existe, quando na verdade eu estou tentando reinventar essa cidade. Tentar criar esse microcosmo que é daqui mas é filtrado pelo meu olhar. É isso que o escritor tem de fazer. O Erico Verissimo fazia isso, por exemplo, não que eu queira me comparar. É isso que a gente aprende com os outros escritores: criar um mundo. Às vezes esse mundo é mais subjetivo, como o da Clarice Lispector, outras tem um aspecto mais histórico, real. Mas acho que todo o escritor cria o seu.

Comentários (2)

  • Marcelo Xavier diz: 6 de março de 2009

    Tinha ouvindo a entrevista dele à Tania Morales no Revista CBN semana retrasada e passei os olhos no livro. Achei interessante.

  • Mundo Livro » Blog Archive » Os semifinalistas do Portugal Telecom diz: 16 de maio de 2010

    [...] boca da verdade, de Mario Sabino (Record) * A casa deles, de Ana Paula Pacheco (Nankin Editorial) * A cidade ilhada, de Milton Hatoum (Companhia das Letras) * A minha alma é irmã de Deus, de Raimundo Carrero [...]

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