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Wolfe vem aí

13 de março de 2009 1

Quem leu hoje o Segundo Caderno de Zero Hora, foi informado da lista dos convidados deste ano para o Fronteiras do Pensamento – em versão pocket devido aos efeitos da crise. Ainda assim, a lista traz nomes que valem uma visita ao Salão de Atos da UFRGS, com destaque para o papa do Novo Jornalismo, Tom Wolfe (foto), e para o cientista da linguagem e psicólogo Steven Pinker. Wolfe a maioria já conhece, é um dos eixos que consolidou o Novo Jornalismo nos anos 1960, um estilo de fazer jornalismo que investia na apuração minuciosa e no texto literário, com o uso de ferramentas antes restritas à literatura de ficção, para apreender a “totalidade” do mundo — e aqui uso o conceito de Lukács intencionalmente. Wolfe — ele assumidamente, e os outro praticantes do Novo Jornalismo de movo mais velado — miravam-se no exemplo dos grandes romancistas realistas europeus do século 19, cujas obras apreendiam com vigor e precisão a realidade que retratavam. Os princípios fundamentais, a “profissão de fé”, digamos, do estilo, foi defendida por Wolfe no ensaio  O Novo Jornalismo, que foi relançado pela Companhia das Letras há alguns anos em uma coletânea com outros textos clássicos de Wolfe, como Radical-Chique. É desse livro o trecho abaixo, em tradução de João Baptista da Costa Aguiar. No próximo post, falaremos de Steven Pinker e de seu livro mais recente, o mais que interessante Do que é feito o pensamento?

O Jogo das Reportagens Especiais

Duvido que a maioria dos craques que vou exaltar neste texto tenham entrado para o jornalismo com a mais remota idéia de criar um “novo” jornalismo, um jornalismo “superior”, ou mesmo uma variedade ligeiramente melhorada. Sei que eles nunca sonharam que nada que fossem escrever para jornais e revistas provocasse tamanho torvelinho no mundo literário… causando pânico, tirando do romance o trono de gênero literário número um, inaugurando a primeira novidade da literatura americana em meio século… No entanto, foi isso que aconteceu. Bellow, Barth, Updike — até o melhor da turma, Philip Roth —, os romancistas todos aí estão agora revirando a história literária, resistindo, tentando entender a posição que ocupam. Que droga, Saul, os hunos chegaram…

Deus sabe que eu não tinha em mente nada de novo, muito menos algo literário, quando arranjei meu primeiro trabalho em jornal. Eu tinha uma fome voraz e nada natural de outra coisa inteiramente diferente. Chicago, 1928, uma coisa assim… Repórteres bêbados na marquise do News fazendo xixi no rio Chicago ao amanhecer… Noites em claro no saloon ouvindo “Back of the yards” [No fundo dos quintais] cantada por uma voz de barítono que era apenas uma sapatona cega e solitária com bolotas de vidro leitoso no lugar dos olhos… Noites em claro num escritório de detetive – era sempre noite nos meus sonhos de vida jornalística. Repórteres não trabalhavam durante o dia. Eu queria o filme inteiro, sem deixar nada de fora…

Tinha plena consciência do que havia me reduzido a esse estado de pieguice estudantil. Mesmo assim, não tinha como evitar. Acabara de passar cinco anos na pós-graduação, coisa que pode não significar nada para gente que não viveu uma experiência dessas e, entretanto, explica tudo. Não sei se sou capaz de dar sequer uma remota idéia do que é um curso de pós-graduação. Ninguém é. Milhões de americanos agora fazem pós-graduação, mas basta pronunciar a palavra — pós-graduação —, e qual é a imagem que vem à mente? Imagem nenhuma, nem ao menos um borrão. Metade das pessoas que conheci na pós-graduação iam escrever um romance a respeito dela. Eu mesmo pensei nisso. Ninguém jamais escreveu esse livro, que eu saiba. Todo mundo farejava o ar. Que mórbido! Que venenoso! Nada era igual àquilo no mundo! Mas esse assunto sempre derrotou a todos. Sempre resistiu ao desenvolvimento literário. Um romance desses seria um estudo sobre frustração, mas uma forma de frustração tão especial, tão inefável, que ninguém consegue descrever. Tente imaginar a pior parte do pior filme de Antonioni que você já viu, ou ler O planeta do sr. Sammler de uma sentada, ou mesmo apenas ler esse livro, ou ficar trancado dentro de uma cabine de trem da Seaboard Railroad, a 25 quilômetros de Gainesville, Flórida, indo em direção norte pelo Miami-Nova York, sem água, com o aquecedor ficando vermelho de tão loucamente superaquecido e George McGovern sentado a seu lado, falando de sua filosofia de governo. É por aí.

De qualquer modo, no momento em que recebi meu doutorado em estudos americanos, em 1957, eu me encontrava nas garras tortuosas de uma doença do nosso tempo que leva o sofredor a sentir uma esmagadora necessidade de fazer parte do “mundo real”. Então, comecei a trabalhar para jornais. Em 1962, depois de uma xícara de café aqui e ali, cheguei ao New York Herald Tribune… Aqui é o meu lugar!… Olhava a editoria de Cidade do Herald Tribune, cem míseros metros ao sul da Times Square, com uma sensação de perplexa felicidade boêmia… Ou isto aqui é o mundo real, Tom, ou não existe mundo real… O lugar parecia o latão de doações da Legião da Boa Vontade… um monte promíscuo de lixo… Destroços e cansaço por toda parte… Se alguém como o editor de Cidade tinha uma cadeira giratória, a junta central estava quebrada, de forma que toda vez que ele se levantava, o assento virava, como se tivesse sido atingido por um golpe lateral. Todo o intestino do edifício ficava à mostra nas alças e linhas de uma diverticulite – conduítes elétricos, canos de água, canos de aquecimento a vapor, dutos de chuva, sistemas de sprinklers, tudo pendurado e gemendo no teto, nas paredes, nas colunas. A bagunça toda era pintada, de alto a baixo, com um lodo industrial, Cinza-Chumbo, Verde-Metrô, ou aquele inacreditável vermelho morto, aquela horrenda têmpera de pigmento e sujeira com que pintam o chão da sala de máquinas. No teto, havia escaldantes carreiras de luz fluorescente colorindo a atmosfera de azul-radiativo, queimando manchas de calvície na coroa dos revisores, que nunca se mexiam. Era uma grande fábrica de tortas… Um Sonho de Senhorio… Não havia paredes internas. A hierarquia corporativa não ficava dividida em espaços de escritório. O editor executivo trabalhava num espaço tão miserável e infecto quanto o do mais ínfimo repórter. A maioria dos jornais era assim. Esse cenário fora instituído décadas antes, por razões práticas. Mas era mantido vivo por um fato curioso. Nos jornais, pouquíssimos empregados editoriais lá de baixo – especificamente, os repórteres – tinham alguma ambição de subir, de se tornar editores locais, editores executivos, editores-chefes, ou qualquer outra coisa. Os editores não sentiam nenhuma ameaça vinda de baixo. Não precisavam de paredes. Os repórteres não queriam muito… simplesmente ser estrelas! e tão apagadinhas!

Essa é uma coisa sobre a qual nunca se escreveu em livros a respeito de jornalismo, nem naquelas memórias camaradas da década de 20, da sapatona cega, das botas apoiadas nos canos de latão, dos bares clandestinos onde se bebia muito, dos dias de jornal e dos filhos do século… precisamente, os pequenos arabescos da competição por status dentro dos jornais… Por exemplo, na mesa atrás da minha na editoria de Cidade do Herald Tribune sentava-se Charles Portis. Portis era o protótipo do exibicionista lacônico. Um dia, foi convidado a uma espécie de Encontro com a Imprensa de Malcolm X, e Malcolm X cometeu o erro de fazer um pequeno sermão aos repórteres antes de eles entrarem, dizendo que não queria que ninguém o chamasse de “Malcolm”, porque ele não era garçom de vagão-restaurante – seu nome era “Malcolm X”. Quando terminou a entrevista, Malcolm X estava furioso. Estava subindo pelas paredes de tijolos acústicos. O protótipo de exibicionista lacônico, Portis, tinha invariável e continuadamente se dirigido a ele como “mr. X”… “Agora, mr. X, poderia nos falar sobre…” Então, a mesa de Portis era atrás da minha. Num cubículo no extremo da sala ficava Jimmy Breslin. De um lado, sentava-se Dick Schaap. Estávamos todos envolvidos numa forma de competição jornalística que nunca vi ninguém sequer mencionar em público. Schaap, porém, havia se demitido do posto de editor de Cidade do New York Herald Tribune, um dos postos legendários do jornalismo – em outras palavras, descera na escala organizacional -, só para participar desse jogo secreto.

Todo mundo conhece uma forma de competição entre repórteres de jornal, a competição pelo furo jornalístico. Repórteres de furos competiam com suas contrapartidas em outros jornais, ou nas agências de notícias, para ver quem conseguia primeiro uma matéria e escrevia mais depressa; quanto mais importante a matéria — isto é, quanto mais ela tivesse a ver com o poder ou com catástrofes —, melhor. Em resumo, eles se ocupavam da questão principal do jornal. Mas havia também aquela outra turma de repórteres… Esses tendiam a ser conhecidos como “repórteres especiais”. O que todos tinham em comum era que consideravam o jornal um motel onde você se hospedava para passar a noite a caminho do triunfo final. A idéia era conseguir emprego num jornal, conservar inteiros o corpo e a alma, pagar o aluguel, conhecer “o mundo”, acumular “experiência”, talvez eliminar um pouco da gordura do seu estilo – depois, em algum momento, demitir-se pura e simplesmente, dizer adeus ao jornalismo, mudar-se para uma cabana em algum lugar, trabalhar dia e noite durante seis meses, e iluminar o céu com o triunfo final. O triunfo final era conhecido como O Romance.

Isso era Algum Dia, entenda-se bem… Nesse meio-tempo, esses sonhadores lá estavam martelando, em todo lugar da América onde houvesse um jornal, competindo por uma minúscula coroa de que o resto do mundo nem tinha conhecimento: Melhor Repórter Especial da Cidade. “Reportagens especiais” era a expressão jornalística para uma matéria que escapava à categoria da notícia pura e simples. Abrangia tudo, desde pequenos fatos “divertidos”, engraçados, geralmente do movimento policial… Tinha aquela do sujeito de fora da cidade que se registrou num hotel em San Francisco a noite passada, querendo se suicidar, e se atirou da janela do quinto andar — despencou três metros e torceu o tornozelo. O que ele não sabia era que o hotel ficava numa encosta íngreme!… até “matérias de interesse humano”, relatos longos e quase sempre hediondamente sentimentais sobre almas até então desconhecidas colhidas pela tragédia ou sobre hobbies estranhos dentro da área de circulação da folha… Em todo caso, as reportagens especiais davam ao sujeito certo espaço para escrever.

Ao contrário do repórter de furos, o repórter especial não admitia abertamente a existência do concorrente, nem mesmo entre eles dois. Tampouco havia algum placar de contagem de pontos. E, no entanto, todo mundo no jogo sabia precisamente o que estava acontecendo, e passava pelos mais mortificantes ataques de inveja, até de ressentimento, ou por ataques de euforia, dependendo de como ia indo o jogo. Ninguém jamais admitia uma coisa dessas, e, no entanto, todo mundo sentia isso, quase todo dia. A arena do repórter especial era diferente da do repórter de furos também sob outro aspecto. Seu concorrente não trabalhava necessariamente para outra publicação. Podia-se muito bem competir com gente do próprio jornal, o que queria dizer que era ainda menos provável que se falasse a respeito.

Herald Tribune era como a principal arena de Tijuana para repórteres especiais… Portis, Breslin, Schaap… Schaap e Breslin tinham colunas, o que lhes dava maior liberdade, mas eu achei que conseguiria tirar as duas coisas deles. Era preciso ser valente. No Times, havia Gay Talese e Robert Lipsyte. No Daily News, Michael Mok. (Existiam outros concorrentes também, em todos os jornais, inclusive no Herald Tribune. Só menciono agora aqueles de que me lembro melhor.) Mok, eu já tinha enfrentado antes, quando trabalhava no Washington Post e ele no Washington Star. Mok era um concorrente duro, porque estava disposto a arriscar a pele por uma boa matéria com a mesma louca coragem que depois demonstrou cobrindo a Guerra do Vietnã e a guerra árabe-israelita para a Life. Mok fazia coisas… do além. Por exemplo, o News manda Mok e um fotógrafo fazer uma matéria sobre um gordo que tentava perder peso isolado num veleiro ancorado no estreito de Long Island (“Sou daquele tipo que passa em frente a uma doceira, respira fundo e engorda cinco quilos”). O barco a motor que eles alugaram quebra a pouco mais de um quilômetro do veleiro do gordo, faltando quatro ou cinco minutos para se esgotar o prazo. O mês é março, mas Mok mergulha e começa a nadar. A temperatura da água está em torno de cinco graus. Ele nada até ficar meio morto, e o gordo tem de pescá-lo com um remo. Então, Mok consegue a matéria. Cumpre o prazo. No News aparecem fotos de Mok nadando furiosamente no estreito de Long Island para obter a saga do regime desse grande bolha para 2 milhões de leitores. Se, em vez disso, ele tivesse se afogado, tivesse se acabado junto com as ostras naquele muco hepatítico do estreito, ninguém teria mandado gravar uma placa para ele. Os editores guardam suas lágrimas para os correspondentes de guerra. Quanto aos repórteres especiais — quanto menos se falar deles, melhor. (Outro dia mesmo vi um dos chefões do New York Times reagir com perplexidade aos elogios superlativos feitos a um dos escritores mais populares de seu jornal, Israel Shenker, da seguinte forma: “Mas ele é um repórter especial!”.) Não, se Mok tivesse comprado uma fazenda de ostras naquela tarde, não teria merecido nem o prêmio mais discreto do jornalismo, que é o meio minuto de silêncio do jantar do Overseas Press Club. Ainda assim, ele mergulhou no estreito de Long Island em março! Chegava a esse ponto a furiosa competição dentro da nossa estranha e minúscula caverna!

Comentários (1)

  • Gustavo Brigatti diz: 13 de março de 2009

    Cá entre nós, acredito cada vez menos nesse negócio de jornalismo literário. Pra mim, é desculpa pra nariz de cera e texto ruim.

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